{"id":11289,"date":"2013-01-29T09:29:12","date_gmt":"2013-01-29T09:29:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11289"},"modified":"2013-01-29T09:29:12","modified_gmt":"2013-01-29T09:29:12","slug":"brasil-comea-a-enfrentar-os-fantasmas-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/01\/america-latina\/brasil-comea-a-enfrentar-os-fantasmas-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Brasil come&ccedil;a a enfrentar os fantasmas da ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Porto Alegre, Brasil, 29\/01\/2013 &ndash; &Agrave;s oito horas do dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog se apresentou no Destacamento de Opera&ccedil;&otilde;es e Informa&ccedil;&otilde;es do Centro de Opera&ccedil;&otilde;es de Defesa Interna (DOI-Codi) de S&atilde;o Paulo, um dos centros de deten&ccedil;&atilde;o e tortura da &uacute;ltima ditadura. <!--more--> Na &eacute;poca, Herzog era do Departamento de Telejornalismo da TV Cultura e havia sido chamado para &quot;prestar declara&ccedil;&atilde;o&quot; sobre a acusa&ccedil;&atilde;o de pertencer ao Partido Comunista. A fotografia de seu corpo enforcado em uma simula&ccedil;&atilde;o de suic&iacute;dio, divulgada pouco depois, se converteu no s&iacute;mbolo de uma farsa.<\/p>\n<p>Denunciada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de S&atilde;o Paulo, a morte de Vlado, como era chamado, gerou protestos e deu lugar ao movimento popular que contribuiu essencialmente para derrubar a ditadura, que se estendeu de 1964 a 1985. Mais de 37 anos depois, o assassinato de Herzog poder&aacute; abrir uma nova porta para revelar o acontecido nesse longo per&iacute;odo ditatorial.<\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos aceitou o caso e decidiu investigar a responsabilidade do Estado brasileiro, por entender que o Brasil n&atilde;o ativou os mecanismos judiciais correspondentes para esclarecer o crime e punir seus respons&aacute;veis. Este &oacute;rg&atilde;o apresentar&aacute; um informe com recomenda&ccedil;&otilde;es ao governo de Dilma Rousseff e, caso n&atilde;o sejam cumpridas, o caso ser&aacute; levado ao Tribunal Interamericano de Direitos Humanos. Os dois &oacute;rg&atilde;os fazem parte do sistema da Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos.<\/p>\n<p>Em 2010, o Brasil foi condenado por esse mesmo tribunal continental por n&atilde;o esclarecer nem determinar as responsabilidades penais e as san&ccedil;&otilde;es correspondentes por &quot;deten&ccedil;&atilde;o arbitr&aacute;ria, tortura e desaparecimento for&ccedil;ado de 70 pessoas durante a ditadura, entre membros do Partido Comunista e camponeses da regi&atilde;o&quot;, envolvidas na Guerrilha do Araguaia, que atuaram entre 1972 e 1974 na regi&atilde;o de Marab&aacute;, no Par&aacute;.<\/p>\n<p>As tentativas de levar &agrave; justi&ccedil;a os torturadores do per&iacute;odo militar no Brasil se deparam com a Lei 6.683, de 1979, que anistiou todos os envolvidos em crimes pol&iacute;ticos e contra os direitos humanos cometidos entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, em plena ditadura. Ainda assim, o governo de Dilma conseguiu um grande avan&ccedil;o com a aprova&ccedil;&atilde;o da Lei 12.528, de 2011, que criou a Comiss&atilde;o Nacional da Verdade, com o objetivo de investigar os casos de desaparecidos pol&iacute;ticos durante a ditadura. Esta lei foi promulgada em 2012 e a Comiss&atilde;o tem dois anos para concluir seu trabalho.<\/p>\n<p>Segundo o documento Direito &agrave; Mem&oacute;ria e &agrave; Verdade, elaborado pelo governo, pelo menos 150 opositores ainda est&atilde;o desaparecidos ap&oacute;s serem presos ou sequestrados por agentes da repress&atilde;o na ditadura. Os familiares buscam os corpos ou qualquer informa&ccedil;&atilde;o sobre o destino de seus entes queridos. A cada dia, surgem no pa&iacute;s novas comiss&otilde;es, com representantes estaduais, de estudantes e de trabalhadores.<\/p>\n<p>&quot;Todo ato de verdade e justi&ccedil;a, que as novas gera&ccedil;&otilde;es organizam para o conhecimento e a luta pelos direitos humanos no Brasil, significa derrotar uma vez mais a ditadura e o Estado de exce&ccedil;&atilde;o&quot;, afirmou a ministra Maria do Ros&aacute;rio Nunes, da Secretaria de Direitos Humanos da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, no lan&ccedil;amento, no dia 19, da Comiss&atilde;o da Verdade dos Jornalistas.<\/p>\n<p>&quot;O Brasil chega com um pouco de atraso ao debate das comiss&otilde;es da verdade para recuperar a mem&oacute;ria e conseguir justi&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o aos mortos e desaparecidos durante a ditadura, em compara&ccedil;&atilde;o com outros pa&iacute;ses, como Uruguai e Argentina&quot;, afirmou a secret&aacute;ria-geral da Federa&ccedil;&atilde;o Internacional de Jornalistas (FIJ), Beth Costa. &quot;Contudo, a FIJ e as federa&ccedil;&otilde;es Nacional e Latino-Americana de Jornalistas d&atilde;o as boas-vindas &agrave; decis&atilde;o firme do governo brasileiro&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Beth reconheceu as dificuldades do governo para enfrentar as resist&ecirc;ncias hist&oacute;ricas, que datam do per&iacute;odo de redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. &quot;Durante anos houve resist&ecirc;ncia por parte do setor militar, que ainda desempenha um papel de impacto devido &agrave; representa&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m no parlamento os partidos conservadores, muitos dos quais apoiaram o regime militar&quot;, observou.<\/p>\n<p>Os integrantes da Comiss&atilde;o Nacional da Verdade t&ecirc;m o desafio de preencher as lacunas de informa&ccedil;&atilde;o sobre os desaparecimentos e assassinatos, bem como de documentos dos arquivos que foram colocados &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o para a investiga&ccedil;&atilde;o, apesar de Dilma ter assinado a Lei de Acesso &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o junto com este corpo especializado. &quot;No total, 25 profissionais da comunica&ccedil;&atilde;o foram mortos durante a ditadura&quot; disse &agrave; IPS Aud&aacute;lio Dantas, que presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de S&atilde;o Paulo e liderou os protestos para desmascarar a farsa do suic&iacute;dio de Vlado.<\/p>\n<p>Aud&aacute;lio Dantas, hoje presidente da Comiss&atilde;o Nacional de Mem&oacute;ria, Justi&ccedil;a e Verdade dos Jornalistas Brasileiros, constatou faltas importantes na documenta&ccedil;&atilde;o ao coletar dados para seu livro As Duas Guerras de Vlado Herzog, publicado em 2012 pela Editora Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira. Al&eacute;m disso, para ter acesso ao material dispon&iacute;vel sobre o caso Herzog, lhe pediram uma c&oacute;pia da certid&atilde;o de &oacute;bito. &quot;A exig&ecirc;ncia era, al&eacute;m de absurda, uma falta de respeito com a mem&oacute;ria de Vlado. Cumpri-la significaria aceitar como verdadeiro o laudo necrol&oacute;gico que o m&eacute;dico Harry Shibata, colaborador do DOI-Codi, assinou sem ver o corpo, declarando a morte como suic&iacute;dio&quot;, escreveu Aud&aacute;lio em seu livro.<\/p>\n<p>&quot;Finalmente, a Comiss&atilde;o da Verdade conseguiu que fosse retificado o documento&quot;, disse &agrave; IPS. Agora a morte de Herzog &eacute; indicada como consequ&ecirc;ncia de &quot;les&otilde;es e maus-tratos sofridos nas depend&ecirc;ncias do Segundo Ex&eacute;rcito de S&atilde;o Paulo (DOI-Codi)&quot;. Beth Costa considera que a recupera&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria dos jornalistas desaparecidos durante a ditadura ser&aacute; fundamental para a mem&oacute;ria e a redemocratiza&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es, especialmente neste momento em que o pa&iacute;s figura na lista dos que apresentam um grande n&uacute;mero de profissionais da imprensa assassinados no exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o.<\/p>\n<p>O direito &agrave; liberdade de informar e de ser informado est&aacute; em perigo novamente. Isto ficou claro quando os jornalistas Andr&eacute; Caramante, da Folha de S. Paulo, e Mauri Konig, da Gazeta do Povo, do Paran&aacute;, tiveram que abandonar o pa&iacute;s devido a amea&ccedil;as de morte que receberam ap&oacute;s denunciarem as pol&iacute;cias de seus respectivos Estados. Aud&aacute;lio Dantas recordou que, al&eacute;m de garantir a prote&ccedil;&atilde;o dos profissionais da comunica&ccedil;&atilde;o em seu trabalho, os governos devem enfrentar os grupos de exterm&iacute;nio dentro das pol&iacute;cias, resqu&iacute;cio dos tempos da ditadura.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; uma vergonha que n&oacute;s, que lutamos contra a repress&atilde;o pol&iacute;tica, n&atilde;o sejamos capazes de lutar contra a repress&atilde;o que ocorre diariamente nas periferias das grandes cidades e dentro das delegacias de pol&iacute;cia&quot;, enfatizou o jornalista. Segundo Aud&aacute;lio, &quot;os governos t&ecirc;m medo de enfrentar essa quest&atilde;o, talvez porque a maioria da classe m&eacute;dia e da elite considere que se deve prender e matar sem julgamento. &Eacute; a situa&ccedil;&atilde;o mais vergonhosa que o pa&iacute;s vive hoje&quot;. 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