{"id":11913,"date":"2013-05-22T11:17:24","date_gmt":"2013-05-22T11:17:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=11913"},"modified":"2013-05-22T11:17:24","modified_gmt":"2013-05-22T11:17:24","slug":"coluna-desmandos-nazismo-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/05\/politica\/coluna-desmandos-nazismo-e-democracia\/","title":{"rendered":"COLUNA: Desmandos, nazismo e democracia"},"content":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, 22\/05\/2013 &ndash; O desmando domina de forma crescente as atitudes e opini&otilde;es pol&iacute;ticas na Espanha e, com frequ&ecirc;ncia, como se fosse um gene nacional, aparece nos comportamentos sociais. <!--more--> Existem na Espanha motivos de sobra para a indigna&ccedil;&atilde;o e inclusive para a raiva, como &eacute; o caso dos investidores fraudados ou os despejados de suas moradias. Mas &eacute; necess&aacute;rio fazer um esfor&ccedil;o para identificar as linhas vermelhas do protesto e da repress&atilde;o, al&eacute;m das quais se adivinha a escalada irracional da viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O debate sobre a legitimidade democr&aacute;tica ou n&atilde;o de certas formas de viol&ecirc;ncia, que poder&iacute;amos chamar de suaves e sem derramamento de sangue, surgiu com for&ccedil;a em raz&atilde;o dos escrachos.<\/p>\n<p>Trata-se de uma pr&aacute;tica injusta e tamb&eacute;m perigosa, como alertou o ex-primeiro-ministro Felipe Gonz&aacute;lez. Por isso assistimos a uma escalada entre os que pretendem demonstrar a legitimidade democr&aacute;tica dos ass&eacute;dios a pol&iacute;ticos do governante Partido Popular (PP) e os que buscam desqualific&aacute;-los com argumentos preocupantemente antidemocr&aacute;ticos.<\/p>\n<p>Concordo com os que alertam que o singular dos desmandos &eacute; que, ao acontecer diante das casas (e das fam&iacute;lias) de representantes de um partido concreto, exercem uma press&atilde;o injusta e de forte poder intimidat&oacute;rio. Que os filhos dos apontados tenham de ouvir os gritos que qualificam seus pais de assassinos ou criminosos n&atilde;o pode ser uma a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica amparada pela liberdade de express&atilde;o.<\/p>\n<p>Aqueles que justificam os escrachos alegam que s&atilde;o os pol&iacute;ticos, ao n&atilde;o resolverem o problema social dos despejos, que n&atilde;o deixam outra alternativa para que se fa&ccedil;am ouvir. Afirmam que escrachar &eacute; a rea&ccedil;&atilde;o raivosa de um setor diante da incapacidade mostrada pelos representantes do povo para legislar conforme a vontade dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>Exposto o problema e a necessidade de resolv&ecirc;-lo, o que faz o governo? Ignora o parecer majorit&aacute;rio das pesquisas e a rejei&ccedil;&atilde;o de muitos ju&iacute;zes e magistrados, e converte em papel molhado quase um milh&atilde;o e meio de assinaturas da Iniciativa Legal Popular (ILP) pedindo que seja aceita a da&ccedil;&atilde;o em pagamento retroativo das moradias, a paralisa&ccedil;&atilde;o dos despejos e a aprova&ccedil;&atilde;o do aluguel social.<\/p>\n<p>&Eacute; certo o sentimento de impot&ecirc;ncia e desespero dos que s&atilde;o for&ccedil;ados a abandonar suas casas (115 por dia).<\/p>\n<p>Certa tamb&eacute;m &eacute; a parte de responsabilidade que nessas situa&ccedil;&otilde;es corresponde aos bancos que concederam hipotecas com cl&aacute;usulas abusivas e avalia&ccedil;&otilde;es infladas.<\/p>\n<p>A da&ccedil;&atilde;o em pagamento deveria ser consubstancial &agrave; natureza jur&iacute;dica do contrato hipotec&aacute;rio, pois &eacute; o pr&oacute;prio bem hipotecado a garantia do cr&eacute;dito. Se o banco, por meio de uma avalia&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria ou afim, deu ao im&oacute;vel um valor superior ao real, &eacute; seu erro (ou engano) e seu problema.<\/p>\n<p>E se envolve como garantia outros bens e patrim&ocirc;nios, ent&atilde;o est&aacute; desvirtuando a natureza do contrato hipotec&aacute;rio, a meu ver de uma maneira injusta e para obter mais lucro. Ter&iacute;amos todos economizado o fator bolha imobili&aacute;ria desta pavorosa crise se a da&ccedil;&atilde;o em pagamento fosse preceptiva e obrigat&oacute;ria. Teria impedido os desmandos de construtores e bancos.<\/p>\n<p>N&atilde;o menos certa, al&eacute;m de explic&aacute;vel, &eacute; a impot&ecirc;ncia ao ver como uma a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o c&iacute;vica e democr&aacute;tica como a ILP, assinada por 1.402.854 cidad&atilde;os, &eacute; menosprezada e ignorada pelo grupo parlamentar que tem a maioria absoluta.<\/p>\n<p>A insensibilidade dos partidos, antes dos socialistas e agora do PP e de seu governo, &eacute; &oacute;bvio que est&aacute; na g&ecirc;nese do problema, como apontou recentemente a senten&ccedil;a do Tribunal de Justi&ccedil;a da Uni&atilde;o Europeia ao considerar que o regime hipotec&aacute;rio espanhol &eacute; abusivo e injusto.<\/p>\n<p>Tudo isso faz prever a continuidade do conflito na rua e na sede do parlamento.<\/p>\n<p>Reconhecido e aceito tudo isso, que explica o apoio amplamente majorit&aacute;rio da sociedade espanhola ao que considera justa causa dos despejados, o escracho continua sendo exagero ileg&iacute;timo que n&atilde;o tem nem pode pretender o amparo da lei.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, neste assunto h&aacute; algo preocupante: a rea&ccedil;&atilde;o do partido do governo ao qualificar os atos de escracho como &quot;nazis&quot;. E os excessos sempre s&atilde;o mais censur&aacute;veis quando protagonizados a partir do poder.<\/p>\n<p>No dia 13, Mar&iacute;a Dolores de Cospedal, presidente da comunidade aut&ocirc;noma de Castilla-La Mancha, rotulou os escrachos de &quot;nazismo puro&quot;. Tamb&eacute;m de modo imprudente afirmou que essa pr&aacute;tica &quot;recorda a Espanha dos anos 1930&quot;.<\/p>\n<p>Outros dirigentes populares se somaram &agrave; (des)qualifica&ccedil;&atilde;o. Esperanza Aguirre, presidente da comunidade aut&ocirc;noma de Madri, afirmou que aqueles contr&aacute;rios ao despejo s&atilde;o &quot;energ&uacute;menos&#8230; seguidores das juventudes hitlerianas ou das patrulhas castristas em Cuba&quot;. Outros os chamaram de &quot;imitadores da bandidagem dos seguidores da ETA no Pa&iacute;s Basco&quot;.<\/p>\n<p>Como apontaram alguns comentaristas, a reiterada utiliza&ccedil;&atilde;o do termo &quot;nazismo&quot;, por parte de membros do PP contra os ativistas da Plataforma dos Afetados pela Hipoteca, &eacute; perigosa porque banaliza o que realmente significa o nazismo.<\/p>\n<p>Equipar&aacute;-los com os nazistas e os colaboradores da ETA n&atilde;o &eacute; apenas um excesso inaceit&aacute;vel, mas tamb&eacute;m um insulto &agrave;s v&iacute;timas do nazismo e da ETA. E aos 59% dos espanh&oacute;is que, por aceitarem os escrachos, teriam de ser considerados nazistas ou &quot;etarras&quot;.<\/p>\n<p>Que n&atilde;o seja equipar&aacute;vel &agrave; ETA e aos nazistas n&atilde;o converte em democr&aacute;tica esta forma de a&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Contudo, como se pode colocar no mesmo n&iacute;vel o que constitui uma infra&ccedil;&atilde;o administrativa, ou talvez uma falta de coa&ccedil;&atilde;o, e o exterm&iacute;nio de 11 milh&otilde;es de pessoas? Um partido democr&aacute;tico, e mais, no exerc&iacute;cio do poder, n&atilde;o pode recorrer a tal desqualifica&ccedil;&atilde;o dos que discordam dele, sem provocar um arrepio. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Guillermo Medina &eacute; jornalista e ex-parlamentar espanhol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, 22\/05\/2013 &ndash; O desmando domina de forma crescente as atitudes e opini&otilde;es pol&iacute;ticas na Espanha e, com frequ&ecirc;ncia, como se fosse um gene nacional, aparece nos comportamentos sociais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/05\/politica\/coluna-desmandos-nazismo-e-democracia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1368,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,11],"tags":[18],"class_list":["post-11913","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1368"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11913"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11913\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}