{"id":11693,"date":"2013-04-15T03:43:09","date_gmt":"2013-04-15T03:43:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11693"},"modified":"2013-04-15T03:43:09","modified_gmt":"2013-04-15T03:43:09","slug":"abrir-as-torneiras-um-acto-arriscado-no-zimbabwe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/africa\/abrir-as-torneiras-um-acto-arriscado-no-zimbabwe\/","title":{"rendered":"Abrir as torneiras &eacute; um acto arriscado no Zimbabwe"},"content":{"rendered":"<p>HARARE, 15\/04\/2013 &ndash; Durante tr&ecirc;s semanas Tavonga Kwidini e a mulher Maria n&atilde;o tiveram &aacute;gua nas torneiras na sua casa em Glen View, um dos muitos bairros sem &aacute;gua em Harare, a capital do Zimbabwe. <!--more--> O casal estava a chegar ao fim da sua paci&ecirc;ncia quando fortes chuvas come&ccedil;aram a cair como uma d&aacute;diva dos c&eacute;us. &quot;Agora recolhemos a &aacute;gua da chuva e &eacute; isso que usamos para tomar banho, beber e para descarga nas retretes,&quot; disse Kwidini &agrave; IPS enquanto alinhava baldes debaixo do telhado da sua casa &agrave; espera das chuvas de Janeiro. Esta tem sido a sua vida desde a segunda semana de Dezembro de 2012, a &uacute;ltima vez que teve acesso a &aacute;gua da torneira. Surpreendentemente, continua a receber a conta de &aacute;gua da municipalidade, em m&eacute;dia 80 d&oacute;lares por m&ecirc;s. &quot;Os problemas com a &aacute;gua n&atilde;o s&atilde;o novos aqui &#8211; em 2008 alguns dos meus vizinhos morreram de c&oacute;lera devido a essa escassez de &aacute;gua mas a municipalidade nada faz para assegurar que temos acesso a &aacute;gua pot&aacute;vel,&quot; explica Kwidini.<\/p>\n<p>A assist&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas continua a ser necess&aacute;ria No passado, o problema era geralmente atribu&iacute;do &agrave; escassez dos qu&iacute;micos que s&atilde;o usados para desinfectar a &aacute;gua, mas h&aacute; quase meia d&eacute;cada que esta desculpa &eacute; inadequada, visto que o Fundo das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Inf&acirc;ncia (UNICEF) tem fornecido estes qu&iacute;micos gratuitamente aos 20 munic&iacute;pios urbanos. A assist&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas ocorreu depois da epidemia de c&oacute;lera em 2008 que matou cerca de 4.000 pessoas. S&oacute; em Abril do ano passado, quando as autoridades locais indicaram que a situa&ccedil;&atilde;o estava sob controlo, &eacute; que a UNICEF suspendeu o seu apoio, segundo a Directora de Comunica&ccedil;&atilde;o da UNICEF, Micaela Marques de Sousa. Contudo, os especialistas e os habitantes locais concordam que o actual status quo poder&aacute; obrigar a ag&ecirc;ncia de ajuda humanit&aacute;ria a reavaliar a sua posi&ccedil;&atilde;o, uma vez que o acesso a &aacute;gua pot&aacute;vel &eacute; um dos oito Objectivos de Desenvolvimento do Mil&eacute;nio (ODM), cuja meta de concretiza&ccedil;&atilde;o em 2015 se est&aacute; a aproximar rapidamente. At&eacute; &agrave; retirada do programa da UNICEF para a &Aacute;gua, Saneamento e Higiene (WASH) em 2008, a situa&ccedil;&atilde;o tinha melhorado visivelmente, com um maior n&uacute;mero de pessoas nos 20 centros urbanos do Zimbabwe a conseguir ter acesso a &aacute;gua pot&aacute;vel e servi&ccedil;os de saneamento. Agora &eacute; comum ver-se in&uacute;meras pessoas nas zonas urbanas do Zimbabwe a carregarem baldes &agrave; procura de &aacute;gua, uma ocorr&ecirc;ncia que anteriormente estava limitada &agrave;s zonas rurais. &quot;N&atilde;o temos outra op&ccedil;&atilde;o excepto movimentarmo-nos de uma &aacute;rea para outra &agrave; procura de po&ccedil;os com &aacute;gua pot&aacute;vel. Temos tido sorte devido &agrave;s chuvas, caso contr&aacute;rio teria de carregar um balde de 20 litros para o meu local de trabalho de forma a poder trazer &aacute;gua pot&aacute;vel para casa,&quot; explica Kwidini, que trabalha numa loja grossista no centro de Harare.<\/p>\n<p>Residentes procuram alternativas Como acontece em muitas crises, as mulheres e crian&ccedil;as fazem a maior parte do trabalho. As mulheres, que agora recorrem a fazer as suas lavagens em cursos de &aacute;gua que muitas vezes s&atilde;o usados como zonas de despejo pelas companhias industriais, ficam vulner&aacute;veis a perigos para a sa&uacute;de. Entretanto, as crian&ccedil;as est&atilde;o a ser obrigadas a desempenhar o papel de &quot;carregadoras de &aacute;gua&quot;. <\/p>\n<p>&quot;O meu dia come&ccedil;a &agrave;s cinco da manh&atilde; quando vou para a fila no po&ccedil;o local para obter a &aacute;gua do banho para o meu pai, para mim e para uso dom&eacute;stico,&quot; relatou Thelma, de 14 anos, &agrave; IPS. Como muitos dos seus colegas, Thelma tem de ir para uma longa fila muito cedo ou ent&atilde;o arrisca-se a chegar tarde &agrave; escola. O n&uacute;mero de po&ccedil;os em funcionamento &eacute; insuficiente para servir a popula&ccedil;&atilde;o urbana e quando ficam avariados &#8211; uma ocorr&ecirc;ncia comum &#8211; muitas vezes s&atilde;o deixados em estado de degrada&ccedil;&atilde;o. Um po&ccedil;o no Centro Comercial de Tichagarika, no bairro de Glen View, que era usado por centenas de moradores, avariou em Junho do ano passado e permaneceu inactivo at&eacute; os seus componentes terem sido roubados. O governo ajudou Harare a escavar 250 po&ccedil;os por toda a capital, mas os moradores afirmam que a grande maioria est&aacute; avariada ou s&oacute; fornece &aacute;gua contaminada. Segundo o relat&oacute;rio de monitoriza&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e Bem-Estar Infantil, cerca de 50 casos de febre tif&oacute;ide s&atilde;o registados todos os dias em Harare e cidades sat&eacute;lite. Aproximadamente 500.000 pessoas no Zimbabwe tiveram diarreia em 2012, e destas, 460.000 foram casos graves, tendo havido 281 mortes. As estat&iacute;sticas de um grupo de press&atilde;o, o Trust dos Moradores de Harare, sugerem que s&oacute; 192.000 agregados familiares em Harare, cidade com dois milh&otilde;es de habitantes, &eacute; que est&atilde;o ligadas &agrave; rede de abastecimento de &aacute;gua, enquanto que os restantes dependem dos po&ccedil;os ou da &aacute;gua das chuvas. Para piorar a situa&ccedil;&atilde;o, o Trust dos Moradores de Harare alega que a cidade perde 60 por cento da &aacute;gua tratada devido a fugas nas velhas infra-estruturas. Harare necessita de 1.300 megalitros de &aacute;gua por dia mas o actual abastecimento di&aacute;rio varia entre 600 a 700 megalitros, aproximadamente metade da procura. Al&eacute;m disso, o Zimbabwe gasta 27 milh&otilde;es de d&oacute;lares por m&ecirc;s para tratar o abastecimento de &aacute;gua. A Directora do Trust dos Moradores de Harare, Precious Shumba, disse &agrave; IPS que os problemas que a cidade enfrenta se devem &agrave; incapacidade das municipalidades locais de disponibilizarem os servi&ccedil;os mais b&aacute;sicos aos moradores de forma adequada. &quot;Estamos muito desapontados com o n&iacute;vel de presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os &#8211; a qualidade &eacute; p&eacute;ssima e os moradores queixam-se de dores de est&ocirc;mago e doen&ccedil;as diarreicas como a tif&oacute;ide. A maior parte do tempo a &aacute;gua que sai da torneira tem mau cheiro e com impuridades vis&iacute;veis,&quot; afirmou Shumba. &quot;Em &aacute;reas como Crowborough, Dzivarasekwa, Glen Norah e Budiriro, os moradores viram part&iacute;culas vegetais e sadza (milho cozido) sa&iacute;rem da torneira, aumentando os receios relacionados com a seguran&ccedil;a e sustentabilidade desta &aacute;gua para consumo humano,&quot; acrescentou Shumba. Um recente estudo da Universidade do Zimbabwe indicou que uma em cada 1.000 pessoas na capital corre o risco de desenvolver cancro do col&oacute;n ou do f&iacute;gado devido ao consumo cont&iacute;nuo de &aacute;gua insalubre retirada de fontes polu&iacute;das. Christopher Zvobgo, engenheiro da cidade de Harare, contestou vigorosamente estes resultados, apesar de ter admitido que n&atilde;o havia d&uacute;vida que a cidade enfrentava desafios relacionados com a &aacute;gua. &quot;Fazemos exames &agrave; &aacute;gua diariamente e retiramos amostras de pontos diferentes. Todos os meses enviamos (as amostras) a dois laborat&oacute;rios independentes para serem examinadas e elas satisfazem os padr&otilde;es da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de,&quot; explicou Zvobgo, acrescentando que o maior problema residia nas infra-estruturas de &aacute;gua envelhecidas. Mas de regresso a Glen View, moradores como Alois Chidoda e os filhos s&atilde;o obrigados a depender dos po&ccedil;os porque a &aacute;gua que sai da torneira &quot;tem uma cor castanha&quot; e simplesmente n&atilde;o &eacute; apropriada para consumo humano, disse Chidoda &agrave; IPS. &quot;A sua utiliza&ccedil;&atilde;o seria equivalente a convidar doen&ccedil;as,&quot; acrescentou Chidoda. O Presidente da Associa&ccedil;&atilde;o dos Munic&iacute;pios Urbanos do Zimbabwe, Femias Chakabuda, atribui a falta de &aacute;gua nas &aacute;reas urbanas do pa&iacute;s &agrave;s crescentes d&iacute;vidas do governo. &quot;O problema &eacute; que o nosso governo quer usar a &aacute;gua gratuitamente, o que nos impossibilita de reparar as infra-estruturas de &aacute;gua e pagar os nossos pr&oacute;prios prestadores de servi&ccedil;os,&quot; disse Chakabuda &agrave; IPS, acrescentando que actualmente o governo deve ao Munic&iacute;pio da Cidade de Harare mais de 10 milh&otilde;es de d&oacute;lares, ao Munic&iacute;pio da Cidade de Masvingo sete milh&otilde;es de d&oacute;lares e o Munic&iacute;pio da Cidade de Bulawayo quatro milh&otilde;es de d&oacute;lares, que s&atilde;o pagamentos retroactivos pela presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de &aacute;gua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HARARE, 15\/04\/2013 &ndash; Durante tr&ecirc;s semanas Tavonga Kwidini e a mulher Maria n&atilde;o tiveram &aacute;gua nas torneiras na sua casa em Glen View, um dos muitos bairros sem &aacute;gua em Harare, a capital do Zimbabwe. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/africa\/abrir-as-torneiras-um-acto-arriscado-no-zimbabwe\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":191,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11693","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/191"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11693"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11693\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}