{"id":11242,"date":"2013-01-21T08:19:33","date_gmt":"2013-01-21T08:19:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11242"},"modified":"2013-01-21T08:19:33","modified_gmt":"2013-01-21T08:19:33","slug":"linchamentos-se-tornam-habituais-em-serra-leoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/01\/africa\/linchamentos-se-tornam-habituais-em-serra-leoa\/","title":{"rendered":"Linchamentos se tornam habituais em Serra Leoa"},"content":{"rendered":"<p>Freetown, Serra Leoa, 21\/01\/2013 &ndash; Em uma noite de n&eacute;voa e sem estrelas da capital de Serra Leoa, um adolescente corre desesperadamente pela rua antes de ser violentamente jogado ao solo por um transeunte. Imediatamente se espalha a not&iacute;cia de que foi pego um ladr&atilde;o e logo chegam homens de todos os lados.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11242\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/2101135.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11242\" class=\"size-medium wp-image-11242\" title=\"As ruas de Freetown s&atilde;o frequente cen&aacute;rio de linchamentos. - Tommy Trenchard\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/2101135.jpg\" alt=\"As ruas de Freetown s&atilde;o frequente cen&aacute;rio de linchamentos. - Tommy Trenchard\/IPS\" width=\"200\" height=\"134\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11242\" class=\"wp-caption-text\">As ruas de Freetown s&atilde;o frequente cen&aacute;rio de linchamentos. - Tommy Trenchard\/IPS<\/p><\/div>  Em um minuto a estreita rua se enche de gente e o rapaz, que afirma n&atilde;o ter roubado um telefone celular, como &eacute; acusado, recebe o primeiro de uma s&eacute;rie de golpes que continuar&atilde;o por cerca de 40 minutos.<\/p>\n<p>Os atacantes usam paus, tijolos e pedras. &quot;Vamos mat&aacute;-lo&quot;, diz um homem excitado, balan&ccedil;ando no ar um pesado peda&ccedil;o de pau e atingindo a cabe&ccedil;a do jovem, que sangra profundamente e tenta se proteger. Finalmente, desnudo e quase n&atilde;o conseguindo se manter em p&eacute;, o traumatizado adolescente &eacute; expulso do lugar pela multid&atilde;o e fica &agrave; merc&ecirc; de sua pr&oacute;pria sorte. &quot;Esse vai morrer durante a noite. &Eacute; um ladr&atilde;o, uma pessoa m&aacute;&quot;, afirma um homem.<\/p>\n<p>A justi&ccedil;a pelas pr&oacute;prias m&atilde;os est&aacute; aumentando neste pa&iacute;s da &Aacute;frica ocidental de quase seis milh&otilde;es de pessoas. O fen&ocirc;meno tem v&aacute;rios fatores, como a inefici&ecirc;ncia do sistema judicial, a propagada falta de confian&ccedil;a na pol&iacute;cia e o legado de grupos de autodefesa que operaram durante a longa guerra civil. Dez anos depois de encerrado o conflito interno, Serra Leoa &eacute; um pa&iacute;s pac&iacute;fico. As &uacute;ltimas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais se caracterizaram por maci&ccedil;as campanhas contra a viol&ecirc;ncia e aconteceram sem incidentes. Contudo, enquanto a viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica &eacute; condenada de forma generalizada, os ataques espont&acirc;neos contra supostos delinquentes recebem poucas cr&iacute;ticas.<\/p>\n<p>Ibrahim Tommy, diretor executivo do n&atilde;o governamental Centro de Responsabilidade e Estado de Direito, afirma que o aumento da vigil&acirc;ncia parapolicial est&aacute; diretamente relacionado com o mau funcionamento do sistema judicial. &quot;O que a popula&ccedil;&atilde;o faz &eacute; responder &agrave; debilidade do sistema, &agrave; falta de capacidade de fazer justi&ccedil;a em um per&iacute;odo razo&aacute;vel de tempo&quot;, disse &agrave; IPS. &quot;Ent&atilde;o, o que fazem &eacute; bater na pessoa. Enquanto algu&eacute;m puder por um tempo suficiente bater no suspeito, se sentir&aacute; satisfeita&quot;, pontuou. Como disse um homem enquanto batia no adolescente acusado de roubar um celular, &quot;se o entregarmos &agrave; pol&iacute;cia, estar&aacute; aqui novamente no dia seguinte&quot;.<\/p>\n<p>Tommy destaca em especial as demoras burocr&aacute;ticas, que s&atilde;o obst&aacute;culos &agrave; participa&ccedil;&atilde;o de testemunhas nos julgamentos. &quot;O que acontece &eacute; que algu&eacute;m &eacute; preso, levado &agrave; delegacia, processado, mas ningu&eacute;m vai testemunhar. Neste momento, ao juiz n&atilde;o resta outra op&ccedil;&atilde;o a n&atilde;o ser libertar o acusado. Para uma condena&ccedil;&atilde;o s&atilde;o necess&aacute;rias testemunhas&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>&quot;As pessoas neste pa&iacute;s n&atilde;o v&atilde;o aos tribunais testemunhar&quot;, concordou Ibrahim Samura, superintendente adjunto da pol&iacute;cia. Muitos resistem a perder seu tempo em casos que demoram muito. Outros temem ser alvo de repres&aacute;lias por seus depoimentos. Nem as pr&oacute;prias v&iacute;timas v&atilde;o aos tribunais, contou &agrave; IPS. Segundo Tommy, a falta de participa&ccedil;&atilde;o de testemunhas &eacute; apenas um dos fatores por tr&aacute;s da baixa taxa de senten&ccedil;as. Para ele, alguns dos criminosos fazem acordos com autoridades policiais para n&atilde;o serem acusados. &quot;Na maioria das vezes, s&atilde;o detidos pelos policiais e, ap&oacute;s um dia ou dois, depois que o p&uacute;blico esquece o ocorrido, s&atilde;o libertados secretamente&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, a cultura de &quot;justi&ccedil;a de rua&quot; tem suas ra&iacute;zes na guerra civil, quando surgiram grupos de autodefesa diante do fracasso dos militares em lhes dar seguran&ccedil;a contra os ataques da rebelde Frente Revolucionaria Unida. &quot;A vigil&acirc;ncia parapolicial realmente come&ccedil;ou durante a guerra&quot;, explicou Tommy. &quot;Aconteceu quando membros da popula&ccedil;&atilde;o perderam a f&eacute; nas for&ccedil;as de defesa e pensaram que deveriam fazer algo para sua pr&oacute;pria prote&ccedil;&atilde;o e seguran&ccedil;a, assim tentaram preencher o vazio deixado pela lament&aacute;vel conduta dos militares&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Hoje os casos de ataques por parte de vigilantes cidad&atilde;os s&atilde;o comuns em Freetown. No principal hospital da cidade, a enfermeira Dura Kamara est&aacute; acostumada a tratar v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia de rua. &quot;Chegam ao menos uma ou duas vezes por semana, em condi&ccedil;&otilde;es muito s&eacute;rias. As pessoas jogam nelas &aacute;cido, batem e quebram seus ossos, as atacam com fac&otilde;es&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Alguns nem mesmo chegam vivos ao hospital, v&atilde;o diretamente para o necrot&eacute;rio da cidade, onde trabalha Alhaji Kanjeh. &quot;&Eacute; muito comum. Aqueles que s&atilde;o pegos roubando apanham at&eacute; morrer&quot;, contou &agrave; IPS. Kanjeh mostra a foto de um adolescente que foi assassinado por uma multid&atilde;o perto do est&aacute;dio nacional, que tentou roubar um motorista e pagou com a vida. &quot;Nunca soubemos seu nome&quot;, disse o empregado do necrot&eacute;rio, onde chegam v&iacute;timas da justi&ccedil;a de rua de apenas 15 anos. Os ladr&otilde;es que morrem pelas m&atilde;os da popula&ccedil;&atilde;o raramente s&atilde;o identificados ou reclamados por familiares, que temem ser estigmatizados como delinquentes.<\/p>\n<p>&quot;Quando a pol&iacute;cia vem aqui com o cad&aacute;ver, entra como desconhecido&quot;, indicou Kanjeh. Se nenhum familiar reclamar o corpo, &eacute; enterrado em vala comum. Para Owizz Koroma, chefe forense do governo, a justi&ccedil;a pelas pr&oacute;prias m&atilde;os se tornou rotina, e isto significa novos desafios para seu escrit&oacute;rio, respons&aacute;vel pelos cad&aacute;veres. &quot;Realmente estou sob enorme press&atilde;o para fazer coisas para as quais n&atilde;o tenho or&ccedil;amento&#8230; Os enterros e o combust&iacute;vel&quot; para queimar os corpos. &quot;Soa horr&iacute;vel, mas esta &eacute; a realidade&quot;, afirmou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Freetown, Serra Leoa, 21\/01\/2013 &ndash; Em uma noite de n&eacute;voa e sem estrelas da capital de Serra Leoa, um adolescente corre desesperadamente pela rua antes de ser violentamente jogado ao solo por um transeunte. 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