{"id":1182,"date":"2005-11-09T00:00:00","date_gmt":"2005-11-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1182"},"modified":"2005-11-09T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-09T00:00:00","slug":"populao-um-muro-dentro-da-fortaleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/populao-um-muro-dentro-da-fortaleza\/","title":{"rendered":"Popula&ccedil;&atilde;o: Um muro dentro da fortaleza"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 09\/11\/2005 &ndash; Se a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia insistir em se converter em uma fortaleza inexpugn&aacute;vel para os estrangeiros, dificilmente poder&aacute; vislumbrar um futuro promissor. Assim afirmam tantos os especialistas em migra&ccedil;&otilde;es e integra&ccedil;&atilde;o quanto as cifras de natalidade. Mas como se est&aacute; demonstrando nestes dias de violentos protestos na Fran&ccedil;a, sem uma pol&iacute;tica de integra&ccedil;&atilde;o de nada serve promover uma estrat&eacute;gia de imigra&ccedil;&atilde;o. Para a analista portuguesa Teresa de Sousa, esta pol&iacute;tica &quot;deve adaptar-se &agrave; nova realidade do mundo e n&atilde;o &agrave; mesma de sempre, que h&aacute; muitos anos leva a UE a fixar em cerca de zero as cotas de imigra&ccedil;&atilde;o legal e a combater por todos os meios, at&eacute; os inadmiss&iacute;veis, a imigra&ccedil;&atilde;o clandestina&quot;.<br \/> <!--more--> <br \/> Por causa da baixa natalidade na UE e das necessidades de manter pelo menos o mesmo ritmo de crescimento econ&ocirc;mico atual, os especialistas calculam que este bloco necessitar&aacute; nos pr&oacute;ximos 50 anos de uma imigra&ccedil;&atilde;o ainda que equivalente aos dois ter&ccedil;os da popula&ccedil;&atilde;o do in&iacute;cio deste mil&ecirc;nio para que n&atilde;o quebre o sistema de aposentadorias nem deteriore a qualidade de vida. Em n&uacute;meros exatos e que se complementam entre os governos da UE, formada por 25 pa&iacute;ses a partir de maio de 2004, isto significa aumentar dos 455 milh&otilde;es de habitantes existentes at&eacute; atingir os 700 milh&otilde;es em 2050. Os habitantes da UE em 2002, ent&atilde;o com 15 pa&iacute;ses, eram calculados em 376 milh&otilde;es de pessoas, das quais 13 milh&otilde;es de nacionalidade de fora do bloco.<\/p>\n<p> Entretanto, as estimativas sobre os ilegais dobram esse n&uacute;mero de estrangeiros, segundo o estudo &quot;Fluxos migrat&oacute;rios para a Europa: atualidade e perspectivas&quot; (Cabr&eacute; A. y Domingo, A., 2002. Albor, 678). Nos &uacute;ltimos anos mudaram as &aacute;reas de origem e destino. Fran&ccedil;a, Gr&atilde; Bretanha e Alemanha, os grandes receptores de imigrantes nas d&eacute;cadas de 60 e 70, foram substitu&iacute;dos pelos pa&iacute;ses do Mediterr&acirc;neo e sul da Europa. Assim, Espanha, It&aacute;lia e Portugal acolheram a metade da imigra&ccedil;&atilde;o de toda a UE em 2003. A contribui&ccedil;&atilde;o da Espanha &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o na UE foi de 23%, a da It&aacute;lia de 21% e a de Portugal de 6%.<\/p>\n<p> Sandra Ara&uacute;jo, soci&oacute;loga e pesquisadora espanhola, autora do livro &quot;Movimentos de popula&ccedil;&atilde;o no Mediterr&acirc;neo Ocidental. Um fen&ocirc;meno ou um problema?&quot;, diz em sua obra que nos &uacute;ltimos anos as autoridades europ&eacute;ias admitiram o fracasso de sua pol&iacute;tica de pretendida &quot;imigra&ccedil;&atilde;o zero&quot; e come&ccedil;aram a rever as limita&ccedil;&otilde;es impostas. Entretanto, as medidas aplicadas pelos governos do Ocidente como resposta aos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington voltaram a colocar a quest&atilde;o das migra&ccedil;&otilde;es no &acirc;mbito da seguran&ccedil;a. A &quot;luta contra o terrorismo&quot; impactou de maneira imediata nas formas de perceber e gerir a imigra&ccedil;&atilde;o, destaca a autora.<\/p>\n<p> Segundo o F&oacute;rum de Migrantes da UE, &quot;a causa principal das ondas de migra&ccedil;&otilde;es do Norte da &Aacute;frica s&atilde;o o &#039;diktat? (imposi&ccedil;&atilde;o) econ&ocirc;mica do Fundo Monet&aacute;rio Internacional, que produz um embargo total sobre o Magreb&quot;, a regi&atilde;o formada por Arg&eacute;lia, L&iacute;bia, Marrocos, Maurit&acirc;nia e T&uacute;nis, habitada por 76,2 milh&otilde;es e cuja d&iacute;vida impede investimentos de futuro, como a educa&ccedil;&atilde;o. A origem dos imigrantes na Europa, em geral, variou de uma d&eacute;cada para outra. Entre 1950 e 1970, eram africanos e turcos; mais adiante, asi&aacute;ticos, principalmente chineses, e nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas latino-americanos, especialmente colombianos e equatorianos com destino &agrave; Espanha e brasileiros rumo a Portugal.<\/p>\n<p> Em menos de 20 anos, Espanha e Portugal passaram de pa&iacute;ses de emigrantes para receptores de estrangeiros, mas mantendo-se os fluxos de pessoas para os pa&iacute;ses comunit&aacute;rios Alemanha, B&eacute;lgica, Dinamarca, Fran&ccedil;a, Gr&atilde;-Bretanha, Holanda e Su&eacute;cia, bem como Su&iacute;&ccedil;a e Noruega, que n&atilde;o integram a UE. Em termos proporcionais, a Alemanha ocupa o primeiro lugar, com uma imigra&ccedil;&atilde;o equivalente a 9% de sua popula&ccedil;&atilde;o, seguida da Fran&ccedil;a com 7,5% e Gr&atilde;-Bretanha 6,6%. Por sua vez, Portugal registra 5,9% de popula&ccedil;&atilde;o estrangeira residente. A onda de viol&ecirc;ncia que explodiu na Fran&ccedil;a e que amea&ccedil;a expandir-se para outros pa&iacute;ses europeus, como demonstram os casos ocorridos na Alemanha e na B&eacute;lgica, segundo os analistas locais, &eacute; menos prov&aacute;vel que se repita em Portugal, pelo menos de maneira semelhante.<\/p>\n<p> O modelo colonial portugu&ecirc;s na &Aacute;frica, al&eacute;m do rico fazendeiro ou comerciante, como suas vizinhas possess&otilde;es francesas, inglesas, holandesas ou belgas, desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo XX tamb&eacute;m, inclu&iacute;a emigrantes pobres que normalmente se mesclavam &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es locais, dando origem aos mesti&ccedil;os luso-africanos, modelo similar ao imposto no Brasil durante 300 anos. A pr&oacute;pria pobreza de Portugal comparada com a rica Fran&ccedil;a tamb&eacute;m faz com que os chamados bairros sociais n&atilde;o sejam exclusivamente de imigrantes, separados do resto do pa&iacute;s, mas onde tamb&eacute;m vivem portugueses exclu&iacute;dos. Uma rebeli&atilde;o &quot;&agrave; francesa&quot; seria tamb&eacute;m, seguramente, protagonizada por portugueses pobres, vizinhos de porta de africanos e brasileiros.<\/p>\n<p> Uma possibilidade reconhecida na tarde de ter&ccedil;a-feira pelo ministro do Trabalho e Assuntos Sociais de Portugal, Jos&eacute; Antonio Vieira da Silva, ao corroborar que nesse pa&iacute;s n&atilde;o &eacute; prov&aacute;vel uma r&eacute;plica do caso franc&ecirc;s, embora a preocupa&ccedil;&atilde;o resida em &quot;dar respostas aos problemas sociais que existem na sociedade em geral. Em Portugal, devemos refor&ccedil;ar as pol&iacute;ticas de inclus&atilde;o social, n&atilde;o por receio de problemas como os da Fran&ccedil;a, mas por raz&otilde;es de justi&ccedil;a e coes&atilde;o da sociedade&quot;, afirmou Vieira da Silva, que tamb&eacute;m &eacute; alto dirigente do Partido Socialista. Cada uma das realidades que se verificam na UE apresentam matizes diferentes quanto ao n&iacute;vel tanto da integra&ccedil;&atilde;o quanto da aceita&ccedil;&atilde;o dos estrangeiros na popula&ccedil;&atilde;o local.<\/p>\n<p> Na regi&atilde;o de Paris, mais da metade da popula&ccedil;&atilde;o menor de 15 anos &eacute; origin&aacute;ria da &Aacute;frica, o que deu uma virada na cultura da regi&atilde;o em menos de uma gera&ccedil;&atilde;o. O caso franc&ecirc;s relega a segundo plano a desesperada tentativa de imigrantes ilegais ingressarem a qualquer custo nos enclaves espanh&oacute;is de Ceuta e Melilla na &Aacute;frica. Ali, como assinalou Teresa de Sousa &agrave; IPS, &quot;milhares de imigrantes tentaram vencer a barreira de arame farpado cada vez mais alta que separa a &Aacute;frica da Europa&quot;<\/p>\n<p> Quanto ao caso espanhol, a analista qualificou de &quot;hipocrisia europ&eacute;ia em todo seu esplendor&quot; dois acontecimentos recentes com imigrantes na Holanda e na It&aacute;lia. &quot;Vimos 11 imigrantes clandestinos morrerem carbonizados no aeroporto de Amsterd&atilde;, onde estavam enjaulados &agrave; espera de seu inevit&aacute;vel reenvio aos seus pa&iacute;ses de origem&quot;, afirmou. Tamb&eacute;m na recente visita do Alto Comiss&aacute;rio das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados &agrave; ilha italiana de Lampedusa, Antonio Guterres &quot;viu o que n&atilde;o gostaria de ter visto: 700 detidos em um centro preparado para receber 190 pessoas&quot;, afirmou.<\/p>\n<p> A analista, licenciada em Economia em Paris e redatora do jornal P&uacute;blico, de Lisboa, disse &agrave; IPS que &quot;o maior risco &eacute; que hist&oacute;rias como estas v&atilde;o se repetir inexoravelmente, at&eacute; que comecemos a consider&aacute;-las banais. Algo mais inteligente e mais humano deve ser feito. Abrir-se para mais gente &eacute; do pr&oacute;prio interesse da UE, a n&atilde;o ser que queira no curto prazo ser a regi&atilde;o do mundo mais envelhecida e decadente, incapaz de sustentar-se a si mesma, ao seu t&atilde;o elogiado e invejado &quot;Modelo Social&quot; e ver sua economia transformada em um museu do s&eacute;culo XX em pleno s&eacute;culo XXI&quot;, acrescentou. Teresa de Sousa assegurou que &quot;o protecionismo certamente n&atilde;o &eacute; o caminho, como n&atilde;o o &eacute; a economia nem a imigra&ccedil;&atilde;o. Uma Europa transformada em fortaleza h&aacute; muito tempo deixou de ser uma op&ccedil;&atilde;o&quot;. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 09\/11\/2005 &ndash; Se a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia insistir em se converter em uma fortaleza inexpugn&aacute;vel para os estrangeiros, dificilmente poder&aacute; vislumbrar um futuro promissor. Assim afirmam tantos os especialistas em migra&ccedil;&otilde;es e integra&ccedil;&atilde;o quanto as cifras de natalidade. Mas como se est&aacute; demonstrando nestes dias de violentos protestos na Fran&ccedil;a, sem uma pol&iacute;tica de integra&ccedil;&atilde;o de nada serve promover uma estrat&eacute;gia de imigra&ccedil;&atilde;o. Para a analista portuguesa Teresa de Sousa, esta pol&iacute;tica &quot;deve adaptar-se &agrave; nova realidade do mundo e n&atilde;o &agrave; mesma de sempre, que h&aacute; muitos anos leva a UE a fixar em cerca de zero as cotas de imigra&ccedil;&atilde;o legal e a combater por todos os meios, at&eacute; os inadmiss&iacute;veis, a imigra&ccedil;&atilde;o clandestina&quot;.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/populao-um-muro-dentro-da-fortaleza\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1182"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}