{"id":1171,"date":"2005-11-07T00:00:00","date_gmt":"2005-11-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1171"},"modified":"2005-11-07T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-07T00:00:00","slug":"desenvolvimento-a-misria-do-ouro-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/desenvolvimento-a-misria-do-ouro-branco\/","title":{"rendered":"Desenvolvimento: A mis&eacute;ria do &quot;ouro branco&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Os subs&iacute;dios agr&iacute;colas dos Estados U, 07\/11\/2005 &ndash; presidente da Irlanda e ativista pelos direitos humanos.<br \/> <!--more--> <br \/> NOVA YORK.- &quot;Enfrentar a pobreza &eacute; um assunto complexo&quot;. Por que tenho ouvido dizer isto t&atilde;o freq&uuml;entemente, precisamente agora quanto o tema da pobreza volta a estar no primeiro lugar da agenda mundial? A pobreza est&aacute; na base dos maiores problemas que o planeta enfrenta atualmente, da degrada&ccedil;&atilde;o ambiental at&eacute; a inseguran&ccedil;a e os conflitos armados. De modo que seria justo reconhec&ecirc;-la como prioridade da C&uacute;pula do Grupo dos Oito, em julho, da C&uacute;pula Mundial sobre as Metas de Desenvolvimento do Mil&ecirc;nio, em setembro, e da decisiva confer&ecirc;ncia da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (OMC), prevista para dezembro, em Hong Kong. Por&eacute;m, a pergunta continua sem resposta: &eacute; t&atilde;o complexo enfrentar a pobreza?<\/p>\n<p> Acredito que esta afirma&ccedil;&atilde;o &eacute; feita por pol&iacute;ticos e economistas que n&atilde;o querem admitir o v&iacute;nculo entre a extrema pobreza em pa&iacute;ses em desenvolvimento e as a&ccedil;&otilde;es empreendidas em pa&iacute;ses ricos. Se o fizessem, veriam que as solu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o &oacute;bvias. Em dezembro de 2004, em Mali, estive em uma planta&ccedil;&atilde;o de algod&atilde;o, sufocando-me de calor debaixo do Sol do meio-dia. As mulheres &agrave; minha volta se curvavam at&eacute; o solo e enchiam cestos com o algod&atilde;o que recolhiam com as m&atilde;os nuas; um beb&ecirc; estava estendido em uma valeta pr&oacute;xima, sendo cuidado por outras crian&ccedil;as pequenas. N&atilde;o vi nenhum abrigo, nenhum servi&ccedil;o de higiene, nem &aacute;gua pot&aacute;vel ou mesmo um lugar com uma sombra decente. S&oacute; via pobres e orgulhosas fam&iacute;lias que lutavam para sobreviver em um ambiente hostil. Seu problema n&atilde;o era t&atilde;o complexo.<\/p>\n<p> A pobreza estava negando a essas mulheres seus direitos fundamentais, de ter acesso a um adequado n&iacute;vel de vida. A culpa &eacute;, simplesmente, de certas pol&iacute;ticas adotadas nos Estados Unidos. No passado, os africanos ocidentais chamavam o algod&atilde;o de &quot;ouro branco&quot; porque fornecia a renda essencial para comprar alimentos, rem&eacute;dios e enviar os filhos &agrave; escola. Mas os pre&ccedil;os do algod&atilde;o come&ccedil;aram a cair desde meados dos anos 90, sobretudo por causa da pol&iacute;tica agr&iacute;cola norte-americana. O governo desta pot&ecirc;ncia gasta mais de US$ 3 bilh&otilde;es anuais para subsidiar sua produ&ccedil;&atilde;o de algod&atilde;o, que inundou os mercados mundiais e em conseq&uuml;&ecirc;ncia jogou para baixo os pre&ccedil;os do produto e reduziu drasticamente a renda de dez milh&otilde;es de africanos ocidentais que dependem dele. S&atilde;o os produtores mais pobres do mundo.<\/p>\n<p> Enquanto em 2002 os algodoeiros norte-americanos recebiam, em m&eacute;dia, contribui&ccedil;&otilde;es governamentais no valor de US$ 331 mil ao ano, os produtores em pa&iacute;ses como Mali, Benin e Burkina Faso ficam felizes se obt&ecirc;m uma renda anual de US$ 440. Os subs&iacute;dios agr&iacute;colas dos Estados Unidos est&atilde;o levando as fam&iacute;lias da &Aacute;frica Ocidental &agrave; mis&eacute;ria e s&atilde;o diretamente respons&aacute;veis por uma grave nega&ccedil;&atilde;o de direitos humanos b&aacute;sicos em mat&eacute;ria de alimenta&ccedil;&atilde;o, &aacute;gua pot&aacute;vel, servi&ccedil;os de saneamento, sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o. O drama que presenciei em Mali est&aacute; se repetindo de diferentes formas em comunidades pobres de todo o mundo, e n&atilde;o se deve culpar apenas os Estados Unidos. Os produtores de a&ccedil;&uacute;car e leite na &Aacute;frica, Am&eacute;rica do Sul e &Aacute;sia tamb&eacute;m sofrem por causa dos subs&iacute;dios da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia.<\/p>\n<p> O preju&iacute;zo provocado por estas pol&iacute;ticas &eacute; exacerbado pelos programas de ajuste estrutural impostos pelo Fundo Monet&aacute;rio Internacional e apoiados pelo Banco Mundial, que levam muitos governos de pa&iacute;ses em desenvolvimento a realizar cortes nos servi&ccedil;os sociais, o que torna mais dif&iacute;cil para os pobres educar, nutrir e dar abrigo aos seus filhos. Al&eacute;m disso, as normas de propriedade intelectual tornam mais dif&iacute;cil o acesso a medicamentos contra doen&ccedil;as como HIV\/aids, que mata 6,5 mil africanos a cada dia. &Eacute; hora de o mundo rico aceitar n&atilde;o s&oacute; as vantagens, como tamb&eacute;m as responsabilidades da era da globaliza&ccedil;&atilde;o. Devemos ajudar os mais pobres a enfrentar suas desvantagens, mesmo quando nos pare&ccedil;am estranhos habitantes de terras distantes. Porque os seres que vemos sofrendo nos notici&aacute;rios da televis&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o estranhos.<\/p>\n<p> Nossos impostos minam seus meios de vida, as patentes e os lucros de nossas empresas s&atilde;o protegidos &agrave;s custas da sa&uacute;de das crian&ccedil;as desses &quot;estranhos&quot;. Os ministros de Com&eacute;rcio fazem parte de governos que aceitam responsabilidades ao assinarem tratados internacionais de direitos humanos. Quando a OMC se reunir em Hong Kong, em dezembro, &eacute; de se esperar que Estados Unidos e Uni&atilde;o Europ&eacute;ia adotem compromissos genu&iacute;nos para p&ocirc;r fim &agrave;s pol&iacute;ticas injustas, aos subs&iacute;dios e &agrave;s barreiras alfandeg&aacute;rias que negam aos pobres a possibilidade de obter justos benef&iacute;cios por seu trabalho, de sair da mis&eacute;ria por seus pr&oacute;prios meios. Menos palavras e mais a&ccedil;&atilde;o, essa &eacute; a maneira mais simples de enfrentar a pobreza.<\/p>\n<p> * A autora preside a Iniciativa por uma Globaliza&ccedil;&atilde;o &Eacute;tica. Foi presidente da Irlanda e Alta Comiss&aacute;ria da ONU para os Direitos Humanos.<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram&eacute;rica, projeto de comunica&ccedil;&atilde;o dos Programas das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu&iacute;do pela Ag&ecirc;ncia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os subs&iacute;dios agr&iacute;colas dos Estados U, 07\/11\/2005 &ndash; presidente da Irlanda e ativista pelos direitos humanos.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/desenvolvimento-a-misria-do-ouro-branco\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":366,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1171","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/366"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1171"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1171\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}