{"id":11431,"date":"2013-02-26T06:16:31","date_gmt":"2013-02-26T06:16:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11431"},"modified":"2013-02-26T06:16:31","modified_gmt":"2013-02-26T06:16:31","slug":"exportao-ou-explorao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/02\/america-latina\/exportao-ou-explorao\/","title":{"rendered":"Exporta&ccedil;&atilde;o ou explora&ccedil;&atilde;o?"},"content":{"rendered":"<p>Porto Pr&iacute;ncipe, Haiti, 26\/02\/2013 &ndash; (Terram&eacute;rica).- Enquanto a atividade econ&ocirc;mica do Haiti perde for&ccedil;as, as importa&ccedil;&otilde;es vindas do outro lado da fronteira, da Rep&uacute;blica Dominicana, legais ou contrabandeadas, inundam o mercado.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11431\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/am11-300x212.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11431\" class=\"size-medium wp-image-11431\" title=\"Montanhas de alimentos dominicanos \u00c3\u00a0 venda em um mercado de rua em P&eacute;tion-Ville, sub&uacute;rbio de Porto Pr\u00c3\u00adncipe. - Jude Stanley Roy\/HGW\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/am11-300x212.jpg\" alt=\"Montanhas de alimentos dominicanos \u00c3\u00a0 venda em um mercado de rua em P&eacute;tion-Ville, sub&uacute;rbio de Porto Pr\u00c3\u00adncipe. - Jude Stanley Roy\/HGW\" width=\"200\" height=\"141\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11431\" class=\"wp-caption-text\">Montanhas de alimentos dominicanos \u00c3  venda em um mercado de rua em P&eacute;tion-Ville, sub&uacute;rbio de Porto Pr\u00c3\u00adncipe. - Jude Stanley Roy\/HGW<\/p><\/div>  &quot;Eu compro tudo entre Haiti e Rep&uacute;blica Dominicana: cenoura, ab&oacute;bora, berinjela, repolho, piment&atilde;o, ovos e salame&quot;, conta a dona de um ponto repleto de produtos no mercado de rua de Croix des Bossales, na capital haitiana.             &quot;A fronteira nos d&aacute; de comer&quot;, contou a comerciante, que n&atilde;o quis dar seu nome temendo os fiscais de impostos. A mulher vende vegetais e outros alimentos no maior mercado de Porto Pr&iacute;ncipe, onde, como nos supermercados haitianos, abundam montanhas de massas, ovos e bananas, pilhas de molho de tomate, ketchup, maionese e outros alimentos processados, todos dominicanos.<\/p>\n<p>O Haiti tem comida. Contudo, a produ&ccedil;&atilde;o &eacute; cada vez menor neste pa&iacute;s e uma grande quantidade procede da vizinha Rep&uacute;blica Dominicana, com a qual compartilha a ilha La Espanhola, conforme comprovou a investiga&ccedil;&atilde;o feita para esta mat&eacute;ria. Os comerciantes custam a encontrar produtos nacionais. &quot;Existem poucos&quot;, diz outra vendedora sentada junto a uma torre de ovos embalados em caixas de papel&atilde;o dominicano.<\/p>\n<p>Em outros estabelecimentos, os sacos de cimento chegam at&eacute; o teto. Na maior parte das oito lojas que vendem este produto visitadas pelos jornalistas do Haiti Grassroots Watch (HGW), os respons&aacute;veis garantiram que o importado &eacute; mais barato do que o nacional, &quot;embora de pior qualidade&quot;. A HGW n&atilde;o conseguiu obter dados precisos sobre a quantidade de cimento exportado pela Rep&uacute;blica Dominicana para o Haiti. Mas a Associa&ccedil;&atilde;o Dominicana de Produtores de Cimento Portland garante que seis grandes empresas empregam 15 mil pessoas e que seu produto constitui 21% das vendas nacionais para o exterior.<\/p>\n<p>O Haiti precisa desses produtos. Mas o fluxo comercial dominicano &eacute; uma simples exporta&ccedil;&atilde;o ou o vizinho est&aacute; explorando a ocasi&atilde;o de uma economia demolida pelo terremoto de 2010? O Haiti sempre teve uma economia aberta. Os governos posteriores &agrave; independ&ecirc;ncia de 1804 raramente desenvolveram pol&iacute;ticas de incentivo &agrave; ind&uacute;stria e de moderniza&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. As elites locais tendiam a exportar produtos b&aacute;sicos &#8211; caf&eacute;, cacau, &iacute;ndigo e a&ccedil;&uacute;car &#8211; e a importar alimentos processados e manufaturados.<\/p>\n<p>Mais tarde, o Haiti n&atilde;o aderiu &agrave; onda de substitui&ccedil;&atilde;o de importa&ccedil;&otilde;es adotada por muitas na&ccedil;&otilde;es da Am&eacute;rica Latina, &Aacute;frica e &Aacute;sia, sobretudo nas d&eacute;cadas de 1950 e 1960. Por&eacute;m, ao menos at&eacute; 1970, o Haiti era quase autossuficiente em itens como vegetais, frutas, carne e cimento. A partir de ent&atilde;o, sua balan&ccedil;a comercial ficou cada vez mais negativa. &quot;Seguimos um modelo que enfraquece os setores produtivos em benef&iacute;cio dos importadores&quot;, disse o economista Camille Chalmers, professor da Universidade Estatal do Haiti e diretor de uma rede de organiza&ccedil;&otilde;es que promovem um &quot;desenvolvimento alternativo&quot;.<\/p>\n<p>A Rep&uacute;blica Dominicana tomou um caminho diferente. Seu modelo data de &quot;50 ou 60 anos atr&aacute;s&quot;, segundo Mar&iacute;a Isabel Gass&oacute;, presidente da C&acirc;mara de Com&eacute;rcio e Produ&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Domingo. &quot;Durante um tempo, houve leis que promoviam a ind&uacute;stria e a produ&ccedil;&atilde;o, bem como as exporta&ccedil;&otilde;es e as zonas francas. Essas ind&uacute;strias estiveram ali por anos e se beneficiaram de v&aacute;rias pol&iacute;ticas&quot;, explicou.<\/p>\n<p>No final do s&eacute;culo 20, as pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas neoliberais &#8211; redu&ccedil;&atilde;o de tarifas alfandeg&aacute;rias, privatiza&ccedil;&atilde;o de estatais e redu&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os sociais &#8211; custaram caro &agrave; fr&aacute;gil economia haitiana. As tarifas alfandeg&aacute;rias sobre alimentos e outros produtos agr&iacute;colas importados ca&iacute;ram pela primeira vez em 1982, e em 1995 foram reduzidas para valores entre zero e 3%. Hoje, este pa&iacute;s tem as menores tarifas de toda a regi&atilde;o do Caribe.<\/p>\n<p>Essas redu&ccedil;&otilde;es foram parte do acordo forjado em 1994, entre o exilado presidente Jean-Bertrand Aristide, Estados Unidos e o Fundo Monet&aacute;rio Internacional (FMI), pelo qual o mandat&aacute;rio colocaria em pr&aacute;tica uma s&eacute;rie de pol&iacute;ticas de liberaliza&ccedil;&atilde;o em troca de ser reconduzido ao cargo, do qual fora derrubado por um golpe de Estado em 1991.<\/p>\n<p>Segundo o FMI, a balan&ccedil;a comercial passou de US$ 500 milh&otilde;es em 1995 para US$ 2,2 bilh&otilde;es no ano fiscal 2011-2012. E da mesma maneira aumentou o &quot;d&eacute;ficit&quot; alimentar (quantia dedicada &agrave; importa&ccedil;&atilde;o de alimentos): de US$ 242 milh&otilde;es em 2000 para US$ 342 milh&otilde;es em 2007. O Minist&eacute;rio da Agricultura assegura que em 2005 o Haiti importava 57% de seus alimentos, uma porcentagem que atualmente &eacute; muito mais alta. O diretor-geral do Minist&eacute;rio de Com&eacute;rcio, Luc Esp&eacute;ca, est&aacute; consciente dos danos dessas pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p>&quot;Os produtores locais n&atilde;o podem vender o que plantam. Quando algu&eacute;m trabalha duro para produzir algo, mas depois n&atilde;o tem lucro, desanima&quot;, afirmou Esp&eacute;ca. Al&eacute;m disso, o governo de Aristide precisou privatizar v&aacute;rias atividades, incluindo a produ&ccedil;&atilde;o de cimento, embora o pa&iacute;s possua todas as mat&eacute;rias-primas necess&aacute;rias. Entretanto, as baixas tarifas alfandeg&aacute;rias e as importa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o a &uacute;nica raz&atilde;o para a agricultura nacional n&atilde;o atender a demanda de uma popula&ccedil;&atilde;o que aumenta. Tamb&eacute;m contribu&iacute;ram a falta de investimentos e o antiquado sistema de posse da terra.<\/p>\n<p>&quot;Quando regressei ao Haiti, em 1976, produz&iacute;amos de tudo: tubula&ccedil;&otilde;es, cimento, etc.&quot;, recorda o empres&aacute;rio G&eacute;rard Emile &quot;Aby&quot; Brun, vice-presidente da empresa haitiana de constru&ccedil;&atilde;o Tecina, lamentando que o pa&iacute;s tenha perdido essa produ&ccedil;&atilde;o. O mesmo aconteceu com a telefonia estatal, &quot;o moinho de trigo e todo o resto&quot;, apontou. Brun atribui parte da culpa aos &quot;capitalistas haitianos&quot;, grupo que integra. &quot;O capitalismo teme a instabilidade e a corrup&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o quer correr riscos e esperar dez ou 15 anos para colher o lucro. Na verdade, os industriais haitianos n&atilde;o t&ecirc;m nada de industriais. Tr&ecirc;s quartos deles s&atilde;o comerciantes ou vendedores varejistas&quot;.<\/p>\n<p>Enquanto os produtores dominicanos capitalizam essa debilidade, em particular desde o terremoto de janeiro de 2010, &quot;o Estado haitiano n&atilde;o defende os atores econ&ocirc;micos&quot;, lamentou Chalmers. J&aacute; a dirigente empresarial dominicana Gass&oacute; vai mais longe: &quot;Gostaria de ver produtos haitianos aqui, mas o governo desse pa&iacute;s que de deve promover o que for preciso l&aacute; para haver exporta&ccedil;&otilde;es. Falta um plano. Quando um navio parte sem destino, n&atilde;o chega a lugar algum&quot;.<\/p>\n<p>Rodeada por montanhas de vegetais dominicanos, a vendedora de Croix de Bossales s&oacute; poderia concordar. &quot;Necessitamos uma mudan&ccedil;a, mas de onde vir&aacute;? S&oacute; o que ouvimos s&atilde;o lindas palavras. As pessoas devem se conscientizar e ent&atilde;o poderemos resgatar nosso pa&iacute;s desta situa&ccedil;&atilde;o terr&iacute;vel&quot;, pontuou. Em 12 de janeiro de 2010 o terremoto que matou 200 mil pessoas e deixou um milh&atilde;o de desabrigados, tamb&eacute;m destruiu 8% dos bens da capital, segundo o Banco Mundial, e tamb&eacute;m causou perdas de US$ 8 milh&otilde;es no setor agr&iacute;cola, de acordo com o governo. Houve colheitas perdidas, infraestrutura de transporte danificada e sistemas de irriga&ccedil;&atilde;o severamente afetados.<\/p>\n<p>A necessidade de alimentos e de outros produtos, para as v&iacute;timas e os milhares de trabalhadores humanit&aacute;rios que chegaram pouco depois, foi uma ben&ccedil;&atilde;o para a agricultura e a ind&uacute;stria do pa&iacute;s vizinho, &quot;especialmente para os produtores de materiais de constru&ccedil;&atilde;o&quot;, disse Circ&eacute; Almanzar Melgen, a vice-presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de Ind&uacute;strias da Rep&uacute;blica Dominicana. Em 2000, apenas 3% das vendas dominicanas para o exterior seguiam para seu vizinho. Nove anos depois, esse fluxo era de 15%, indica o informe do Banco Mundial Haiti, Rep&uacute;blica Dominicana: mais que a soma das partes, divulgado no ano passado.<\/p>\n<p>A partir do terremoto, &quot;as exporta&ccedil;&otilde;es dominicanas para o Haiti cresceram consideravelmente&quot;: em 2009 somavam US$ 647,3 milh&otilde;es, e em 2011 chegaram a US$ 1,018 bilh&atilde;o, segundo a diretora de Planejamento e Desenvolvimento do Minist&eacute;rio da Economia da Rep&uacute;blica Dominicana, Magdalena Lizardo. Gass&oacute; tem claras as raz&otilde;es: &quot;Em primeiro lugar, voc&ecirc; necessita de certos produtos. H&aacute; um mercado que est&aacute; comprando, mas n&atilde;o h&aacute; fornecedores para abastec&ecirc;-lo. Se havia f&aacute;bricas e ind&uacute;strias que sofreram (pelo terremoto), ent&atilde;o haver&aacute; mais necessidade. Envolverde\/Terram&eacute;rcia<\/p>\n<p>* Os autores s&atilde;o correspondentes da IPS e da Haiti Grassroots Watch. A Haiti Grassroots Watch &eacute; uma associa&ccedil;&atilde;o entre Alterpesse, Sociedade para a Anima&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o Social, Rede de Radioemissoras Comunit&aacute;rias de Mulheres, Associa&ccedil;&atilde;o de Meios Comunit&aacute;rios Haitianos e estudantes do laborat&oacute;rio de jornalismo da Universidade Estatal do Haiti. Esta cobertura tem financiamento da Uni&atilde;o Europeia e &eacute; coordenada pela C&aacute;tedra Unesco de Comunica&ccedil;&atilde;o, Democracia e Governabilidade da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica Madre e Maestra da Rep&uacute;blica Dominicana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Pr&iacute;ncipe, Haiti, 26\/02\/2013 &ndash; (Terram&eacute;rica).- Enquanto a atividade econ&ocirc;mica do Haiti perde for&ccedil;as, as importa&ccedil;&otilde;es vindas do outro lado da fronteira, da Rep&uacute;blica Dominicana, legais ou contrabandeadas, inundam o mercado. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/02\/america-latina\/exportao-ou-explorao\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[15,21],"class_list":["post-11431","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-caribe","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11431","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11431\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}