{"id":11502,"date":"2013-03-11T10:32:08","date_gmt":"2013-03-11T10:32:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11502"},"modified":"2013-03-11T10:32:08","modified_gmt":"2013-03-11T10:32:08","slug":"um-atalho-entre-o-campo-brasileiro-e-o-almoo-escolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/america-latina\/um-atalho-entre-o-campo-brasileiro-e-o-almoo-escolar\/","title":{"rendered":"Um atalho entre o campo brasileiro e o almo&ccedil;o escolar"},"content":{"rendered":"<p>Paracambi, Brasil, 11\/03\/2013 &ndash; Entre a propriedade de Maria Gomes Morais e uma escola do Rio de Janeiro h&aacute; campos, montes e caminhos intransit&aacute;veis quando chove.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11502\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/caderno-300x176.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11502\" class=\"size-medium wp-image-11502\" title=\"Estudantes da escola municipal Nilo Pe&ccedil;anha almo&ccedil;am no restaurante. - Fotograma de v\u00c3\u00addeo filmado por Vincent Rimbaux\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/caderno-300x176.jpg\" alt=\"Estudantes da escola municipal Nilo Pe&ccedil;anha almo&ccedil;am no restaurante. - Fotograma de v\u00c3\u00addeo filmado por Vincent Rimbaux\/IPS\" width=\"200\" height=\"117\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11502\" class=\"wp-caption-text\">Estudantes da escola municipal Nilo Pe&ccedil;anha almo&ccedil;am no restaurante. - Fotograma de v\u00c3\u00addeo filmado por Vincent Rimbaux\/IPS<\/p><\/div>  Mas um programa de alimenta&ccedil;&atilde;o escolar criou um caminho que une os frutos colhidos por pequenos agricultores como ela e a fome de 45 milh&otilde;es de estudantes. S&atilde;o apenas 60 quil&ocirc;metros desde a capital do Rio de Janeiro at&eacute; a localidade de Sabugo, no munic&iacute;pio de Paracambi. Contudo, os mapas por sat&eacute;lite se perdem em Sabugo, em cujas vias convivem autom&oacute;veis, bicicletas e carro&ccedil;as puxadas por cavalos cansados.<\/p>\n<p>A &aacute;rida paisagem do povoado muda sutilmente para diferentes grada&ccedil;&otilde;es de verdes, sobreviventes da tropical Mata Atl&acirc;ntica, at&eacute; que, entre bananais nativos e bambus estrangeiros, se chega ao s&iacute;tio Recanto da Alegria, propriedade de Maria Gomes, por todos conhecida como Neta. De 61 anos, ela trabalha desde os dez nos tr&ecirc;s hectares ocupados desde ent&atilde;o por sua fam&iacute;lia, em uma parte de uma antiga fazenda da qual uma posterior reforma agr&aacute;ria lhe concedeu propriedade.<\/p>\n<p>&quot;Nunca tive medo. Vou a qualquer parte, subo e des&ccedil;o os montes. N&atilde;o me assustam cobras e essas coisas. Parece que fugiram de mim&quot;, contou &agrave; IPS. &quot;Os grandes agricultores t&ecirc;m suas m&aacute;quinas. As nossas s&atilde;o estas: as m&atilde;os&quot;, acrescentou com um humor que emana de sua vida no campo, &quot;que n&atilde;o trocaria por nada&quot;. Seu &uacute;nico apoio &eacute; um vizinho que a ajuda a desmatar o terreno onde planta hortali&ccedil;as: quiabo (Abelmoschus esculentus), jil&oacute; (Solanum gilo) e frutas como lim&atilde;o, maracuj&aacute; e laranja-lima, entre outras. A natureza lhe presenteia com bananas de toda variedade.<\/p>\n<p>Antes, vendia aos intermedi&aacute;rios e tinha de esperar longo tempo para receber. &quot;O que com&iacute;amos? N&atilde;o me envergonho de dizer: angu de papa de banana com farinha de milho). N&atilde;o tinha isso de agora, planos de alimenta&ccedil;&atilde;o. Esperava-se o intermedi&aacute;rio para fazer a compra mensal. E, enquanto isso, o arm&aacute;rio esvaziava e as crian&ccedil;as sem comer&quot;, lembra sobre seus tr&ecirc;s filhos, j&aacute; adultos. Contudo, mediante uma cooperativa do Estado do Rio de Janeiro, a Unacoop, Neta se converteu em fornecedora do Programa Nacional de Alimenta&ccedil;&atilde;o Escolar (PNAE), que o Brasil desenvolveu t&atilde;o bem que a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura (FAO) o tem como modelo para replicar em outros pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>O PNAE se vinculou &agrave; agricultura familiar em 2009, mediante uma lei que estabelece que 30% dos alimentos dos planos governamentais devem ser fornecidos por esse setor, que representa 10% do produto interno bruto. O PNAE tem duas finalidades: garantir a alimenta&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as e adolescentes em idade escolar e melhorar a vida de 4,3 milh&otilde;es de pequenos produtores rurais como Neta. &quot;O bom &eacute; que melhorou o pre&ccedil;o que nos pagam&quot;, explicou Neta. Antes sua casa era apenas de adobe, mas agora tem v&aacute;rias paredes de tijolo rebocado. E comprou geladeira, fog&atilde;o e lava-roupas, que pode usar porque tamb&eacute;m chegou a eletricidade.<\/p>\n<p>O PNAE prioriza os assentamentos camponeses criados pela reforma agr&aacute;ria, as comunidades ind&iacute;genas e os quilombos, comunidades em terras onde se refugiavam os escravos. Um caminh&atilde;o, ou trator quando chove, recolhe suas frutas e verduras e as leva a um mercado local, de onde s&atilde;o transportadas para o Centro de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro (Ceasa) e terminam em alguma das mais de 161 mil escolas p&uacute;blicas inclu&iacute;das no programa nacional, 83% do total. Neta fornece banana, laranja, abacate, abacaxi, caju e cereja. &quot;Para a merenda escolar, tudo tem de ser de primeira qualidade&quot;, explicou.<\/p>\n<p>Os respons&aacute;veis por programas como o PNAE os definem como &quot;interruptores do ciclo de pobreza&quot;. Trata-se de uma pol&iacute;tica intensamente aprofundada pelos governos de Luiz In&aacute;cio Lula da Silva (2003-2011) e de sua sucessora Dilma Rousseff. O PNAE tem uma longa hist&oacute;ria. Nasceu em 1955, como um plano assistencialista para a inf&acirc;ncia mais pobre. Nos anos 1990, se descentralizou e incorporou em sua administra&ccedil;&atilde;o representantes das fam&iacute;lias, das comunidades, pessoal docente e os poderes Executivo e Legislativo, detalhou &agrave; IPS sua coordenadora nacional, Albaneide Peixinho. A partir de 2003 multiplicou seu or&ccedil;amento em 300% e foi ampliado para alcan&ccedil;ar estudantes do ensino m&eacute;dio e adultos em escolariza&ccedil;&atilde;o, acrescentou.<\/p>\n<p>O Ceasa &eacute; um burburinho de caminh&otilde;es descarregando mercadorias na madrugada. Os produtos de Neta e demais integrantes de sua cooperativa chegam a um pavilh&atilde;o especial para pequenos camponeses. Uma &aacute;rea de Agricultura Familiar e Extens&atilde;o Rural dentro do Ceasa presta assessoria em planejamento produtivo e diversifica&ccedil;&atilde;o de cultivos. &quot;O pequeno agricultor ainda n&atilde;o est&aacute; capacitado para planejar os tempos de produ&ccedil;&atilde;o e entrega. Para uma merenda escolar, n&atilde;o se pode mandar uma banana verde como se faz quando se trata de um grande mercado que depois enviar&aacute; para a feira. Tem de chegar madura no ponto de consumo&quot;, destacou o chefe da &aacute;rea, Newton Novo.<\/p>\n<p>Entretanto, a assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica &eacute; insuficiente. &quot;Deve chegar ao pr&oacute;prio campo para fazer an&aacute;lise do solo e ver o que &eacute; adequado plantar em cada propriedade&quot;, explicou &agrave; IPS a coordenadora da Unacoop, Margarete Teixeira. Tampouco &eacute; f&aacute;cil ser um fornecedor do PNAE, que exige t&iacute;tulos da terra em ordem, em um pa&iacute;s imenso como o Brasil, que arrasta problemas de propriedade agr&aacute;ria desde a &eacute;poca colonial.<\/p>\n<p>Contudo, o especialista em direito alimentar Leonardo Ribas destaca os resultados: fortalecer a economia local e a agricultura familiar, fundamental &quot;em uma sociedade onde, pelo agroneg&oacute;cio, o alimento se converteu em mercadoria&quot;, e acrescentou que &quot;tamb&eacute;m se conseguiu que as crian&ccedil;as tenham uma alimenta&ccedil;&atilde;o mais adequada, porque come&ccedil;aram a consumir alimentos da regi&atilde;o e produzidos de forma org&acirc;nica&quot;, sem agroqu&iacute;micos.<\/p>\n<p>A cozinha da escola municipal Nilo Pe&ccedil;anha, cujos alunos vivem em bairros pobres e lotados como a favela da Mangueira, prepara diariamente desjejum, almo&ccedil;o e merenda para 500 estudantes. Para criar os card&aacute;pios &quot;s&atilde;o usados par&acirc;metros de alimentos saud&aacute;veis, vinculados a cada idade, ao tempo de perman&ecirc;ncia na escola, per&iacute;odo de colheita de cada produto, custo e h&aacute;bitos alimentares dos alunos&quot;, explicou a diretora do Instituto de Nutri&ccedil;&atilde;o da Secretaria Municipal de Sa&uacute;de, F&aacute;tima Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p>A diretora da escola, M&aacute;rcia Alves, lembra que as crian&ccedil;as costumam se aborrecer com legumes e verduras, mas as aulas de ci&ecirc;ncias estimulam o consumo ensinando seus valores nutritivos. Os alunos parecem ter aprendido a li&ccedil;&atilde;o. Pelo menos com a diretora por perto. &quot;Comia muito fast food, mas agora tenho uma dieta balanceada&quot;, contou Mariana Cristina, de 12 anos. &quot;Antes comia mais doces do que comida, mas na escola isso foi mudando&quot;, acrescentou Elis&acirc;ngela, da mesma idade.<\/p>\n<p>Na mesma hora em que os alunos almo&ccedil;am suas verduras, Neta troca de roupa e vai &agrave; cidade para tentar que a log&iacute;stica do mercado local funcione melhor: conseguir uma c&acirc;mara de amadurecimento de frutas e organizar as entregas dos produtores de seu munic&iacute;pio, o que lhes permitir&aacute; tamb&eacute;m aumentar os ganhos. &quot;Estou muito satisfeita. Estamos matando a fome n&atilde;o apenas das crian&ccedil;as, mas de todas as pessoas&quot;, enfatizou. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Com a colabora&ccedil;&atilde;o de Fab&iacute;ola Ortiz (Rio de Janeiro).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paracambi, Brasil, 11\/03\/2013 &ndash; Entre a propriedade de Maria Gomes Morais e uma escola do Rio de Janeiro h&aacute; campos, montes e caminhos intransit&aacute;veis quando chove. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/america-latina\/um-atalho-entre-o-campo-brasileiro-e-o-almoo-escolar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[27,21],"class_list":["post-11502","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-brasil","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11502"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11502\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}