{"id":1179,"date":"2005-11-08T00:00:00","date_gmt":"2005-11-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1179"},"modified":"2005-11-08T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-08T00:00:00","slug":"cpula-das-amricas-um-coro-cada-vez-mais-desafinado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/cpula-das-amricas-um-coro-cada-vez-mais-desafinado\/","title":{"rendered":"C&uacute;pula das Am&eacute;ricas: Um coro cada vez mais desafinado"},"content":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 08\/11\/2005 &ndash; Se algo ficar&aacute; da IV C&uacute;pula das Am&eacute;ricas ser&aacute; a constata&ccedil;&atilde;o da impossibilidade continental de aproximar-se do conceito de integra&ccedil;&atilde;o. A reuni&atilde;o de chefes de Estado e de governo foi realizada na sexta-feira e no s&aacute;bado na cidade argentina del Mar el Plata, em meio a v&aacute;rias tens&otilde;es bilaterais, crises ou paralisa&ccedil;&atilde;o de propostas integradoras Latino-americanas e diferen&ccedil;as que afloram inclusive entre pa&iacute;ses governados por for&ccedil;as pol&iacute;ticas que se consideram semelhantes. As disputas entre Estados Unidos e Venezuela se expressaram com crueza no balne&aacute;rio da prov&iacute;ncia de Buenos Aires.<br \/> <!--more--> <br \/> O presidente venezuelano, Hugo Ch&aacute;vez, participou da c&uacute;pula, mas tamb&eacute;m da marcha de rep&uacute;dio ao seu colega norte-americano, George W. Bush, com quem pouco mais tarde posou para a tradicional foto oficial. Os &quot;irm&atilde;os rioplatenses&quot;, Argentina e Uruguai, tiveram dias antes seu incidente diplom&aacute;tico mais s&eacute;rio em muito tempo, o chamado para consulta de seus respectivos embaixadores, por causa das cr&iacute;ticas de um governador argentino &agrave; constru&ccedil;&atilde;o pelo Uruguai de duas f&aacute;bricas de celulose em um rio lim&iacute;trofe. E nem em Mar del Plata houve alguma chance de aparar esta aresta.<\/p>\n<p> Chile e Peru est&atilde;o imersos em nova disputa pela delimita&ccedil;&atilde;o de suas &aacute;guas jurisdicionais, enquanto o primeiro continua sem rela&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas com a Bol&iacute;via, &agrave; qual nega uma sa&iacute;da soberana para o Pac&iacute;fico. Enquanto Ch&aacute;vez apelava em Mar del Plata a uma galeria variada (desde Rosa Luxemburgo at&eacute; Mao Zedong, passando pelo argentino Juan Domingo Per&oacute;n) para defenestrar Bush, o socialista Tabar&eacute; V&aacute;zquez, presidente do Uruguai, cumprimenta seu colega norte-americano ap&oacute;s ter assinado um rascunho de tratado bilateral de prote&ccedil;&atilde;o de investimentos.<\/p>\n<p> O dicion&aacute;rio diz que &quot;integrar&quot; &eacute; completar um todo com as partes que faltam. Mas nesse todo que &eacute; o continente americano sempre faltam partes. O processo das &quot;c&uacute;pulas&quot; americanas, iniciado em 1994, teve uma aus&ecirc;ncia, Cuba, exclu&iacute;da desde 1962 do sistema interamericano por raz&otilde;es ideol&oacute;gicas que, com a revaloriza&ccedil;&atilde;o regional da democracia, tamb&eacute;m se tornaram pol&iacute;ticas. A integra&ccedil;&atilde;o tem resson&acirc;ncias &eacute;picas na Am&eacute;rica Latina, onde a forma&ccedil;&atilde;o das na&ccedil;&otilde;es depois da derrota dos colonizadores europeus n&atilde;o esteve isenta de utopias integradoras.<\/p>\n<p> Por outro lado, o projeto expressado nas c&uacute;pulas foi a instaura&ccedil;&atilde;o de uma zona de livre com&eacute;rcio hemisf&eacute;rica (com exclus&atilde;o de Cuba) em uma equa&ccedil;&atilde;o complexa, desde que uma das partes do todo era a primeira pot&ecirc;ncia mundial, Estados Unidos, e as demais um conjunto variado de na&ccedil;&otilde;es, com o denominador comum do subdesenvolvimento. Entretanto, a maioria dos pa&iacute;ses latino-americanos aceitou, mais ou menos alegremente, a id&eacute;ia hegem&ocirc;nica da &Aacute;rea de Livre Com&eacute;rcio das Am&eacute;ricas (Alca) nos anos 90, tal como haviam abra&ccedil;ado as iniciativas neoliberais de privatiza&ccedil;&atilde;o, abertura das importa&ccedil;&otilde;es e desmantelamento do Estado.<\/p>\n<p> Em &oacute;bvia rea&ccedil;&atilde;o, as mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas dos &uacute;ltimos anos na Am&eacute;rica do Sul desembocaram em um conjunto de governos &quot;progressistas&quot;, para usar um termo sob o qual deve ser agrupar os governos de hoje no Brasil, Uruguai, Chile, na Argentina e Venezuela. Por outro lado, crescia na regi&atilde;o, como no resto do mundo, um setor cada vez mais nutrido e influente (a sociedade civil organizada) que tinha entre suas bandeiras o N&Atilde;O &agrave; Alca e que p&ocirc;s em marcha uma s&eacute;rie de atividades contra o projeto: manifesta&ccedil;&otilde;es, f&oacute;runs, palestras e consultas populares.<\/p>\n<p> A coincid&ecirc;ncia progressista sul-americana busca reviver, com o Brasil na lideran&ccedil;a, as velhas id&eacute;ias de integra&ccedil;&atilde;o &quot;entre n&oacute;s&quot;, deixando de fora o grand&atilde;o anglo-sax&atilde;o, pelo menos at&eacute; que se possa falar em termos menos desiguais. Como plataforma de lan&ccedil;amento, o Brasil prop&ocirc;s a partir do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) um processo de associa&ccedil;&otilde;es que acabou somando o resto do subcontinente na Comunidade Sul-americana de Na&ccedil;&otilde;es, criada no ano passado. Mas estes esfor&ccedil;os n&atilde;o foram, at&eacute; agora, al&eacute;m de reuni&otilde;es, declara&ccedil;&otilde;es e documentos.<\/p>\n<p> O Mercosul continua sem resolver problemas cruciais para sua integra&ccedil;&atilde;o comercial mais elementar, com cont&iacute;nuas disputas e reclama&ccedil;&otilde;es dos setores produtivos de seus Estados-membros, e n&atilde;o se avan&ccedil;a na cria&ccedil;&atilde;o de mecanismos de solu&ccedil;&atilde;o de controv&eacute;rsias. Os dois s&oacute;cios maiores (Brasil e Argentina) se enfrentam em peri&oacute;dicas pol&ecirc;micas, conforme soprem os ventos da competitividade regional, e os menores (Paraguai e Uruguai) quase n&atilde;o t&ecirc;m benef&iacute;cios com essa associa&ccedil;&atilde;o. &Agrave; &uacute;ltima reuni&atilde;o da Comunidade Sul-americana, em Bras&iacute;lia, no final de setembro, faltaram muitos protagonistas, e os presentes voltaram para casa sem nenhuma resolu&ccedil;&atilde;o importante.<\/p>\n<p> A &quot;id&eacute;ia&quot; de integra&ccedil;&atilde;o sul-americana continua ilus&oacute;ria. Mas isso n&atilde;o acrescenta pontos ao projeto dos Estados Unidos. Apesar de todas suas tens&otilde;es, o Mercosul se manteve no &uacute;ltimo final de semana firme quanto ao N&Atilde;O, com ajuda expl&iacute;cita da Venezuela. E, pela primeira vez, a c&uacute;pula concluiu sem consenso nesse ponto. Com sua facilidade para as palavras de ordem, Ch&aacute;vez disse que em Mar del Plata &quot;enterramos a Alca&quot;. Na verdade, o funeral havia come&ccedil;ado antes, na c&uacute;pula extraordin&aacute;ria de janeiro de 2004 em Monterrey, M&eacute;xico, quando os dois negociadores principais, Brasil e Estados Unidos, decidiram que n&atilde;o havia acordo e abriram o caminho para a Alca &quot;light&quot;, uma formula&ccedil;&atilde;o que enfatizava os entendimentos de abertura comercial bilaterais e deixavam n&atilde;o definia um cronograma.<\/p>\n<p> H&aacute; 23 meses n&atilde;o acontecem negocia&ccedil;&otilde;es pela Alca, apesar de Washington ter perseverado no caminho bilateral, como fez ao assinar um acordo de livre com&eacute;rcio com cinco pa&iacute;ses centro-americanos e Rep&uacute;blica Dominicana e negociar outro semelhante com Col&ocirc;mbia, Equador e Peru. Congelada ou enterrada a Alca, os olhares se voltam para a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio, que em seu trecho final de negocia&ccedil;&otilde;es obriga a um debate mais profundo sobre as prote&ccedil;&otilde;es agr&iacute;colas das pot&ecirc;ncias, uma das barreiras mais evidentes para caminhar rumo a um bloco americano. Em Mar del Plata aconteceu algo mais: A III C&uacute;pula dos Povos da Am&eacute;rica, com participa&ccedil;&atilde;o de milhares de ativistas latino-americanos, festejou o cad&aacute;ver e se auto-atribuiu a morte. E pediu outra integra&ccedil;&atilde;o, uma que continua esperando sua hora. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 08\/11\/2005 &ndash; Se algo ficar&aacute; da IV C&uacute;pula das Am&eacute;ricas ser&aacute; a constata&ccedil;&atilde;o da impossibilidade continental de aproximar-se do conceito de integra&ccedil;&atilde;o. A reuni&atilde;o de chefes de Estado e de governo foi realizada na sexta-feira e no s&aacute;bado na cidade argentina del Mar el Plata, em meio a v&aacute;rias tens&otilde;es bilaterais, crises ou paralisa&ccedil;&atilde;o de propostas integradoras Latino-americanas e diferen&ccedil;as que afloram inclusive entre pa&iacute;ses governados por for&ccedil;as pol&iacute;ticas que se consideram semelhantes. 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