{"id":11088,"date":"2012-12-11T10:17:06","date_gmt":"2012-12-11T10:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11088"},"modified":"2012-12-11T10:17:06","modified_gmt":"2012-12-11T10:17:06","slug":"uma-favela-com-a-marca-fatal-do-mundial-da-fifa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/12\/america-latina\/uma-favela-com-a-marca-fatal-do-mundial-da-fifa\/","title":{"rendered":"Uma favela com a marca fatal do Mundial da Fifa"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 11\/12\/2012 &ndash; Os moradores do Morro da Provid&ecirc;ncia, a favela mais antiga do Brasil, est&atilde;o divididos diante das obras para o Mundial de Futebol em 2014 e os Jogos Ol&iacute;mpicos em 2016. <!--more--> Uns se alegram pelas melhorias que implicar&atilde;o, mas outros alertam que ser&atilde;o derrubadas centenas de casas. As letras SMH, pintadas nas paredes de algumas casas desta comunidade superlotada do Rio de Janeiro, no come&ccedil;o foram um total enigma para os habitantes.<\/p>\n<p>Agora j&aacute; sabem muito bem o destino que aguarda todas as casas marcadas &quot;como gado&quot;. &quot;SMH significa Secretaria Municipal de Habita&ccedil;&atilde;o, o &oacute;rg&atilde;o que vai nos desalojar&quot;, resumiu &agrave; IPS a moradora Jailce Felix dos Santos. &quot;&Eacute; deprimente. Muitos ficaram doentes. Chegar em sua casa e ver isso e saber que &eacute; uma marca de remo&ccedil;&atilde;o&quot;, contou Jailce, dona de uma das casas marcadas neste lugar considerado patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico da cidade.<\/p>\n<p>H&aacute; 832 casas marcadas e 140 j&aacute; demolidas, assegura o F&oacute;rum Comunit&aacute;rio do Porto, que re&uacute;ne na &aacute;rea portu&aacute;ria os afetados pelas obras vinculadas &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o da Copa do Mundo da Fifa em 2014 e dos Jogos Ol&iacute;mpicos em 2016. O governo municipal afirma que &eacute; um passo necess&aacute;rio para construir um telef&eacute;rico que atravessar&aacute; toda a favela e ter&aacute; conex&atilde;o com a esta&ccedil;&atilde;o Central do Brasil.<\/p>\n<p>Contudo, como a favela tem uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro, tamb&eacute;m ser&aacute; uma nova rota tur&iacute;stica. Al&eacute;m disso, est&aacute; em constru&ccedil;&atilde;o um plano inclinado &#8211; uma esp&eacute;cie de elevador para transportar moradores at&eacute; o ponto mais alto do morro &#8211; e h&aacute; obras como um centro para esportes, saneamento e melhoria de ruas, quase todas apenas caminhos de dif&iacute;cil tr&acirc;nsito.<\/p>\n<p>Com passo cansado depois de 45 anos trabalhando como estivador no porto, hoje tamb&eacute;m em processo de &quot;revitaliza&ccedil;&atilde;o&quot;, Jorge Carvalho para em um patamar da escadaria empinada de quase 200 degraus que atualmente &eacute; o caminho obrigat&oacute;rio para subir na favela. &quot;J&aacute; me cansei de contar quantos degraus s&atilde;o. Agora com o telef&eacute;rico e o plano inclinado ser&aacute; como subir em um jato&quot;, contou entusiasmado.<\/p>\n<p>Outro morador, que prefere n&atilde;o ser identificado, disse n&atilde;o ter motivos para festejar, pois a casa onde vive h&aacute; mais de 40 anos, hoje abrigando sete pessoas, est&aacute; marcada com a fat&iacute;dica sigla. Ele a construiu tijolo por tijolo, e o dinheiro que a prefeitura oferece agora como indeniza&ccedil;&atilde;o &eacute; pouco, enquanto as moradias alternativas est&atilde;o muito distantes de seus locais de trabalho.<\/p>\n<p>Entretanto, o principal para este morador, que com orgulho nos leva a percorrer pontos hist&oacute;ricos da favela, &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o que sofrer&aacute; um lugar considerado parte de mem&oacute;ria urbana. O Morro da Provid&ecirc;ncia, cujos primeiros barracos come&ccedil;aram a ser erguidos no final do s&eacute;culo 19, &eacute; a primeira favela do Brasil. Localizada entre a Central do Brasil e a zona portu&aacute;ria, sua origem remete a uma das injusti&ccedil;as habitacionais da hist&oacute;ria da antiga capital do Brasil.<\/p>\n<p>O governo federal n&atilde;o cumpriu sua promessa de dar moradia aos soldados que voltavam da Guerra de Canudos (1896-1897). A palavra favela, que agora se estende a todos os bairros pobres e superlotados do Brasil, teria surgido ali com os soldados que a identificavam com o nome de um morro onde ocorreram batalhas no interior do Estado da Bahia, que levava o nome de uma planta do lugar.<\/p>\n<p>Alguns edif&iacute;cios como capelas e igrejas remetem a essa &eacute;poca. Constru&iacute;das com barro, &eacute; f&aacute;cil identificar as ru&iacute;nas das que foram as primeiras casas do Morro da Provid&ecirc;ncia, que tamb&eacute;m foi ber&ccedil;o de uma das primeiras escolas de samba. Jailce se desfez de um bar onde agora se houve a nova m&uacute;sica dos jovens das favelas, o funk, e abriu outro nas proximidades de uma esta&ccedil;&atilde;o do telef&eacute;rico, que batizou como Favela Point, antecipando-se &agrave; chegada de turistas estrangeiros.<\/p>\n<p>Nos s&eacute;culos 20 e 21, palco de novos &quot;soldados&quot; e &quot;batalhas&quot;, como as travadas pelos grupos do narcotr&aacute;fico e a pol&iacute;cia, o Morro da Provid&ecirc;ncia agora &eacute; parte do processo de pacifica&ccedil;&atilde;o das favelas com a instala&ccedil;&atilde;o das Unidades de Pol&iacute;cia Permanente (UPP). &quot;A comunidade da Provid&ecirc;ncia foi esquecida durante muito tempo e, depois que a UPP entrou, foi mais reconhecida e mudou muito&quot;, conta uma entusiasmada Jailce. &quot;Os tiroteios diminu&iacute;ram muito ultimamente e agora h&aacute; oportunidades de trabalho para a comunidade com as obras&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>No entanto, como mulher nascida e criada na favela, n&atilde;o deixa de reconhecer o lado &quot;triste&quot; da chegada do &quot;progresso&quot; e a transforma&ccedil;&atilde;o que sua comunidade sofrer&aacute;, n&atilde;o s&oacute; fisicamente. &quot;Est&atilde;o tirando a amizade, que agora est&aacute; mais longe&quot;, lamentou. Carolina Pacheco, empregada da Casa Amarela, um espa&ccedil;o cultural da comunidade, tamb&eacute;m teme a transfigura&ccedil;&atilde;o social da favela. Antecipa que com o telef&eacute;rico come&ccedil;ar&aacute; a subir &quot;todo tipo de pessoa e teremos que ter mais cuidado com as crian&ccedil;as porque pode entrar qualquer um e a maldade est&aacute; na cabe&ccedil;a de qualquer pessoa&quot;.<\/p>\n<p>Esse futuro, que assusta Carolina, contrasta com a vida comunit&aacute;ria onde at&eacute; agora &quot;havia seguran&ccedil;a porque por aqui n&atilde;o passava transporte, todo mundo conhecia todo mundo, todos cuidavam das crian&ccedil;as e quando chegava algum desconhecido sab&iacute;amos que era algu&eacute;m de fora&quot;, afirmou. No entanto, ela tamb&eacute;m comemora a &quot;transforma&ccedil;&atilde;o&quot;, afirmando que &quot;tem seu lado bom e ruim. O lado positivo &eacute; que com estas obras o desenvolvimento est&aacute; chegando&quot;.<\/p>\n<p>Apesar da alegria de alguns, ningu&eacute;m esconde a ang&uacute;stia pela sa&iacute;da dos que t&ecirc;m ou tiveram suas casas marcadas. &quot;Ter&atilde;o que ir de uma hora para outra depois de viverem aqui toda sua vida&quot;, contou Carolina. Em alguns casos a prefeitura argumenta que a medida &eacute; por motivos de seguran&ccedil;a, porque est&atilde;o em &aacute;rea de risco de deslizamento de terra.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, para Caroline Rodrigues da Silva, do F&oacute;rum Comunit&aacute;rio do Porto, &eacute; apenas mais um cap&iacute;tulo da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria que provocou um aumento de pre&ccedil;os sem fim nas vendas e alugu&eacute;is de propriedades. &quot;H&aacute; coisas fortes por tr&aacute;s. Uma &eacute; a viol&ecirc;ncia do Estado, legitimando que estas obras sejam implementadas. Exemplo disso s&atilde;o as UPPs, implantadas apenas nas favelas que est&atilde;o ao redor dos locais onde acontecer&atilde;o os grandes eventos esportivos. Esta &eacute; uma cidade &agrave; venda. &Eacute; um controle da popula&ccedil;&atilde;o para que aceite o que vier&quot;, disse Caroline &agrave; IPS.<\/p>\n<p>&quot;Por outro lado, &eacute; o uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico que por muitos anos foi esquecido. Agora, como os terrenos se valorizaram e houve reestrutura&ccedil;&atilde;o de toda a &aacute;rea, especula-se cada vez mais&quot;, explicou Caroline. Sabem disso especialmente os moradores do Morro da Provid&ecirc;ncia que por d&eacute;cadas viveram os efeitos do abandono do Estado e agora temem que, ap&oacute;s encerrados os megaeventos esportivos, sejam esquecidos novamente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 11\/12\/2012 &ndash; Os moradores do Morro da Provid&ecirc;ncia, a favela mais antiga do Brasil, est&atilde;o divididos diante das obras para o Mundial de Futebol em 2014 e os Jogos Ol&iacute;mpicos em 2016. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/12\/america-latina\/uma-favela-com-a-marca-fatal-do-mundial-da-fifa\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5,11],"tags":[27,21],"class_list":["post-11088","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-politica","tag-brasil","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11088","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11088"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11088\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11088"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11088"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}