{"id":11518,"date":"2013-03-13T09:30:49","date_gmt":"2013-03-13T09:30:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11518"},"modified":"2013-03-13T09:30:49","modified_gmt":"2013-03-13T09:30:49","slug":"coluna-a-partida-de-chvez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/03\/america-latina\/coluna-a-partida-de-chvez\/","title":{"rendered":"COLUNA: A partida de Ch&aacute;vez"},"content":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, Col&ocirc;mbia, 13\/03\/2013 &ndash; O mundo est&aacute; comovido com a morte de Hugo Ch&aacute;vez, um dos l&iacute;deres latino-americanos de maior impacto e proje&ccedil;&atilde;o nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. E um dos mais controvertidos e difamados do planeta. <!--more--> s maiores ataques vieram da Col&ocirc;mbia, no governo de &Aacute;lvaro Uribe. Quando Juan Manuel Santos assumiu a Presid&ecirc;ncia, em agosto de 2010, e o acolheu como seu &quot;melhor novo amigo&quot;, come&ccedil;ou uma das melhores &eacute;pocas das rela&ccedil;&otilde;es entre esses dois pa&iacute;ses. <\/p>\n<p>Ch&aacute;vez insistia na necessidade de se conseguir a paz na Col&ocirc;mbia, pois assim os Estados Unidos perderiam o pretexto para se meter em seus assuntos. Nas negocia&ccedil;&otilde;es de paz do governo de Santos com a guerrilha das For&ccedil;as Armadas Revolucion&aacute;rias da Col&ocirc;mbia (Farc) s&atilde;o mencionados acordos, e Santos reconhece que a dedica&ccedil;&atilde;o e o interesse da Venezuela foram definitivos para alcan&ccedil;&aacute;-los.<\/p>\n<p>H&aacute; grande incerteza sobre o futuro da revolu&ccedil;&atilde;o bolivariana. Sisudas an&aacute;lises, tendenciosas suposi&ccedil;&otilde;es e simples especula&ccedil;&otilde;es s&atilde;o apresentadas pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o do mundo sobre o que poder&aacute; acontecer agora que se apagou sua lideran&ccedil;a. Se nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais que se avizinham, seu vice-presidente Nicol&aacute;s Maduro conseguir&aacute; o triunfo, ou se o candidato da oposi&ccedil;&atilde;o, Henrique Capriles, lhe arrebatar&aacute; a Presid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Talvez a imensa maioria dos que lhe deram esmagadoras vit&oacute;rias eleitorais, e o reelegeu mesmo sabendo que estava ferido de morte, n&atilde;o esteja disposta a mudar.<\/p>\n<p>Seu regime trouxe imensos benef&iacute;cios ao seu pa&iacute;s. Falou do &quot;socialismo do s&eacute;culo 21&quot; como meta de seu governo e, diante das cr&iacute;ticas dos hierarcas da Igreja Cat&oacute;lica, pediu que fossem buscar o socialismo na B&iacute;blia e nos evangelhos.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, cortou as pol&iacute;ticas neoliberais, recuperou o controle de suas riquezas naturais, do petr&oacute;leo e do cons&oacute;rcio estatal PDVSA, e utilizou seus imensos recursos em suas &quot;miss&otilde;es&quot; em favor dos pobres.<\/p>\n<p>A pobreza caiu de 49,4% em 1999, quando assumiu o comando, para 27,8% em 2010, e a indig&ecirc;ncia diminuiu de 21,7% para 10,7%. Com a ajuda de Cuba, obteve grandes &ecirc;xitos reais em sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o, especialmente na erradica&ccedil;&atilde;o do analfabetismo.<\/p>\n<p>Ch&aacute;vez &eacute; respons&aacute;vel pela maior mudan&ccedil;a geopol&iacute;tica continental de sua hist&oacute;ria: a integra&ccedil;&atilde;o regional.<\/p>\n<p>Prop&ocirc;s a cria&ccedil;&atilde;o de um &oacute;rg&atilde;o que exclu&iacute;sse os Estados Unidos. E ent&atilde;o o presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva o apoiou e come&ccedil;ou a integra&ccedil;&atilde;o sul-americana: foram criados a Unasul, o Conselho de Defesa Sul-Americano e o Banco do Sul, iniciativa de Ch&aacute;vez para isolar o Banco Mundial e o Fundo Monet&aacute;rio Internacional, ambos com recordes lament&aacute;veis no continente.<\/p>\n<p>E, em fevereiro de 2010, o encerramento com chave de ouro: Lula convocou a Comunidade de Na&ccedil;&otilde;es da Am&eacute;rica Latina e do Caribe, sem Estados Unidos e sem Canad&aacute;, com participa&ccedil;&atilde;o de todas as na&ccedil;&otilde;es da regi&atilde;o, incluindo Cuba.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; a mudan&ccedil;a geopol&iacute;tica mais importante da &uacute;ltima d&eacute;cada&quot;, afirmou Mark Weisbrot, codiretor do Centro para a Pesquisa Econ&ocirc;mica e Pol&iacute;tica, com sede em Washington.<\/p>\n<p>No campo internacional Ch&aacute;vez foi uma voz de peso. Foi o primeiro a criticar a entrega de sete bases militares colombianas para uso dos Estados Unidos, uma cess&atilde;o da soberania nacional e uma amea&ccedil;a para o continente, especialmente para a Venezuela, a qual j&aacute; est&aacute; rodeada por bases. Tal entrega provocou um esc&acirc;ndalo continental.<\/p>\n<p>Iniciou rela&ccedil;&otilde;es com a China e acordou uma volumosa venda de petr&oacute;leo para contrapor-se &agrave; sua depend&ecirc;ncia do mercado dos Estados Unidos, do qual a Venezuela &eacute; principal fornecedor, embora esta tamb&eacute;m seja uma rela&ccedil;&atilde;o de benef&iacute;cio m&uacute;tuo.<\/p>\n<p>Quando o ex&eacute;rcito colombiano incursionou no Equador para liquidar o n&uacute;mero dois das Farc e matou 25 pessoas, na maioria guerrilheiros, Quito rompeu rela&ccedil;&otilde;es com Bogot&aacute; e Ch&aacute;vez, por sua vez, congelou os la&ccedil;os com a Col&ocirc;mbia.<\/p>\n<p>Quando o presidente da Bol&iacute;via, Evo Morales, expulsou o embaixador norte-americano por intervencionista, em solidariedade Ch&aacute;vez fez o mesmo com o embaixador dos Estados Unidos na Venezuela. Ambos tiraram a ag&ecirc;ncia antidrogas dos Estados Unidos (DEA) de seus pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m atuou em outros conflitos: recha&ccedil;ou a derrubada do presidente hondurenho Manuel Zelaya e cortou rela&ccedil;&otilde;es com Honduras; quando Israel lan&ccedil;ou sua opera&ccedil;&atilde;o Fogo Derretido contra o territ&oacute;rio palestino de Gaza, causando imensa destrui&ccedil;&atilde;o, milhares de mortos e a rejei&ccedil;&atilde;o mundial, Ch&aacute;vez apontou esse pa&iacute;s como &quot;assassino&quot; e expulsou seu embaixador.<\/p>\n<p>Venezuela, Brasil, Argentina e Equador estenderam suas rela&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas a outros continentes e pa&iacute;ses, como China, R&uacute;ssia ou Ir&atilde;.<\/p>\n<p>Com rela&ccedil;&atilde;o ao Ir&atilde;, com o qual Washington mant&eacute;m um conflito desde a ocupa&ccedil;&atilde;o da embaixada em Teer&atilde;, a secret&aacute;ria de Estado, Hillary Clinton, amea&ccedil;ou Venezuela e Bol&iacute;via (n&atilde;o se atreveu a fazer o mesmo com o Brasil) e anunciou: &quot;Atenham-se &agrave;s consequ&ecirc;ncias&quot;.<\/p>\n<p>Barack Obama, que tanta esperan&ccedil;a despertou na Am&eacute;rica Latina, manteve a ret&oacute;rica hostil de George W. Bush contra Ch&aacute;vez e o apontou como um elemento desestabilizador.<\/p>\n<p>Os dois mandat&aacute;rios se encontraram pela primeira vez em Trinidad e Tobago na V C&uacute;pula das Am&eacute;ricas, fizeram uso de am&aacute;veis palavras e apertaram as m&atilde;os. Ch&aacute;vez disse que gostou do encontro, mas acrescentou: &quot;N&atilde;o se enganem, o imp&eacute;rio continua vivo e rebatendo a cauda&quot;.<\/p>\n<p>Ch&aacute;vez foi algo mais do que uma pedra no sapato de Tio Sam. Tinha grande acolhida no continente e deslocou a lideran&ccedil;a de Cuba, pois contava com imensos recursos econ&ocirc;micos, dos quais Havana carecia, para fazer ouvir sua voz.<\/p>\n<p>Seus pactos petroleiros com diferentes regi&otilde;es, em acordos de troca, deram acesso ao petr&oacute;leo a pa&iacute;ses amigos e com pre&ccedil;os preferenciais.<\/p>\n<p>Bush apoiou em 2002 um golpe de Estado contra Ch&aacute;vez, que fracassou, e este intensificou seu discurso cr&iacute;tico contra o mandat&aacute;rio, considerando-o um idiota. Obama herdou e manteve o conflito.<\/p>\n<p>O legado de Ch&aacute;vez em seu pa&iacute;s e no mundo &eacute; s&oacute;lido e inquestion&aacute;vel: do capitalismo ao socialismo, uma mudan&ccedil;a de vida para grandes setores venezuelanos; e a garantia da independ&ecirc;ncia pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica do continente, livre do dom&iacute;nio de Washington. Dificilmente poder&atilde;o dar marcha &agrave; r&eacute;. Paz em seu t&uacute;mulo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Clara Nieto &eacute; escritora e diplomata, embaixadora da Col&ocirc;mbia junto &agrave; ONU e autora do livro Obama e a Nova Esquerda Latino-Americana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, Col&ocirc;mbia, 13\/03\/2013 &ndash; O mundo est&aacute; comovido com a morte de Hugo Ch&aacute;vez, um dos l&iacute;deres latino-americanos de maior impacto e proje&ccedil;&atilde;o nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. 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