{"id":1125,"date":"2005-10-21T00:00:00","date_gmt":"2005-10-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1125"},"modified":"2005-10-21T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-21T00:00:00","slug":"direitos-humanos-no-h-garantias-para-saddam-hussein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/direitos-humanos-no-h-garantias-para-saddam-hussein\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: N&atilde;o h&aacute; garantias para Saddam Hussein"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 21\/10\/2005 &ndash; Os mesmo defensores dos direitos que durante duas d&eacute;cadas pediam o julgamento por crimes contra a humanidade do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, agora questionam a legitimidade do processo iniciado quarta-feira em Bagd&aacute;. A Human Rights Watch (HRW) foi a institui&ccedil;&atilde;o mais incisiva em seus questionamentos das normas que regem o Supremo Tribunal Penal do Iraque, cujas audi&ecirc;ncias foram adiadas at&eacute; 28 de novembro. Saddam e outros sete acusados se declararam, na quarta-feira, n&atilde;o culpados da execu&ccedil;&atilde;o de 143 homens e crian&ccedil;as em 1982. E n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico caso pelo qual dever&aacute; sentar no banco dos r&eacute;us.<br \/> <!--more--> <br \/> &quot;Temos grandes preocupa&ccedil;&otilde;es de que o tribunal n&atilde;o garanta um julgamento justo&quot;, disse o diretor do Programa de Justi&ccedil;a Internacional da HRW, Richard Dicker. &quot;Para assegurar justi&ccedil;a e por sua pr&oacute;pria legitimidade, o tribunal deve corrigir suas defici&ecirc;ncias&quot;, afirmou. Por sua vez, a Anistia Internacional, que enviou tr&ecirc;s observadores para o julgamento na capital iraquiana, tamb&eacute;m expressou preocupa&ccedil;&atilde;o quanto &agrave;s garantias do devido processo em v&aacute;rias etapas da prepara&ccedil;&atilde;o do julgamento, depois da deten&ccedil;&atilde;o de Saddam Hussein por for&ccedil;as norte-americanas em dezembro de 2003. A equipe de advogados de defesa do ex-ditador afirma que teve muito pouco tempo para prepara o caso, e alertou que colocar&aacute; em evid&ecirc;ncia as defici&ecirc;ncias do tribunal em cada oportunidade que surgir.<\/p>\n<p> &quot;Se isto fosse um julgamento regular em Londres, a defesa teria tido seis meses para se preparar&quot;, afirmou &agrave; ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias Reuters um dos advogados, Abdel al Haq Al-Ani. &quot;Os norte-americanos tentam transformar isto em puro teatro, em um espet&aacute;culo judicial&quot;. O governo do presidente George W. Bush, por sua vez, afirma que o julgamento &eacute; totalmente controlado pelo Iraque. &quot;Saddam Hussein enfrenta a justi&ccedil;a iraquiana&quot;, disse na quarta-feira o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan. Mas as leis que regem o julgamento foram estabelecidas pela Autoridade Provis&oacute;ria da Coaliz&atilde;o, m&aacute;xima inst&acirc;ncia civil da ocupa&ccedil;&atilde;o encabe&ccedil;ada pelos Estados Unidos, e sofreu apenas leves modifica&ccedil;&otilde;es quando o governo de transi&ccedil;&atilde;o foi formado no come&ccedil;o do ano.<\/p>\n<p> Segundo a HRW, Washington j&aacute; gastou US$ 128 milh&otilde;es na investiga&ccedil;&atilde;o e acusa&ccedil;&atilde;o, e forneceu mais de uma dezenas de funcion&aacute;rios para o caso. Tamb&eacute;m cobriu as despesas para converter a antiga sede do partido laico Baath, que foi liderado por Saddam, na sede judicial onde acontece o julgamento. O jornal The New York Times afirmou que o Escrit&oacute;rio de Liga&ccedil;&atilde;o sobre Crimes do Regime, dominado por Washington, tem sido &quot;o poder real por tr&aacute;s do tribunal, assessorando e, com freq&uuml;&ecirc;ncia, decidindo sobre quase todas as facetas do trabalho, sempre por tr&aacute;s do anonimato&quot;. O Escrit&oacute;rio est&aacute; integrado por advogados e especialistas em justi&ccedil;a internacional norte-americanos e tamb&eacute;m de outros pa&iacute;ses da coaliz&atilde;o militar que invadiu o Iraque em mar&ccedil;o de 2003, especialmente Gr&atilde;-Bretanha e Austr&aacute;lia.<\/p>\n<p> Muitos v&ecirc;em no tribunal uma express&atilde;o de &quot;justi&ccedil;a dos vencedores&quot;, imagem alimentada pela interven&ccedil;&atilde;o estrangeira nos procedimentos, bem como pelo fato de nenhum dos cinco ju&iacute;zes indicados para o caso serem &aacute;rabes sunitas, a minoria religiosa &agrave; qual pertence Saddam Hussein. Como se n&atilde;o bastasse, os funcion&aacute;rios judiciais antes ligados ao partido Baath, sem importar seu escal&atilde;o, foram purgados. Esse &eacute; um dos fatos que mais ira provoca na comunidade sunita, que apesar de ser minoria exerceu o poder no Iraque desde o final do Imp&eacute;rio Otamano, em 1919. O processo iniciado na quarta-feira ser&aacute; o primeiro de v&aacute;rios que dever&atilde;o ter Saddam Hussein no banco dos r&eacute;us.<\/p>\n<p> O primeiro se refere ao massacre no povoado xiita de Dujail depois da tentativa de assassinato de Saddam em 1982 por 19 homens, ao que parece integrantes do partido Dawa, cujo l&iacute;der atual, Ibrahim Jaafari, &eacute; o presidente do pa&iacute;s. Saddam teria ordenado feroz repres&aacute;lia contra a popula&ccedil;&atilde;o civil. Mais de 1.500 pessoas foram enviadas &agrave;s superlotadas pris&otilde;es, onde pelo menos 200 morreram. Al&eacute;m disso, 143 homens e crian&ccedil;as foram julgados e executados por suposta cumplicidade com o atentado. O caso Dujail n&atilde;o &eacute; o pior pelo qual passar&aacute; o ex-ditador. Mas &eacute; aquele cuja acusa&ccedil;&atilde;o foi mais simples de preparar. Outro caso aborda o massacre de Anfa, no qual dezenas de milhares de curdos foram assassinados em 1988, alguns com armas qu&iacute;micas. A acusa&ccedil;&atilde;o neste caso estaria quase completa.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m est&aacute; em prepara&ccedil;&atilde;o um julgamento relativo &agrave; sangrenta repress&atilde;o da revolta xiita no sul do Iraque depois da guerra do Golfo de 1991. A sele&ccedil;&atilde;o dos casos desatou severos questionamentos de especialistas e ativistas. &quot;O enfoque estreito das acusa&ccedil;&otilde;es parece projetado para garantir que a cumplicidade dos Estados Unidos com os crimes seja deixada de lado&quot;, disse Richard Falk, professor de direito internacional da Universidade de Princeton. Washington, segundo numerosas vers&otilde;es, promoveu a subida de Saddam ao poder e o apoiou na guerra do Iraque contra o Ir&atilde; (1980-1988). O ministro da Justi&ccedil;a iraniano, Kamal Karimirad, destacou a contradi&ccedil;&atilde;o ao considerar, na quarta-feira, que o ex-ditador deveria ser julgado por crimes cometidos nessa guerra, incluindo o uso de armas qu&iacute;micas contra civis. &quot;Os ocupantes do Iraque s&oacute; querem executar Saddam Hussein sem esclarecer qual apoio lhe deram quando esteve no poder&quot;, afirmou Karimirad.<\/p>\n<p> Organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos reclamam do Conselho de Seguran&ccedil;a da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas a forma&ccedil;&atilde;o de um tribunal internacional para julgar Saddam semelhante ao que, instalado na cidade holandesa de Haia, processa as acusa&ccedil;&otilde;es contra o ex-presidente da Iugosl&aacute;via Slobodan Milosevic e outros cidad&atilde;os s&eacute;rvios. No m&iacute;nimo, os ativistas prop&otilde;em a cria&ccedil;&atilde;o de um tribunal como o que julga crimes de guerra em Serra Leoa, formado por ju&iacute;zes desse pa&iacute;s africano e de outros pa&iacute;ses. Mas isso iria contradizer a intensa campanha do governo Bush contra o Tribunal Penal Internacional constitu&iacute;do para o julgamento de casos de genoc&iacute;dio, crimes de guerra e contra a humanidade. Al&eacute;m disso, parte de seu governo ainda est&aacute; ressentida pela negativa da ONU em avalizar a invas&atilde;o do Iraque.<\/p>\n<p> Por essa raz&atilde;o, insistiu na cria&ccedil;&atilde;o de um tribunal exclusivamente iraquiano, embora dependente ao extremo do financiamento e da experi&ecirc;ncia judicial dos Estados Unidos e de outras pot&ecirc;ncias ocidentais. A Human Rights Watch considerou que os procedimentos estabelecidos para o julgamento n&atilde;o cumprem os princ&iacute;pios b&aacute;sicos do direito internacional. Os ju&iacute;zes, por exemplo, poder&atilde;o condenar Saddam se apenas estiverem &quot;satisfeitos&quot; com a evid&ecirc;ncia acusat&oacute;ria, quando o princ&iacute;pio estabelecido &eacute; o de que se deve provar a culpabilidade acima de qualquer d&uacute;vida razo&aacute;vel. Al&eacute;m disso, os procedimentos estabelecidos pela coaliz&atilde;o que ocupa o Iraque permitem que a negativa do acusado em responder perguntas seja usada contra ele, em contradi&ccedil;&atilde;o aos princ&iacute;pios do direito internacional contra a auto-incrimina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Por outro lado, os advogados do ex-ditador n&atilde;o tiveram acesso incondicional ao seu cliente ou &agrave;s evid&ecirc;ncias. Por exemplo, no m&ecirc;s passado receberam uma lista incompleta de testemunhas que ser&atilde;o apresentadas pelos acusadores. Al&eacute;m disso, nenhum tribunal internacional admite hoje em dia uma condena&ccedil;&atilde;o &agrave; morte. E o direito iraquiano n&atilde;o s&oacute; a permite como, tamb&eacute;m, determina sua execu&ccedil;&atilde;o no prazo de 30 dias posteriores &agrave; senten&ccedil;a. Portanto, existe a possibilidade de Saddam Hussein ser executado antes de seu julgamento por outros crimes. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 21\/10\/2005 &ndash; Os mesmo defensores dos direitos que durante duas d&eacute;cadas pediam o julgamento por crimes contra a humanidade do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, agora questionam a legitimidade do processo iniciado quarta-feira em Bagd&aacute;. A Human Rights Watch (HRW) foi a institui&ccedil;&atilde;o mais incisiva em seus questionamentos das normas que regem o Supremo Tribunal Penal do Iraque, cujas audi&ecirc;ncias foram adiadas at&eacute; 28 de novembro. Saddam e outros sete acusados se declararam, na quarta-feira, n&atilde;o culpados da execu&ccedil;&atilde;o de 143 homens e crian&ccedil;as em 1982. 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