{"id":11496,"date":"2013-03-08T10:20:39","date_gmt":"2013-03-08T10:20:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11496"},"modified":"2013-03-08T10:20:39","modified_gmt":"2013-03-08T10:20:39","slug":"uma-guerra-invisvel-dizima-a-juventude-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/america-latina\/uma-guerra-invisvel-dizima-a-juventude-brasileira\/","title":{"rendered":"Uma guerra invis&iacute;vel dizima a juventude brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 08\/03\/2013 &ndash; Desde que aconteceu, em 1992, quando morreram 111 presos metralhados no que foi o maior pres&iacute;dio do Brasil, o massacre do Carandiru foi registrado por milhares de not&iacute;cias e imagens na televis&atilde;o, al&eacute;m de cinco livros e um filme de grande bilheteria. Contudo, a cada dia, uma quantidade semelhante de pessoas, na maioria jovens, &eacute; assassinada a tiros neste pa&iacute;s, sem nenhuma repercuss&atilde;o. <!--more--> &quot;Perdemos a sensibilidade&quot; para esse &quot;massacre cotidiano&quot;, lamentou Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Viol&ecirc;ncia 2013: Mortes Matadas por Armas de Fogo.<\/p>\n<p>O informe divulgado no dia 6, no Rio de Janeiro, foi realizado para o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) e a Faculdade Latino-Americana de Ci&ecirc;ncias Sociais (Flacso), se baseia em registros oficiais e totalizou 799.226 mortes por armas de fogo no Brasil entre 1980 e 2010. Desse total de mortos, 450.225 eram jovens de 15 a 29 anos, diz o Mapa, que tem em seu t&iacute;tulo a express&atilde;o coloquial de &quot;mortes matadas&quot;, usada para se referir aos assassinatos.<\/p>\n<p>&Eacute; uma matan&ccedil;a invis&iacute;vel, equivalente &agrave; soma de v&iacute;timas fatais nos conflitos armados de 12 pa&iacute;ses, incluindo Afeganist&atilde;o, Iraque, Sud&atilde;o e Col&ocirc;mbia, nos anos cr&iacute;ticos de 2004 e 2007, compara o Mapa. Os homic&iacute;dios representam, em m&eacute;dia, 84% nas tr&ecirc;s d&eacute;cadas registradas, no informe que tamb&eacute;m inclui as mortes por acidente, suic&iacute;dios e outras causas indeterminadas, n&atilde;o naturais. Em 2010, a porcentagem aumentou, em parte por melhoras no sistema de Informa&ccedil;&otilde;es de Mortalidade do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de.<\/p>\n<p>O &iacute;ndice de homic&iacute;dios por cem mil habitantes passou de 5,1 em 1980 para 19,3 em 2010. A escalada &eacute; especialmente grave entre os jovens, um grupo em que a taxa passou de 9,1 para 42,5. Outro elemento importante &eacute; que as balas matam 2,5 pessoas negras para cada branca. O aumento desta taxa n&atilde;o foi uniforme. Aumentou at&eacute; 2003, quando ficou em 20,4 por cem mil habitantes, diminuiu at&eacute; cair para 18 em 2007 e voltou a subir ligeiramente.<\/p>\n<p>&quot;Vivemos um equil&iacute;brio inst&aacute;vel&quot; desde 2005, com a diminui&ccedil;&atilde;o da letalidade nos Estados mais povoados e ricos do Sudeste, especialmente no Estado de S&atilde;o Paulo, enquanto houve um &quot;crescimento dr&aacute;stico&quot; no Norte e Nordeste do pa&iacute;s, observou Waiselfisz &agrave; IPS. Em Macei&oacute;, capital do Estado de Alagoas, triplicou o &iacute;ndice de mortes por armas de fogo, chegando a 94,5 por cem mil habitantes em 2010, enquanto na cidade de S&atilde;o Paulo caiu para 10,4, um quarto a menos do que uma d&eacute;cada anterior.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s grandes fatores explicam a migra&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia criminosa, segundo o autor do Mapa, um soci&oacute;logo argentino que vive em Recife, uma das cidades mais violentas do nordeste brasileiro e capital do Estado de Pernambuco. O desenvolvimento econ&ocirc;mico, concentrado nas regi&otilde;es metropolitanas industriais do Sudeste, teve uma descentraliza&ccedil;&atilde;o a partir dos anos 1990, criando novos polos em outros Estados e no interior do pa&iacute;s, atraindo popula&ccedil;&atilde;o e investimentos para esses lugares.<\/p>\n<p>A isso se somou o Plano Nacional de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, com um fundo que ajudou a melhorar o combate &agrave; criminalidade nas grandes metr&oacute;poles como S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro. Al&eacute;m disso, uma aprimoramento nos registros de mortalidade reduziu os &quot;cemit&eacute;rios clandestinos&quot; e o sub-registro caiu quase pela metade. Apesar dos avan&ccedil;os obtidos, a taxa de homic&iacute;dios por armas de fogo continua extremamente alta. &quot;Repete-se um Carandiru por dia&quot;, pontuou Waiselfisz.<\/p>\n<p>Trata-se, segundo o soci&oacute;logo, de uma chaga compartilhada com o restante da regi&atilde;o latino-americana, fruto de uma &quot;heran&ccedil;a colonial e escravagista, de desprezo pela vida humana&quot;, fundamentada na &quot;cultura da viol&ecirc;ncia, em que os conflitos s&atilde;o resolvidos exterminando o outro&quot;, e n&atilde;o mediante a negocia&ccedil;&atilde;o ou a justi&ccedil;a, e a uma &quot;elevada impunidade&quot;. Dados da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) indicam que a taxa m&eacute;dia de homic&iacute;dios na Am&eacute;rica Latina foi de 26 para cada cem mil habitantes, em 2010, o triplo da registrada na Europa. A ONU caracteriza como epid&ecirc;mica a viol&ecirc;ncia de mais de oito homic&iacute;dios por cem mil pessoas.<\/p>\n<p>Estudos realizados em S&atilde;o Paulo estimam que apenas 4% dos homicidas s&atilde;o presos, com &quot;perdas&quot; sucessivas na cadeia de den&uacute;ncias, averigua&ccedil;&otilde;es policiais, processos e condena&ccedil;&otilde;es judiciais. Isto estimula a criminalidade e a quantidade excessiva de crimes aumenta a impunidade em um &quot;c&iacute;rculo vicioso&quot;, observou Waiselfisz, dando como exemplo o brutal aumento de assassinatos no Estado de Alagoas, de 248% na d&eacute;cada passada, devido &agrave; chegada ao Estado de outra m&aacute;cula criminosa latino-americana: as m&aacute;fias do narcotr&aacute;fico, expulsas de outras regi&otilde;es, e a debilidade da pol&iacute;cia local, que realizou greves de mais de sete meses.<\/p>\n<p>Jorge Werthein, presidente do Cebela, destacou &agrave; IPS uma contradi&ccedil;&atilde;o que merece uma grande reflex&atilde;o: a persist&ecirc;ncia da mortandade, e inclusive seu ligeiro aumento, nos &uacute;ltimos dez anos, quando cresceram a economia, a inclus&atilde;o social e a gera&ccedil;&atilde;o de empregos, com forte redu&ccedil;&atilde;o da pobreza e desigualdade. A sociedade brasileira tem de reconhecer sua realidade, na qual &quot;predomina a viol&ecirc;ncia em n&iacute;veis inaceit&aacute;veis&quot;, e buscar respostas &quot;que n&atilde;o sejam apenas repressivas&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>O per&iacute;odo de redu&ccedil;&atilde;o dos homic&iacute;dios no Brasil foi fruto da campanha contra a posse e o uso de armas de fogo durante o final do s&eacute;culo passado e come&ccedil;o do atual, parcialmente por um referendo que, em 2005, n&atilde;o aprovou a proibi&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s do com&eacute;rcio de armas e muni&ccedil;&otilde;es. No Brasil e nos demais pa&iacute;ses latino-americanos o controle da venda de armas &eacute; necess&aacute;rio para reduzir os assassinatos, al&eacute;m de a&ccedil;&otilde;es em &aacute;reas como a da persist&ecirc;ncia da cultura da viol&ecirc;ncia, opinou Werthein.<\/p>\n<p>O Mapa sobre a criminalidade letal no Brasil pretende principalmente &quot;trazer &agrave; luz p&uacute;blica&quot; as mortes cotidianas que permanecem &quot;invis&iacute;veis&quot; para a sociedade e cuja redu&ccedil;&atilde;o exige &quot;pol&iacute;ticas nacionais&quot; e n&atilde;o apenas as tradicionais interven&ccedil;&otilde;es pontuais, ali onde h&aacute; focos de viol&ecirc;ncia criminosa, concluiu Waiselfisz. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 08\/03\/2013 &ndash; Desde que aconteceu, em 1992, quando morreram 111 presos metralhados no que foi o maior pres&iacute;dio do Brasil, o massacre do Carandiru foi registrado por milhares de not&iacute;cias e imagens na televis&atilde;o, al&eacute;m de cinco livros e um filme de grande bilheteria. 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