{"id":1198,"date":"2005-11-14T00:00:00","date_gmt":"2005-11-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1198"},"modified":"2005-11-14T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-14T00:00:00","slug":"portugal-unio-europia-trouxe-riqueza-s-para-alguns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/mundo\/portugal-unio-europia-trouxe-riqueza-s-para-alguns\/","title":{"rendered":"Portugal: Uni&atilde;o Europ&eacute;ia trouxe riqueza s&oacute; para alguns"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 14\/11\/2005 &ndash; Quase duas d&eacute;cadas depois de ter entrado para o clube dos ricos da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, a pobreza e a exclus&atilde;o social continuam afetando boa parte da popula&ccedil;&atilde;o de Portugal. Contrariando as expectativas de 1986, quando este pa&iacute;s ingressou na ainda chamada Comunidade Econ&ocirc;mica Europ&eacute;ia, a brecha social se acentuou e atualmente &quot;os ricos s&atilde;o mais ricos e os pobres s&atilde;o mais pobres&quot;, denunciou Jo&atilde;o Fernandes, presidente do conselho executivo da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental Oikos-Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento. Os n&uacute;meros apresentados pela Oikos, mais caracter&iacute;sticas dos pa&iacute;ses em desenvolvimento do que do Norte industrializado, indicam que as cem maiores fortunas lusitanas representam 17% do produto interno bruto do pa&iacute;s.<br \/> <!--more--> <br \/> Estes dados, divulgados recentemente, tamb&eacute;m registram que o quinto mais rico dos 10,2 milh&otilde;es de portugueses controla 45,9% da riqueza nacional, enquanto o quinto do outro extremo vive em estado de pobreza. Este &uacute;ltimo segmento da popula&ccedil;&atilde;o, segundo estat&iacute;sticas da Euroestat, sobe de 20% para 26% no caso de n&atilde;o se considerar os subs&iacute;dios para pessoas em risco de pobreza. Entre os casos mais dram&aacute;ticos contam-se 120 mil aposentados de regime de contribui&ccedil;&otilde;es livres, que recebem US$ 201 por m&ecirc;s, outro grupo com mais de 272 mil pessoas do setor agr&iacute;cola, que ganham US$ 243, e 708 mil aposentados pelo regime geral da ind&uacute;stria, com&eacute;rcio e servi&ccedil;os, que t&ecirc;m direito a US$ 264 mensais.<\/p>\n<p> Estes dados sobre a renda de mais de um milh&atilde;o de aposentados s&atilde;o considerados de sobreviv&ecirc;ncia m&iacute;nima j&aacute; que um quilo de carne ou pescado de m&eacute;dia qualidade custa US$ 12, uma conta de energia el&eacute;trica dom&eacute;stica mensal gira em torno dos US$ 80, a de g&aacute;s ronda os US$ 40 e a de &aacute;gua os US$ 35. Entretanto, estas estat&iacute;sticas, que parecem mostrar o mais profundo da injusti&ccedil;a social, na realidade escondem mais abaixo uma esp&eacute;cie de &quot;fundo duplo&quot;: em agosto deste ano, estavam contabilizadas 145.263 pessoas que recebiam renda social de inser&ccedil;&atilde;o de US$ 74,5 mensais.<\/p>\n<p> Em 2001, &uacute;ltimo ano do qual se tem estat&iacute;sticas oficiais, a previd&ecirc;ncia social portuguesa gastou com cada cidad&atilde;o 56,9% do que habitualmente destinavam aos seus habitantes os demais 14 pa&iacute;ses-membros da UE na &eacute;poca. Atualmente, no conjunto dos 25 Estados que comp&otilde;em a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia desde 1&ordm; de maio de 2004 (quando entraram os 10 &uacute;ltimos pa&iacute;ses), 72 milh&otilde;es de seus 456 milh&otilde;es de habitantes vivem em risco de pobreza, que se tenta evitar atrav&eacute;s de transfer&ecirc;ncias sociais com subs&iacute;dios estatais. Esses aportes &agrave; faixa social em risco faz com que disponham de uma renda ligeiramente inferior a 60% do sal&aacute;rio m&iacute;nimo do pa&iacute;s em que vivem.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, a pobreza infantil aumentou em geral nos pa&iacute;ses industrializados do Norte e entre os 15 ricos da UE os piores indicadores a esse respeito s&atilde;o registrados na It&aacute;lia, com 16,6% das crian&ccedil;as nessa situa&ccedil;&atilde;o, seguida da Irlanda (17,7%), e de Portugal (15,6%). Quanto aos sal&aacute;rios, a diferen&ccedil;a entre os maiores e os mais baixos atualmente entre os 25 Estados-membros do bloco europeu &eacute;, em m&eacute;dia, cinco vezes, enquanto Portugal apresenta a maior disparidade, de 7,4 vezes entre o maior e o menor sal&aacute;rio. Durante um debate realizado recentemente pela Comiss&atilde;o Nacional de Justi&ccedil;a e Paz (CNJP), ligada &agrave; Igreja Cat&oacute;lica, os participantes concordaram que o caso da pobreza em Portugal n&atilde;o se reduz unicamente &agrave;s conseq&uuml;&ecirc;ncias evidentes de dificuldade para adquirir bens materiais, mas tamb&eacute;m a um problema de exerc&iacute;cio da cidadania.<\/p>\n<p> Convidado a intervir em um encontro, o presidente do Conselho Econ&ocirc;mico e Social de Portugal, Alfredo Bruto da Costa, deplorou o fato de &quot;nossas sociedades serem livres e consagrarem o exerc&iacute;cio dos direitos, mas sem as condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias&quot;. Isto fica evidente especialmente na cidadania social, &quot;porque sem que os mais pobres tenham acesso aos bens fundamentais, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que eles realizem o exerc&iacute;cio da cidadania pol&iacute;tica&quot;, acrescentou, qualificando o fen&ocirc;meno de &quot;contradi&ccedil;&atilde;o entre os direitos proclamados e as condi&ccedil;&otilde;es para implement&aacute;-los&quot;. A doutrina social da Igreja Cat&oacute;lica, que consagra o princ&iacute;pio do destino universal dos bens, ainda n&atilde;o conseguiu &quot;influenciar as decis&otilde;es de pol&iacute;ticos e governos, com as conseq&uuml;&ecirc;ncias nefastas conhecidas em n&iacute;vel da pobreza&quot;, concluiu da Costa.<\/p>\n<p> Por sua vez, a economista Manuela Silva, vice-presidente da CNJP, lamentou a prolifera&ccedil;&atilde;o do que qualificou de &quot;falsas verdades&quot;, especialmente no tocante &aacute; conten&ccedil;&atilde;o do d&eacute;ficit, que deveria ser &quot;um instrumento e n&atilde;o um objetivo de pol&iacute;tica econ&ocirc;mica&quot;. Ap&oacute;s se referir aos progressos alcan&ccedil;ados por Portugal nos &uacute;ltimos anos, insistiu em que &quot;n&atilde;o &eacute; aceit&aacute;vel que um pa&iacute;s que j&aacute; atingiu determinados n&iacute;veis de renda continue tendo t&atilde;o elevado grau de pobreza&quot;, recordando que o pa&iacute;s al&eacute;m de ser o membro da UE com maior desigualdade entre os 15 pa&iacute;ses ricos tamb&eacute;m registrou o maior crescimento do desequil&iacute;brio dentro do bloco.<\/p>\n<p> Manuela destacou que j&aacute; existem a experi&ecirc;ncia e o conhecimento suficientes para desmontar o mito de &quot;primeiro crescer para depois repartir&quot;, mas entre a cidadania menos informada ainda existe a cren&ccedil;a de que &quot;a pobreza &eacute; uma fatalidade, praticamente o mesmo que se diz quanto &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o, que &eacute; uma fatalidade e nada se pode fazer&quot;. As institui&ccedil;&otilde;es da Igreja Cat&oacute;lica deveriam &quot;dar um sinal mais forte a favor de outra globaliza&ccedil;&atilde;o&quot;, afirmou, por sua vez, Isabel Allegro de Magalh&atilde;es, dirigente do Graal, o movimento cat&oacute;lico de mulheres. Esta afirma&ccedil;&atilde;o foi apoiada pelo sacerdote jesu&iacute;ta Herm&iacute;nio rico, ao perguntar aos presentes &quot; se queremos ser ricos como os mais ricos ou lutar contra a pobreza em nosso pa&iacute;s e no mundo?&quot;<\/p>\n<p> O presb&iacute;tero dominicano Luiz de Fran&ccedil;a lamentou os argumentos de muitos empres&aacute;rios e administradores cat&oacute;licos, que qualificam as an&aacute;lises desse tipo como &quot;do passado&quot; ou de &quot;teor marxista&quot;. A solu&ccedil;&atilde;o radical foi proposta pelo padre Francisco Crespo, presidente da Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional de Institui&ccedil;&otilde;es de Solidariedade, ao propor que o combate &agrave; pobreza deveria ser coordenado diretamente pelo primeiro-ministro portugu&ecirc;s, o socialista Jos&eacute; S&oacute;crates. Entretanto, para isso seria necess&aacute;rio um claro reconhecimento do flagelo que afeta um quinto da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa.<\/p>\n<p> Em um editorial, o redator principal do jornal P&uacute;blico, de Lisboa, Am&iacute;lcar Correia, afirmou que &quot;a pobreza em Portugal &eacute; um problema grave e seu n&atilde;o reconhecimento tem se revelado ultimamente como um dos maiores entraves para sua erradica&ccedil;&atilde;o&quot;. A pobreza, afirmou Correia, &quot;ainda &eacute; encarada atualmente na sociedade portuguesa com indiferen&ccedil;a e apatia, talvez por se tratar de um fen&ocirc;meno persistente ou porque os pr&oacute;prios pobres interiorizam o fatalismo de ser pobre, em um pa&iacute;s onde o Estado-provid&ecirc;ncia nunca deixou de ser incipiente&quot;. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 14\/11\/2005 &ndash; Quase duas d&eacute;cadas depois de ter entrado para o clube dos ricos da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, a pobreza e a exclus&atilde;o social continuam afetando boa parte da popula&ccedil;&atilde;o de Portugal. 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Os n&uacute;meros apresentados pela Oikos, mais caracter&iacute;sticas dos pa&iacute;ses em desenvolvimento do que do Norte industrializado, indicam que as cem maiores fortunas lusitanas representam 17% do produto interno bruto do pa&iacute;s.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/mundo\/portugal-unio-europia-trouxe-riqueza-s-para-alguns\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1198"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1198\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}