{"id":10978,"date":"2012-11-27T08:33:38","date_gmt":"2012-11-27T08:33:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10978"},"modified":"2012-11-27T08:33:38","modified_gmt":"2012-11-27T08:33:38","slug":"o-povo-guarani-sofre-pelo-subsolo-de-sua-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/america-latina\/o-povo-guarani-sofre-pelo-subsolo-de-sua-terra\/","title":{"rendered":"O povo guarani sofre pelo subsolo de sua terra"},"content":{"rendered":"<p>Camiri, Bol&iacute;via, 27\/11\/2012 &ndash; O povo guarani, que sente pertencer &agrave; terra e n&atilde;o o contr&aacute;rio, vive na Bol&iacute;via em permanente emerg&ecirc;ncia desde que no subsolo de seu habitat foram descobertos hidrocarbonos, cuja explora&ccedil;&atilde;o prejudica suas comunidades e cujos benef&iacute;cios as marginaliza. <!--more--> Com mobiliza&ccedil;&otilde;es, bloqueios de estradas ou de campos petroleiros, e participa&ccedil;&atilde;o em pequenas ou grandes marchas, os guaranis buscam ser ouvidos pelo governo de Evo Morales, pelas autoridades dos departamentos do sul do pa&iacute;s onde est&atilde;o assentados, e pela estatal Yacimientos Petrol&iacute;feros Fiscales Bolivianos (YPFB).<\/p>\n<p>Desde 19 de outubro, moradores de comunidades rurais guaranis pr&oacute;ximas realizam um bloqueio do campo explorat&oacute;rio de Caigua, sul do departamento de Tarija, exigindo que sejam consultados e considerados sobre os tra&ccedil;ados de estradas e outras infraestruturas vinculadas a este empreendimento. Um m&ecirc;s antes, moradores guaranis bloquearam por v&aacute;rios dias uma importante estrada internacional que une este pa&iacute;s &agrave; Argentina, no vizinho departamento de Chuquisaca, em um protesto das 27 capitanias guaranis pela desaten&ccedil;&atilde;o por suas demandas e pelo descumprimento de promessas sobre o desenvolvimento do Chaco boliviano, onde vivem.<\/p>\n<p>&quot;Apostamos sempre pelo di&aacute;logo, mas este tipo de a&ccedil;&atilde;o &eacute; o &uacute;nico recurso que temos para que respondam &agrave;s nossas demandas quando o di&aacute;logo fracassa&quot;, disse &agrave; IPS o presidente da Assembleia do Povo Guarani (APG), Faustino Flores. Cesar Aguilar, presidente do Conselho de Capitanias Guaranis de Tarija, explicou que os trabalhos de explora&ccedil;&atilde;o em Caigua j&aacute; contaminaram uma represa que fornece &aacute;gua para as comunidades vizinhas, enquanto as estradas que s&atilde;o abertas invadem terras agr&iacute;colas de 400 fam&iacute;lias da &aacute;rea.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m em setembro foi bloqueada a constru&ccedil;&atilde;o de uma unidade separadora de l&iacute;quidos associados ao g&aacute;s natural, em uma &aacute;rea que &eacute; Terra Comunit&aacute;ria de Origem, uma figura jur&iacute;dica que concede a propriedade coletiva a um povo ind&iacute;gena sobre um territ&oacute;rio e impede ali qualquer atividade sem seu consentimento. Jorge Mendoza, presidente da APG de Yacuiba, na prov&iacute;ncia do Gran Chaco, em Tarija, onde se constr&oacute;i essa unidade, explicou que mais de 17 comunidades guaranis foram afetadas.<\/p>\n<p>Mobiliza&ccedil;&otilde;es como estas no Chaco boliviano buscam denunciar que a YPFB, suas subsidi&aacute;rias, concession&aacute;rias e terceirizados descumprem as leis nacionais e internacionais que obrigam &agrave; consulta e ao apoio ind&iacute;gena nos projetos em seu habitat. Os l&iacute;deres citam especialmente duas: a &quot;Constitui&ccedil;&atilde;o de 2009 que declara a Bol&iacute;via um Estado plurinacional e o Conv&ecirc;nio 169 da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho, que protege os direitos dos povos ind&iacute;genas e fixa a obrigatoriedade de consulta pr&eacute;via sobre atividades em seu territ&oacute;rio&quot;.<\/p>\n<p>As empresas sempre afirmam contar com as permiss&otilde;es legais e ambientais para seus trabalhos, mas os l&iacute;deres guaranis destacam que este aval de &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos locais ou nacionais n&atilde;o incluem as obriga&ccedil;&otilde;es com as comunidades do Chaco, onde fica a maior prov&iacute;ncia petrol&iacute;fera do pa&iacute;s. O Chaco boliviano, repartido pelos departamentos de Chuquisaca, Santa Cruz e Tarija, integra a regi&atilde;o do Grande Chaco Sul-Americano, que inclui partes da Argentina e do Paraguai. Seus 127.775 quil&ocirc;metros representam 15% dessa regi&atilde;o, onde fica a maior floresta xerof&iacute;tica (de clima seco) do mundo.<\/p>\n<p>No Chaco boliviano vivem apenas cerca de 300 mil habitantes, em 16 munic&iacute;pios. Deles, aproximadamente 84 mil s&atilde;o ind&iacute;genas, quase todos guaranis e o restante weenhayeks e tapietes, dos quais 75% vivem na pobreza, segundo indicadores oficiais. Flores explicou que os guaranis compreenderam pouco a pouco que sua sobreviv&ecirc;ncia dependia de saberem se organizar e se fortalecer como povo e da&iacute; nasceu, em 1987, a APG, cujos dirigentes s&atilde;o eleitos a cada dois anos. Flores, de apenas 29 anos, &eacute; um exemplo da nova lideran&ccedil;a surgida gra&ccedil;as &agrave; auto-organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Com a APG, os guaranis reivindicam deixar de serem marginalizados na tomada de decis&otilde;es que os afetam, como sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, moradia, servi&ccedil;os b&aacute;sicos e tamb&eacute;m o tipo de desenvolvimento em seu territ&oacute;rio ancestral. Ele recordou que o analfabetismo e o fato de os guaranis sentirem que pertencem &agrave; terra onde vivem, e n&atilde;o esta a eles, facilitaram que at&eacute; h&aacute; pouco tempo fossem usados em trabalho escravo ou semiescravo na agricultura, recebendo como pagamento apenas comida e roupa, por fazendeiros crioulos (n&atilde;o ind&iacute;genas).<\/p>\n<p>Flores tamb&eacute;m afirmou que a nacionaliza&ccedil;&atilde;o de hidrocarbonos, pela qual a YPFB retomou o controle acion&aacute;rio de todas as atividades petroleiras, estabelecida por Evo Morales em 2006, ano em que iniciou seu primeiro mandato, se transformou de esperan&ccedil;a em decep&ccedil;&atilde;o para sua na&ccedil;&atilde;o. &quot;A nacionaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o trouxe nenhum benef&iacute;cio e estou certo de que v&aacute;rias comunidades continuam sendo iluminadas por velas, lampi&otilde;es e fogueira&quot;, enfatizou. &quot;No processo de mudan&ccedil;a, nada mudou, quando muito o nome, e meu povo continua enfrentando pobreza e recebendo problemas&quot;, apesar de ser o origin&aacute;rio da grande prov&iacute;ncia petrol&iacute;fera boliviana, cuja capital informal &eacute; Camiri, de 70 mil habitantes, no departamento de Santa Cruz.<\/p>\n<p>Para mudar essa realidade, a APG lutou para conseguir que 5% do lucro com hidrocarbonos fosse destinado a um Fundo de Desenvolvimento Ind&iacute;gena (FDI), que possui iniciativas como a chamada &quot;renda dignidade&quot;, um b&ocirc;nus para os idosos. Flores destacou que o governo ouviu suas demandas e diversos ministros se reuniram com as autoridades guaranis, mas estas iniciativas n&atilde;o se traduzem em solu&ccedil;&otilde;es reais para os problemas, o que &quot;nos for&ccedil;a a atos de press&atilde;o para obter respostas&quot;.<\/p>\n<p>O l&iacute;der guarani deu outro exemplo dos problemas que enfrentam pelo fato de os recursos do FDI estarem centralizados em La Paz, sua distribui&ccedil;&atilde;o ser muito desigual entre os 36 grupos etnolingu&iacute;sticos bolivianos, e tamb&eacute;m de que boa parte fique nas m&atilde;os de colonizadores e camponeses n&atilde;o ind&iacute;genas. Pelos seu c&aacute;lculo, apenas 11% dos recursos do fundo chegam aos povos das terras baixas, entre as quais o Chaco, e apenas 1% aos guaranis.<\/p>\n<p>Outro problema &eacute; ambiental. &quot;Os trabalhadores das empresas petroleiras danificaram o ecossistema, as &aacute;guas dos rios, os riachos agora contaminados, a flora e a fauna, e por tudo isto o povo est&aacute; sofrendo&quot;, contou Flores. &quot;O governo fala de consulta e &eacute; o primeiro a violar este direito, como acontece com a unidade separadora em Yacuiba. O povo n&atilde;o est&aacute; contra a atividade, mas exige ser consultado como dono do territ&oacute;rio&quot;, ressaltou. O governo tamb&eacute;m descumpriu as promessas de compensar com terras p&uacute;blicas as terras comunit&aacute;rias afetadas e com melhoria do saneamento.<\/p>\n<p>Segundo Flores, &quot;o Estado deve garantir o servi&ccedil;o de &aacute;gua assim com retira hidrocarbono atrav&eacute;s de tubula&ccedil;&otilde;es, deveria fornecer dessa forma &aacute;gua &agrave; popula&ccedil;&atilde;o&quot;. Flores, nascido em uma pequena comunidade, onde estudou at&eacute; o segundo grau antes de ganhar uma bolsa para formar-se em direitos ind&iacute;genas no Equador, destacou que &quot;os guaranis n&atilde;o pedem favores, mas que se cumpra a obriga&ccedil;&atilde;o e a justi&ccedil;a de participarem dos benef&iacute;cios que nossa terra d&aacute;&quot;. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camiri, Bol&iacute;via, 27\/11\/2012 &ndash; O povo guarani, que sente pertencer &agrave; terra e n&atilde;o o contr&aacute;rio, vive na Bol&iacute;via em permanente emerg&ecirc;ncia desde que no subsolo de seu habitat foram descobertos hidrocarbonos, cuja explora&ccedil;&atilde;o prejudica suas comunidades e cujos benef&iacute;cios as marginaliza. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/america-latina\/o-povo-guarani-sofre-pelo-subsolo-de-sua-terra\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1450,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,6,10],"tags":[],"class_list":["post-10978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-energia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1450"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10978"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10978\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}