{"id":11454,"date":"2013-02-28T10:02:26","date_gmt":"2013-02-28T10:02:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11454"},"modified":"2013-02-28T10:02:26","modified_gmt":"2013-02-28T10:02:26","slug":"direitos-humanos-tem-momento-decisivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/02\/america-latina\/direitos-humanos-tem-momento-decisivo\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos tem momento decisivo"},"content":{"rendered":"<p>Porto Alegre, Brasil, 28\/02\/2013 &ndash; Mar&ccedil;o ser&aacute; um m&ecirc;s importante para definir o futuro do apedrejado Sistema Interamericano de Direitos Humanos. <!--more--> O dia 22 de mar&ccedil;o &eacute; a data limite para que os membros da Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos (OEA) apresentem propostas de reforma deste sistema de justi&ccedil;a internacional, que nasceu em 1948 para promover e proteger garantias fundamentais estabelecidas na Declara&ccedil;&atilde;o Americana sobre Direitos e Deveres do Homem e na Declara&ccedil;&atilde;o Universal de Direitos Humanos.<\/p>\n<p>O sistema &eacute; formado por dois &oacute;rg&atilde;os aut&ocirc;nomos: a Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos, com sede em Washington, e o Tribunal Interamericano de Direitos Humanos, com sede em San Jos&eacute;, na Costa Rica. Sua principal fun&ccedil;&atilde;o &eacute; fiscalizar o cumprimento da Conven&ccedil;&atilde;o Americana sobre Direitos Humanos, adotada em 1969.<\/p>\n<p>O governo do Equador deu o pontap&eacute; inicial, e tamb&eacute;m lidera um esfor&ccedil;o para criar um sistema de justi&ccedil;a paralelo, no contexto da Uni&atilde;o de Na&ccedil;&otilde;es Sul-Americanas (Unasul), que, no entanto, at&eacute; agora n&atilde;o se concretizou. Por sua vez, a Venezuela denunciou a Conven&ccedil;&atilde;o Americana em setembro de 2012.<\/p>\n<p>O debate foi lan&ccedil;ado em junho de 2011 com a cria&ccedil;&atilde;o de um grupo de trabalho dentro da OEA. Desde ent&atilde;o, s&atilde;o realizados f&oacute;runs, audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas e consultas eletr&ocirc;nicas para estudar diferentes recomenda&ccedil;&otilde;es. Destacam-se as propostas de restringir o poder da Comiss&atilde;o de adotar medidas cautelares, suprimir a an&aacute;lise de pa&iacute;ses com viola&ccedil;&otilde;es maci&ccedil;as e limitar as faculdades de relatorias especiais, como a de Liberdade de Express&atilde;o.<\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o tem faculdades pol&iacute;ticas &#8211; realizar visitas espec&iacute;ficas e emitir recomenda&ccedil;&otilde;es e informes &#8211; e quase judiciais: receber den&uacute;ncias de particulares ou organiza&ccedil;&otilde;es, determinar se s&atilde;o admiss&iacute;veis, solicitar aos Estados medidas cautelares e levar casos ao Tribunal. Este tem fun&ccedil;&otilde;es contenciosas, consultivas e de ado&ccedil;&atilde;o de medidas provis&oacute;rias. Suas senten&ccedil;as s&atilde;o definitivas e inapel&aacute;veis.<\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es do Brasil com a Comiss&atilde;o ficaram abaladas quando esta solicitou, em abril de 2011, que o pa&iacute;s &quot;suspendesse imediatamente&quot; de forma cautelar a licen&ccedil;a para o projeto hidrel&eacute;trico de Belo Monte, no Rio Xingu, na Amaz&ocirc;nia, para proteger a sa&uacute;de das comunidades ind&iacute;genas afetadas pela obra.<\/p>\n<p>Bras&iacute;lia n&atilde;o acatou. Mas a posi&ccedil;&atilde;o brasileira foi mal interpretada, segundo a Divis&atilde;o de Direitos Humanos do Minist&eacute;rio das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores, que designou um de seus representantes para responder &agrave; IPS, solicitando que n&atilde;o o identificasse. O Brasil j&aacute; estava cumprindo as exig&ecirc;ncias da Comiss&atilde;o a partir de demandas de &oacute;rg&atilde;os de fiscaliza&ccedil;&atilde;o nacionais e seu apoio &agrave; reforma n&atilde;o foi consequ&ecirc;ncia dessa senten&ccedil;a, afirmou a fonte diplom&aacute;tica.<\/p>\n<p>O certo &eacute; que Bras&iacute;lia retirou seu embaixador junto &agrave; OEA e seu candidato a integrar o &oacute;rg&atilde;o colegiado que dirige a Comiss&atilde;o. Em mar&ccedil;o terminar&aacute; o prazo para que os pa&iacute;ses apresentem candidatos e, segundo a Divis&atilde;o de Recursos Humanos da chancelaria, at&eacute; meados deste m&ecirc;s n&atilde;o havia uma decis&atilde;o a respeito.<\/p>\n<p>&quot;As propostas de reformas s&atilde;o apresentadas quando a Comiss&atilde;o e o Tribunal cumprem as obriga&ccedil;&otilde;es acordadas na Conven&ccedil;&atilde;o&quot;, criticou o ativista Jair Krischke, presidente do n&atilde;o governamental Movimento de Justi&ccedil;a e Direitos Humanos, com sede em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, que ganhou notoriedade por revelar o Plano Condor, uma coordena&ccedil;&atilde;o repressiva dos regimes militares da Am&eacute;rica do Sul.<\/p>\n<p>Para Krischke, a posi&ccedil;&atilde;o brasileira n&atilde;o se deve apenas ao caso de Belo Monte, mas a uma senten&ccedil;a do Tribunal que ordenou, em 2010, a entrega dos restos mortais dos desaparecidos na repress&atilde;o militar &agrave; Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1975, e a reparar os danos &agrave;s fam&iacute;lias das v&iacute;timas. O governo afirma que j&aacute; fez repara&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o dos danos morais, como manda o Tribunal, assegurou Krischke &agrave; IPS.<\/p>\n<p>&quot;No Uruguai (diante de outra condena&ccedil;&atilde;o similar), o governo realizou uma cerim&ocirc;nia no parlamento, com a presen&ccedil;a do Presidente da Rep&uacute;blica e pediu perd&atilde;o por seus desaparecidos. No Brasil, nem mesmo foi publicada a senten&ccedil;a do Tribunal&quot;, acrescentou o ativista.<\/p>\n<p>A insatisfa&ccedil;&atilde;o dos governos com o Sistema Interamericano de Direitos Humanos &eacute; incompreens&iacute;vel, observou a professora-associada Deisy de Freitas Lima Ventura, do Instituto de Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). &quot;Quando um Estado soberano faz parte de um sistema regional &eacute; justamente para ouvir cr&iacute;ticas e receber recomenda&ccedil;&otilde;es ou uma condena&ccedil;&atilde;o&quot;, afirmou &agrave; IPS. Os governos de Bol&iacute;via, Col&ocirc;mbia, Equador, Peru e Venezuela est&atilde;o nesta campanha por que este sistema de justi&ccedil;a tocou em aspectos cruciais das agendas de seus presidentes, acrescentou a professora.<\/p>\n<p>&quot;Quando o Sistema Interamericano habilita um pol&iacute;tico opositor na Venezuela a ser candidato ou quando pede respeito aos direitos de jornalistas de um &oacute;rg&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o em conflito com o mandat&aacute;rio do Equador, mexe em assuntos pessoais dos presidentes. Esse foi o caso de Belo Monte e a presidente Dilma Rousseff&quot;, argumentou Ventura.<\/p>\n<p>A postura do Equador tem a ver com decis&otilde;es inc&ocirc;modas sobre quest&otilde;es dom&eacute;sticas, afirmou o professor de direitos humanos Mario Melo, da Universidade Andina Sim&oacute;n Bol&iacute;var e advogado no caso do povo sarayaku versus o Estado equatoriano no Tribunal. Em junho do ano passado, esta corte concluiu que o governo equatoriano havia violado direitos dessa comunidade ind&iacute;gena ao n&atilde;o consult&aacute;-la sobre a instala&ccedil;&atilde;o de uma empresa petroleira em suas terras no come&ccedil;o da d&eacute;cada passada. &quot;&Eacute; um assunto delicado para o governo por sua pol&iacute;tica de amplia&ccedil;&atilde;o da fronteira petroleira em territ&oacute;rios ind&iacute;genas&quot;, opinou.<\/p>\n<p>Nos fatos, a Comiss&atilde;o &eacute;, desde as d&eacute;cadas de 1970 e 1980, um espa&ccedil;o para v&iacute;timas de atropelos que esgotam os recursos internos sem obter justi&ccedil;a ou que enfrentam demoras injustificadas dos sistemas judiciais nacionais.<\/p>\n<p>Camila Asano, coordenadora de pol&iacute;tica externa da Conectas Direitos Humanos, uma organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o governamental com status consultivo junto &agrave; ONU, recordou que assuntos cruciais no Brasil, como trabalho escravo e viol&ecirc;ncia machista, tiveram que passar pela Comiss&atilde;o para se tornarem vis&iacute;veis. Mas os processos s&atilde;o lentos, e esta &eacute; uma das cr&iacute;ticas que se faz &agrave; justi&ccedil;a interamericana. &Agrave;s vezes n&atilde;o h&aacute; tempo para esperar uma decis&atilde;o, por isso s&atilde;o necess&aacute;rias as medidas cautelares, pontuou Asano.<\/p>\n<p>O Equador quer liquidar esse mandato da Comiss&atilde;o, deixando-a apenas para o Tribunal. O Brasil &#8211; para o qual a Comiss&atilde;o emitiu reiteradas medidas cautelares para proteger ativistas, jornalistas, trabalhadores rurais e presos &#8211; reconhece esta compet&ecirc;ncia, mas sugeriu mudan&ccedil;as que tornariam a tramita&ccedil;&atilde;o mais r&iacute;gida e complicada.<\/p>\n<p>A proposta brasileira, segundo o representante da chancelaria, &eacute; que a Comiss&atilde;o fundamente melhor suas decis&otilde;es sobre casos como Belo Monte e que d&ecirc; maior &ecirc;nfase na promo&ccedil;&atilde;o de direitos. &quot;Que n&atilde;o se trate apenas de julgar e punir viola&ccedil;&otilde;es, mas de incentivar as medidas que evitem sua repeti&ccedil;&atilde;o&quot;, ressaltou a fonte.<\/p>\n<p>Outros aspectos questionados pelos Estados s&atilde;o mais preocupantes. Por exemplo, se a Comiss&atilde;o tem compet&ecirc;ncia para produzir informes anuais sobre pa&iacute;ses que mere&ccedil;am aten&ccedil;&atilde;o especial. Delegados de na&ccedil;&otilde;es alegam que esses documentos n&atilde;o deveriam apontar um ou outro Estado, mas todos os membros do sistema.<\/p>\n<p>O fato de Estados Unidos e Canad&aacute; n&atilde;o terem ratificado a Conven&ccedil;&atilde;o Americana, mas ajudarem a financiar a Relatoria Especial sobre Liberdade de Express&atilde;o, gera descontentamento. Uma das propostas &eacute; que as doa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o possam ser destinadas a uma ou outra relatoria.<\/p>\n<p>O Brasil pede uma gest&atilde;o mais transparente e que os recursos sejam distribu&iacute;dos pelo Fundo Ordin&aacute;rio da OEA, sem excluir a possibilidade de doa&ccedil;&otilde;es de funda&ccedil;&otilde;es internacionais e bancos de fomento. &quot;Boa parte das melhorias propostas n&atilde;o se aplicam por falta de recursos&quot;, apontou Asano. Sua organiza&ccedil;&atilde;o entende que, como pot&ecirc;ncia econ&ocirc;mica, o Brasil deveria dar o exemplo e aumentar sua contribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Segundo a fonte diplom&aacute;tica, o Brasil fez sua &uacute;ltima contribui&ccedil;&atilde;o em 2008. &quot;Em 2010, a gest&atilde;o de recursos saiu do Itamaraty para o Minist&eacute;rio do Planejamento. Naquele ano, solicitamos contribui&ccedil;&atilde;o de US$ 800 mil, mas n&atilde;o foi aceito por falta de or&ccedil;amento&quot;, informou. &quot;Nos &uacute;ltimos anos, apertamos o cinto em mat&eacute;ria de gastos e n&atilde;o houve aportes. N&atilde;o digo que tenha sido por raz&otilde;es pol&iacute;ticas, talvez n&atilde;o houvesse recursos&quot;, justificou.<\/p>\n<p>O professor Melo n&atilde;o cr&ecirc; que ao final das discuss&otilde;es sejam aprovadas reformas mais radicais. &quot;Todos sabem que enfraquecer o Sistema Interamericano incentivaria o uso autorit&aacute;rio do poder&quot;, enfatizou. Para Ventura, &quot;renunciar a esta dimens&atilde;o de controle, como fez a Venezuela, seria uma hipoteca para as gera&ccedil;&otilde;es futuras. &Eacute; &oacute;bvio que um sistema regional de prote&ccedil;&atilde;o n&atilde;o resolve os problemas, mas em muitos casos permite lan&ccedil;ar uma luz sobre as viola&ccedil;&otilde;es&quot;. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Alegre, Brasil, 28\/02\/2013 &ndash; Mar&ccedil;o ser&aacute; um m&ecirc;s importante para definir o futuro do apedrejado Sistema Interamericano de Direitos Humanos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/02\/america-latina\/direitos-humanos-tem-momento-decisivo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[14],"class_list":["post-11454","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica","tag-america-do-norte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11454\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}