{"id":1130,"date":"2005-10-24T00:00:00","date_gmt":"2005-10-24T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1130"},"modified":"2005-10-24T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-24T00:00:00","slug":"sade-laboratrios-se-fazem-de-surdos-para-o-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/mundo\/sade-laboratrios-se-fazem-de-surdos-para-o-sul\/","title":{"rendered":"Sa&uacute;de: Laborat&oacute;rios se fazem de surdos para o Sul"},"content":{"rendered":"<p>Bangcoc, 24\/10\/2005 &ndash; Sem nenhum resqu&iacute;cio de vergonha, vozes do establishment pol&iacute;tico do mundo rico deixam evid&ecirc;ncia de que, para eles, a vida de um ser humano no Norte vale mais do que a de outro no Sul. O senador norte-americano Chuck Schumer amea&ccedil;ou a companhia farmac&ecirc;utica Roche para que abra m&atilde;o de seu direito de proteger a patente do Tamiflu, &uacute;nico rem&eacute;dio capaz, hoje, de combater o v&iacute;rus H5N1, a cepa da gripe avi&aacute;ria que se transmite para seres humanos. Segundo Schumer, a Roche deveria permitir a produ&ccedil;&atilde;o do medicamento por outros laborat&oacute;rios, pois n&atilde;o tem capacidade para fabric&aacute;-lo em quantidade suficiente, enquanto cresce o temor de que ocorra uma pandemia de gripe do frango, o que pode ocorrer se uma muta&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus permitir seu cont&aacute;gio entre humanos.<br \/> <!--more--> <br \/> &quot;Se n&atilde;o come&ccedil;arem a ceder a patente do Tamiflu para aumentar radicalmente sua produ&ccedil;&atilde;o mundial, proporei um &quot;rem&eacute;dio legislativo&quot; por m&ecirc;s a partir de hoje&quot;, advertiu o legislador norte-americano. A Roche coloca seu pr&oacute;prio interesse acima da sa&uacute;de mundial, quando temos uma pandemia potencial que pode ocorrer a qualquer momento&quot;, acrescentou. Na quinta-feira passada, cinco dias ap&oacute;s a advert&ecirc;ncia, o laborat&oacute;rio cedeu a licen&ccedil;a a quatro empresas norte-americanas, que poder&atilde;o fabricar o Tamiflu como gen&eacute;rico, que s&atilde;o os rem&eacute;dios identificados pelo nome de seu princ&iacute;pio ativo e muito mais baratos do que seus equivalentes de marca.<\/p>\n<p> Um pensamento t&atilde;o iluminado &#8211; que a sa&uacute;de p&uacute;blica tem mais import&acirc;ncia do que o lucro da Roche &#8211; surgiu somente depois de saber-se que o v&iacute;rus H5N1, que ataca o sudeste da &Aacute;sia desde janeiro de 2004, cruzou as fronteiras da Europa. As autoridades sanit&aacute;rias europ&eacute;ias sentiram, ent&atilde;o, que esta virada nos acontecimentos era suficiente para qualificar a gripe avi&aacute;ria como &quot;amea&ccedil;a mundial&quot;. E, para salvar seus cidad&atilde;os, funcion&aacute;rios da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia iniciaram um di&aacute;logo com a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica. Os pol&iacute;ticos asi&aacute;ticos, por outro lado, consideraram que n&atilde;o podiam se dar ao luxo de se comportar como seus colegas dos Estados Unidos e da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, apesar dos 60 mortos registrados na regi&atilde;o, 43 no Vietn&atilde; e 13 na Tail&acirc;ndia, para citar apenas dois pa&iacute;ses.<\/p>\n<p> Esses pa&iacute;ses, e os do Sul em desenvolvimento, em geral, conhecem bem a rudeza com que Washington e Bruxelas defendem as patentes dos grandes laborat&oacute;rios. E n&atilde;o s&oacute; os de medicamentos que combatem a gripe do frango, como tamb&eacute;m de outros contra numerosos males que anualmente cobram milh&otilde;es de vidas. &quot;A rea&ccedil;&atilde;o nos Estados Unidos e na Uni&atilde;o Europ&eacute;ia n&atilde;o s&oacute; reflete um duplo discurso como tamb&eacute;m &eacute; absurda&quot;, disse &agrave; IPS Nicola Bullard, pesquisadora do centro acad&ecirc;mico Focus on the Global South, com sede em Bangcoc. &quot;&Eacute; um absurdo porque querem que a Roche renuncie aos seus direitos de patente para combater uma doen&ccedil;a que &eacute; somente uma amea&ccedil;a e n&atilde;o existe como pandemia humana&quot;, afirmou Bullard.<\/p>\n<p> N&atilde;o houve compaix&atilde;o dos l&iacute;deres dos Estados Unidos e da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia com os afetados por pandemias como as da aids, tuberculose e mal&aacute;ria no Sul em desenvolvimento, com escasso acesso a medicamentos muito caros, segundo a especialista. A aids matou mais de tr&ecirc;s milh&otilde;es de pessoas no ano passado, a maioria na &Aacute;frica; a tuberculose fez dois milh&otilde;es de v&iacute;timas fatais e a mal&aacute;ria um milh&atilde;o. No m&ecirc;s passado, a organiza&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria M&eacute;dicos Sem Fronteiras escreveu &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio uma carta p&uacute;blica advertindo sobre as conseq&uuml;&ecirc;ncias de se colocar o lucro acima da vida humana. &quot;A crise da aids demonstra a urgente necessidade de se garantir a disponibilidade de rem&eacute;dios essenciais a pre&ccedil;os acess&iacute;veis&quot;, disse a MSF ao novo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy.<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o vai piorar, segundo a organiza&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria, &quot;na medida em que o impacto da prote&ccedil;&atilde;o das patentes sobre rem&eacute;dios para tratamento da aids se torne mais evidente nos pr&oacute;ximos cinco anos&quot;. O Camboja, um dos pa&iacute;ses mais pobres da &Aacute;sia, &eacute; um caso digno de estudo. Ao integrar-se &agrave; OMC, no ano passado, enfrentava a poss&iacute;vel perda de acesso a medicamentos gen&eacute;ricos baratos que retardam o desenvolvimento da aids nos portadores do v&iacute;rus de defici&ecirc;ncia imunol&oacute;gica humana (HIV). Essa possibilidade era alimentada pela press&atilde;o dos Estados Unidos e da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, onde est&aacute; radicada a maioria das grandes companhias farmac&ecirc;uticas.<\/p>\n<p> O Camboj&aacute; tem a mais alta taxa de HIV na &Aacute;sia do Pac&iacute;fico: quase 1,9% dos adultos &eacute; portador do v&iacute;rus. Atualmente, segundo o Programa Conjunto das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o HIV\/aids (Onusida), carecem de acesso a medicamentos contra a aids mais da metade dos seis milh&otilde;es de portadores do v&iacute;rus que os necessitam no Sul, o que os condena a uma morte precoce e evit&aacute;vel. Por outro lado, os portadores do HIV no Norte industrializado t&ecirc;m uma ampla disponibilidade de medicamentos anti-retrovirais e a capacidade econ&ocirc;mica para compr&aacute;-los.<\/p>\n<p> Contudo, esta n&atilde;o &eacute; a primeira vez que o mundo presencia o espet&aacute;culo de pol&iacute;ticos do Norte ignorando um princ&iacute;pio que eles mesmos cristalizaram &#8211; como a prote&ccedil;&atilde;o das patentes farmac&ecirc;uticas -, como conseq&uuml;&ecirc;ncia de uma crise de sa&uacute;de p&uacute;blica que afeta seus pa&iacute;ses. Alemanha, Austr&aacute;lia, Canad&aacute;, Estados Unidos, Gr&atilde;-Bretanha, It&aacute;lia e Nova Zel&acirc;ndia, entre outros pa&iacute;ses, violam as normas internacionais sobre propriedade intelectual quando enfrentam emerg&ecirc;ncias de sa&uacute;de p&uacute;blica. O fazem atrav&eacute;s da &quot;licen&ccedil;a obrigat&oacute;ria&quot;, uma medida prevista na legisla&ccedil;&atilde;o de muitas na&ccedil;&otilde;es e que lhes permite autorizar a fabrica&ccedil;&atilde;o do medicamento por outros laborat&oacute;rios instalados no pa&iacute;s, estabelecendo uma remunera&ccedil;&atilde;o fixa para o laborat&oacute;rio propriet&aacute;rio da patente.<\/p>\n<p> O Canad&aacute; determinou 613 licen&ccedil;as compuls&oacute;rias para a importa&ccedil;&atilde;o ou fabrica&ccedil;&atilde;o de gen&eacute;ricos entre 1969 e 1992, e pagava aos laborat&oacute;rios donos da patente 4% sobre o pre&ccedil;o l&iacute;quido de venda, informou a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas em um antigo relat&oacute;rio. &quot;Nos Estados Unidos, a licen&ccedil;a compuls&oacute;ria foi usada em mais de cem acordos extra-judiciais em processos anti-truste, referentes a antibi&oacute;ticos, ester&oacute;ides sint&eacute;ticos e diversas patentes biotecnol&oacute;gicas&quot;, acrescenta o informe. Entretanto, como disse Bullard, nega-se esse privil&eacute;gio aos governos do mundo em desenvolvimento, como se a vida dos pobres valesse menos do que a dos ricos. A bem-sucedida advert&ecirc;ncia do senador norte-americano Schumer refor&ccedil;a essa id&eacute;ia, acrescenta a ativista. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bangcoc, 24\/10\/2005 &ndash; Sem nenhum resqu&iacute;cio de vergonha, vozes do establishment pol&iacute;tico do mundo rico deixam evid&ecirc;ncia de que, para eles, a vida de um ser humano no Norte vale mais do que a de outro no Sul. O senador norte-americano Chuck Schumer amea&ccedil;ou a companhia farmac&ecirc;utica Roche para que abra m&atilde;o de seu direito de proteger a patente do Tamiflu, &uacute;nico rem&eacute;dio capaz, hoje, de combater o v&iacute;rus H5N1, a cepa da gripe avi&aacute;ria que se transmite para seres humanos. Segundo Schumer, a Roche deveria permitir a produ&ccedil;&atilde;o do medicamento por outros laborat&oacute;rios, pois n&atilde;o tem capacidade para fabric&aacute;-lo em quantidade suficiente, enquanto cresce o temor de que ocorra uma pandemia de gripe do frango, o que pode ocorrer se uma muta&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus permitir seu cont&aacute;gio entre humanos.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/mundo\/sade-laboratrios-se-fazem-de-surdos-para-o-sul\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":133,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/133"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}