{"id":11703,"date":"2013-04-16T08:55:02","date_gmt":"2013-04-16T08:55:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11703"},"modified":"2013-04-16T08:55:02","modified_gmt":"2013-04-16T08:55:02","slug":"reportagem-par-onde-a-terra-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/america-latina\/reportagem-par-onde-a-terra-poder\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Par&aacute;, onde a terra &eacute; poder"},"content":{"rendered":"<p>MARAB&Aacute;, Brasil, 16\/04\/2013 &ndash; (Tierram&eacute;rica).- A vida dos camponeses sem terra que ocupam fazendas no Par&aacute;, o Estado onde a luta agr&aacute;ria &eacute; das mais violentas, oscila entre as intimida&ccedil;&otilde;es e a aspers&atilde;o de agrot&oacute;xicos sobre casas e planta&ccedil;&otilde;es.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11703\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/624_ninios_campamento_frei_Henri.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11703\" class=\"size-medium wp-image-11703\" title=\"Crian&ccedil;as no acampamento Frei Henri des Roziers, do MST, no Par&aacute; - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/624_ninios_campamento_frei_Henri.jpg\" alt=\"Crian&ccedil;as no acampamento Frei Henri des Roziers, do MST, no Par&aacute; - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11703\" class=\"wp-caption-text\">Crian&ccedil;as no acampamento Frei Henri des Roziers, do MST, no Par&aacute; - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS<\/p><\/div>  Sob o sol abrasador e a umidade do clima amaz&ocirc;nico, Waldemar dos Santos, de 60 anos, cuida da horta comunit&aacute;ria de camponeses sem terra no Estado do Par&aacute;, &agrave; espera de que a reforma agr&aacute;ria lhe proporcione uma vida melhor. &quot;Meu sonho &eacute; um terreninho. Nosso desejo &eacute; acabar com a fome neste pa&iacute;s, que est&aacute; caindo montanha abaixo pela necessidade&quot;, disse ao Terram&eacute;rica o campon&ecirc;s natural da Bahia, que ainda crian&ccedil;a, para fugir da seca, emigrou para o Par&aacute;.<\/p>\n<p>Sua fam&iacute;lia &eacute; uma das 280 que desde 8 de agosto de 2010 vivem no acampamento que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) batizou de Frei Henri des Roziers, em homenagem ao padre dominicano de 82 anos que, como advogado da Comiss&atilde;o Pastoral da Terra, continua defendendo os direitos humanos na regi&atilde;o.<\/p>\n<p>&Agrave;s margens da rodovia federal BR-155, a cerca de cem quil&ocirc;metros da cidade de Marab&aacute;, estes camponeses ocupam a propriedade Fazendinha, uma &aacute;rea com mais de 400 hectares sobre a qual pesam den&uacute;ncias de ter sido ganha com o desmonte da Amaz&ocirc;nia e a invas&atilde;o de terras p&uacute;blicas, al&eacute;m de ser improdutiva. Este &eacute; o argumento de quase todas as ocupa&ccedil;&otilde;es de movimentos sociais que reivindicam a reforma agr&aacute;ria no Brasil.<\/p>\n<p>S&oacute; no sudeste do Par&aacute;, onde a luta pela terra &eacute; mais violenta, h&aacute; mais de 500 assentamentos de pequenos agricultores que foram legalizados pelo Instituto Nacional de Coloniza&ccedil;&atilde;o e Reforma Agr&aacute;ria (Incra). Mas restam mais de cem acampamentos de fam&iacute;lias que vivem em barracas e ranchos de palha &agrave; espera de que o governo federal concretize a legaliza&ccedil;&atilde;o. Conseguir do governo o confisco de uma fazenda e sua destina&ccedil;&atilde;o &agrave; reforma agr&aacute;ria demora, em m&eacute;dia, cinco anos.<\/p>\n<p>Para chegar ao acampamento Frei Henri &eacute; preciso percorrer um longo trecho da poeirenta BR-155, cheia de ondula&ccedil;&otilde;es e caminh&otilde;es carregados de minerais que viajam dia e noite. A regi&atilde;o era rica em castanheiros, dizimados para dar lugar a pastagens. Em plena Amaz&ocirc;nia profunda, a beleza das &aacute;rvores de copas altas deixou de existir h&aacute; muito tempo, e a paisagem &eacute; plana e lisa, sem rastros da selva exuberante.<\/p>\n<p>A ocupa&ccedil;&atilde;o da Fazendinha acontece em meio a um duro confronto com os latifundi&aacute;rios locais, que est&atilde;o organizados e contratam seguran&ccedil;a privada armada para intimidar os camponeses e arruinar seus cultivos. &quot;Plantamos para ter um alimento saud&aacute;vel. Os fazendeiros n&atilde;o produzem nada e dizem que suas terras s&atilde;o produtivas. As amea&ccedil;as s&atilde;o constantes. A justi&ccedil;a no Par&aacute; &eacute; muito lenta. &Eacute; um espera e desespera&quot;, descreveu Santos.<\/p>\n<p>&quot;Aqui a terra &eacute; poder&quot;, definiu Maria Raimunda C&eacute;sar, de 39 anos e integrante da coordena&ccedil;&atilde;o do MST no Par&aacute;. &quot;O conflito &eacute; permanente. No Par&aacute; se mata gente como se mata boi. Um corte bovino para exporta&ccedil;&atilde;o vale mais do que um ser humano. H&aacute; muita injusti&ccedil;a e um processo de opress&atilde;o e viol&ecirc;ncia crescentes&quot;, afirmou. E acrescentou que a reforma agr&aacute;ria est&aacute; ausente das pol&iacute;ticas nacionais. Tanto o atual governo de Dilma Rousseff como o de Luiz In&aacute;cio Lula da Silva (2003-2011) &quot;retiraram o tema da agenda&quot;.<\/p>\n<p>Aqui ocorre um ciclo perverso no uso da terra, segundo Raimunda. Primeiro se abre caminho para a minera&ccedil;&atilde;o e o corte de &aacute;rvores para carv&atilde;o, depois chega a invas&atilde;o privada de terrenos fiscais, a devasta&ccedil;&atilde;o da selva e a planta&ccedil;&atilde;o de capim, uma gram&iacute;nea que serve de pasto para o gado. Em m&eacute;dia, h&aacute; uma cabe&ccedil;a de gado por hectare, garantiu.<\/p>\n<p>Pela mesma BR-155, mas pr&oacute;ximo de Marab&aacute;, fica o acampamento Helenira Resende, que desde 1&ordm; de mar&ccedil;o de 2010 abriga 150 fam&iacute;lias sem terra. Al&eacute;m das provoca&ccedil;&otilde;es por parte de homens armados, a amea&ccedil;a aqui tamb&eacute;m chega pelo ar. Os camponeses denunciam o uso de venenos agr&iacute;colas jogados sobre suas casas e planta&ccedil;&otilde;es. Segundo o argentino Ra&uacute;l Montenegro, que integrou uma miss&atilde;o internacional de solidariedade aos camponeses do Par&aacute;, &quot;o uso de bala e veneno combinados &eacute; como uma luta qu&iacute;mica contra essas popula&ccedil;&otilde;es&quot;.<\/p>\n<p>&quot;Os latifundi&aacute;rios dizem que jogam esses produtos em suas terras, mas &eacute; uma maneira de se livrar da responsabilidade&quot;, acrescentou Montenegro, ganhador em 2004 do pr&ecirc;mio Nobel alternativo concedido pela Funda&ccedil;&atilde;o Right Livelihood Award, com sede em Estocolmo.<\/p>\n<p>&quot;Pudemos comprovar que grupos armados chegaram a sitiar uma comunidade inteira sob uma chuva noturna de disparos e bombas que provocavam barulho ensurdecedor no acampamento Frei Henri des Rozier. Tamb&eacute;m vimos que empresas como a Santa B&aacute;rbara aplicam pesticidas por via a&eacute;rea&quot;, disse ao Terram&eacute;rica o presidente da Funda&ccedil;&atilde;o para a Defesa do Meio Ambiente, com sede na cidade argentina de C&oacute;rdoba. &quot;Esse veneno chega com total impunidade a crian&ccedil;as, adolescentes e adultos, sem que o Estado controle, sem a exist&ecirc;ncia de estudos epidemiol&oacute;gicos ou ambientais&quot;, criticou Montenegro.<\/p>\n<p>&quot;Nosso lema &eacute; ocupar e resistir, mas eles s&atilde;o um grupo poderos&iacute;ssimo. Os homens da fazenda est&atilde;o fortemente armados e atiram&quot;, contou Aldemir Monteiro de Souza, de 28 anos, que vive no acampamento Helenira Resende, uma &aacute;rea de 50 hectares dentro da fazenda Cedro, com extens&atilde;o de quase 15 mil hectares. Os poderosos a que se refere s&atilde;o os propriet&aacute;rios da Agropecu&aacute;ria Santa B&aacute;rbara, que tem como um de seus principais acionistas o banqueiro Daniel Dantas, detido em 2008 por crimes financeiros e lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p>Segundo o MST e a Comiss&atilde;o Pastoral, apenas nos &uacute;ltimos dez anos, esse grupo comprou 800 mil hectares de terras em seis munic&iacute;pios do Par&aacute;. &quot;O grupo se apropria de terras p&uacute;blicas, utiliza trabalho escravo e comete crimes ambientais&quot;, denunciou Charles Trocate, da coordena&ccedil;&atilde;o do MST neste Estado.<\/p>\n<p>A esperan&ccedil;a &eacute; que t&eacute;cnicos do Incra inspecionem a fazenda Cedro para determinar se &eacute; produtiva e legal. Caso constatem irregularidades, ter&aacute; in&iacute;cio um processo de expropria&ccedil;&atilde;o e depois ser&atilde;o entregues parcelas aos camponeses. Para 22 de maio est&aacute; prevista uma audi&ecirc;ncia com a fiscaliza&ccedil;&atilde;o agr&aacute;ria do Incra no F&oacute;rum de Justi&ccedil;a de Marab&aacute;. Este ser&aacute; o primeiro passo, ap&oacute;s anos de ocupa&ccedil;&atilde;o e acampamento.<\/p>\n<p>*<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARAB&Aacute;, Brasil, 16\/04\/2013 &ndash; (Tierram&eacute;rica).- A vida dos camponeses sem terra que ocupam fazendas no Par&aacute;, o Estado onde a luta agr&aacute;ria &eacute; das mais violentas, oscila entre as intimida&ccedil;&otilde;es e a aspers&atilde;o de agrot&oacute;xicos sobre casas e planta&ccedil;&otilde;es. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/america-latina\/reportagem-par-onde-a-terra-poder\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,6,5,11],"tags":[27,21],"class_list":["post-11703","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-direitos-humanos","category-economia","category-politica","tag-brasil","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11703"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11703\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}