{"id":11714,"date":"2013-04-17T10:31:06","date_gmt":"2013-04-17T10:31:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11714"},"modified":"2013-04-17T10:31:06","modified_gmt":"2013-04-17T10:31:06","slug":"coluna-sara-montiel-e-margaret-thatcher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/politica\/coluna-sara-montiel-e-margaret-thatcher\/","title":{"rendered":"COLUNA: Sara Montiel e Margaret Thatcher"},"content":{"rendered":"<p>* Joaqu&iacute;n Roy, 17\/04\/2013 &ndash; Sua morte no mesmo dia &eacute; mera coincid&ecirc;ncia, mas simb&oacute;lica e representativa. <!--more--> Sarita e Maggie revelam o cen&aacute;rio de seus respectivos pa&iacute;ses, velhas na&ccedil;&otilde;es europeias e antigos imp&eacute;rios que resistiram a se desvanecer, aferrados a alguns tra&ccedil;os de identidade que somente as duas damas desaparecidas (e seus numerosos admiradores) compreendiam.<\/p>\n<p>Mas a Espanha de &quot;la violetera&quot; e a Gr&atilde;-Bretanha da &quot;dama de ferro&quot;, que ambas teimosamente tentaram manter inalteradas, foram (e s&atilde;o) anti&eacute;ticas e de diversa sorte.<\/p>\n<p>A beleza em tecnicolor que a cantora natural da Mancha transmitiu com sua voz inconfund&iacute;vel contrasta com a face s&eacute;ria e distante da ex-primeira-ministra brit&acirc;nica (1925-2013). Mas nas duas se nota tra&ccedil;os intra-hist&oacute;ricos ainda percept&iacute;veis.<\/p>\n<p>A Espanha, que era o contexto da &eacute;poca gloriosa de Sara Montiel (1928-2013), embora resita a desaparecer, parece ter sido superada pelo desenvolvimento, pela industrializa&ccedil;&atilde;o e depois pela bolha imobili&aacute;ria que levou &agrave; crise e ao desprest&iacute;gio.<\/p>\n<p>O pa&iacute;s que as can&ccedil;&otilde;es maquiavam era ent&atilde;o um cen&aacute;rio mais pr&oacute;ximo, por mais imaginado que fosse. O lan&ccedil;amento hollywoodiano, que a levou a alternar com Gray Cooper e Burt Lancaster, era o triunfo que apagava o desencanto de &quot;Bem-vindo Mr. Marshall&quot;, em um Estado ditatorial sustentado por Washington.<\/p>\n<p>Mas os espectadores arrebatados por seus filmes aceitavam de bom grado as melodias que os convidavam a contemplar uma paisagem pobre, sem alternativas a n&atilde;o ser o sil&ecirc;ncio, a resigna&ccedil;&atilde;o ou a emigra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A Gr&atilde;-Bretanha, na qual se lan&ccedil;ou com f&uacute;ria Margaret Thatcher (1979-1990), era vista por seus c&iacute;rculos conservadores como uma trai&ccedil;&atilde;o aos valores eternos da Inglaterra imperial, que deixara paulatinamente que em muitos de seus antigos territ&oacute;rios coloniais o Sol se pusesse.<\/p>\n<p>Tratava-se ainda de paliar esse lento desmoronamento com a admir&aacute;vel fic&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da Comunidade de Na&ccedil;&otilde;es, que em seu ponto alto se colocava a monarca ainda atual.<\/p>\n<p>Eram os tempos felizes em que os esc&acirc;ndalos da casa de Windsor ficavam reduzidos &agrave; mem&oacute;ria de Eduardo VIII, que renunciou insolitamente ao trono em 1936 &quot;pelo amor de uma mulher&quot; (com ar de bolero). Depois viriam as aventuras de Charles e a trag&eacute;dia de Diana.<\/p>\n<p>Os tempos de Sara, lidos hoje, sobretudo com uma perspectiva reacion&aacute;ria, s&atilde;o lembrados com nostalgia. Nada se sabia (ou n&atilde;o se publicava devido a uma imprensa amorda&ccedil;ada) da corrup&ccedil;&atilde;o barata e de pouca monta que dominava a sobreviv&ecirc;ncia em um pa&iacute;s que apenas se recuperara da cruel Guerra Civil (1936-1939) e do isolamento ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).<\/p>\n<p>Sarita vendia violetas enquanto presos republicanos terminavam a constru&ccedil;&atilde;o do Vale dos Ca&iacute;dos. A Sexta Frota chegava aos portos mediterr&acirc;neos, enquanto Rota e Torrej&oacute;n eram objetivos estrat&eacute;gicos dos sovi&eacute;ticos na Guerra Fria, convertendo a Espanha em um membro for&ccedil;ado da Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado do Atl&acirc;ntico Norte (Otan), sem voz nem voto, com todas as desvantagens e nenhuma das vantagens. O franquismo recebia uma prorroga&ccedil;&atilde;o de duas d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>Thatcher surgiu em meio a um pa&iacute;s que havia adotado numerosos adere&ccedil;os do Estado de bem-estar, com o qual ainda tentava corrigir os hist&oacute;ricos desequil&iacute;brios sociais que haviam se entronizado desde a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial. A evidente divis&atilde;o de classes era suavizada por servi&ccedil;os de sa&uacute;de, pens&otilde;es, educa&ccedil;&atilde;o, que foram a marca dos governos trabalhistas.<\/p>\n<p>Ela se prop&ocirc;s desmantelar esse emaranhado contr&aacute;rio ao laissez faire com o (velho) liberalismo que havia desempoeirado do outro lado do Atl&acirc;ntico o s&oacute;cio id&ocirc;neo para dan&ccedil;ar o tango da express&atilde;o anglo-americana: Ronald Reagan.<\/p>\n<p>A Espanha de Sarita, uma vez desaparecido o franquismo, se apressou em recuperar o tempo perdido e apostou em sua reinser&ccedil;&atilde;o no outro lado dos Pirineus. Jos&eacute; Ortega e Gasset haviam dito que &quot;a Espanha era o problema e a Europa a solu&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Desde 1986, ano de ingresso na comunidade europeia, at&eacute; meados da d&eacute;cada de 1990, a Espanha se converteu na d&eacute;cima pot&ecirc;ncia econ&ocirc;mica do mundo e maior doadora de ajuda para o desenvolvimento na Am&eacute;rica Latina. Nunca tantos espanh&oacute;is de tr&ecirc;s gera&ccedil;&otilde;es que viviam nesses anos tinham vivido melhor durante tanto tempo.<\/p>\n<p>Thatcher havia absorvido em seu momento a entrada da Gr&atilde;-Bretanha na ent&atilde;o ainda chamada Comunidade Econ&ocirc;mica Europeia, centrada no Mercado Comum. Vindo em seguida ao seu correligion&aacute;rio Edward Heath, se prop&ocirc;s deter a europeiza&ccedil;&atilde;o al&eacute;m do mercado &uacute;nico, enterrando todo sinal de supranacionalidade, um roteiro herdado por David Cameron.<\/p>\n<p>O que h&aacute; apenas poucos anos era uma distante hip&oacute;tese acad&ecirc;mica, o &quot;brexit&quot;, a sa&iacute;da da Uni&atilde;o Europeia, agora &eacute; parte do plaus&iacute;vel roteiro.<\/p>\n<p>Hoje, a Espanha de Sarita ressuscitou com o colapso imobili&aacute;rio, o desemprego generalizado, a emigra&ccedil;&atilde;o e as d&uacute;vidas sobre seu sistema pol&iacute;tico. A Gr&atilde;-Bretanha imperial recebeu uma dose de vitaminas com a decis&atilde;o de Maggie de contra-atacar nas Ilhas Malvinas.<\/p>\n<p>Curiosamente odiada em Buenos Aires, merece um monumento diante da Torre dos Ingleses, ao lado do memorial dos ca&iacute;dos. Sua decis&atilde;o representou o golpe de gra&ccedil;a &agrave; decr&eacute;pita ditadura do general Leopoldo Galtieri.<\/p>\n<p>Entre regulamenta&ccedil;&otilde;es e protestos de indignados, aos espanh&oacute;is n&atilde;o resta outra coisa que n&atilde;o seja o consolo de um &quot;fumando espero pelo homem que quero&quot;. Nem socialistas nem conservadores s&atilde;o aceit&aacute;veis.<\/p>\n<p>David Cameron se move como um Hamlet entre o ser ou n&atilde;o ser na Europa. Maggie teria feito de outra forma. Sarita &eacute; apenas uma mem&oacute;ria da fal&aacute;cia de que qualquer tempo passado foi melhor. Aos fumantes n&atilde;o resta nem o consolo de fumar, expulsos dos locais p&uacute;blicos. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Joaqu&iacute;n Roy &eacute; catedr&aacute;tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni&atilde;o Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Joaqu&iacute;n Roy, 17\/04\/2013 &ndash; Sua morte no mesmo dia &eacute; mera coincid&ecirc;ncia, mas simb&oacute;lica e representativa. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/politica\/coluna-sara-montiel-e-margaret-thatcher\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,11],"tags":[18],"class_list":["post-11714","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11714","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11714"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11714\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}