{"id":1122,"date":"2005-10-20T00:00:00","date_gmt":"2005-10-20T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1122"},"modified":"2005-10-20T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-20T00:00:00","slug":"ndia-paquisto-terremoto-amplificado-pela-inimizade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/ndia-paquisto-terremoto-amplificado-pela-inimizade\/","title":{"rendered":"&Iacute;ndia-Paquist&atilde;o: Terremoto amplificado pela inimizade"},"content":{"rendered":"<p>Nova D&eacute;lhi, 20\/10\/2005 &ndash; Enquanto aumenta a quantidade de v&iacute;timas do terremoto que sacudiu a Caxemira no &uacute;ltimo dia 8, a ajuda humanit&aacute;ria &eacute; ref&eacute;m de manobras diplom&aacute;ticas e c&aacute;lculos pol&iacute;ticos por parte da &Iacute;ndia e do Paquist&atilde;o. Em lugar de se concentrarem em ajudar mais eficazmente os sobreviventes dessa regi&atilde;o, repartida entre os dois pa&iacute;ses, ambos governos est&atilde;o desperdi&ccedil;ando uma preciosa oportunidade de coopera&ccedil;&atilde;o. Se tivessem coordenado as a&ccedil;&otilde;es de resgate nos primeiros dias posteriores &agrave; cat&aacute;strofe, mais de 10 mil pessoas teriam sido salvas, segundo socorristas. Por outro lado, o inverno j&aacute; chegou &agrave; essa isolada regi&atilde;o montanhosa, e o tempo est&aacute; acabando. Na cordilheira de Pir Panjal, que corre ao longo da Caxemira, j&aacute; come&ccedil;ou a nevar. Em apenas duas semanas, as &aacute;reas mais afetadas pelo terremoto ficar&atilde;o inacess&iacute;veis.<br \/> <!--more--> <br \/> A trag&eacute;dia que assolou a regi&atilde;o do Himalaia, principalmente do lado paquistan&ecirc;s, deixou evidentes as similitudes humanas e geogr&aacute;ficas de um e de outro lado da fronteira. Do ponto de vista log&iacute;stico, teria sido muito mais f&aacute;cil para o Paquist&atilde;o ter acesso &agrave;s zonas afetadas atrav&eacute;s do territ&oacute;rio da &Iacute;ndia. A Caxemira paquistanesa e a indiana est&atilde;o unidas por vales e passagens de montanha, e existe um grande n&uacute;mero de caminhos e passagens ao longo da chamada &quot;linha de controle&quot;, a fronteira provis&oacute;ria fixada em 1947 e que tem sido palco de m&uacute;ltiplos enfrentamentos entre os ex&eacute;rcitos dos dois pa&iacute;ses. Tanto a &Iacute;ndia quanto o Paquist&atilde;o reclamam a Caxemira para si e se atribuem o direito de falar em nome de seus habitantes.<\/p>\n<p> O terremoto lhes deu a oportunidade de demonstrar se esse interesse era genu&iacute;no, mas nem Nova D&eacute;lhi nem Islamabad souberam respeitar a l&oacute;gica geogr&aacute;fica e sucumbiram &agrave; din&acirc;mica de seu enfrentamento pol&iacute;tico. Ao final do dia 8 passado, a &Iacute;ndia prop&ocirc;s ao Paquist&atilde;o uma opera&ccedil;&atilde;o conjunta de resgate e tamb&eacute;m ofereceu utilizar seu territ&oacute;rio para o envio de ajuda humanit&aacute;ria. O Paquist&atilde;o se recusou, lembrando a exist&ecirc;ncia de &quot;sensibilidades&quot; sociais as quais era obrigado a respeitar. Quando a dimens&atilde;o da trag&eacute;dia ficou mais patente, o Paquist&atilde;o chegou a aceitar que um avi&atilde;o indiano com 25 toneladas de provis&otilde;es aterrissasse em Islamabad. Nessa ocasi&atilde;o, o presidente paquistan&ecirc;s, general Pervez Musharraf, agradeceu o gesto, mas teve o cuidado de acrescentar que somente aceitava &quot;certas formas&quot; de ajuda, e n&atilde;o outras.<\/p>\n<p> &quot;Isso n&atilde;o &eacute; mais do que um eufemismo do temor irracional de que aceitar a ajuda da &Iacute;ndia possa ser visto como sinal de fraqueza do Paquist&atilde;o&quot;, afirmou Achin Vanaik, professor de rela&ccedil;&otilde;es internacionais e pol&iacute;tica global da Universidade de Nova D&eacute;lhi. &quot;Esse ponto de vista se baseia em um falso sentido de orgulho nacional e coloca a imagem e o prest&iacute;gio do Paquist&atilde;o por cima da obriga&ccedil;&atilde;o de salvar as vidas dos cidad&atilde;os&quot;, acrescentou. Entretanto, o oferecimento da &Iacute;ndia tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; de todo altru&iacute;sta. Faz parte de uma nova ofensiva diplom&aacute;tica e de um esfor&ccedil;o cuidadosamente orquestrado para transformar a imagem de pa&iacute;s necessitado na de uma na&ccedil;&atilde;o que fornece ajuda a outros. No geral, a &Iacute;ndia &eacute; dos primeiros a oferecer ajuda humanit&aacute;ria quando ocorre alguma cat&aacute;strofe natural.<\/p>\n<p> Por ocasi&atilde;o do tsunami do oceano &Iacute;ndico em dezembro passado, Nova D&eacute;lhi enviou uma frota com provis&otilde;es para ajudar os pa&iacute;ses vizinhos, como Sri Lanka. &quot;De todo modo, o Paquist&atilde;o deveria ter aceito a ajuda oferecida&quot;, disse Vaniak. &quot;Todas essas contempla&ccedil;&otilde;es a respeito do orgulho deveriam ter sido deixadas de lado para se concentrar na ajuda aos seus pr&oacute;prios cidad&atilde;os que est&atilde;o m estado calamitoso&quot;, acrescentou. A &Iacute;ndia enviou tr&ecirc;s carregamentos de provis&otilde;es num total de 170 toneladas, incluindo 100 toneladas de biscoitos vitaminados. O restante da ajuda foi de medicamentos, tendas de campanha e cobertores. Mas, tudo isto foi objeto de negocia&ccedil;&otilde;es do mais alto n&iacute;vel.<\/p>\n<p> O Paquist&atilde;o solicitou &agrave; &Iacute;ndia que permitisse que seus helic&oacute;pteros voassem sobre a linha de controle, algo normalmente proibido, mesmo em tempos de paz, e a &Iacute;ndia aceitou. Entretanto, segundo um porta-voz do Minist&eacute;rio das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores, Nova D&eacute;lhi n&atilde;o deu ouvidos a um pedido de helic&oacute;pteros n&atilde;o tripulados. O Paquist&atilde;o foi o mais prejudicado pelo terremoto. Mais de 40 mil pessoas morreram, h&aacute; mais de 60 mil feridos e aproximadamente 3,3 milh&otilde;es de pessoas est&atilde;o sem teto. Na &Iacute;ndia, o n&uacute;mero de mortos &eacute; de 1.300. Al&eacute;m disso, segundo dados oficiais, cerca de 40 mil casas est&atilde;o totalmente destru&iacute;das e outras 75 mil muito danificadas. A destrui&ccedil;&atilde;o foi particularmente severa em Uri e Tangdhar na regi&atilde;o da Caxemira indiana.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, na Caxemira paquistanesa a destrui&ccedil;&atilde;o foi mais forte e extensa. Os dois pa&iacute;ses ter&atilde;o enormes dificuldades para levara &aacute;gua, alimentos, roupa e abrigos &agrave;s v&iacute;timas. O desafio maior ser&aacute; fornecer abrigo, ainda que provis&oacute;rio, a milh&otilde;es de pessoas que tiveram suas casas arrasadas. &quot;Esteve chovendo a c&acirc;ntaros toda a manh&atilde;, e duvido que algu&eacute;m tenha recebido ajuda&quot;, disse Sonia Jabbar, uma ativista social que no domingo voltava de Uri. &quot;Tivemos de voltar &agrave;s tr&ecirc;s da tarde. Est&aacute; frio e os abrigos de pl&aacute;stico e lat&atilde;o que alguns povoados receberam s&atilde;o ridiculamente inadequados para suportar as inclem&ecirc;ncias do tempo nesta regi&atilde;o&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p> Em Karnah, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; terr&iacute;vel, disse Jabbar. &quot;J&aacute; est&aacute; tudo nevado, e t&atilde;o logo comece o inverno ficar&aacute; isolado por cinco ou seis meses. O que tiver de ser feito deve ser feito j&aacute;, nas pr&oacute;ximas duas semanas e na velocidade de uma prepara&ccedil;&atilde;o de guerra&quot;, ressaltou a ativista. Segundo testemunhos, o aux&iacute;lio &agrave;s v&iacute;timas &eacute; insignificante se comparado com a dimens&atilde;o da trag&eacute;dia. Por seu lado, o governo indiano anunciou o envio de um pacote de ajuda humanit&aacute;ria de US$ 136 milh&otilde;es ao governo estadual de Jamu e da Caxemira, mas n&atilde;o parece haver sinais de que a ajuda chegar&aacute; &agrave;s v&iacute;timas a tempo. As autoridades estaduais lavaram as m&atilde;os quanto &agrave; sua responsabilidade de fornecer abrigo aos que ficaram &agrave; intemp&eacute;rie, e limitam-se a entregar a primeira cota de US$ 1 mil em dinheiro como ajuda para cada fam&iacute;lia que perdeu sua casa.<\/p>\n<p> O governo tamb&eacute;m tem a inten&ccedil;&atilde;o de fornecer barracas de campanha. &quot;Mas nossa experi&ecirc;ncia em montanhas nos ensinou que estas barracas n&atilde;o servem de nada neste clima&quot;, afirmou Duno Roy, do Instituto de Ci&ecirc;ncias do Povo, que trabalhou como volunt&aacute;rio por ocasi&atilde;o do terremoto em Uttarkashi, nas montanhas do Estado de Uttaranchal, em outubro de 1991. &quot;Seria melhor construir cabanas utilizando troncos e bambus existentes no local. Em Uttarkashi ensinamos &agrave;s comunidades locais a constru&iacute;rem elas mesmas esse tipo de abrigo, no qual as pessoas podem cozinhar e se manter aquecidas usando estufas de querosene e &agrave; lenha&quot;, explicou Roy.<\/p>\n<p> &quot;Segundo nossa experi&ecirc;ncia na &Aacute;sia Meridional, as opera&ccedil;&otilde;es de ajuda humanit&aacute;ria dar&atilde;o lugar a muitos casos de corrup&ccedil;&atilde;o&quot;, acrescentou o ativista. &quot;A &uacute;nica forma de evit&aacute;-los ou reduzi-los &eacute; as comunidades se envolverem diretamente no planejamento e execu&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&atilde;o de ajuda e reconstru&ccedil;&atilde;o&quot;, recomendou Roy. Por sua vez, Prema Gopalan, da Swayam Shikshan Prayog, uma organiza&ccedil;&atilde;o de volunt&aacute;rios de longa trajet&oacute;ria em miss&otilde;es humanit&aacute;rias, destacou que a participa&ccedil;&atilde;o das mulheres &eacute; chave. &quot;Somente elas conhecem as necessidades das crian&ccedil;as e dos velhos, bem como as necessidades sobre o que se precisa para cozinhar, o que se necessita para armazenar&quot;, afirmou a entidade.<\/p>\n<p> Por sua vez, os militares ganham notoriedade nas duas na&ccedil;&otilde;es. Os ex&eacute;rcitos controlam o acesso &agrave;s regi&otilde;es afetadas pelo terremoto, especialmente os locais de maior altitude, e atuam de acordo com seus pr&oacute;prios c&aacute;lculos. Na semana passada, o ex&eacute;rcito indiano afirmou que seus soldados ajudaram tropas paquistanesas a reconstru&iacute;rem abrigos danificados, mas o Paquist&atilde;o negou rapidamente essa informa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, os indianos modificaram suas declara&ccedil;&otilde;es afirmando que os soldados somente haviam emprestado alguns equipamentos aos paquistaneses do outro lado da fronteira.<\/p>\n<p> As for&ccedil;as armadas indianas v&ecirc;em algo positivo em tanta devasta&ccedil;&atilde;o: a destrui&ccedil;&atilde;o de bases, acampamentos de treinamento e centros de comunica&ccedil;&atilde;o de rebeldes caxemires separatistas em territ&oacute;rio paquistan&ecirc;s, de onde cruzam a Caxemira indiana. Nova D&eacute;lhi estima que o terremoto matou cerca de 700 combatentes de v&aacute;rios grupos, especialmente do Lashkar-e-Toiba e Jaish-e-Mohammed. Em meio a estes c&aacute;lculos mesquinhos, &eacute; duvidoso que chegue muita ajuda &agrave; popula&ccedil;&atilde;o da Caxemira, sobretudo do lado paquistan&ecirc;s, antes que o inverno comece a reinar e isole a regi&atilde;o. Um futuro terr&iacute;vel aguarda os sobreviventes. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova D&eacute;lhi, 20\/10\/2005 &ndash; Enquanto aumenta a quantidade de v&iacute;timas do terremoto que sacudiu a Caxemira no &uacute;ltimo dia 8, a ajuda humanit&aacute;ria &eacute; ref&eacute;m de manobras diplom&aacute;ticas e c&aacute;lculos pol&iacute;ticos por parte da &Iacute;ndia e do Paquist&atilde;o. Em lugar de se concentrarem em ajudar mais eficazmente os sobreviventes dessa regi&atilde;o, repartida entre os dois pa&iacute;ses, ambos governos est&atilde;o desperdi&ccedil;ando uma preciosa oportunidade de coopera&ccedil;&atilde;o. Se tivessem coordenado as a&ccedil;&otilde;es de resgate nos primeiros dias posteriores &agrave; cat&aacute;strofe, mais de 10 mil pessoas teriam sido salvas, segundo socorristas. Por outro lado, o inverno j&aacute; chegou &agrave; essa isolada regi&atilde;o montanhosa, e o tempo est&aacute; acabando. Na cordilheira de Pir Panjal, que corre ao longo da Caxemira, j&aacute; come&ccedil;ou a nevar. Em apenas duas semanas, as &aacute;reas mais afetadas pelo terremoto ficar&atilde;o inacess&iacute;veis.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/ndia-paquisto-terremoto-amplificado-pela-inimizade\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":827,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1122","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/827"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1122\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}