{"id":12013,"date":"2013-06-07T09:52:58","date_gmt":"2013-06-07T09:52:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=12013"},"modified":"2013-06-07T09:52:58","modified_gmt":"2013-06-07T09:52:58","slug":"excessivo-neoliberalismo-turco-ameaa-a-paz-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/direitos-humanos\/excessivo-neoliberalismo-turco-ameaa-a-paz-em-casa\/","title":{"rendered":"Excessivo neoliberalismo turco amea&ccedil;a a &quot;paz em casa&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Ancara, Turquia, 07\/06\/2013 &ndash; &quot;Paz em casa, paz no mundo&quot;, este &eacute; o lema oficial da Rep&uacute;blica da Turquia. Cunhado em 1931 por seu fundador, Mustafa Kemal Atat&uuml;rk, implica uma rela&ccedil;&atilde;o causal, mas os fatos desta semana em Istambul e outras cidades do pa&iacute;s sugerem que a causalidade tamb&eacute;m pode funcionar na ordem inversa. <!--more--> Os protestos da semana passada, os dois anos da Primavera &Aacute;rabe e o intenso mal-estar socioecon&ocirc;mico no sul da Europa parecem estar se derramando sobre a Turquia, que at&eacute; agora permanecia sem problemas.<\/p>\n<p>De todo modo, a economia &eacute; forte, embora n&atilde;o tanto quanto foi, em termos gerais, na d&eacute;cada passada. Em consequ&ecirc;ncia, as semelhan&ccedil;as que a Turquia compartilha com pa&iacute;ses do norte e do sul do Mediterr&acirc;neo que tamb&eacute;m atravessam uma crise t&ecirc;m mais a ver com uma m&aacute; lideran&ccedil;a. O &ecirc;xito financeiro, alimentado pelos investimentos estrangeiros diretos em luxuosas propriedades imobili&aacute;rias em Istambul e ao longo da costa turca do Mar Egeu, e pela privatiza&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a de empresas estatais, conferiu uma in&eacute;dita popularidade ao governante Partido Justi&ccedil;a e Desenvolvimento (AKP), al&eacute;m de uma maior sensa&ccedil;&atilde;o de ser invenc&iacute;vel.<\/p>\n<p>Desde a vit&oacute;ria eleitoral do AKP em 2011, esta sensa&ccedil;&atilde;o se traduziu em menor transpar&ecirc;ncia e responsabilidade por parte das principais figuras do governo. Recep Tayyip Erdogan, l&iacute;der do partido e primeiro-ministro turco, bem como um punhado de colaboradores pr&oacute;ximos, denegou ostensivamente os pedidos de assessores confi&aacute;veis para considerar as preocupa&ccedil;&otilde;es do cidad&atilde;o m&eacute;dio e de ser mais inclusivo para 50% da popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o votou no AKP.<\/p>\n<p>A falta de transpar&ecirc;ncia governamental, como no sul da Europa, e o desprezo pelos cidad&atilde;os e suas liberdades fundamentais, como no Oriente M&eacute;dio, cimentaram o caminho para uma manifesta&ccedil;&atilde;o explosiva da sensa&ccedil;&atilde;o de que j&aacute; basta, que deixou tr&ecirc;s mortos, mil feridos e 1.700 detidos. Alguns observadores afirmam que a crise come&ccedil;ou com um beijo, se referindo a uma proibi&ccedil;&atilde;o de maio das autoridades de Ancara de os casais darem demonstra&ccedil;&otilde;es de afeto em &aacute;reas p&uacute;blicas, o que provocou protestos juvenis na capital.<\/p>\n<p>Outros apontam sintomas anteriores de descontentamento. Em maio de 2012 e no outono boreal seguinte, Erdogan desafiou os direitos das mulheres de abortarem e praticarem cesariana para dar &agrave; luz, proclamando reiteradamente que as mulheres deveriam ter no m&iacute;nimo tr&ecirc;s filhos. As associa&ccedil;&otilde;es feministas foram para as ruas. Mais recentemente, o parlamento, onde o AKP tem 326 das 550 cadeiras, aprovou legisla&ccedil;&atilde;o que restringe severamente a propaganda e o consumo de &aacute;lcool, e Erdogan prometeu altos impostos para as bebidas alco&oacute;licas.<\/p>\n<p>Os turcos laicos, alguns dos quais votaram no AKP em elei&ccedil;&otilde;es passadas devido ao desempenho econ&ocirc;mico do governo, come&ccedil;aram a se queixar de que o primeiro-ministro interfere de maneira inaceit&aacute;vel no estilo de vida das pessoas. Ao mesmo tempo, os cidad&atilde;os est&atilde;o cansados de uma economia excessivamente liberal que aumentou a brecha de renda entre a burguesia e a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A decis&atilde;o de converter o &uacute;nico espa&ccedil;o verde no centro de Istambul em um centro comercial e um luxuoso complexo de apartamentos foi o estopim, mais do que a causa, de chamada revolta de Gezi, o nome do lugar. Os pr&eacute;dios na avenida Cumhuriyet, vizinha ao parque, j&aacute; foram demolidos para dar lugar a um grande complexo de caros com&eacute;rcios, resid&ecirc;ncias e centros comerciais, enquanto a Pra&ccedil;a Taksim, emblem&aacute;tica em Istambul, ser&aacute; convertida em uma grande mesquita.<\/p>\n<p>Uma investiga&ccedil;&atilde;o independente, publicada em 2012 por uma organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o governamental, mostrou que a Turquia, com 75 milh&otilde;es de habitantes, possui 85 mil mesquitas, 17 mil delas constru&iacute;das nos &uacute;ltimos dez anos. Em compara&ccedil;&atilde;o, o pa&iacute;s tem 67 mil escolas, 1.220 hospitais, outros 6.300 centros de sa&uacute;de e 1.435 bibliotecas p&uacute;blicas. O or&ccedil;amento anual do Minist&eacute;rio de Cultura e Turismo &eacute; menos que a metade do que tem a Dire&ccedil;&atilde;o Geral de Assuntos Religiosos, que representa os mu&ccedil;ulmanos sunitas do pa&iacute;s (80% da popula&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p>Os investimentos estrangeiros diretos que entraram no pa&iacute;s desde 2002, principalmente do Catar, da Ar&aacute;bia Saudita e de fundos de pens&atilde;o dos Estados Unidos e da Holanda, se concentram em especulativos projetos de bens de raiz de alto luxo. A quantidade de centros comerciais aumentou de 46, em 2000, para 300 no ano passado. S&oacute; Istambul tem atualmente em constru&ccedil;&atilde;o dois milh&otilde;es de metros quadrados desses empreendimentos, segundo a consultoria internacional CBRE.<\/p>\n<p>Uma s&eacute;rie de privatiza&ccedil;&otilde;es anunciadas este ano (um sistema ferrovi&aacute;rio, a empresa a&eacute;rea nacional, as grandes companhias energ&eacute;ticas do Estado, a rede de autopistas e pontes) fornecer&atilde;o fundos para assumir imponentes projetos de constru&ccedil;&atilde;o: uma terceira ponte sobre o B&oacute;sforo, um terceiro aeroporto em Istambul, um segundo B&oacute;sforo artificial que facilitar&aacute; mais desenvolvimentos imobili&aacute;rios luxuosos, a maior mesquita do Oriente M&eacute;dio, que ser&aacute; constru&iacute;da em Istambul.<\/p>\n<p>As manifesta&ccedil;&otilde;es que come&ccedil;aram h&aacute; dez dias foram espont&acirc;neas e pac&iacute;ficas, e parece que refletiram a frustra&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o com um governo distante, mas a atitude de toler&acirc;ncia zero adotada pela pol&iacute;cia e as declara&ccedil;&otilde;es incendi&aacute;rias de Erdogan e de alguns de seus ministros transformaram isto em uma inesperada crise pol&iacute;tica com implica&ccedil;&otilde;es incertas para a democracia turca.<\/p>\n<p>A IPS conversou com personalidades pol&iacute;ticas e conhecidos jornalistas que se mostraram reticentes em debater a situa&ccedil;&atilde;o enquanto esta se desenvolve.<\/p>\n<p>A secret&aacute;ria pessoal de Fetullah Gulen, te&oacute;logo mu&ccedil;ulmano turco e l&iacute;der de um movimento mundial que promove o Isl&atilde; moderado e o di&aacute;logo inter-religioso, disse &agrave; IPS que Gulen far&aacute; uma declara&ccedil;&atilde;o em breve. Atualmente, vive autoexilado no Estado da Pennsylvania, nos Estados Unidos, e tem milh&otilde;es de seguidores mu&ccedil;ulmanos.<\/p>\n<p>O presidente da Turquia, Abdullah G&uuml;l, e o vice-primeiro-ministro, Bulent Arinc, ambos conhecidos por sua maturidade pol&iacute;tica e modera&ccedil;&atilde;o, tentaram apresentar limitadas desculpas pelos abusos policiais contra as manifesta&ccedil;&otilde;es. A verdadeira prova de fogo para a evolu&ccedil;&atilde;o do clima pol&iacute;tico se dar&aacute; quando Erdogan regressar do norte da &Aacute;frica neste final de semana.<\/p>\n<p>Entretanto, &eacute; improv&aacute;vel que a paz social seja restaurada com declara&ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;s que o governante fez antes de sua partida. &quot;Pressionarei com o projeto Gezi: se voc&ecirc;s n&atilde;o querem um centro comercial, construirei uma mesquita&quot;, afirmou Erdogan, acrescentando que os manifestantes &quot;s&atilde;o meliantes&quot;.<\/p>\n<p>Para os especialistas em pol&iacute;tica turca, o atual mal-estar tem reminisc&ecirc;ncias do estilo hegem&ocirc;nico da lideran&ccedil;a do Partido Democr&aacute;tico dos anos 1950. &quot;Em 1957, o primeiro-ministro Adnan Menderes e o presidente Cel&acirc;l Bayar estavam bastante confiantes de que haviam obtido 47% dos votos nas elei&ccedil;&otilde;es&quot;, contou Huseyn Ergun, veterano pol&iacute;tico e atual presidente do Partido Social Democrata.<\/p>\n<p>&quot;Haviam come&ccedil;ado a impor san&ccedil;&otilde;es ao partido opositor e aos seus representantes. Tamb&eacute;m tinham no parlamento uma comiss&atilde;o investigadora contra a oposi&ccedil;&atilde;o e destru&iacute;ram locais emblem&aacute;ticos de Istambul. Voc&ecirc; sabe como tudo isso terminou&quot;, acrescentou Bayar. De fato, estiveram no poder at&eacute; 1960, quando foram derrubados por um golpe militar, hist&oacute;ria que os turcos n&atilde;o querem ver repetida enquanto viverem. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ancara, Turquia, 07\/06\/2013 &ndash; &quot;Paz em casa, paz no mundo&quot;, este &eacute; o lema oficial da Rep&uacute;blica da Turquia. 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