{"id":11486,"date":"2013-03-06T08:42:53","date_gmt":"2013-03-06T08:42:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11486"},"modified":"2013-03-06T08:42:53","modified_gmt":"2013-03-06T08:42:53","slug":"hugo-chvez-deixa-marca-profunda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/america-latina\/hugo-chvez-deixa-marca-profunda\/","title":{"rendered":"Hugo Ch&aacute;vez deixa marca profunda"},"content":{"rendered":"<p>Caracas, Venezuela, 06\/03\/2013 &ndash; O presidente da Venezuela, Hugo Ch&aacute;vez, que morreu ontem no Hospital Militar de Caracas, v&iacute;tima de c&acirc;ncer no abd&ocirc;men detectado em junho de 2011, marcou de forma indel&eacute;vel a hist&oacute;ria pol&iacute;tica de seu pa&iacute;s.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11486\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Hugo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11486\" class=\"size-medium wp-image-11486\" title=\"Hugo Ch&aacute;vez cumprimenta uma menina durante campanha eleitoral. - Comando Carabobo da campanha eleitoral 2012\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Hugo.jpg\" alt=\"Hugo Ch&aacute;vez cumprimenta uma menina durante campanha eleitoral. - Comando Carabobo da campanha eleitoral 2012\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11486\" class=\"wp-caption-text\">Hugo Ch&aacute;vez cumprimenta uma menina durante campanha eleitoral. - Comando Carabobo da campanha eleitoral 2012<\/p><\/div>  Nascido em 28 de julho de 1954 em Sabaneta, um pequeno povoado nas plan&iacute;cies do sudoeste da Venezuela, foi o segundo dos seis filhos var&otilde;es de Hugo de los Reyes Ch&aacute;vez e Elena Fr&iacute;as, dois humildes professores rurais.<\/p>\n<p>Criado principalmente por sua av&oacute;, o jovem Hugo se apaixonou por jogar basebol e aos 17 anos, encerrado o curso secund&aacute;rio, entrou para a Academia Militar. Fez carreira no ex&eacute;rcito ao mesmo tempo em que, com a patente de tenente, come&ccedil;ou a organizar c&eacute;lulas conspiradoras, reunidas depois no que chamou de Movimento Bolivariano Revolucion&aacute;rio-200, influenciado por seu irm&atilde;o mais velho, Ad&aacute;n, militante do Partido da Revolu&ccedil;&atilde;o Venezuelana, orientado pelo l&iacute;der guerrilheiro Douglas Bravo.<\/p>\n<p>Ch&aacute;vez entrou na hist&oacute;ria da Venezuela na manh&atilde; de 4 de fevereiro de 1992, no momento de se render ap&oacute;s liderar uma falida e cruenta subleva&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios batalh&otilde;es do ex&eacute;rcito contra o ent&atilde;o presidente Carlos Andr&eacute;s P&eacute;rez (1974-1979 e 1989-1993). Com uniforme de combate, boina vermelha de paraquedista e andar aprumado em meio aos nervosos oficiais que o conduziam detido, improvisou um discurso de 70 segundos dirigido aos companheiros ainda rebelados, mas que calou imediatamente em milh&otilde;es de compatriotas que acompanhavam o acontecimento ao vivo pela televis&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;No momento, nossos objetivos n&atilde;o foram atingidos, mas o pa&iacute;s tem que caminhar para um destino melhor, e eu assumo perante voc&ecirc;s e perante toda a Venezuela a responsabilidade por este movimento militar bolivariano&quot;, afirmou, ao pedir o fim da luta para evitar mais derramamento de sangue. Em lugar de sangue, correram a tinta e as vozes de m&uacute;ltiplas an&aacute;lises sobre como, em um pa&iacute;s com milh&otilde;es de exclu&iacute;dos e falta de l&iacute;deres que assumissem as falhas do sistema pol&iacute;tico, um jovem oficial assumira sua responsabilidade em nome de um movimento que invocava o libertador Sim&oacute;n Bol&iacute;var (1783-1830).<\/p>\n<p>Assim nasceu sua lenda e sua popularidade. Esteve preso por dois anos e depois, com indulto do presidente social-crist&atilde;o Rafael Caldera (1969-1974 e 1994-1999), percorreu o pa&iacute;s promovendo esperan&ccedil;as de uma nova insurrei&ccedil;&atilde;o, at&eacute; que, em 1996, pela m&atilde;o do veterano esquerdista Luis Miquilena, optou por buscar o poder por meio das urnas. Fundou, ent&atilde;o, o Movimento V Rep&uacute;blica (MVR), que avan&ccedil;ou enquanto enfraqueciam os partidos tradicionais, no poder desde 1959, e ganhou as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 6 de dezembro de 1998, com 56% dos votos.<\/p>\n<p>Desde ent&atilde;o e at&eacute; 2012, em outras 15 elei&ccedil;&otilde;es essa porcentagem de ades&atilde;o &agrave; causa de Ch&aacute;vez se manteve como m&eacute;dia. Os setores mais pobres da popula&ccedil;&atilde;o sempre foram seu principal suporte. &Agrave;s raz&otilde;es econ&ocirc;micas, sociais e culturais que explicam esse apoio, &quot;a esperan&ccedil;a de justi&ccedil;a que sempre habita o profundo da alma dos pobres&quot;, juntou-se o carisma de Ch&aacute;vez, apontou &agrave; IPS o antigo l&iacute;der socialista Teodoro Petkoff.<\/p>\n<p>Sinais desse carisma s&atilde;o sua f&aacute;cil identifica&ccedil;&atilde;o com o venezuelano mesti&ccedil;o e informal, seu verbo agitador e voz de comando, com um discurso &agrave;s vezes contendo algo de pregador religioso, e repleto de men&ccedil;&otilde;es a Bol&iacute;var e &agrave;s lutas independentistas e agr&aacute;rias do s&eacute;culo 19. Com grande naturalidade diante do microfone e das c&acirc;meras, desde que chegou ao governo se dirigiu ao pa&iacute;s cerca de 2.200 vezes por meio de redes de televis&atilde;o e r&aacute;dio.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m somou quase 400 edi&ccedil;&otilde;es do programa dominical Al&ocirc;, Presidente, no qual explicava por v&aacute;rias horas, e quase sempre em tom coloquial, quest&otilde;es pol&iacute;ticas, de gest&atilde;o, de seu passado militar e de hist&oacute;ria, &agrave;s vezes a universal e outras a do pa&iacute;s. Ch&aacute;vez promoveu causas de esquerda e governos com semelhan&ccedil;as com o seu na Am&eacute;rica Latina e no Caribe, pactuou uma alian&ccedil;a cada vez mais intensa e s&oacute;lida com Cuba e adotou como um de seus guias o l&iacute;der hist&oacute;rico desse pa&iacute;s, Fidel Castro.<\/p>\n<p>Impulsionou a nova Constitui&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Bolivariana da Venezuela, que entrou em vigor em 1999 e foi emendada em 2009. Em 2001, disp&ocirc;s medidas sobre a propriedade privada, provocando a rea&ccedil;&atilde;o das classes m&eacute;dia e alta e de sindicatos de empregados que em marchas de verdadeiras multid&otilde;es pediram sua sa&iacute;da do governo. Em 11 de abril de 2002, a maior dessas marchas acabou em tiroteio perto da sede do governo, e deixou 19 mortos e uma centena de feridos.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o alto comando militar, com apoio de poderosos setores civis, cometeu um golpe de Estado contra Ch&aacute;vez no dia seguinte, e assumiu o governo de fato Pedro Carmona, presidente da Fedec&acirc;maras, a principal associa&ccedil;&atilde;o empresarial do pa&iacute;s, que imediatamente dissolveu os demais poderes do Estado. Por&eacute;m, militares leais apoiados por milhares de seguidores que cercaram os quart&eacute;is em Caracas recolocaram o presidente constitucional em seu cargo horas depois.<\/p>\n<p>No final de 2002, juntou o locaute (greve patronal) de empresas privadas e da produ&ccedil;&atilde;o petroleira com a greve determinada pela dire&ccedil;&atilde;o de sindicatos industriais e de com&eacute;rcio em busca, novamente, da derrubada de Ch&aacute;vez. Dois meses consecutivos com essas medidas de for&ccedil;a n&atilde;o conseguiram vencer a resist&ecirc;ncia, e as institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas permaneceram est&aacute;veis.<\/p>\n<p>Em agosto de 2004, a oposi&ccedil;&atilde;o conseguiu ativar a ferramenta constitucional de referendo para colocar em jogo a continuidade do mandato presidencial de Ch&aacute;vez, mas as urnas novamente lhe foram favor&aacute;veis, desta vez com 59% dos votos, em uma jornada transparente controlada pela Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos e pelo norte-americano e n&atilde;o governamental Centro Carter, entre outros observadores.<\/p>\n<p>Com o suporte de Cuba, o governo de Ch&aacute;vez lan&ccedil;ou suas &quot;miss&otilde;es&quot; (programas de alimenta&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, alfabetiza&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o e ajuda financeira diretos aos setores pobres), &agrave; margem das burocr&aacute;ticas institui&ccedil;&otilde;es tradicionais do Estado e convertidas com o passar dos anos no centro de sua oferta pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s ser reeleito em dezembro de 2006, o presidente acentuou seu confronto verbal e diplom&aacute;tico com os Estados Unidos, aproximou-se de pa&iacute;ses alheios &agrave; regi&atilde;o, como R&uacute;ssia, China e Ir&atilde;, rompeu rela&ccedil;&otilde;es com Israel e prop&ocirc;s como objetivo de seu projeto um &quot;socialismo do s&eacute;culo 21&quot;. Ch&aacute;vez sempre se definiu como bolivariano, a ponto de colocar esse adjetivo ao nome oficial da Venezuela e a muitas de suas obras e propostas, mas tamb&eacute;m se confessou com insist&ecirc;ncia como crist&atilde;o, humanista, marxista, socialista, antiimperialista, indigenista e oper&aacute;rio.<\/p>\n<p>Os pre&ccedil;os altos dos &uacute;ltimos tempos no mercado do petr&oacute;leo, de onde se obt&eacute;m o &quot;sal&aacute;rio nacional&quot; da Venezuela, lhe permitiram estatizar numerosas empresas e colocar toda a economia sob r&iacute;gidos controles, come&ccedil;ando pelo controle do c&acirc;mbio, mas sem poder deter nem a importa&ccedil;&atilde;o de alimentos nem o af&atilde; consumista dos venezuelanos.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s a rejei&ccedil;&atilde;o de uma nova reforma constitucional em 2007 por uma ajustada maioria, teve de esperar at&eacute; 2009 para conseguir que fosse votada sua proposta de reelei&ccedil;&atilde;o sem limite para a Presid&ecirc;ncia e outros cargos eletivos. Muito antes, em 2003, em r&aacute;pida conversa com a IPS, Ch&aacute;vez disse que n&atilde;o aspiraria governar para sempre, &quot;mas apenas dois per&iacute;odos, at&eacute; janeiro de 2013, e depois ser&aacute; a vez de outro revolucion&aacute;rio ou outra revolucion&aacute;ria&quot;.<\/p>\n<p>Mas, depois mudou de opini&atilde;o e prop&ocirc;s que sua continuidade no governo era um requisito para sustentar o projeto, argumentando que as constantes mudan&ccedil;as de administra&ccedil;&otilde;es na Am&eacute;rica Latina e no Caribe frustraram iniciativas desse tipo. A busca por esse quarto mandato parece ter causado impacto em sua doen&ccedil;a, pois m&eacute;dicos disseram que foi fatal se dedicar em 2011 e 2012 ao governo e &agrave; campanha simultaneamente, descuidando de sua sa&uacute;de. Sozinho in extremis, v&iacute;tima de uma nova reca&iacute;da em dezembro de 2012, aceitou ungir como herdeiro Nicol&aacute;s Maduro, seu candidato a substitu&iacute;-lo na Presid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A primeira grande inc&oacute;gnita que deixa &eacute; se a lideran&ccedil;a e o apoio popular que teve por 20 anos, 14 deles no governo, migrar&aacute; para seus herdeiros pol&iacute;ticos. Tamb&eacute;m n&atilde;o se sabe se o chavismo se transformar&aacute; em um forte movimento pol&iacute;tico, ao estilo do peronismo na Argentina ap&oacute;s a morte de seu mentor, Juan Domingo Per&oacute;n (1895-1974), ou se somente a figura de Ch&aacute;vez ficar&aacute; como objeto de culto do protesto da esquerda, como ocorreu com outro argentino, o guerrilheiro Ernesto &quot;Che&quot; Guevara (1928-1967).<\/p>\n<p>Muitas vezes disse que quando chegasse &agrave; velhice estaria aposentado, sob a sombra de uma &aacute;rvore em meio &agrave;s savanas do sudoeste venezuelano onde nasceu, dando aulas a algumas crian&ccedil;as, talvez cultivando uma de suas paix&otilde;es, a m&uacute;sica e o recital de poesia das plan&iacute;cies que nutriram sua vida. Guerreiro por natureza, &quot;um simples soldado&quot; como gostava de repetir, sempre com uma palavra de combate para explicar qualquer conting&ecirc;ncia, vencedor de quase todos os seus rivais, um verdadeiro vitorioso na pol&iacute;tica, n&atilde;o p&ocirc;de ganhar a batalha contra o c&acirc;ncer que o emboscou e o levou &agrave; morte aos 58 anos de idade.<\/p>\n<p>Como legado de Ch&aacute;vez na Venezuela, fica ter colocado o tema da pobreza no centro da vida social e pol&iacute;tica, ter conduzido a esquerda ao governo ao fim de quase um s&eacute;culo de tentativas frustradas, uma certa dessacraliza&ccedil;&atilde;o do poder e o fortalecimento de grupos e comunidades que durante d&eacute;cadas estiveram na exclus&atilde;o ou &agrave; beira dela.<\/p>\n<p>Na regi&atilde;o, Ch&aacute;vez deixa um discurso e um tecido de rela&ccedil;&otilde;es que apostam na integra&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;tica antes que econ&ocirc;mica, segundo sua concep&ccedil;&atilde;o, e o apoio a governos amigos com base no recurso petrol&iacute;fero. Assim, separou a Venezuela da Comunidade Andina (Bol&iacute;via, Col&ocirc;mbia, Equador e Peru) e a levou para o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), criou a Petrocaribe para ajudar com petr&oacute;leo os pa&iacute;ses da regi&atilde;o, impulsionou a Uni&atilde;o de Na&ccedil;&otilde;es Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados da Am&eacute;rica Latina e do Caribe, o Banco do Sul e uma incipiente moeda regional, o sucre. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caracas, Venezuela, 06\/03\/2013 &ndash; O presidente da Venezuela, Hugo Ch&aacute;vez, que morreu ontem no Hospital Militar de Caracas, v&iacute;tima de c&acirc;ncer no abd&ocirc;men detectado em junho de 2011, marcou de forma indel&eacute;vel a hist&oacute;ria pol&iacute;tica de seu pa&iacute;s. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/america-latina\/hugo-chvez-deixa-marca-profunda\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,11],"tags":[],"class_list":["post-11486","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11486","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11486"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11486\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}