{"id":11293,"date":"2013-01-30T09:14:39","date_gmt":"2013-01-30T09:14:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11293"},"modified":"2013-01-30T09:14:39","modified_gmt":"2013-01-30T09:14:39","slug":"coluna-a-emigrao-cubana-entre-o-sonho-e-o-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/01\/politica\/coluna-a-emigrao-cubana-entre-o-sonho-e-o-pesadelo\/","title":{"rendered":"COLUNA: A emigra&ccedil;&atilde;o cubana: entre o sonho e o pesadelo"},"content":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 30\/01\/2013 &ndash; Embora tenham corrido rios de tinta, como costum&aacute;vamos dizer antigamente, sobre a reforma migrat&oacute;ria cubana, creio que a ess&ecirc;ncia do drama, vivido por quase cinco d&eacute;cadas em torno de uma pol&iacute;tica que limitava e controlava a possibilidade do livre movimento dos cubanos, ficou plasmada em toda sua dramaticidade em uma simples caricatura.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11293\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/LPadura.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11293\" class=\"size-medium wp-image-11293\" title=\"Leonardo Padura - \" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/LPadura.jpg\" alt=\"Leonardo Padura - \" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11293\" class=\"wp-caption-text\">Leonardo Padura - <\/p><\/div>  Nessa imagem aparecem dois idosos, com seus novos passaportes debaixo do bra&ccedil;o, e um pergunta ao outro: &quot;Bem, e agora?&quot;.<\/p>\n<p>Desde o come&ccedil;o da d&eacute;cada de 1960, em um contexto de guerra fria e com a ado&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica migrat&oacute;ria t&iacute;pica dos pa&iacute;ses socialistas, o fato de migrar se converteu em um calv&aacute;rio para os cubanos que queriam, pensavam ou aspiravam eventualmente faz&ecirc;-lo, fosse por raz&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas ou familiares. Em tom com essa pol&iacute;tica restritiva foram criadas figuras legais com a &quot;sa&iacute;da definitiva&quot;, uma esp&eacute;cie de desterro perp&eacute;tuo que implicava a impossibilidade de regresso para quem partia (todos seus bens eram confiscados), a figura f&iacute;sica e estigmatizada do &quot;que ficou&quot;, representada por esses milhares de cubanos que aproveitavam uma viagem de estudos ou trabalho para solicitar asilo ou resid&ecirc;ncia em outros pa&iacute;ses, e a do &quot;ref&eacute;m&quot;, familiar de algu&eacute;m &quot;que ficou&quot; e que era impedido, ou se prorrogava a possibilidade, de se reunir com o &quot;desertor&quot;.<\/p>\n<p>A atual reforma &#8211; que, desde o dia 14, permite viagens de Cuba e para Cuba &agrave; maioria dos cubanos e chega em um momento de mudan&ccedil;as m&uacute;ltiplas na ilha (sobretudo econ&ocirc;micos e sociais) &#8211; mostrou de imediato suas limita&ccedil;&otilde;es para as &acirc;nsias dos potenciais migrantes cubanos. O grande obst&aacute;culo agora est&aacute; fora do pa&iacute;s, pois um passaporte sem visto s&oacute; pode levar os cubanos a destinos n&atilde;o muito apreciados, entre os quais n&atilde;o est&atilde;o, naturalmente, Estados Unidos, Canad&aacute;, Europa ou a maioria dos pa&iacute;ses latino-americanos. O governo do Equador, por exemplo, que at&eacute; agora admitia os cubanos sem a exig&ecirc;ncia do visto, decidiu solicitar uma carta-convite enviada por algu&eacute;m de dentro de seu pa&iacute;s que se responsabilize com a manuten&ccedil;&atilde;o do viajante, medida que pretende controlar o fluxo poss&iacute;vel de cubanos para essa na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m como resposta imediata &agrave; nova lei, certos grupos do ex&iacute;lio cubano no sul da Fl&oacute;rida, entre eles alguns de seus representantes pol&iacute;ticos, diante do temor de um suposto &ecirc;xodo, come&ccedil;aram a pedir uma revis&atilde;o da famosa Lei de Ajuste Cubano (1966), que acolhia qualquer cidad&atilde;o da ilha que chegasse a territ&oacute;rio norte-americano. Esses grupos e essas pessoas agora pretendem que se levante um novo muro migrat&oacute;rio, pois reclamam que a lei se limite aos verdadeiros &quot;refugiados&quot; ou &quot;perseguidos&quot; pol&iacute;ticos, e n&atilde;o inclua os que emigram para tentar uma vida melhor. Naturalmente, sempre contando com que essas pessoas lhes concedam o dif&iacute;cil visto norte-americano ou que cheguem ao pa&iacute;s arriscando suas vidas cruzando a fronteira no estreito da Fl&oacute;rida, a bordo das famosas balsas.<\/p>\n<p>Diante de tais situa&ccedil;&otilde;es, qualquer mente mais ou menos l&uacute;cida n&atilde;o poderia de deixar de se interrogar por que raz&atilde;o as autoridades cubanas mantiveram por tanto tempo restri&ccedil;&otilde;es &agrave; possibilidade de emigrar que tantos no mundo criticavam, quase sempre com raz&atilde;o, e que agora limitam ou pretendem limitar. E tamb&eacute;m se poderia perguntar algu&eacute;m l&uacute;cido e perspicaz por que h&aacute; tantos cubanos que, pelas mais diversas raz&otilde;es, aspiram engrossar as filas dos emigrantes.<\/p>\n<p>Acontece que enquanto algumas portas se abrem para muitos cubanos com desejos de viajar, outras permanecem fechadas e algumas outras se pretende entreabrir perigosamente. Mas, com independ&ecirc;ncia dessas aberturas e desses fechamentos, o drama interno deste conflito migrat&oacute;rio revela seu ponto mais tr&aacute;gico nas imagens da caricatura citada: a de duas ou tr&ecirc;s gera&ccedil;&otilde;es de cubanos que por anos n&atilde;o tiveram a possibilidade de viajar livremente, permanecer no exterior o tempo que desejassem e retornar quando quisessem ou necessitassem, esses milh&otilde;es de cubanos que foram prisioneiros de uma lei que limitava e at&eacute; impedia seus projetos de vida.<\/p>\n<p>Para os cubanos mais jovens a reforma migrat&oacute;ria pode significar uma esperan&ccedil;a de fazer, em Cuba ou onde quiserem, a vida que mais ou menos possam construir. J&aacute; para a gera&ccedil;&atilde;o de seus pais e av&oacute;s, profissionais ou n&atilde;o, a possibilidade de desfrutar dessa liberdade concedida &eacute; muito mais escassa e dif&iacute;cil. Com os anos vividos sobre os ombros, no contexto de um mundo no qual cada vez mais o mercado de trabalho exige sangue fresco, j&aacute; sem tempo para se reciclar profissionalmente, o sonho que alguns acariciaram de poder migrar pode muito bem se converter em um pesadelo. Para onde ir? Do que viver? Como se integrar a um mundo em crise com 45, 50, 60 anos de idade? Ir e ficar? Ir e voltar? Quem os quer?<\/p>\n<p>O mais complicado para essas gera&ccedil;&otilde;es de cubanos &eacute; que o drama da op&ccedil;&atilde;o migrat&oacute;ria, que como possibilidade lhes chega com atraso, em outras escalas se reproduz para eles dentro das fronteiras cubanas, onde s&atilde;o institu&iacute;das mudan&ccedil;as econ&ocirc;micas nas quais a habilidade, a for&ccedil;a e a competitividade s&atilde;o cada vez mais necess&aacute;rias para os que desejam superar a categoria de assalariados p&uacute;blicos, atados aos insuficientes ganhos proporcionados por seus esfor&ccedil;os. Tantas adversidades que os convertem em figuras de trag&eacute;dia, mais do que de risonhas caricaturas. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Leonardo Padura &eacute; escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas, e sua obra mais recente, O homem que amava os c&atilde;es, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ram&oacute;n Mercader.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 30\/01\/2013 &ndash; Embora tenham corrido rios de tinta, como costum&aacute;vamos dizer antigamente, sobre a reforma migrat&oacute;ria cubana, creio que a ess&ecirc;ncia do drama, vivido por quase cinco d&eacute;cadas em torno de uma pol&iacute;tica que limitava e controlava a possibilidade do livre movimento dos cubanos, ficou plasmada em toda sua dramaticidade em uma simples caricatura. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/01\/politica\/coluna-a-emigrao-cubana-entre-o-sonho-e-o-pesadelo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1001,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,11],"tags":[15],"class_list":["post-11293","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-politica","tag-caribe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1001"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11293"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11293\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}