{"id":11046,"date":"2012-12-05T02:00:59","date_gmt":"2012-12-05T02:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11046"},"modified":"2012-12-05T02:00:59","modified_gmt":"2012-12-05T02:00:59","slug":"a-inocncia-perdida-das-crianas-da-costa-do-marfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/12\/africa\/a-inocncia-perdida-das-crianas-da-costa-do-marfim\/","title":{"rendered":"A inoc&ecirc;ncia perdida das crian&ccedil;as da Costa do Marfim"},"content":{"rendered":"<p>ABIDJAN, 05\/12\/2012 &ndash; O grupo de crian&ccedil;as que brinca &agrave; sombra num p&aacute;tio em Abidjan, a capital econ&oacute;mica da Costa do Marfim, parece estar despreocupado. <!--more--> Mas quando o tubo de escape de um ve&iacute;culo expele gases ruidosamente elas tremem. Quando um soldado passa elas tremem. E ficam ansiosas quando um adulto desconhecido se aproxima delas. <\/p>\n<p> J&aacute; passou mais de um ano desde que esta na&ccedil;&atilde;o na &Aacute;frica Ocidental foi abalada por seis meses de viol&ecirc;ncia e terror quando o anterior Presidente Laurent Gbagbo recusou ceder o poder a Alassane Ouattara, que ganhou as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais em Novembro de 2010. Mas as crian&ccedil;as na Costa do Marfim ainda est&atilde;o a tentar recuperar do trauma psicol&oacute;gico e social que os dist&uacute;rbios lhes causaram. <\/p>\n<p>&quot;As crian&ccedil;as foram as principais v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia p&oacute;s-eleitoral. Muitas ouviram os tiros e bombardeamentos, viram pessoas a fugir, viram adultos com medo e testemunharam brutalidades, combates e assassinatos,&quot; explicou D&eacute;sir&eacute; Koukoui, director do Gabinete Cat&oacute;lico Internacional para as Crian&ccedil;as (BICE) em Abidjan, uma organiza&ccedil;&atilde;o que protege os direitos das crian&ccedil;as. <\/p>\n<p>As crian&ccedil;as aprenderam a recear pela pr&oacute;pria vida e a lidar com a morte de membros da fam&iacute;lia, fome e desalojamentos durante os confrontos violentos que ocorreram entre Dezembro de 2010 e Maio de 2011. Milhares ficaram separadas dos pais durante o caos. Muitas ficaram repentinamente sozinhas em Abidjan, obrigadas a dormir na rua, a mendigar, roubar, trabalhar ou vender o seu corpo para sobreviver. <\/p>\n<p>&quot;Estamos preocupados devido ao facto de, se n&atilde;o implementarmos rapidamente mecanismos para &#39;recompor&#39; a situa&ccedil;&atilde;o e socializar as crian&ccedil;as e as fam&iacute;lias, termos de enfrentar uma gera&ccedil;&atilde;o inteira de casos problem&aacute;ticos daqui a uns anos, com uma gera&ccedil;&atilde;o de jovens sem futuro,&quot; avisou Koukoui.<\/p>\n<p>A BICE abriu um lar seguro em Julho de 2011 para as crian&ccedil;as separadas depois da viol&ecirc;ncia ter diminu&iacute;do. At&eacute; essa altura, os dist&uacute;rbios tinham causado 3.000 mortes e pelo menos meio milh&atilde;o de deslocados. O pessoal desta organiza&ccedil;&atilde;o tenta reunir as crian&ccedil;as com as suas fam&iacute;lias, com o apoio da organiza&ccedil;&atilde;o Save the Children e o Fundo das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Inf&acirc;ncia (UNICEF).<\/p>\n<p>Segundo informa&ccedil;&otilde;es oficiais das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, s&oacute; em Abidjan, cidade com cinco milh&otilde;es de pessoas, pelo menos 3.700 crian&ccedil;as ficaram separadas dos pais durante a crise. Mas Koukoui acredita que &quot;o n&uacute;mero real &eacute; muito mais elevado, pelo menos 10 vezes mais elevado, porque nem conseguimos sequer localizar a maioria das crian&ccedil;as que se perderam.&quot; O progresso tem sido vagaroso, porque muitas vezes os pais tamb&eacute;m ficaram deslocados ou as crian&ccedil;as s&atilde;o demasiado pequenas ou est&atilde;o demasiado traumatizadas para se lembrarem dos nomes dos pais ou da sua aldeia. At&eacute; agora, a BICE s&oacute; conseguiu localizar as fam&iacute;lias de cerca de 250 rapazes e raparigas. &quot;Fazemos o nosso melhor para encontrar as fam&iacute;lias, colocar as crian&ccedil;as em escolas, proporcioanr aconselhamento psicol&oacute;gico e social e, se tudo falhar, coloc&aacute;-las em orfanatos e acolhimento familiar,&quot; explicou Koukoui.<\/p>\n<p>Uma delas foi a Judith*, de 12 anos, que chegou ao lar seguro h&aacute; cerca de tr&ecirc;s meses. Esta menina vivia com os tios em Yopougon, um dos bairros de Abidjan que foi dos mais afectados pela viol&ecirc;ncia p&oacute;s-eleitoral, e classificado como uma &aacute;rea pr&oacute;-Gbagbo.<\/p>\n<p>Os pais de Judith vivem numa pequena aldeia rural no norte do pa&iacute;s, Benju&eacute;, e tinham enviado a filha para a capital com a esperan&ccedil;a que ela tivesse acesso a uma educa&ccedil;&atilde;o melhor. Mas, em vez disso, os tios exploraram a rapariga, obrigando-a a trabalhar como empregada dom&eacute;stica. Quando as elei&ccedil;&otilde;es deram lugar &agrave; viol&ecirc;ncia, o tio de Judith, um apoiante de Gbagbo, fugiu de Abidjan, temendo pela sua seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&quot;Depois dele ter partido a minha situa&ccedil;&atilde;o piorou. Da janela podia ver as pessoas a serem mortas nas ruas. Tive muito medo. N&atilde;o tinha nada para comer e a minha tia descarregou o medo que tinha em mim. Batia-me muito,&quot; afirmou Judith, que eventualmente fugiu e chegou ao lar seguro com a cara cheia de contus&otilde;es e cortes que lhe v&atilde;o deixar cicatrizes para toda a vida.<\/p>\n<p>Segundo o pessoal do lar seguro, a rapariga tamb&eacute;m foi violada, embora ainda n&atilde;o seja claro quando &eacute; que o crime ocorreu e quem &eacute; o culpado.<\/p>\n<p>&quot;Infelizmente, &eacute; uma hist&oacute;rial habitual. Temos observado que em todo o pa&iacute;s aumentou a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, o alcoolismo e o abuso de crian&ccedil;as devido ao conflito,&quot; explicou Dali&eacute; Privary, director de programas do lar seguro.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s v&aacute;rias semanas, o pessoal do lar seguro eventualmente conseguiu localizar os pais de Judith, mas o processo de reunifica&ccedil;&atilde;o &eacute; complexo e demora tempo visto que as organiza&ccedil;&otilde;es de ajuda humanit&aacute;ria precisam de garantir que as crian&ccedil;as ser&atilde;o enviadas para um meio ambiente familar seguro e saud&aacute;vel.<\/p>\n<p>&quot;Aconselhamos tanto os pais como as crian&ccedil;as antes de os reunir, para dar &agrave; crian&ccedil;a o melhor futuro poss&iacute;vel,&quot; disse Monique Apie, directora do programa de protec&ccedil;&atilde;o da Save the Children. &quot;Queremos ter a certeza que os pais s&atilde;o sinceros no que diz respeito a terem os seus filhos de volta.&quot;<\/p>\n<p>De acordo com as estat&iacute;sticas da BICE, devido ao conflito, que causou igualmente trauma e desespero nos adultos, um em cada cinco pais mostra-se relutante em receber os filhos perdidos que regressam &agrave; fam&iacute;lia. &quot;Quando o conflito &eacute; violento, &eacute; uma quest&atilde;o de salve-se quem puder, mesmo dentro das fam&iacute;lias. &Eacute; chocante mas infelizmente esta &eacute; a realidade,&quot; afirmaouApie.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, muitos pais acreditam que n&atilde;o podem tomar conta dos seus filhos porque os elevados n&iacute;veis de pobreza que j&aacute; existiam &#8211; quase metade dos costa-marfinenses vivia abaixo do n&iacute;vel pobreza, classificado como 1.25 d&oacute;lares por dia &#8211; pioraram devido &agrave; perda de rendimentos em larga escala, j&aacute; que centenas de milhares de fam&iacute;lias foram obrigadas a fugir das suas casas &agrave; procura de seguran&ccedil;a. Em resultado, o processo de reunifica&ccedil;&atilde;o pode demorar meses, mesmo depois dos pais terem sido localizados.<\/p>\n<p>Al&eacute;m de apoiar o processo de reunifica&ccedil;&atilde;o familiar, a UNICEF est&aacute; a trabalhar no sentido de assegurar que raparigas e rapazes maltratados e abusados tenham acesso &agrave; justi&ccedil;a como crian&ccedil;as. &quot;Estamos a trabalhar com os departamentos de justi&ccedil;a e da pol&iacute;cia sobre quest&otilde;es que t&ecirc;m a ver com a protec&ccedil;&atilde;o infantil,&quot; indicou Christina de Bruin, vice-representante da UNICEF respons&aacute;vel pela Costa do Marfim. <\/p>\n<p>Neste momento, poucas crian&ccedil;as tiveram ainda a oportunidade de ter acesso ao sistema de justi&ccedil;a, o qual, juntamente com a pol&iacute;cia, ficou paralisado durante a viol&ecirc;ncia p&oacute;s-eleitoral, quando o ex&eacute;rcito da Costa do Marfim e as for&ccedil;as militares da oposi&ccedil;&atilde;o causaram o caos em todo o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&quot;O Presidente Ouattara e o seu governo indicaram agora que est&atilde;o preocupados com os direitos das crian&ccedil;as, mas vai demorar algum tempo antes de se implementarem nova decis&otilde;es pol&iacute;ticas,&quot; afirmou de Bruin. At&eacute; essa altura, milhares de crian&ccedil;as na Costa do Marfim v&atilde;o continuar numa situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>*Nome alterado para proteger a identidade da crian&ccedil;a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ABIDJAN, 05\/12\/2012 &ndash; O grupo de crian&ccedil;as que brinca &agrave; sombra num p&aacute;tio em Abidjan, a capital econ&oacute;mica da Costa do Marfim, parece estar despreocupado. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/12\/africa\/a-inocncia-perdida-das-crianas-da-costa-do-marfim\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":117,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11046","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/117"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11046\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}