{"id":10999,"date":"2012-11-27T09:07:39","date_gmt":"2012-11-27T09:07:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10999"},"modified":"2012-11-27T09:07:39","modified_gmt":"2012-11-27T09:07:39","slug":"brasil-refresca-sua-memria-africana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/america-latina\/brasil-refresca-sua-memria-africana\/","title":{"rendered":"Brasil refresca sua mem&oacute;ria africana"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 27\/11\/2012 &ndash; O adivinho nigeriano dan&ccedil;a e canta junto com o sacerdote brasileiro em uma roda de candombl&eacute;, religi&atilde;o trazida ao Brasil pelos escravos africanos, que agora tenta resgatar em sua plenitude do esquecimento dos textos escolares, que tratam sobre a hist&oacute;ria e a cultura nacionais. <!--more--> Trata-se de Jokiotoy&eacute; Awolade Bankole, um pr&iacute;ncipe tribal de 55 anos de Onpetu-Ogbomos&oacute;, no Estado nigeriano de Oy&oacute;, cultor do If&aacute;, um sistema de adivinha&ccedil;&atilde;o do povo yorub&aacute;, declarado Patrim&ocirc;nio Cultural Imaterial da Humanidade, em 2005, pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura (Unesco).<\/p>\n<p>O sacerdote do candombl&eacute; Alexander Rocha da Silva, ou &quot;Alexander de Oxossi&quot;, orix&aacute; que recebe em seu terreiro, &eacute; um brasileiro branco, embora, como recorda &agrave; IPS, &quot;quem no Brasil pode dizer que n&atilde;o tem algo de &Aacute;frica em sua pele?&quot;. Este pa&iacute;s, onde mais de 50% de seus 194 milh&otilde;es de habitantes se reconhecem negros ou mulatos, optou por recordar sua hist&oacute;ria europeia, a &quot;conquista&quot; do reino de Portugal, e praticar a religi&atilde;o cat&oacute;lica.<\/p>\n<p>Pelo censo oficial de 2010, essa religi&atilde;o continua sendo majorit&aacute;ria, pois &eacute; professada por 64,6% da popula&ccedil;&atilde;o, seguida da evang&eacute;lica, especialmente a neopentecostal, com 22,2%.Muitos dos que se declaram abertamente seguidores dos cultos de origem africana como a umbanda e o candombl&eacute;, que representam 0,3% da popula&ccedil;&atilde;o, praticam seus ritos na penumbra. &quot;Ainda h&aacute; muita discrimina&ccedil;&atilde;o, especialmente quando algu&eacute;m afirma na escola ou na universidade que &eacute; de uma religi&atilde;o africana&quot;, conta Glaucia Bastos, iyanif&aacute; no culto do If&aacute;.<\/p>\n<p>Trazido pelos escravos africanos, o candombl&eacute; foi reprimido ao longo da hist&oacute;ria desde os tempos coloniais, &agrave;s vezes com maior dureza e por isso teve que se dissimular para sobreviver. &quot;O candombl&eacute; n&atilde;o sofreu tanta influencia do catolicismo como outras religi&otilde;es porque os negros continuaram cultuando seus orix&aacute;s (espiritualidades) escondendo-os debaixo de santos&quot;, explicou Alexander de Oxossi &agrave; IPS.<\/p>\n<p>A persegui&ccedil;&atilde;o das religi&otilde;es afro-brasileiras continuou abertamente at&eacute; depois da metade do s&eacute;culo 20, em particular por meio das chamadas &quot;delegacias de costumes&quot;. Glaucia, uma mulata filha de pai portugu&ecirc;s mas que se define africana &quot;pela &aacute;rvore geneal&oacute;gica de sua m&atilde;e&quot;, conta &agrave; IPS que, &quot;at&eacute; os 27 anos, era chamada na rua de macumbeira&quot;, palavra de origem africana usada de maneira pejorativa, equivalente a &quot;praticante de magia negra&quot;.<\/p>\n<p>Edna Teixeira de Ara&uacute;jo tamb&eacute;m recorda &agrave; IPS que, at&eacute; 1970, mais ou menos, o candombl&eacute; era praticado no fundo das casas de samba. &quot;Fazia-se uma roda de samba em frente para encobrir o candombl&eacute;&quot;, disse &agrave; IPS Edna, que, como outras participantes da festa em honra a Bankole, veste um traje de gala yorub&aacute;-nigeriano.<\/p>\n<p>Os tempos mudaram e a lei federal 7.716, que estabelece que a intoler&acirc;ncia religiosa &eacute; racismo, n&atilde;o permite mais essas demonstra&ccedil;&otilde;es abertas de preconceito. A isso somou-se, em 2007, a oficializa&ccedil;&atilde;o do Dia Nacional de Combate &agrave; Intoler&acirc;ncia Religiosa&quot;, comemorado todo 21 de janeiro em homenagem a M&atilde;e Gilda, uma sacerdotisa do candombl&eacute; da Bahia, que morreu em 2000 por complica&ccedil;&otilde;es card&iacute;acas devido &agrave;s persegui&ccedil;&otilde;es religiosas das quais foi v&iacute;tima por parte de igrejas neopentecostais.<\/p>\n<p>Apesar dos avan&ccedil;os, os seguidores das religi&otilde;es afro-brasileiras ainda se sentem perseguidos. &quot;At&eacute; hoje, qualquer problema que ocorre dizem que &eacute; por um mal feito no candombl&eacute; ou na umbanda&quot;, conta Edna. Bankole, procedente de uma regi&atilde;o nigeriana dizimada pelo tr&aacute;fico negreiro h&aacute; pouco mais de um s&eacute;culo, viajou ao Brasil para ajudar a construir o respeito pela religi&atilde;o afro-brasileira.<\/p>\n<p>Com ajuda de um tradutor, Bankole explicou &agrave; IPS que, com a escravid&atilde;o, muitos africanos de diversas partes desse continente mesclaram ou perderam seus costumes no Brasil, entre outras a l&iacute;ngua tribal e o If&aacute;, que hoje tenta retransmitir. Esta foi a meta da confer&ecirc;ncia Mem&oacute;ria, Ancestralidade e Identidades no Contexto Africano, que ele proferiu, no dia 13, totalmente em yorub&aacute;, l&iacute;ngua falada por dez milh&otilde;es de pessoas na &Aacute;frica. A atividade foi promovida pela Coordena&ccedil;&atilde;o de Especialistas em Educa&ccedil;&atilde;o para as Rela&ccedil;&otilde;es &Eacute;tnico-Raciais, que capacita professores para a aplica&ccedil;&atilde;o da lei de 2010 que obriga a inclus&atilde;o de hist&oacute;ria da &Aacute;frica, de seus habitantes e da comunidade negra brasileira, em todos os n&iacute;veis do sistema p&uacute;blico e privado de ensino no Brasil.<\/p>\n<p>O pr&iacute;ncipe nigeriano &eacute; otimista ao comprovar em suas viagens que muitas outras formas da &quot;ancestralidade africana&quot; ainda persistem no Brasil e em outros pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina, entre elas o culto aos orix&aacute;s (espiritualidades do candombl&eacute;). &quot;E at&eacute; o carnaval brasileiro tem uma pegada da cultura africana&quot;, destaca, sorrindo, Bankole.<\/p>\n<p>Glaucia Bastos, que voltou a unir suas ra&iacute;zes &agrave;s da &Aacute;frica ao se casar com o nigeriano Ekundayo Olalekan Awe, tradutor de Bankole e de seu mesmo povo, volta &agrave; met&aacute;fora das &aacute;rvores para se referir ao fen&ocirc;meno da &quot;miscigena&ccedil;&atilde;o&quot; cultural e religiosa no Brasil. &quot;A &aacute;rvore &eacute; a mesma e cada um a plantou como quis&quot;, resumiu.<\/p>\n<p>Como uma &aacute;rvore de diferentes ra&iacute;zes, a xir&ecirc; (toque de tambores e c&acirc;ntico para os orix&aacute;s) se mescla no terreiro do sacerdote, ou dot&eacute;, Alexander de Oxossi, e nos sabores das comidas oferecidas aos orix&aacute;s, de Iya Rosana de Bessem, como o acaraj&eacute;. Os trajes &agrave; baiana se confundem na rodada do ritual com os alak&aacute; nigerianos, vestidos pelas mulheres brasileiras. &Eacute; um peda&ccedil;o da &Aacute;frica incrustado em terra brasileira e um peda&ccedil;o deste pa&iacute;s incrustado na &Aacute;frica, refrescando sua mem&oacute;ria, &agrave; sombra das &aacute;rvores. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 27\/11\/2012 &ndash; O adivinho nigeriano dan&ccedil;a e canta junto com o sacerdote brasileiro em uma roda de candombl&eacute;, religi&atilde;o trazida ao Brasil pelos escravos africanos, que agora tenta resgatar em sua plenitude do esquecimento dos textos escolares, que tratam sobre a hist&oacute;ria e a cultura nacionais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/america-latina\/brasil-refresca-sua-memria-africana\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[19],"class_list":["post-10999","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-arte-y-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10999"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10999\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}