{"id":1116,"date":"2005-10-18T00:00:00","date_gmt":"2005-10-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1116"},"modified":"2005-10-18T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-18T00:00:00","slug":"paquisto-caras-e-caretas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/paquisto-caras-e-caretas\/","title":{"rendered":"Paquist&atilde;o: Caras e caretas"},"content":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 18\/10\/2005 &ndash; Crist&oacute;v&atilde;o Colombo descobriu a Am&eacute;rica em 1492? Ou antes dele, os vikings a descobriram? E antes dos vikings? Os que ali viviam, n&atilde;o existiam? Conta a hist&oacute;ria oficial que Vasco N&uacute;&ntilde;ez de Balboa foi o primeiro homem que viu, de uma montanha do Panam&aacute;, os dois oceanos. Os que viviam ali eram cegos? Quem deu os primeiros nomes ao milho e &agrave; batata e ao tomate e ao chocolate e &agrave;s montanhas e aos rios da Am&eacute;rica? Hern&aacute;n Cort&eacute;s, Francisco Pizarro? Os que ali viviam eram mudos? Nos disseram, e continuam dizendo, que os peregrinos do Mayflower foram povoar a Am&eacute;rica. A Am&eacute;rica estava vazia?<br \/> <!--more--> <br \/> ***<\/p>\n<p> Como Colombo n&atilde;o entendia o que diziam, pensou que n&atilde;o sabiam falar. Como andavam nus, eram mansos e davam tudo em troca de nada, acreditou que n&atilde;o eram pessoas de raz&atilde;o. E como estava seguro de ter chegado ao Oriente pela porta dos fundos, acreditou que eram &iacute;ndios da &Iacute;ndia. Depois, durante sua segunda viagem, o almirante ditou uma ata estabelecendo que Cuba era parte da &Aacute;sia. <\/p>\n<p> O documento de 14 de junho de 1494 deixou constatado que os tripulantes de suas tr&ecirc;s naves assim o reconheciam; e quem dissesse o contr&aacute;rio receberia cem chibatadas, pagaria pena de 10 mil maravedis e teria a l&iacute;ngua cortada. O not&aacute;rio, Hern&aacute;n P&eacute;rez de Luna, deu f&eacute;. E abaixo assinaram os marinheiros que sabiam assinar.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> Os conquistadores exigiam que a Am&eacute;rica fosse o que n&atilde;o era. N&atilde;o viam o que viam, mas o que queriam ver: a fonte da juventude, a cidade do ouro, o reino das esmeraldas, o pa&iacute;s da canela. E retrataram os americanos tal como antes haviam imaginado como seriam os pag&atilde;os do Oriente. Crist&oacute;v&atilde;o Colombo viu nas costas de Cuba sereias com rostos de homem e penas de galo, e soube que n&atilde;o longe dali homens e mulheres tinham rabos.<\/p>\n<p> Na Guiana, segundo sir Walter Raleigh, havia gente com os olhos nos ombros e a boca no peito. Na Venezuela, segundo frei Pedro Simon, existiam &iacute;ndios de orelhas t&atilde;o grandes que chegavam a arrastar no ch&atilde;o. No rio Amazonas, segundo Crist&oacute;v&atilde;o de Acu&ntilde;a, os nativos tinham os p&eacute;s ao contr&aacute;rio, como o calcanhar na frente, e segundo Pedro Mart&iacute;n de Angler&iacute;a, as mulheres mutilavam um seio para melhor dispararem suas flechas. Angler&iacute;a, que escreveu a primeira hist&oacute;ria da Am&eacute;rica sem nuca ter estado l&aacute;, afirmou tamb&eacute;m que no Novo Mundo havia pessoas com rabo, como havia contado Colombo, e seus rabos eram t&atilde;o compridos que podiam sentar-se em buracos.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> O C&oacute;digo Negro proibia a tortura dos escravos nas col&ocirc;nias francesas. Mas n&atilde;o era por torturar, mas para educar, que os amos a&ccedil;oitavam seus negros e quando fugiam tinham os tend&otilde;es cortados. Eram comovedoras as Leis das &Iacute;ndias, que protegiam os &iacute;ndios nas col&ocirc;nias espanholas. Mas mais comovedoras eram o pelourinho e a forca encravadas no centro de cada Plaza Mayor.<\/p>\n<p> Era muito convincente a leitura do Requerimento, que &agrave;s v&eacute;speras do assalto de cada aldeia explicava aos &iacute;ndios que Deus veio ao mundo e que deixara em seu lugar S&atilde;o Pedro e que S&atilde;o Paulo tinha por sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre havia concedido &agrave; rainha de Castela toda esta terra e, por isso, deviam partir daqui ou pagar tributo em ouro e que em caso negativo ou demora, enfrentariam a guerra e seriam convertidos em escravos, bem como suas mulheres e seus filhos. Mas este Requerimento de Obedi&ecirc;ncia era lido na montanha, em plena noite, em l&iacute;ngua castelhana e sem int&eacute;rprete, na presen&ccedil;a do not&aacute;rio e de nenhum &iacute;ndio, porque os &iacute;ndios dormiam, a algumas l&eacute;guas de dist&acirc;ncia, e n&atilde;o tinham a menor id&eacute;ia do que estava para cair sobre eles.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> At&eacute; h&aacute; pouco tempo, 12 de outubro era o Dia da Ra&ccedil;a. Mas, por acaso, existe semelhante coisa? O que &eacute; a Ra&ccedil;a, al&eacute;m de uma maneira &uacute;til para exprimir ou exterminar o pr&oacute;ximo? No ano de 1942, quando os Estados Unidos entraram na guerra mundial, a Cruz Vermelha desse pa&iacute;s decidiu que o sangre negro n&atilde;o seria admitido em seus estoques. Assim, evitava-se que a mistura de ra&ccedil;as, proibida na cama, ocorresse por inje&ccedil;&atilde;o. Algu&eacute;m, alguma vez, viu sangue negro?<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> Depois, o Dia da Ra&ccedil;a passou a ser o Dia do Encontro. S&atilde;o encontros as invas&otilde;es coloniais? As leis de ontem, as de hoje, encontros? N&atilde;o seria melhor cham&aacute;-las de viola&ccedil;&otilde;es? Talvez o epis&oacute;dio mais revelador da hist&oacute;ria da Am&eacute;rica tenha ocorrido em 1563, no Chile. O fortim de Araco estava sitiado pelos &iacute;ndios, sem &aacute;gua nem comida, mas o capit&atilde;o Lorenzo Bernal negou-se a se render. De cima da pali&ccedil;ada gritou: <br \/> &#8211; N&oacute;s seremos em n&uacute;mero cada vez maior&quot;<br \/> &#8211; Com quais mulheres?, perguntou o chefe &iacute;ndio.<br \/> &#8211; Com as suas. Nos faremos filhos nelas que ser&atilde;o seus amos.<\/p>\n<p> ***<\/p>\n<p> Os invasores chamaram os antigos americanos de canibais, mas mais canibal era o Cerro Rico de Potos&iacute;, cujas bocas comiam carne de &iacute;ndios para alimentar o desenvolvimento capitalista da Europa. Eu os chamaria id&oacute;latras, porque acreditavam que a natureza &eacute; sagrada e que somos irm&atilde;os de tudo o que tem pernas, patas, asas ou ra&iacute;zes.<\/p>\n<p> E os chamaram selvagens. Nisso, ao menos, n&atilde;o se equivocaram. T&atilde;o brutos eram os &iacute;ndios que ignoravam que deviam exigir visto, certificado de boa conduta e permiss&atilde;o de trabalho a Colombo, Cabral, Cort&eacute;s, Alvarado, Pizarro e aos peregrinos do Mayflower.<\/p>\n<p> (*) Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da Am&eacute;rica Latina e Mem&oacute;rias do fogo.<\/p>\n<p> &quot;A Descoberta da Am&eacute;rica por Crist&oacute;v&atilde;o Colombo&quot; &#8211; Salvador Dali (1904-1989)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 18\/10\/2005 &ndash; Crist&oacute;v&atilde;o Colombo descobriu a Am&eacute;rica em 1492? Ou antes dele, os vikings a descobriram? E antes dos vikings? Os que ali viviam, n&atilde;o existiam? Conta a hist&oacute;ria oficial que Vasco N&uacute;&ntilde;ez de Balboa foi o primeiro homem que viu, de uma montanha do Panam&aacute;, os dois oceanos. Os que viviam ali eram cegos? 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