{"id":11722,"date":"2013-04-17T11:07:43","date_gmt":"2013-04-17T11:07:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11722"},"modified":"2013-04-17T11:07:43","modified_gmt":"2013-04-17T11:07:43","slug":"sobreviventes-de-eldorado-dos-carajs-enfrentam-outra-extino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/america-latina\/sobreviventes-de-eldorado-dos-carajs-enfrentam-outra-extino\/","title":{"rendered":"Sobreviventes de Eldorado dos Caraj&aacute;s enfrentam outra extin&ccedil;&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p>Eldorado dos Caraj&aacute;s, Brasil, 17\/04\/2013 &ndash; Por volta das cinco horas da tarde, do dia 17 de abril de 1996, saiu do escrit&oacute;rio do ent&atilde;o governador do Par&aacute;, Almir Gabriel, a ordem de evacuar a todo custo a estrada PA-150, epicentro de agita&ccedil;&atilde;o social pela reforma agr&aacute;ria.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_11722\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/troncos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11722\" class=\"size-medium wp-image-11722\" title=\"Os troncos secos indicam o lugar onde aconteceu o massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s. - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/troncos.jpg\" alt=\"Os troncos secos indicam o lugar onde aconteceu o massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s. - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11722\" class=\"wp-caption-text\">Os troncos secos indicam o lugar onde aconteceu o massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s. - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS<\/p><\/div>  Nessa estrada que une as cidades de Marab&aacute; e Parauapebas, no sudeste do Estado, se concentravam os maiores projetos de minera&ccedil;&atilde;o e pecu&aacute;rios. Nesse dia, em uma &aacute;rea conhecida como curva do S, perto do munic&iacute;pio de Eldorado dos Caraj&aacute;s, a 800 quil&ocirc;metros da capital do Par&aacute;, Bel&eacute;m, 150 policiais abriram fogo contra cerca de mil manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que bloqueavam a passagem.<\/p>\n<p>Dezenove pessoas morreram e 70 ficaram feridas. Os manifestantes se dirigiam a Bel&eacute;m para cobrar a expropria&ccedil;&atilde;o da fazenda Macaxeira, que j&aacute; era ocupada por 1.500 fam&iacute;lias de Curion&oacute;polis, perto de Eldorado, e a distribui&ccedil;&atilde;o de suas terras na reforma agr&aacute;ria. A trag&eacute;dia colocou o problema agr&aacute;rio na agenda pol&iacute;tica do pa&iacute;s, e o dia 17 de abril se converteu em Dia Mundial de Luta pela Terra.<\/p>\n<p>Este ano, se completam 17 anos do massacre e 15 da cria&ccedil;&atilde;o do assentamento 17 de Abril, que fez justi&ccedil;a ao que era reclamado. O assentamento foi fundado quase dois anos depois do massacre, quando o Instituto Nacional de Coloniza&ccedil;&atilde;o e Reforma Agr&aacute;ria (Incra) declarou improdutiva a fazenda, condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para sua expropria&ccedil;&atilde;o. Cerca de 700 fam&iacute;lias sobreviventes moram hoje no acampamento de 27 mil hectares na fazenda Macaxeira e lutam para sobreviver sem empregos nem apoio para tornarem suas &aacute;reas produtivas.<\/p>\n<p>Ivagno Brito, filho de camponeses, tinha 13 anos quando testemunhou os fatos. Hoje, com 30, dedica-se &agrave; causa do MST. &quot;Foi um desespero, uma loucura. Imagine muita gente e fogo cruzado. A cena que mais me marcou foi ver mulheres e crian&ccedil;as se escondendo em uma pequena capela que hoje n&atilde;o existe mais&quot;, contou Brito &agrave; IPS, apontando para o lugar exato do massacre na curva do S. &quot;N&atilde;o posso esquecer. Desmaiei. N&atilde;o encontrava meu pai e comecei a correr. Logo me vi no meio do mato&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Maria Zelzuita, de 48 anos, tamb&eacute;m foi parte da trag&eacute;dia. &quot;Queriam que desocup&aacute;ssemos a estrada, mas est&aacute;vamos a p&eacute;. A forma que a pol&iacute;cia encontrou foi atirar contra n&oacute;s. O que n&atilde;o esque&ccedil;o s&atilde;o os gritos das pessoas e das crian&ccedil;as chamando por suas m&atilde;es&quot;, contou. &quot;J&aacute; havia gente morta sobre o asfalto, peguei a m&atilde;o de quatro crian&ccedil;as para salv&aacute;-las. Sa&iacute; da estrada correndo para os arbustos, carregamos inclusive uma crian&ccedil;a baleada&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Zelzuita tem um lote de 25 hectares onde cultiva arroz, mandioca, milho e ab&oacute;bora. Mas os anos mostraram que n&atilde;o basta repartir terras, se n&atilde;o forem fornecidos instrumentos e conhecimentos para desenvolver uma agricultura sustent&aacute;vel. Ela trabalha em associa&ccedil;&atilde;o com a aldeia dos assentados, ganha a vida como ajudante de cozinha na escola local, estuda e &eacute; m&atilde;e sozinha de tr&ecirc;s filhos. Em sua casa tem &aacute;gua encanada e eletricidade.<\/p>\n<p>&quot;Me sinto feliz como assentada; tenho onde viver e criar meus filhos. Antes n&atilde;o tinha, e n&atilde;o me vejo na cidade. Mas aqui n&atilde;o h&aacute; trabalho e muitos precisam partir para as cidades em busca de sustento&quot;, explicou Zelzuita &agrave; IPS. Diante destas dificuldades, muitos assentados pelo Incra venderam seus lotes e foram embora. A comercializa&ccedil;&atilde;o dos assentamentos &eacute; um fen&ocirc;meno frequente no Par&aacute;.<\/p>\n<p>Aos 49 anos, &quot;dona&quot; Rosa Costa Miranda n&atilde;o pensa em deixar o campo, mas, superada pelo esfor&ccedil;o de cultivar uma horta em um solo t&atilde;o pobre, decidiu arrendar a &aacute;rea para cria&ccedil;&atilde;o de gado. &quot;Hoje tenho um lote e uma casa. N&atilde;o produzo quase nada porque sou sozinha, mas alugo a terra. A vida no assentamento &eacute; dif&iacute;cil porque n&atilde;o h&aacute; trabalho. Tem gente endividada com o banco sem ter como pagar&quot;, contou &agrave; IPS.<\/p>\n<p>Dona Rosa nasceu no Maranh&atilde;o, no extremo nordeste. Aos 16 anos se mudou para o Par&aacute; com o marido agricultor. Ela estava presente na ocupa&ccedil;&atilde;o da fazenda, e no dia do massacre foi uma das mulheres que se esconderam na pequena igreja. H&aacute; pouco tempo conseguiu dinheiro para plantar cupua&ccedil;u. Mas o fogo que seus vizinhos colocaram em uma &aacute;rea adjacente &#8211; pr&aacute;tica frequente para limpar e fertilizar o terreno &#8211; fugiu ao controle e queimou as plantas.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, &quot;&eacute; melhor viver na periferia do que nas cidades ou favelas. Quem tem um peda&ccedil;o de terra hoje est&aacute; seguro. N&atilde;o penso em mudar. A rua &eacute; muito perigosa&quot;, afirmou dona Rosa. As expropria&ccedil;&otilde;es de fazendas s&atilde;o lentas e podem demorar at&eacute; uma d&eacute;cada. Para o assentamento 17 de Abril, a expropria&ccedil;&atilde;o foi obtida &quot;dois anos depois (do massacre) em raz&atilde;o do derramamento de sangue. H&aacute; acampamentos que est&atilde;o esperando h&aacute; 12 anos e para eles a reforma agr&aacute;ria nunca chega&quot;, pontuou.<\/p>\n<p>A Amaz&ocirc;nia j&aacute; n&atilde;o &eacute; o que era quando ela veio do nordeste. Para chegar ao 17 de Abril, &eacute; preciso cruzar pequenas aldeias e zonas urbanas que crescem ao lado da estrada, como Soror&oacute;, Eldorado dos Caraj&aacute;s e Curion&oacute;polis, centros de grande circula&ccedil;&atilde;o de caminh&otilde;es carregados de min&eacute;rios.<\/p>\n<p>Pela antiga estrada PA-150, hoje a estrada federal asfaltada BR-155, se passa perto do distrito industrial de Marab&aacute;, que conta com 12 sider&uacute;rgicas e grandes propriedades pecu&aacute;rias, tudo em plena Amaz&ocirc;nia. Dali se divisa uma paisagem sem uma &uacute;nica &aacute;rvore, apenas pastagens. &quot;Est&aacute; mudando muito, por isso estamos morrendo de seca. Daqui a alguns anos n&atilde;o haver&aacute; nem chuva, porque n&atilde;o h&aacute; &aacute;rvores&quot;, lamentou dona Rosa. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eldorado dos Caraj&aacute;s, Brasil, 17\/04\/2013 &ndash; Por volta das cinco horas da tarde, do dia 17 de abril de 1996, saiu do escrit&oacute;rio do ent&atilde;o governador do Par&aacute;, Almir Gabriel, a ordem de evacuar a todo custo a estrada PA-150, epicentro de agita&ccedil;&atilde;o social pela reforma agr&aacute;ria. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/04\/america-latina\/sobreviventes-de-eldorado-dos-carajs-enfrentam-outra-extino\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,6,5,11],"tags":[27,21],"class_list":["post-11722","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-direitos-humanos","category-economia","category-politica","tag-brasil","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11722\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}