{"id":11646,"date":"2013-04-05T10:12:37","date_gmt":"2013-04-05T10:12:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11646"},"modified":"2013-04-05T10:12:37","modified_gmt":"2013-04-05T10:12:37","slug":"uma-sentena-saudvel-desde-a-ndia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/america-latina\/uma-sentena-saudvel-desde-a-ndia\/","title":{"rendered":"Uma senten&ccedil;a saud&aacute;vel desde a &Iacute;ndia"},"content":{"rendered":"<p>Genebra, Su&iacute;&ccedil;a, 05\/04\/2013 &ndash; A decis&atilde;o da &Iacute;ndia de n&atilde;o modificar sua lei de patentes, como pretendia o laborat&oacute;rio Novartis para proteger seu medicamento Glivec, &eacute; uma vit&oacute;ria de todo o mundo em desenvolvimento, que depende dos medicamentos gen&eacute;ricos que esse pa&iacute;s produz a pre&ccedil;os acess&iacute;veis, destacou o sanitarista Germ&aacute;n Vel&aacute;squez. <!--more--> A conquista comemorada por este especialista colombiano, conselheiro especial do Centro do Sul, &eacute; a senten&ccedil;a divulgada no dia 1&ordm; pelo Supremo Tribunal da &Iacute;ndia, rejeitando o recurso apresentado em 2009 pela multinacional farmac&ecirc;utica Novartis, de origem su&iacute;&ccedil;a.<\/p>\n<p>Com sede em Genebra, o Centro do Sul &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o intergovernamental que envolve mais de 50 pa&iacute;ses em desenvolvimento e se dedica &agrave; an&aacute;lise dos problemas nessas na&ccedil;&otilde;es. Vel&aacute;squez, que trabalhou por mais de 20 anos na Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS), exp&ocirc;s &agrave; IPS seu ponto de vista sobre esse processo tramitado nos tribunais de Nova D&eacute;lhi e sobre suas consequ&ecirc;ncias para os pa&iacute;ses em desenvolvimento.<\/p>\n<p>IPS: Como interpreta a senten&ccedil;a do Supremo Tribunal da &Iacute;ndia?<\/p>\n<p>GERM&Aacute;N VEL&Aacute;SQUEZ: H&aacute; problemas com a informa&ccedil;&atilde;o que est&aacute; sendo divulgada. Quase todo o mundo diz que a &Iacute;ndia rejeitou a patente do Glivec. Isso &eacute; verdade, mas n&atilde;o &eacute; isso o que diz a senten&ccedil;a.<\/p>\n<p>IPS: Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>GV: O X da quest&atilde;o &eacute; a ratifica&ccedil;&atilde;o dos crit&eacute;rios fixados pela lei indiana para aprovar a patente de um rem&eacute;dio. Isto &eacute;, se cumpre os requisitos de apresentar uma inova&ccedil;&atilde;o, ou n&atilde;o.<\/p>\n<p>IPS: Como explica a quest&atilde;o?<\/p>\n<p>GV: Tudo come&ccedil;a com a ado&ccedil;&atilde;o do Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Com&eacute;rcio (ADPIC), um dos tratados estabelecidos ao mesmo tempo em que nascia, em 1995, a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (OMC). A &Iacute;ndia foi, ent&atilde;o, o &uacute;nico pa&iacute;s em desenvolvimento que utilizou todo o per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o para aplicar o ADPIC, at&eacute; 2005, quando promulgou sua lei de patentes.<\/p>\n<p>IPS: O que ocorreu com os pedidos de patentes apresentados durante essa d&eacute;cada de transi&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>GV: Foram se acumulando at&eacute; somar cerca de dez mil, e apenas em 2005 o escrit&oacute;rio de patentes come&ccedil;ou a examin&aacute;-las. Entre elas figurava o Glivec. Mas os novos crit&eacute;rios normativos resultaram ser mais r&iacute;gidos, como o que indica que a inova&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode consistir em uma mudan&ccedil;a menor em uma mol&eacute;cula, mas tem que apresentar algo substancial. Resumindo, em 2006 foi negada a patente de venda local do Glivec, um medicamento contra o c&acirc;ncer.<\/p>\n<p>IPS: Como continua a hist&oacute;ria?<\/p>\n<p>GV: A Novartis questiona essa resolu&ccedil;&atilde;o e abre uma causa judicial diante de um tribunal da cidade de Madr&aacute;s (capital do Estado de Tamil Nadu que desde 1996 passou a se chamar Chennai). Mas o Supremo Tribunal dessa cidade, ap&oacute;s tr&ecirc;s anos, tamb&eacute;m rejeita a peti&ccedil;&atilde;o. Nesse mesmo 2009 apela em uma inst&acirc;ncia superior e novamente perde.<\/p>\n<p>IPS: Agora, qual outro recurso lhe resta?<\/p>\n<p>GV: Aqui h&aacute; um aspecto que n&atilde;o est&aacute; sendo suficientemente divulgado. Em um gesto muito c&iacute;nico, perverso e grave, a Novartis disse: &quot;Se n&atilde;o me derem a patente irei ao Supremo Tribunal, mas agora pedindo que seja eliminado esse crit&eacute;rio r&iacute;gido estabelecido no Artigo 3 da lei de patentes. Se forem fixados padr&otilde;es mais flex&iacute;veis, menores, ent&atilde;o meu medicamento entrar&aacute;&quot;, argumentou.<\/p>\n<p>IPS: O processo, ent&atilde;o, tomou outro aspecto&#8230;<\/p>\n<p>GV: Sim, pois com a inten&ccedil;&atilde;o de introduzir seu medicamento &agrave; for&ccedil;a, a firma transnacional pretendia modificar a lei de um pa&iacute;s. E de um pa&iacute;s como a &Iacute;ndia. Creio que nisso seus diretores pecaram por falta de vis&atilde;o ao tomarem essa decis&atilde;o. Isto custou muito caro para eles em termos de imagem.<\/p>\n<p>IPS: Como chega a essa conclus&atilde;o?<\/p>\n<p>GV: Nota-se que foi um mau passo ao se p&ocirc;r a denunciar a lei de patentes da &Iacute;ndia com o risco de perder. A ind&uacute;stria transnacional, em geral, vinha de uma derrota na &Aacute;frica do Sul, quando em 2001 foi obrigada a desistir de uma a&ccedil;&atilde;o contra uma lei que autorizou patentear medicamentos importados a pre&ccedil;os menores para poder enfrentar a epidemia de aids. Algu&eacute;m poderia supor que a &quot;Big Pharma&quot;, como s&atilde;o chamadas as maiores companhias farmac&ecirc;uticas, havia aprendido a li&ccedil;&atilde;o. Inclusive sabendo que o Glivec estava patenteado em 40 pa&iacute;ses, entre eles Estados Unidos, China e R&uacute;ssia.<\/p>\n<p>IPS: Insinua um efeito domin&oacute;?<\/p>\n<p>GV: Se a Novartis perde na &Iacute;ndia, como perdeu no dia 1&ordm;, qualquer dos governos dos 40 pa&iacute;ses pode se perguntar: &quot;Por que n&atilde;o reviso essa patente e a anulo?&quot;. &Eacute; uma faculdade que figura nas legisla&ccedil;&otilde;es de todos eles.<\/p>\n<p>IPS: Que status t&ecirc;m esses 40 pa&iacute;ses que reconhecem a patente do Glivec?<\/p>\n<p>GV: Em sua maioria s&atilde;o Estados industrializados, grandes mercados. Mas entre eles h&aacute; alguns com severas dificuldades econ&ocirc;micas na atualidade, como Gr&eacute;cia e Espanha, cujas autoridades podem se perguntar por que devem pagar US$ 2.500 mensais por pessoa por um tratamento contra c&acirc;ncer. Podem dizer: &quot;melhor farei fabricando o gen&eacute;rico e invalidando esta patente&quot;. Creio que os diretores da Novartis n&atilde;o tiveram isso em conta ao se lan&ccedil;arem nesta corrida judicial. Obviamente, ap&oacute;s o primeiro impulso, seguiram at&eacute; o final e hoje ter&atilde;o as repercuss&otilde;es.<\/p>\n<p>IPS: Quais podem ser essas consequ&ecirc;ncias?<\/p>\n<p>GV: Deve ser uma li&ccedil;&atilde;o para os demais pa&iacute;ses do Sul. Devem tratar de seguir o exemplo da &Iacute;ndia e introduzir em suas legisla&ccedil;&otilde;es cl&aacute;usulas como as do Artigo 3d, que restringe e determina alguns crit&eacute;rios a respeito do que &eacute; uma inova&ccedil;&atilde;o para ter direito a uma patente. Que n&atilde;o pode haver apenas uma pequena mudan&ccedil;a, que &agrave;s vezes &eacute; apenas cosm&eacute;tica, em uma mol&eacute;cula do rem&eacute;dio.<\/p>\n<p>IPS: Qual a perspectiva de que esse crit&eacute;rio se estenda?<\/p>\n<p>GV: Na &Iacute;ndia, Argentina e nas Filipinas j&aacute; existe essa proibi&ccedil;&atilde;o, enquanto outros a est&atilde;o introduzindo por vias alternativas.<\/p>\n<p>IPS: Outras consequ&ecirc;ncias?<\/p>\n<p>GV: A &Iacute;ndia poder&aacute; continuar fabricando gen&eacute;ricos de todos os novos medicamentos que n&atilde;o sejam verdadeiramente originais e continuar&aacute; exportando-os com tranquilidade. Deve-se ter em conta que 95% dos retrovirais consumidos na &Aacute;frica s&atilde;o indianos. Assim, a senten&ccedil;a do tribunal indiano &eacute; brutalmente importante, com uma repercuss&atilde;o muito concreta para esse medicamento e mais cerca de dez mil que est&atilde;o na lista de espera no escrit&oacute;rio de patentes em Nova D&eacute;lhi.<\/p>\n<p>IPS: Qual porcentagem desse n&uacute;mero poder&aacute; obter uma patente?<\/p>\n<p>GV: Em 2010, a Argentina aprovou duas mil novas patentes farmac&ecirc;uticas e a China quatro mil. Mas, na realidade, as verdadeiras inova&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de apenas 40 ou 50 produtos por ano.<\/p>\n<p>IPS: Por que essa tremenda diferen&ccedil;a entre patentes acordadas e verdadeiros produtos inovadores?<\/p>\n<p>GV: A ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica enfrenta dificuldades muito grandes para inovar. Ent&atilde;o se aferra a uma l&oacute;gica muito m&iacute;ope, muito imediata, mas de elevados lucros. Consiste em lan&ccedil;ar inova&ccedil;&otilde;es incrementadas, como se chama em ingl&ecirc;s, ou seja, um produto pequeno com apenas uma mudan&ccedil;a gradual, mas acompanhado de uma grande campanha comercial.<\/p>\n<p>************************<\/p>\n<p>&quot;Medicamento que cura, mata o mercado&quot;<\/p>\n<p>Os farmacologistas franceses Philippe Even e Bernard Debr&eacute; afirmam que a pesquisa no setor &eacute; cada vez mais complexa e n&atilde;o se consegue desenhar medicamentos que representem um avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico forte. Os grandes laborat&oacute;rios fizeram at&eacute; o final da d&eacute;cada de 1990 inova&ccedil;&otilde;es espetaculares, que mudaram as condi&ccedil;&otilde;es de vida, come&ccedil;ando pelos antibi&oacute;ticos.<\/p>\n<p>Contudo, desde ent&atilde;o come&ccedil;aram a ter dificuldades, mudaram de estrat&eacute;gia e se dedicaram a lan&ccedil;ar medicamentos de modo r&aacute;pido sem muitas diferen&ccedil;as entre eles, segundo Germ&aacute;n Vel&aacute;squez. &quot;Tamb&eacute;m optaram por produzir rem&eacute;dios que n&atilde;o curam, mas que apenas tratam a doen&ccedil;a, como &eacute; o caso dos medicamentos contra o colesterol, que s&atilde;o para serem consumidos por toda a vida&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>&quot;A filosofia do neg&oacute;cio &eacute; que o medicamento que cura mata o mercado&quot;, ressaltou Vel&aacute;squez. &quot;Imaginemos que a ind&uacute;stria invista milh&otilde;es de d&oacute;lares em um rem&eacute;dio ou dispositivo m&eacute;dico para curar a hipertens&atilde;o arterial. Isso seria o fim do com&eacute;rcio sanit&aacute;rio mais poderoso da atualidade nos pa&iacute;ses industrializados&quot;, afirmou. &quot;&Eacute; que 20% da popula&ccedil;&atilde;o sadia desses pa&iacute;ses hoje toma anti-hipertensivos&quot;. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genebra, Su&iacute;&ccedil;a, 05\/04\/2013 &ndash; A decis&atilde;o da &Iacute;ndia de n&atilde;o modificar sua lei de patentes, como pretendia o laborat&oacute;rio Novartis para proteger seu medicamento Glivec, &eacute; uma vit&oacute;ria de todo o mundo em desenvolvimento, que depende dos medicamentos gen&eacute;ricos que esse pa&iacute;s produz a pre&ccedil;os acess&iacute;veis, destacou o sanitarista Germ&aacute;n Vel&aacute;squez. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/america-latina\/uma-sentena-saudvel-desde-a-ndia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":86,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,6,5,4,7],"tags":[26],"class_list":["post-11646","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-direitos-humanos","category-economia","category-mundo","category-saude","tag-india"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11646","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/86"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11646"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11646\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11646"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11646"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11646"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}