{"id":1138,"date":"2005-10-26T00:00:00","date_gmt":"2005-10-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1138"},"modified":"2005-10-26T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-26T00:00:00","slug":"nepal-o-rei-promete-eleies-mas-censura-a-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/politica\/nepal-o-rei-promete-eleies-mas-censura-a-imprensa\/","title":{"rendered":"Nepal: O rei promete elei&ccedil;&otilde;es, mas censura a imprensa"},"content":{"rendered":"<p>Katmandu, 26\/10\/2005 &ndash; O rei Gyanendra, que desde o golpe de Estado de fevereiro concentra todo o poder no Nepal, anunciou que pretende restaurar a democracia at&eacute; 2008, mas tamb&eacute;m imp&ocirc;s uma f&eacute;rrea censura &agrave; imprensa, o que desmente seu compromisso de concilia&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s desmantelar o governo e administrar o pa&iacute;s atrav&eacute;s de um gabinete escolhido a dedo, o compromisso de convocar elei&ccedil;&otilde;es parlamentares para 2007, um ano antes do previsto, pode ser interpretado como um sinal animador em uma na&ccedil;&atilde;o onde a esperan&ccedil;a parece se esgotar. Durante quase 10 anos a popula&ccedil;&atilde;o nepalesa esteve atormentada por uma sangrenta guerra entre rebeldes mao&iacute;stas e for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, que deixou mais de 12 mil mortos, a maioria camponeses inocentes. A incapacidade do governo deposto para acabar com a guerrilha foi a desculpa do golpe de Estado de 1&ordm; de fevereiro.<br \/> <!--more--> <br \/> Desde ent&atilde;o, a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no Nepal est&aacute; polarizada entre o pal&aacute;cio real e os partidos pol&iacute;ticos. A esperan&ccedil;a de que o an&uacute;ncio de elei&ccedil;&otilde;es fosse um passo rumo &agrave; concilia&ccedil;&atilde;o evaporou abruptamente, entretanto, quando foram conhecidas as novas leis de imprensa impostas por Gyanendra. Estas normas pro&iacute;bem, paradoxalmente, referir-se de forma negativa aos partidos pol&iacute;ticos e tamb&eacute;m ao monarca e a qualquer membro da fam&iacute;lia real. Al&eacute;m disso, determina que uma mesma empresa seja impedida de operar ao mesmo tempo meios de comunica&ccedil;&atilde;o impressa, emissoras de r&aacute;dio e canais de televis&atilde;o, medida que os observadores consideram dirigida contra o grupo Kantipur, que se manifesta a favor do processo democr&aacute;tico.<\/p>\n<p> As novas leis pro&iacute;bem, ainda, a divulga&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias atrav&eacute;s de emissoras FM, tipifica as transgress&otilde;es &agrave;s normas de imprensa como delito penal e multiplica por 10 as penas a serem aplicadas a quem for condenado. O Conselho de Imprensa do governo tem agora o poder de cancelar os credenciamentos dos jornalistas considerados violadores da lei de imprensa. &quot;&Eacute; muito dif&iacute;cil resgatar algo positivo do que fez o governo, inclusive no an&uacute;ncio das elei&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o se pode falar de elei&ccedil;&otilde;es e, ao mesmo tempo, aprovar esse tipo de legisla&ccedil;&atilde;o&quot;, disse o coordenador do Movimento de Cidad&atilde;os pela Democracia e a Paz, Devendra Raj Panday.<\/p>\n<p> Nos &uacute;ltimos meses, esta organiza&ccedil;&atilde;o realizou numerosas manifesta&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas em Katmandu e conseguiu atrair milhares de pessoas para protestar contra o golpe de Estado. Como muitos outros no Nepal, Panday, ex-funcion&aacute;rio do Estado, acredita que as decis&otilde;es do rei t&ecirc;m ra&iacute;zes profundas. &quot;Isso j&aacute; se podia ver. N&atilde;o s&oacute; quando em 1&ordm; de fevereiro dep&ocirc;s o governo que ele mesmo havia nomeado, como j&aacute; em outubro de 2002&quot;, quando dissolveu o parlamento eleito, disse Panday &agrave; IPS. &quot;Muitos de n&oacute;s sentimos que queria seguir o mesmo caminho que Musharraf&quot;, acrescentou o ativista, se referindo ao general Pervez Musharraf, que em 1999 liderou um golpe de Estado no Paquist&atilde;o e dois anos mais tarde se autoproclamou presidente do pa&iacute;s.<\/p>\n<p> O golpe palaciano de Gyanendra incluiu em seu momento o corte de todas as linhas telef&ocirc;nicas no Nepal, pequeno pa&iacute;s situado na cordilheira do Himalaia, junto ao Tibet, tendo ao sul, leste e oeste a &Iacute;ndia e, ao norte, a China. Depois do golpe foi decretado estado de emerg&ecirc;ncia que durou tr&ecirc;s meses, durante o qual milhares de ativistas, jornalistas ou simplesmente suspeitos de planejar contra as autoridades foram jogados na pris&atilde;o ou impedidos de viajar ao estrangeiro e, inclusive, dentro do Nepal. O fim do estado de emerg&ecirc;ncia permitiu a liberta&ccedil;&atilde;o de muitos presos pol&iacute;ticos e criou esperan&ccedil;as de que o monarca estava disposto a devolver o poder &agrave; cidadania.<\/p>\n<p> Mas desde ent&atilde;o, o conselho que assessora o rei aprovou uma s&eacute;rie de determina&ccedil;&otilde;es que sup&otilde;em um f&eacute;rreo controle social. Do mesmo modo, o Conselho de Bem-Estar Social, formado para &quot;ajudar&quot; as organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais, agora foi autorizado a &quot;supervisionar&quot; as atividades dessas entidades segundo o c&oacute;digo de conduta que ele mesmo elaborou. O representante do Nepal no Escrit&oacute;rio do Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Direitos Humanos disse no &uacute;ltimo dia 5 que esse c&oacute;digo &quot;impor&aacute; restri&ccedil;&otilde;es aos membros, objetivos e programas de a&ccedil;&atilde;o, ao acesso a financiamento e &agrave; filia&ccedil;&atilde;o a outras organiza&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais&quot;. Segundo este diplomata nepal&ecirc;s, tais filia&ccedil;&otilde;es s&atilde;o &quot;incompat&iacute;veis com os padr&otilde;es internacionais em mat&eacute;ria de direitos humanos&quot;.<\/p>\n<p> As modifica&ccedil;&otilde;es da legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista tamb&eacute;m fortaleceram o governo. Entre outras coisas, permitem &agrave;s autoridades designar algumas ind&uacute;strias como &quot;baseadas na ordem&quot;. Nelas, os trabalhadores poder&atilde;o ser demitidos com apenas 15 dias de aviso pr&eacute;vio e aumentar&aacute; o per&iacute;odo de experi&ecirc;ncia dos novos empregados. &quot;N&atilde;o considero de forma isolada nenhuma destas medidas tomadas pelo rei, mas como parte de um todo&quot;, disse Panday, que abandonou seu emprego no governo para aderir &aacute; mobiliza&ccedil;&atilde;o popular de rua que em 1990 conseguiu impor a democracia multipartid&aacute;ria. &quot;Devemos nos perguntar quais s&atilde;o suas motiva&ccedil;&otilde;es, o que tenta fazer, que tipo de regime pretende e com que tipo de pessoas conta. O rei quer centralizar todo o poder no pal&aacute;cio real&quot;, afirmou.<\/p>\n<p> A &uacute;nica boa not&iacute;cia, para Panday, &eacute; o cessar-fogo por tr&ecirc;s meses declarado unilateralmente pelos guerrilheiros mao&iacute;stas no dia 3 de setembro. Entretanto, o governo se recusou a corresponder &agrave; essa medida deixando de lado ele mesmo as armas, com o argumento de que desconfia dos rebeldes. Mas inclusive o cessar-fogo &eacute; uma vit&oacute;ria pela metade: a quantidade de v&iacute;timas diminuiu, mas os mao&iacute;stas continuam cobrando &quot;impostos&quot; dos camponeses e seq&uuml;estrando estudantes e professores para &quot;reeduc&aacute;-los&quot;. Os soldados aproveitam a tr&eacute;gua para atacar os rebeldes desarmados e os suspeitos de simpatizarem com eles.<\/p>\n<p> Em seu an&uacute;ncio, Gyanendra tamb&eacute;m fixou a data das elei&ccedil;&otilde;es municipais para 8 de fevereiro pr&oacute;ximo. Os principais partidos pol&iacute;ticos j&aacute; manifestaram que boicotar&atilde;o o chamado &agrave;s urnas, a menos que o governo restaure o parlamento dissolvido. Esta semana, os partidos anunciaram que em breve reiniciar&atilde;o por si mesmos o di&aacute;logo de paz com os rebeldes, o que levou o governo a qualificar os pol&iacute;ticos de &quot;terroristas&quot;. O governo se recusa a aceitar a media&ccedil;&atilde;o internacional e n&atilde;o d&aacute; sinais de que possa derrotar militarmente os rebeldes nem de chegar a um acordo com os partidos. Enquanto isso, o cessar-fogo mao&iacute;sta e as conversa&ccedil;&otilde;es de paz entre partidos pol&iacute;ticos e rebeldes representam, pelo menos, algum f&ocirc;lego e um pouco de esperan&ccedil;a para o sofrido povo nepal&ecirc;s. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Katmandu, 26\/10\/2005 &ndash; O rei Gyanendra, que desde o golpe de Estado de fevereiro concentra todo o poder no Nepal, anunciou que pretende restaurar a democracia at&eacute; 2008, mas tamb&eacute;m imp&ocirc;s uma f&eacute;rrea censura &agrave; imprensa, o que desmente seu compromisso de concilia&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s desmantelar o governo e administrar o pa&iacute;s atrav&eacute;s de um gabinete escolhido a dedo, o compromisso de convocar elei&ccedil;&otilde;es parlamentares para 2007, um ano antes do previsto, pode ser interpretado como um sinal animador em uma na&ccedil;&atilde;o onde a esperan&ccedil;a parece se esgotar. Durante quase 10 anos a popula&ccedil;&atilde;o nepalesa esteve atormentada por uma sangrenta guerra entre rebeldes mao&iacute;stas e for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, que deixou mais de 12 mil mortos, a maioria camponeses inocentes. 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