{"id":11153,"date":"2012-12-27T05:49:43","date_gmt":"2012-12-27T05:49:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11153"},"modified":"2012-12-27T05:49:43","modified_gmt":"2012-12-27T05:49:43","slug":"reportagem-mapuches-lafkenches-ainda-resistem-a-projeto-de-pinochet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/12\/america-latina\/reportagem-mapuches-lafkenches-ainda-resistem-a-projeto-de-pinochet\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Mapuches lafkenches ainda resistem a projeto de Pinochet"},"content":{"rendered":"<p>PUERTO SAAVEDRA, Chile, 27\/12\/2012 &ndash; (Tierram&eacute;rica).- A Rota Costeira nada mais &eacute; do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito territ&oacute;rio do Chile, o mais perto poss&iacute;vel do Oceano Pac&iacute;fico.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11153\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/609_Foto2_Chile.JPG\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11153\" class=\"size-medium wp-image-11153\" title=\"Luis Aillap&aacute;n e sua mulher, Catalina Marileo, foram processados em 2002 por defenderem seu terreno - Marianela Jarroud\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/609_Foto2_Chile.JPG\" alt=\"Luis Aillap&aacute;n e sua mulher, Catalina Marileo, foram processados em 2002 por defenderem seu terreno - Marianela Jarroud\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11153\" class=\"wp-caption-text\">Luis Aillap&aacute;n e sua mulher, Catalina Marileo, foram processados em 2002 por defenderem seu terreno - Marianela Jarroud\/IPS<\/p><\/div>  Ind&iacute;genas mapuche da regi&atilde;o chilena de La Araucan&iacute;a lutam h&aacute; mais de duas d&eacute;cadas contra a constru&ccedil;&atilde;o da Rota Costeira, um megaprojeto concebido pela ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que traz consigo perdas arqueol&oacute;gicas e culturais. A Rota Costeira nada mais &eacute; do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito territ&oacute;rio do Chile, o mais perto poss&iacute;vel do Oceano Pac&iacute;fico. O tra&ccedil;ado total supera os 3.340 quil&ocirc;metros, e at&eacute; o momento j&aacute; s&atilde;o mais de 2.600 quil&ocirc;metros pavimentados.<\/p>\n<p>Este projeto vi&aacute;rio se converteu em um dos desafios centrais de v&aacute;rios governos que sempre encontraram oposi&ccedil;&atilde;o por parte de comunidades ind&iacute;genas. Em La Araucan&iacute;a, 674 quil&ocirc;metros ao sul de Santiago, a Rota Costeira compreende 41,6 quil&ocirc;metros do trecho Puerto Saavedra-Tolt&eacute;n, justamente onde fica a &Aacute;rea de Desenvolvimento Ind&iacute;gena do Budi. As autoridades afirmam que a iniciativa integrar&aacute; &aacute;reas isoladas, reduzir&aacute; o tempo de viagem e potencializar&aacute; o desenvolvimento de novas &aacute;reas de atra&ccedil;&atilde;o tur&iacute;stica.<\/p>\n<p>Estudos da Universidade de La Frontera indicam que a &aacute;rea possui &quot;uma longa hist&oacute;ria cultural e um v&iacute;nculo claro com ela, comprovadas pelos testemunhos arqueol&oacute;gicos e pela reprodu&ccedil;&atilde;o cultural, com alta preval&ecirc;ncia de aspectos de identidade e cosmog&ocirc;nicos dentro da regi&atilde;o&quot;. Seus habitantes ancestrais s&atilde;o os mapuches lafkenches, palavra da l&iacute;ngua deste povo que significa &quot;gente do mar&quot; ou que vive na costa. Um deles &eacute; Leonardo Calfuneo, &quot;lonko&quot; (autoridade m&aacute;xima) da comunidade Konin Budi, de aproximadamente 60 fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>&quot;Nos opusemos a este megaprojeto porque para o povo mapuche n&atilde;o significa progresso e desenvolvimento, mas a destrui&ccedil;&atilde;o irrepar&aacute;vel de nossa cultura&quot;, afirmou ao Terram&eacute;rica. Calfuneo mora, com sua mulher, em uma pequena &aacute;rea onde fica uma acolhedora casa de madeira, na qual oferecem mate e sopaipillas (massa de farinha de trigo frita) aos visitantes. &quot;Vivemos da pequena agricultura, somos camponeses, somos um povo milenar e nossa vida foi sempre da terra&quot;, contou.<\/p>\n<p>Calfuneo enfrentou pessoalmente os avan&ccedil;os do projeto que n&atilde;o &eacute; executado por uma construtora, mas pelo Corpo Militar do Trabalho, vinculado ao ex&eacute;rcito. Em mar&ccedil;o, as m&aacute;quinas desse &oacute;rg&atilde;o militar realizaram trabalhos em suas terras sem autoriza&ccedil;&atilde;o, destruindo cercas vivas de plantas medicinais e um espa&ccedil;o sagrado para a comunidade. &quot;Aqui v&atilde;o destruindo para abrir os caminhos, e n&atilde;o se perde apenas as terras, mas tamb&eacute;m as plantas medicinais e as vertentes&quot;, protestou.<\/p>\n<p>Em sua comunidade, &quot;cada fam&iacute;lia conta com tr&ecirc;s, cinco ou dez hectares para viver&quot;, um espa&ccedil;o escasso considerando que h&aacute; apenas algumas d&eacute;cadas regia a propriedade comunit&aacute;ria no territ&oacute;rio mapuche. Pelo decreto-lei 2.568 de 1979, o regime do general Pinochet dividiu e titulou as terras mapuches. Muitas dessas &aacute;reas foram adquiridas por particulares, principalmente associados a empresas florestais, de energia e piscicultura.<\/p>\n<p>A estrada costeira criar&aacute; uma liga&ccedil;&atilde;o eficiente no litoral, potencializando o desenvolvimento econ&ocirc;mico da regi&atilde;o, afirmaram as autoridades locais. &quot;Trata-se de um projeto que j&aacute; tem bastante tempo e que queremos destravar logo&quot;, disse ao Terram&eacute;rica o intendente (governador) de La Araucan&iacute;a, Andr&eacute;s Molina. &quot;Por diferentes motivos, o projeto nos interessa muito, mas, na pr&aacute;tica, n&atilde;o conseguimos uma avalia&ccedil;&atilde;o em termos de rentabilidade social e econ&ocirc;mica com esses caminhos&quot;, admitiu.<\/p>\n<p>Embora tenha melhorado a qualidade dos caminhos, &quot;hoje em dia estamos trabalhando para obter um estudo de rentabilidade social para conseguir pensar em pavimentar. N&atilde;o poderemos fazer nada enquanto n&atilde;o tivermos internamente uma avalia&ccedil;&atilde;o social que nos permita investir como pa&iacute;s&quot;, explicou o intendente. Sua expectativa &eacute; &quot;fazer isso o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel e, oxal&aacute;, deixar iniciado o projeto no pr&oacute;ximo ano&quot;.<\/p>\n<p>Os prazos de Molina assustam Luis Aillap&aacute;n, &quot;gempin&quot; (dono da palavra) de Konin Budi. Para este homem dotado de conhecimentos sobre a cultura, espiritualidade e filosofia de seu povo, a constru&ccedil;&atilde;o da estrada &eacute; &quot;uma grande dor&quot;. Ele disse ao Terram&eacute;rica que &quot;estamos acostumados &agrave; natureza, a caminhar um pouco e ter acesso ao mar e pescar o que precisamos&quot;. Aillap&aacute;n possui planta&ccedil;&otilde;es e alguns animais. Sua fam&iacute;lia se alimenta do que a terra e o mar fornecem. De sua casa se v&ecirc; o Oceano Pac&iacute;fico, de um lado, pradarias verdes de outro e alguns montes que fazem parte da cordilheira da costa. E, aos p&eacute;s de suas terras, os militares trabalham e as m&aacute;quinas abrem caminho.<\/p>\n<p>&quot;Gente do nosso pr&oacute;prio povo nos deu as costas e &agrave; noite ouve-se disparos feitos para nos amedrontar&quot;, denunciou. Sua mulher, Catalina Marileo, e seu filho de quatro anos foram acusados, em 2002, de agredirem funcion&aacute;rios do Minist&eacute;rio de Obras P&uacute;blicas que realizavam estudos de viabilidade do projeto. Mais tarde, Aillap&aacute;n e sua mulher; sua cunhada, Margarita Marileo e seu marido, foram processados pela lei antiterrorista, herdada da ditadura e que hoje &eacute; aplicada quase exclusivamente ao povo mapuche em conflito.<\/p>\n<p>A comunidade de Saavedra, de 401 quil&ocirc;metros quadrados entre o Pac&iacute;fico e o lago salgado Budi, tinha 13.481 habitantes em 2009, segundo dados oficiais. Mais de 80% vivem em zonas rurais e 73,2% se declaram mapuches. Na &Aacute;rea de Desenvolvimento Ind&iacute;gena do Budi vivem 3.295 pessoas, que constituem 24,4% da popula&ccedil;&atilde;o da comunidade. E na ilha Huapi, localizada no lago, h&aacute; 43 comunidades habitadas por cinco mil mapuches. Um estudo da Universidade da Fronteira, encomendado pelo governo em 2001, mostra que 45,2% dos habitantes estavam a favor da Rota Costeira e 52,9% eram contra.<\/p>\n<p>A situa&ccedil;&atilde;o mudou quando o agora ex-prefeito de Saavedra, Ricardo Tripainao, percorreu as comunidades explicando os benef&iacute;cios da estrada, como pre&ccedil;o melhor a ser pago por seus produtos e os milh&otilde;es que o Estado lhes pagaria pela expropria&ccedil;&atilde;o de suas terras. O Terram&eacute;rica constatou que hoje muita gente est&aacute; descontente pelo fato de o Estado n&atilde;o realizar esses pagamentos e pelo aumento da extens&atilde;o dos terrenos a serem expropriados, que inicialmente era de 13 metros, mas que em muitos setores chega a 20 ou 25 metros.<\/p>\n<p>Entre os habitantes da cabeceira municipal de Puerto Saavedra, uma localidade urbana com atra&ccedil;&otilde;es tur&iacute;sticas, h&aacute; um sentimento favor&aacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; estrada, pois atrair&aacute; mais visitantes e reduzir&aacute; o isolamento. O acampamento dos militares que trabalham na obra fica em uma margem do Budi, &aacute;rea protegida por seu patrim&ocirc;nio cultural.<\/p>\n<p>O intendente Molina garante que &quot;est&aacute; contemplada&quot; a consulta &agrave;s comunidades, como estabelece o Conv&ecirc;nio 169 da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho, j&aacute; que &quot;a ideia &eacute; que o projeto seja participativo&quot;. Esse Conv&ecirc;nio, adotado em 1989 e que entrou em vigor no Chile em 2009, estabelece garantias para as comunidades origin&aacute;rias, especialmente a de serem ouvidas sobre atividades ou projetos em seus territ&oacute;rios. Por&eacute;m, o intendente adverte que &quot;n&atilde;o vamos consultar enquanto n&atilde;o tivermos o projeto com todas as aprova&ccedil;&otilde;es&quot;.<\/p>\n<p>*<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PUERTO SAAVEDRA, Chile, 27\/12\/2012 &ndash; (Tierram&eacute;rica).- A Rota Costeira nada mais &eacute; do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito territ&oacute;rio do Chile, o mais perto poss&iacute;vel do Oceano Pac&iacute;fico. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/12\/america-latina\/reportagem-mapuches-lafkenches-ainda-resistem-a-projeto-de-pinochet\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5],"tags":[21],"class_list":["post-11153","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11153"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11153\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}