{"id":10985,"date":"2012-11-27T08:49:10","date_gmt":"2012-11-27T08:49:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10985"},"modified":"2012-11-27T08:49:10","modified_gmt":"2012-11-27T08:49:10","slug":"em-angola-a-guerra-une-e-pacifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/em-angola-a-guerra-une-e-pacifica\/","title":{"rendered":"&quot;Em Angola, a guerra une e pacifica&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Luanda, Angola, 27\/11\/2012 &ndash; &Eacute; surpreendente a tranquilidade com que Angola se dedica &agrave; acelerada restaura&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de sua infraestrutura, uma d&eacute;cada depois do fim da guerra civil que durou 27 anos, sem grandes sequelas de grupos armados, ajustes de contas ou viol&ecirc;ncia &eacute;tnica.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_10985\" style=\"width: 146px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/2011122.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10985\" class=\"size-medium wp-image-10985\" title=\"Pepetela acredita que Angola cumpriu metade das ambi&ccedil;&otilde;es da guerra anticolonial. - CC BY-SA 2.5\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/2011122.jpg\" alt=\"Pepetela acredita que Angola cumpriu metade das ambi&ccedil;&otilde;es da guerra anticolonial. - CC BY-SA 2.5\" width=\"136\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10985\" class=\"wp-caption-text\">Pepetela acredita que Angola cumpriu metade das ambi&ccedil;&otilde;es da guerra anticolonial. - CC BY-SA 2.5<\/p><\/div>  Para analisar as chaves deste processo, o correspondente da IPS no Brasil, Mario Osava, entrevistou o escritor Pepetela, nome de guerra de Artur Carlos Maur&iacute;cio Pestana dos Santos.<\/p>\n<p>Militante do governante Movimento Popular para a Liberta&ccedil;&atilde;o de Angola (MPLA), guerrilheiro da luta pela independ&ecirc;ncia, vice-ministro da Educa&ccedil;&atilde;o nos primeiros sete anos do governo angolano, e professor de sociologia, converteu-se em um dos principais escritores deste pa&iacute;s, reconhecido em 1997 com o pr&ecirc;mio Cam&otilde;es, o mais importante da l&iacute;ngua portuguesa.<\/p>\n<p>Suas 19 novelas e duas pe&ccedil;as teatrais tra&ccedil;am um panorama hist&oacute;rico de Angola, narram a luta contra o dom&iacute;nio colonial portugu&ecirc;s e, ultimamente, seu desencanto pelos rumos do pa&iacute;s, um &quot;capitalismo selvagem&quot; que sepultou os ideais socialistas de sua &quot;gera&ccedil;&atilde;o da utopia&quot;, t&iacute;tulo de um de seus livros de fic&ccedil;&atilde;o, publicado em 1992.<\/p>\n<p>Pepetela, por&eacute;m, acredita que os objetivos daquela gera&ccedil;&atilde;o foram cumpridos em 50% e at&eacute; concede que tenha chegado aos 55%, ao reconhecer conquistas estampadas na Constitui&ccedil;&atilde;o e nas leis, como igualdade de remunera&ccedil;&atilde;o para homens e mulheres e o m&iacute;nimo de 40% de representa&ccedil;&atilde;o feminina no parlamento.<\/p>\n<p>IPS: &Eacute; admir&aacute;vel que a paz tenha se consolidado em t&atilde;o pouco tempo, sem as sequelas previs&iacute;veis de uma guerra t&atilde;o longa, como o vandalismo e os focos de viol&ecirc;ncia. Como explica essa transi&ccedil;&atilde;o? Que papel tiveram nela o presidente Jos&eacute; Eduardo dos Santos e o MPLA?<\/p>\n<p>PEPETELA: &Eacute; dif&iacute;cil explicar, mas um fator importante foi o cansa&ccedil;o. As pessoas estavam fartas de guerra e viol&ecirc;ncia. Os fatos n&atilde;o foram esquecidos; de vez em quando h&aacute; alguma discuss&atilde;o acalorada e os do MPLA erram e proclamam que eles ganharam a guerra (a outra parte n&atilde;o pode dizer o mesmo). Mas s&atilde;o momentos de descontrole sem consequ&ecirc;ncias. Jos&eacute; Eduardo teve o bom senso de declarar que n&atilde;o havia vencedores nem vencidos. Isto foi importante. E tentou sempre praticar uma pol&iacute;tica de integra&ccedil;&atilde;o, sobretudo nas For&ccedil;as Armadas. Apesar de seus defeitos, isso ningu&eacute;m pode negar. Tamb&eacute;m havia uma grande capacidade dos angolanos de se solidarizar e sustentar o sentido de comunidade, algo mais dif&iacute;cil de analisar e mais subjetivo.<\/p>\n<p>IPS: Me surpreendeu a interpreta&ccedil;&atilde;o de que a guerra contribuiu para a unidade nacional. O conflito teve essa capacidade de unir os angolanos e superar as divis&otilde;es &eacute;tnicas?<\/p>\n<p>P: Foi um elemento importante para refor&ccedil;ar a ideia de na&ccedil;&atilde;o, algo abstrato, principalmente para os camponeses. Os dois ex&eacute;rcitos recrutaram gente em todo o pa&iacute;s, misturou todos, obrigando-os a coabitarem e a criarem la&ccedil;os, e os levaram de um lado a outro. Muitos criaram suas fam&iacute;lias fora de suas regi&otilde;es de origem, com pessoas de outras etnias. Portanto, passaram a perceber que Angola &eacute; muito mais do que a aldeia em que haviam nascido. Quase todos aprenderam a falar e ler em portugu&ecirc;s, outro elemento importante de coes&atilde;o.<\/p>\n<p>IPS: Mas, o que restou do sonho socialista do MPLA, da luta anticolonial e dos primeiros anos de independ&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>P: Do sonho socialista, nada. Do programa do MPLA, h&aacute; um pa&iacute;s independente, que &agrave;s vezes tem um discurso social-democrata, tra&iacute;do na pr&aacute;tica diariamente.<\/p>\n<p>IPS: Como definir, ent&atilde;o, o sistema econ&ocirc;mico angolano? Capitalismo de Estado?<\/p>\n<p>P: Na terminologia antiga, sim. Prefiro chamar de capitalismo selvagem em fase de regula&ccedil;&atilde;o, e, portanto, em vias de deixar de ser selvagem.<\/p>\n<p>IPS: Em que consistem esses 50% de objetivos de sua &quot;gera&ccedil;&atilde;o da utopia&quot; que considera cumpridos e quais n&atilde;o foram alcan&ccedil;ados?<\/p>\n<p>P: S&atilde;o os que mencionei: a independ&ecirc;ncia, a na&ccedil;&atilde;o e a paz. Falta o resto, uma sociedade mais justa, mais humana.<\/p>\n<p>IPS: Como funciona a educa&ccedil;&atilde;o? Atende &agrave; enorme vontade de aprender que testemunhei no interior do pa&iacute;s?<\/p>\n<p>P: Cresceu em n&uacute;meros e deve continuar crescendo. Mas a qualidade &eacute; muito baixa, tanto que assusta. E em todos os n&iacute;veis. Tampouco est&aacute; adaptada para servir a uma pol&iacute;tica de desenvolvimento sustent&aacute;vel.<\/p>\n<p>IPS: V&aacute;rias pessoas com as quais conversei foram un&acirc;nimes em dizer que o deslocamento de jovens para a capital se deve ao fato de buscarem melhor ensino secund&aacute;rio e universit&aacute;rio. As escolas do interior n&atilde;o poderiam pelo menos manter os jovens nas prov&iacute;ncias?<\/p>\n<p>P: Foram constru&iacute;das muitas escolas e col&eacute;gios secund&aacute;rios no interior, nas cidades pequenas. Mas s&oacute; isso n&atilde;o basta. Devem existir todas as demais estruturas para fazer com que os jovens n&atilde;o sonhem com a cidade grande.<\/p>\n<p>IPS: A presen&ccedil;a dominante do portugu&ecirc;s como l&iacute;ngua nacional, o papel da m&uacute;sica e da televis&atilde;o, atenuam as divis&otilde;es &eacute;tnicas?<\/p>\n<p>P: Na verdade, o portugu&ecirc;s se tornou dominante desde a independ&ecirc;ncia, com risco de causar o desaparecimento das l&iacute;nguas africanas, o que representa a perda de muitas ra&iacute;zes culturais e sociais. Falta harmonizar a necessidade de desenvolver o idioma da unidade e as culturas origin&aacute;rias. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, mas as tentativas n&atilde;o passaram do n&iacute;vel burocr&aacute;tico. A m&uacute;sica segue as tend&ecirc;ncias dos Estados Unidos, dos afro- americanos.<\/p>\n<p>IPS: E a literatura, o que surgiu de novo como express&atilde;o da identidade angolana?<\/p>\n<p>P: N&atilde;o me parece que haja uma grande renova&ccedil;&atilde;o na literatura. Prometeu mais do que cumpriu. Surgem poucos nomes com capacidade de perdurar. H&aacute; um problema, o p&eacute;ssimo conhecimento da l&iacute;ngua portuguesa escrita, que dificulta o surgimento de jovens talentos. Podem ter capacidade narrativa, mas se n&atilde;o dominam a l&iacute;ngua fica dif&iacute;cil expressarem seu talento natural.<\/p>\n<p>IPS: A literatura ter&aacute; em Angola a import&acirc;ncia que teve na forma&ccedil;&atilde;o de identidades de na&ccedil;&otilde;es mais &quot;velhas&quot;, como Portugal ou Brasil, ou ser&aacute; sufocada pelos meios audiovisuais?<\/p>\n<p>P: No come&ccedil;o, a literatura teve um grande prest&iacute;gio, e os escritores sempre eram consultados pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o diante de qualquer fato, uma esp&eacute;cie de &quot;m&eacute;dicos da alma&quot;. Mas, deixaram de s&ecirc;-lo. Hoje tem muito mais audi&ecirc;ncia quem aparece na televis&atilde;o, ainda que para apresentar um programa sobre o amor entre os hipop&oacute;tamos.<\/p>\n<p>IPS: Alguns de seus livros das duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas (A gera&ccedil;&atilde;o da utopia, Jaime Bunda, Os predadores) mostram uma profunda decep&ccedil;&atilde;o com os rumos pol&iacute;ticos de Angola, com a corrup&ccedil;&atilde;o e o abandono dos valores da luta de liberta&ccedil;&atilde;o. Mas a na&ccedil;&atilde;o que est&aacute; sendo constru&iacute;da atualmente ainda vale a pena?<\/p>\n<p>P: Sempre h&aacute; aspectos positivos: o fato de ter um regime que, apesar de seus erros, &eacute; orgulhosamente independente; esta reconstru&ccedil;&atilde;o das vias de comunica&ccedil;&atilde;o, embora se baseie no petr&oacute;leo; o reassentamento das popula&ccedil;&otilde;es que estavam em acampamentos de refugiados e em pa&iacute;ses vizinhos; a paz que se alcan&ccedil;ou. Tudo isso, apesar das falhas e dos retrocessos, s&atilde;o sinais ineg&aacute;veis de que o pa&iacute;s tem pernas para andar. Devemos nos preocupar essencialmente com a forma&ccedil;&atilde;o dos jovens, com exig&ecirc;ncia. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luanda, Angola, 27\/11\/2012 &ndash; &Eacute; surpreendente a tranquilidade com que Angola se dedica &agrave; acelerada restaura&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de sua infraestrutura, uma d&eacute;cada depois do fim da guerra civil que durou 27 anos, sem grandes sequelas de grupos armados, ajustes de contas ou viol&ecirc;ncia &eacute;tnica. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/em-angola-a-guerra-une-e-pacifica\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,11],"tags":[],"class_list":["post-10985","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-direitos-humanos","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10985","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10985"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10985\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10985"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10985"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10985"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}