{"id":11483,"date":"2013-03-06T08:38:13","date_gmt":"2013-03-06T08:38:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11483"},"modified":"2013-03-06T08:38:13","modified_gmt":"2013-03-06T08:38:13","slug":"ventos-da-primavera-rabe-chegam-a-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/direitos-humanos\/ventos-da-primavera-rabe-chegam-a-bangladesh\/","title":{"rendered":"Ventos da Primavera &Aacute;rabe chegam a Bangladesh"},"content":{"rendered":"<p>Daca, Bangladesh, 06\/03\/2013 &ndash; O que acontece em Bangladesh? Por acaso se trata de processar um obscuro legado (o trauma pelo genoc&iacute;dio ocorrido durante a guerra de liberta&ccedil;&atilde;o em 1971) ou se trata de algo mais? <!--more--> Membros da Rede de Ativistas Online e Blogueiros ocuparam, no dia 5 de fevereiro, um dos principais cruzamentos no centro da capital, conhecido como Shahbag, e protestaram contra veredito do Tribunal de Crimes Internacionais (criado no pa&iacute;s em 2010 para julgar pessoas acusadas de crimes contra o direito internacional durante a guerra de 1971) no caso de Abdul Quader Mollah, importante dirigente do Jamaat-e-Islami, principal partido fundamentalista de Bangladesh.<\/p>\n<p>Segundo o veredito, Mollah, entre outros, participou de forma ativa do massacre de uma enorme quantidade de civis, cometido em uma localidade perto de Daca no come&ccedil;o da guerra de liberta&ccedil;&atilde;o. Na &eacute;poca integrava o ramo estudantil do Jamaat-e-Islami. As v&iacute;timas morreram quando suas casas foram incendiadas. Essa foi a segunda senten&ccedil;a pronunciada pelos ju&iacute;zes do tribunal, e os ativistas a consideraram pouco severa e pedem a pena de morte.<\/p>\n<p>A rea&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o de Shahbag foi t&atilde;o esmagadora e o avan&ccedil;o do movimento de tal amplitude, que talvez surpreenda observadores estrangeiros n&atilde;o acostumados &agrave; pol&iacute;tica nacional. O pedido da pena capital se espalhou de tal forma por todo o pa&iacute;s, que obrigou o governo da Liga Awami a acelerar a marcha e refor&ccedil;ar seu compromisso de que haja justi&ccedil;a para as v&iacute;timas de 1971.<\/p>\n<p>A reclama&ccedil;&atilde;o central do protesto passou a ser rapidamente a proscri&ccedil;&atilde;o do Jamaat-e-Islami, considerado o partido que carrega o legado dos crimes de guerra. O protesto n&atilde;o nasceu de nenhum dos partidos pol&iacute;ticos do pa&iacute;s, nem de nenhuma das for&ccedil;as que no passado serviram para moldar a opini&atilde;o p&uacute;blica em torno dos julgamentos por crimes de guerra. O papel de protagonista &eacute; de ativistas independentes, estudantes e jovens em geral.<\/p>\n<p>Das manifesta&ccedil;&otilde;es participaram pessoas de diferentes meios, mas foram universit&aacute;rios e estudantes secund&aacute;rios que sa&iacute;ram em massa &agrave;s ruas. Houve certas atividades principais, como a grande concentra&ccedil;&atilde;o de dezenas de milhares de pessoas no Shahbag no dia 8 de fevereiro, tr&ecirc;s dias depois do in&iacute;cio do protesto; tr&ecirc;s minutos de sil&ecirc;ncio observados no dia 12 em todo o pa&iacute;s por pessoas que formavam correntes humanas, e uma manifesta&ccedil;&atilde;o &agrave; luz de velas na noite do dia 14.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m foi muito impressionante ver a bandeira nacional hasteada em milhares de institui&ccedil;&otilde;es de ensino de todo o pa&iacute;s no dia 17. Os jovens de Bangladesh s&atilde;o a principal for&ccedil;a por tr&aacute;s das mobiliza&ccedil;&otilde;es. Mostram um interesse por acontecimentos que n&atilde;o viveram, mas que levaram &agrave; independ&ecirc;ncia, h&aacute; 42 anos. Por&eacute;m, ao analisar o fen&ocirc;meno, se observa uma polariza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do protesto. E em primeiro lugar se destaca o objetivo contra o qual os jovens se levantam.<\/p>\n<p>Eles n&atilde;o protestam apenas contra a indulg&ecirc;ncia do veredito ou somente insistem para que todos os dirigentes pol&iacute;ticos que ajudaram o ex&eacute;rcito do Paquist&atilde;o a implantar sua pol&iacute;tica de exterm&iacute;nio sejam castigados com a pena de morte. No dia 10 de fevereiro, tamb&eacute;m apresentaram ao presidente do parlamento uma demanda de seis pontos. Uma das cobran&ccedil;as da Ativistas Online e Blogueiros &eacute; que o Jamaat-e-Islami seja proscrito e tenha seu patrim&ocirc;nio confiscado.<\/p>\n<p>H&aacute;, certamente, provas de sobra de que os dirigentes desse partido ofereceram em 1971 seus servi&ccedil;os ao ex&eacute;rcito do Paquist&atilde;o, criaram for&ccedil;as paramilitares e esquadr&otilde;es da morte que assassinaram uma enorme quantidade de intelectuais e membros da minoria hindu, entre outros civis. Al&eacute;m disso, n&atilde;o s&oacute; seus dirigentes deixaram de pedir perd&atilde;o pelo papel que desempenharam em 1971, como, desde o come&ccedil;o dos julgamentos por crimes de guerra, esse partido fez todo o poss&iacute;vel para obstruir o processo.<\/p>\n<p>Inclusive, nos &uacute;ltimos meses, partid&aacute;rios do Jamaat-e-Islami enfrentaram em v&aacute;rias oportunidades a pol&iacute;cia em protestos contra a exist&ecirc;ncia destes julgamentos. Tamb&eacute;m se atribui a esse partido o assassinato do ciberativista Rjib, cujo corpo foi encontrado perto de sua casa no dia 15 do m&ecirc;s passado. E o que faz o governo encabe&ccedil;ado pela filha do fundador deste pa&iacute;s, xeque Mujibur Rahman?<\/p>\n<p>Muitos dirigentes da governante Liga Awami n&atilde;o receberam permiss&atilde;o para falar sobre Shahbag. Embora a principal demanda dos manifestantes coincida, de certa forma, com a pol&iacute;tica oficial, os protestos maci&ccedil;os s&atilde;o uma express&atilde;o da frustra&ccedil;&atilde;o das pessoas pela forma como as autoridades manejam os julgamentos por crimes de guerra. Contudo, n&atilde;o se pode dizer que o governo de Bangladesh n&atilde;o tenha respondido &agrave;s inquieta&ccedil;&otilde;es dos jovens. Inclusive, o primeiro-ministro, xeque Hasina, saudou publicamente os manifestantes do Shahbag, e v&aacute;rios ministros se dirigiram a esse lugar para expressar solidariedade com a causa.<\/p>\n<p>Igualmente significativo &eacute; o fato de, apesar de o governo n&atilde;o ter se mostrado muito favor&aacute;vel &agrave; proscri&ccedil;&atilde;o do Jamaat-e-Islami, o parlamento, dominado pela Liga Awami, aprovou em 17 de fevereiro um projeto de lei que habilita o Tribunal de Crimes Internacionais para julgar esse partido, de forma semelhante ao que os Julgamentos de Nuremberg fizeram com o partido nazista da Alemanha, ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel considerar que exista uma liga&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica entre o levante popular de Bangladesh e a Primavera &Aacute;rabe no Oriente M&eacute;dio e no norte da &Aacute;frica. Como a maioria da popula&ccedil;&atilde;o &eacute; mu&ccedil;ulmana, &eacute; natural que esta siga as mudan&ccedil;as ocorridas no Egito e na regi&atilde;o em geral. Pela forma como ocorreu a concentra&ccedil;&atilde;o em Shahbag fica claro que os ativistas de Bangladesh aprenderam alguma coisa com seus pares eg&iacute;pcios. No entanto, a agenda do protesto neste pa&iacute;s vai mais al&eacute;m dos movimentos democr&aacute;ticos da maior parte do Oriente M&eacute;dio.<\/p>\n<p>Neste pa&iacute;s existe um movimento que n&atilde;o s&oacute; t&ecirc;m uma rela&ccedil;&atilde;o inc&ocirc;moda com os partidos isl&acirc;micos como, desde o come&ccedil;o, o levante popular de Bangladesh expressou seu secularismo e sua toler&acirc;ncia, e sua oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica fundamentalista. Na verdade, este pa&iacute;s da &Aacute;sia meridional n&atilde;o s&oacute; revive seu pr&oacute;prio legado hist&oacute;rico, a saber, o esp&iacute;rito secular que impregnou a luta independentista, como, talvez, esteja a caminho de dar um exemplo ao mundo mu&ccedil;ulmano e ao Ocidente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daca, Bangladesh, 06\/03\/2013 &ndash; O que acontece em Bangladesh? 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