{"id":11281,"date":"2013-01-29T03:05:02","date_gmt":"2013-01-29T03:05:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11281"},"modified":"2013-01-29T03:05:02","modified_gmt":"2013-01-29T03:05:02","slug":"abandonar-as-armas-nucleares-ensinamentos-da-frica-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/01\/africa\/abandonar-as-armas-nucleares-ensinamentos-da-frica-do-sul\/","title":{"rendered":"Abandonar as armas nucleares: Ensinamentos da &Aacute;frica do Sul"},"content":{"rendered":"<p>Joanesburgo, 29\/01\/2013 &ndash; N&atilde;o se podem dizer muitas coisas boas do sistema do apartheid que vigorou na &Aacute;frica do Sul. <!--more--> Foi racista e violento na opress&atilde;o brutal de muitos dos seus cidad&atilde;os e era desprezado em todo o mundo. Contudo, nos &uacute;ltimos dias do apartheid, as autoridades sul-africanas tomaram uma medida que teve implica&ccedil;&otilde;es importantes para o pa&iacute;s e para o continente africano: desmantelaram o seu programa de armas nucleares     <\/p>\n<p>&quot;A primeira fase envolveu o desmantelamento dos seis engenhos nucleares que tinham sido completamente montados (e um parcialmente montado),&quot; explicou Greg Mills, que dirige a Funda&ccedil;&atilde;o Brenthurst, uma institui&ccedil;&atilde;o de investiga&ccedil;&atilde;o que presta assessoria a governos africanos. &quot;A decis&atilde;o sobre esta mat&eacute;ria foi tomada pelo ent&atilde;o Presidente F.W. de Klerk em Fevereiro de 1990, pouco depois da liberta&ccedil;&atilde;o de Nelson Mandela da pris&atilde;o e do fim da proibi&ccedil;&atilde;o do Congresso Nacional Africano, do Congresso Pan-Africano e do Partido Comunista Sul Africano.&quot; A &Aacute;frica do Sul aderiu ao Tratado de N&atilde;o Prolifera&ccedil;&atilde;o (NPT) a 10 de Julho de 1991. Sete semanas mais tarde, no dia 16 de Setembro, o pa&iacute;s assinou um Acordo de Salvaguardas Generalizadas com a Ag&ecirc;ncia Internacional da Energia At&oacute;mica (IAEA), permitindo inspec&ccedil;&otilde;es frequentes das suas instala&ccedil;&otilde;es. &quot;As autoridades sul-africanas colaboraram plenamente com a IAEA durante todo o processo de verifica&ccedil;&atilde;o e foram elogiadas pelo ent&atilde;o director-geral da Ag&ecirc;ncia em 1992, o Dr Hans Blix, por terem prestado aos inspectores acesso e informa&ccedil;&otilde;es ilimitados para al&eacute;m do que era exigido pelo Acordo de Salvaguardas Generalizadas,&quot; acrescentou Mills. &quot;A segunda fase envolveu o desmantelamento do programa de m&iacute;sseis bal&iacute;sticos da &Aacute;frica do Sul, que come&ccedil;ou em 1992, processo que demorou 18 meses.&quot; &quot;Este processo culminou com a sua admiss&atilde;o ao Regime de Controlo da Tecnologia de M&iacute;sseis (MTCR) em Setembro de 1995, depois da verifica&ccedil;&atilde;o da destrui&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos motores dos m&iacute;sseis. &quot;A terceira fase envolveu o termo do programa de armas qu&iacute;micas e biol&oacute;gicas da &Aacute;frica do Sul.&quot; Mills conclu&iacute;u que a &Aacute;frica do Sul &quot;ocupa assim uma posi&ccedil;&atilde;o privilegiada no mundo devido ao facto de ser o primeiro pa&iacute;s a ter desmantelado voluntariamente a sua capacidade de produzir armas nucleares. &quot;A experi&ecirc;ncia (sul-africana) indica a import&acirc;ncia de criar o ambiente apropriado em que os regimes se sintam suficientemente confiantes para desarmarem e assim continuarem.&quot; Embora as ac&ccedil;&otilde;es dos l&iacute;deres sul-africanos do regime do apartheid mere&ccedil;am elegios &#8211; pelo menos desta vez &#8211; h&aacute; alguma desconfian&ccedil;a quanto aos motivos que levaram a essa ac&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; que desmantelaram as armas nucleares do pa&iacute;s porque acreditavam na vis&atilde;o de uma &Aacute;frica sem armas nucleares? Ou o seu motivo era mais c&iacute;nico? Ao apereceberem-se que um governo negro era inevit&aacute;vel, ser&aacute; que desmantelaram as armas nucleares sul-africanas para as manter fora das m&atilde;os de Nelson Mandela e do novo governo do ANC? O colega de Mill e director adjunto da Funda&ccedil;&atilde;o Brenthurst, Terence McNamee, asseverou no jornal Star de Joanesburgo que o pa&iacute;s que tinha desmantelado as armas nucleares &quot;n&atilde;o era a &Aacute;frica do Sul de Zuma (o actual Presidente Jacob Zuma) mas um outro pa&iacute;s, um p&aacute;ria internacional, felizmente agora extinto.&quot; <\/p>\n<p>&quot;Sem d&uacute;vida que Zuma acredita, tal como a maior parte dos seus colegas s&eacute;niores que estiveram activos durante a transi&ccedil;&atilde;o para a democracia, que as pessoas que constru&iacute;ram o arsenal nuclear da &Aacute;frica do Sul &#8211; o regime do apartheid &#8211; o destruiu porque n&atilde;o queriam que o ANC se apoderasse dele.&quot;<\/p>\n<p>McNamee referiu que de Klerk esperou at&eacute; Mar&ccedil;o de 1993 antes de informar o mundo do desmantelamento das armas nucleares sul-africanas, e at&eacute; essa altura, &quot;ningu&eacute;m, nem mesmo Nelson Mandela, tinha sido informado que o programa tinha sido abolido (ou at&eacute; mesmo que existia).&quot;<\/p>\n<p>Embora as armas nucleares j&aacute; n&atilde;o existam na &Aacute;frica do Sul ou no continente africano, h&aacute; uma expectativa crescente que vai ser necess&aacute;rio obter energia nuclear para ajudar a fornecer uma parte crescente da mistura energ&eacute;tica no continente. &quot;A energia nuclear pode ajudar a responder ao grande d&eacute;fice energ&eacute;tico dos pa&iacute;ses africanos, visto que o continente produz o mesmo que a Espanha, apesar de ter uma popula&ccedil;&atilde;o vinte vezes superior,&quot; disse Mills &agrave; IPS. &quot;Mas as preocupa&ccedil;&otilde;es associadas ao uso da energia nuclear em &Aacute;frica v&atilde;o ao &acirc;mago do motivo que explica por que existe este d&eacute;fice em primeiro lugar: a governa&ccedil;&atilde;o.&quot; Jeremy Sampson, especialista em cria&ccedil;&atilde;o de marcas, presidente executivo da empresa de consultoria de branding Interbrand Sampson localizada em Joanesburgo, referiu que em termos de imagem a decis&atilde;o sul-africana de eliminar o programa de armas nucleares tinha fortalecido a sua autoridade moral quanto &agrave; quest&atilde;o de n&atilde;o prolifera&ccedil;&atilde;o. &quot;As &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas t&ecirc;m testemunhado um aumento dram&aacute;tico da import&acirc;ncia das quest&otilde;es reputacionais e ligadas &agrave; marca,&quot; disse Sampson &agrave; IPS. &quot;Isto j&aacute; n&atilde;o se aplica simplesmenta a empresas, produtos e servi&ccedil;os, mas hoje abarca igualmente pessoas e mesmo pa&iacute;ses.&quot; Ao questionar a verdadeira raz&atilde;o que levou ao desmantelamento do programa de armas nucleares sul-africano, Sampson especulou que o regime talvez tivesse recebido alguma recompensa, que n&atilde;o foi ainda divulgada, por ter tomado essa decis&atilde;o. &quot;Se a &Aacute;frica do Sul produziu realmente um dispositivo nuclear, quem &eacute; que a ajudou, houve ensaios fict&iacute;cios nas produndezas do Atl&acirc;ntico Sul e como &eacute; que essas armas seriam usadas?&quot; questionou. Sampson sugeriu tamb&eacute;m que a decis&atilde;o da &Aacute;frica do Sul de desmantelar a sua op&ccedil;&atilde;o nuclear voluntariamente levantava muitas quest&otilde;es. &quot;Ser&aacute; que o regime de apartheid estava desesperado? As san&ccedil;&otilde;es estavam a ter resultados? Qual foi o objecto de troca, quais foram as garantias oferecidas, havia realmente fundos secretos em v&aacute;rias partes do mundo para os membros do regime que escapassem, como aconteceu na Alemanha no final da Segunda Guerra Mundial?&quot; &quot;Algum outro pa&iacute;s desmantelou voluntariamente a sua op&ccedil;&atilde;o nuclear, que levaria muitos anos e teria usado muitos bili&otilde;es a desenvolver?&quot; Sampson defendeu que, quaisquer que tenham sido as recompensas, deviam ter sido &quot;muito substanciais. As actividades militares em Angola e o apoio concedido a Jonas Savimbi (l&iacute;der rebelde angolano) deviam estar no topo da agenda.&quot; Frans Cronje, director executivo adjunto do Instituto Sul-Africano de Rela&ccedil;&otilde;es Raciais, outra organiza&ccedil;&atilde;o de investiga&ccedil;&atilde;o localizada em Joanesburgo, sugeriu que o regime do apartheid foi sujeito a uma forte press&atilde;o do Ocidente e possivelmente tamb&eacute;m da R&uacute;ssia, no sentido de renunciar ao seu programa de armas nucleares. &quot;Foi tudo disfar&ccedil;ado como uma retirada ilustre de uma &Aacute;frica nuclear,&quot; disse &agrave; IPS. &quot;&Eacute; muito prov&aacute;vel que os pa&iacute;ses ocidentais e a R&uacute;ssia estivessem preocupados com o facto de um estado africano independente ter armas nucleares.&quot; Acredita igualmente que hoje em dia a &Aacute;frica do Sul teria mais poder no plano internacional se tivesse mantido o seu arsenal nuclear. &quot;Um estado nuclear africano seria levado mais a s&eacute;rio e teria ainda um papel de lideran&ccedil;a mais forte &#8211; obrigaria as pessoas a lev&aacute;-lo mais a s&eacute;rio,&quot; afirmou. &quot;Em termos de lideran&ccedil;a, a ren&uacute;ncia &agrave;s armas nucleares resulta no oposto &#8211; reduz a influ&ecirc;ncia do pa&iacute;s nas rela&ccedil;&otilde;es exteriores e na pol&iacute;tica internacional.&quot; &quot;Se a ren&uacute;ncia &agrave;s armas nucleares aumenta a influ&ecirc;ncia de determinado pa&iacute;s, outros pa&iacute;ses j&aacute; se teriam precipitado a desmantelar os seus arsenais nucleares.&quot; Talvez nunca venhamos a saber todas as raz&otilde;es que levaram a essa medida, mas o desmantelamento das armas nucleares na &Aacute;frica do Sul trouxe benef&iacute;cios morais que perduram at&eacute; hoje. Concedeu ao pa&iacute;s uma voz global em quest&otilde;es de n&atilde;o prolifera&ccedil;&atilde;o assim como a autoridade moral para desenvolver a sua pr&oacute;pria ind&uacute;stria de electricidade de origem nuclear sem atrair a desconfian&ccedil;a internacional, como tem acontecido mais recentemente com o Ir&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joanesburgo, 29\/01\/2013 &ndash; N&atilde;o se podem dizer muitas coisas boas do sistema do apartheid que vigorou na &Aacute;frica do Sul. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/01\/africa\/abandonar-as-armas-nucleares-ensinamentos-da-frica-do-sul\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1358,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11281","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1358"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11281\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}