{"id":12026,"date":"2013-06-11T10:18:22","date_gmt":"2013-06-11T10:18:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=12026"},"modified":"2013-06-11T10:18:22","modified_gmt":"2013-06-11T10:18:22","slug":"reportagem-quando-o-trem-passa-mas-no-chega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/america-latina\/reportagem-quando-o-trem-passa-mas-no-chega\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Quando o trem passa, mas n&atilde;o chega"},"content":{"rendered":"<p>Tucurinca, Col&ocirc;mbia, 11\/06\/2013 &ndash; (Terram&eacute;rica).- O incessante transporte de carv&atilde;o para a exporta&ccedil;&atilde;o no norte da Col&ocirc;mbia deixa pouco mais que p&oacute; e ru&iacute;do para os habitantes rurais que veem o trem passar.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_12026\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/c11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12026\" class=\"size-medium wp-image-12026\" title=\"Ap&oacute;s lavar a roupa no a&ccedil;ude ao p&eacute; da ferrovia, Ana Rosa Figueras cruza a via f&eacute;rrea carregando as pe&ccedil;as molhadas. - \u00c3\u0081lvaro Pardo &quot;\u201c Col&ocirc;mbia Punto Medio\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/c11.jpg\" alt=\"Ap&oacute;s lavar a roupa no a&ccedil;ude ao p&eacute; da ferrovia, Ana Rosa Figueras cruza a via f&eacute;rrea carregando as pe&ccedil;as molhadas. - \u00c3\u0081lvaro Pardo &quot;\u201c Col&ocirc;mbia Punto Medio\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12026\" class=\"wp-caption-text\">Ap&oacute;s lavar a roupa no a&ccedil;ude ao p&eacute; da ferrovia, Ana Rosa Figueras cruza a via f&eacute;rrea carregando as pe&ccedil;as molhadas. - \u00c3\u0081lvaro Pardo &quot;\u201c Col&ocirc;mbia Punto Medio\/IPS<\/p><\/div>  Goyo, como Jos&eacute; Hern&aacute;ndez &eacute; chamado, conta que n&atilde;o recebe uma m&aacute;scara para n&atilde;o aspirar p&oacute; de carv&atilde;o dispersado pelos 13 trens que, durante suas 12 horas de turno de trabalho, atravessam esta aldeia do munic&iacute;pio Zona Bananera, no departamento colombiano de Magdalena. Os trens passam a 80 quil&ocirc;metros por hora, sem nada cobrindo as 160 mil toneladas di&aacute;rias do mineral negro extra&iacute;do de jazidas a c&eacute;u aberto 226 quil&ocirc;metros a sudeste, no vizinho departamento de Cesar.<\/p>\n<p>A extra&ccedil;&atilde;o &eacute; feita pelas empresas Drummond (norte-americana), Glencore Xstrata (su&iacute;&ccedil;a, Prodeco na Col&ocirc;mbia) e Colombian Natural Resources, do banco de investimento norte-americano Goldman Sachs. Goyo veste o uniforme de uma empresa de seguran&ccedil;a privada a servi&ccedil;o da Fenoco S. A. (Ferrovias do Norte da Col&ocirc;mbia Sociedade An&ocirc;nima), concession&aacute;ria da estrada de ferro Atl&aacute;ntico desde 1999 e que tem entre seus s&oacute;cios as pr&oacute;prias corpora&ccedil;&otilde;es. O vigilante cuida da passagem do trem de carv&atilde;o pela principal rua de Tucurinca.<\/p>\n<p>Letreiros em ingl&ecirc;s nos 120 vag&otilde;es puxados por tr&ecirc;s locomotivas indicam que cada um pesa 19,1 toneladas e seu limite de carga &eacute; de 60.750 quilos. Est&atilde;o lotados at&eacute; o topo de carv&atilde;o t&eacute;rmico de alto grau, submetido, em obedi&ecirc;ncia &agrave; lei ambiental, a um sistema de umecta&ccedil;&atilde;o (ligeiramente &uacute;mido) da camada superior, para minimizar a dispers&atilde;o de part&iacute;culas pelo vento.<\/p>\n<p>Um relat&oacute;rio t&eacute;cnico da Controladoria Geral da Rep&uacute;blica, de dezembro de 2012, considera que a umecta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; suficientemente efetiva &quot;para neutralizar as perdas de part&iacute;culas de carv&atilde;o&quot;. Existem estudos apenas sobre &quot;as opera&ccedil;&otilde;es e atividades em terra nos portos&quot;, acrescenta o &oacute;rg&atilde;o controlador, o que n&atilde;o permite &quot;conhecer o impacto sin&eacute;rgico e de &aacute;rea de todas as atividades relacionadas com a exporta&ccedil;&atilde;o de carv&atilde;o, isto &eacute;, transporte por ferrovia ou caminh&otilde;es, armazenamento e transporte dos navios&quot;.<\/p>\n<p>Quando o trem vem, Goyo coloca ao lado da linha f&eacute;rrea dois cones de pl&aacute;stico alaranjados, unidos por uma corda com uma pequena placa de metal vermelha onde se l&ecirc; &quot;PARE&quot;, escrito com letras brancas feitas &agrave; m&atilde;o. Nada parecido com uma barreira fechando a passagem de n&iacute;vel. Apenas um aviso de um metro quadrado, a seis metros da ferrovia, alerta para o perigo. Goyo &eacute; querido pelas pessoas de Tucurinca. Dizem que ele e seu colega no turno salvaram a vida de tr&ecirc;s desesperados que tentaram se atirar na frente do trem.<\/p>\n<p>Tucurinca n&atilde;o tem rede de esgoto, mas aqueduto, que funciona apenas seis horas a cada dois dias. Por isso &eacute; comum as mulheres lavarem roupa &agrave;s 10h20 da manh&atilde; no canal que corre ao p&eacute; da ferrovia. A essa hora come&ccedil;a o abrasador calor, que ao meio-dia chegar&aacute; aos 34 ou 36 graus cent&iacute;grados. Elas entram at&eacute; a cintura na &aacute;gua e ensaboam, esfregam e enxaguam. Tamb&eacute;m lavam os cabelos. Sorriem. De dentro da &aacute;gua, Amparo Padilla diz que o p&oacute; do carv&atilde;o n&atilde;o produz fuligem, que a roupa colocada para secar n&atilde;o suja.<\/p>\n<p>Ana Rosa Figueras n&atilde;o tem &aacute;gua encanada em sua cho&ccedil;a, tamb&eacute;m ao p&eacute; da ferrovia mas do outro lado do canal. &quot;Vivo sozinha, como vou trazer a &aacute;gua&quot;, disse ao Terram&eacute;rica. Em seu jardim h&aacute; um medidor da qualidade do ar, com um pequeno tacho met&aacute;lico. Alguns homens &quot;v&ecirc;m a cada dois dias, destapam a casinha, olham um papel e fazem anota&ccedil;&otilde;es. V&ecirc;m olhar o p&oacute; do carv&atilde;o&quot;, contou. &quot;Estudam para ver se causa doen&ccedil;a&quot;, acrescentou, apressada, como se a &aacute;gua do canal tamb&eacute;m fosse acabar. Conforme lava a roupa, esta pequena mulher cruza com dificuldade a via f&eacute;rrea, carregando as pe&ccedil;as molhadas para pendurar no andaime onde fica o medidor e que ela aproveita como varal.<\/p>\n<p>Mar&iacute;a Josefa Arteaga, uma idosa de camiseta alaranjada, considera que as gigantes do carv&atilde;o n&atilde;o pagam nada por alterarem a vida da aldeia. As pessoas se queixam de problemas que n&atilde;o eram t&atilde;o comuns antes, &quot;quando havia trem&quot;, isto &eacute;, quando este era para passageiros e trazia e levava mercadorias. Agora o trem passa, mas n&atilde;o chega. Passa de longe com carv&atilde;o. Na regi&atilde;o afirmam que o trem est&aacute; transmitindo &quot;doen&ccedil;a&quot; ao meio ambiente e que tudo est&aacute; contaminado pelo p&oacute;, que provoca asma e bronquite cr&ocirc;nica.<\/p>\n<p>Contudo, n&atilde;o h&aacute; estat&iacute;sticas, ou n&atilde;o s&atilde;o confi&aacute;veis, como evidencia a Controladoria quanto aos estudos sobre diferentes impactos desta ind&uacute;stria. As licen&ccedil;as ambientais n&atilde;o imp&otilde;em requisitos para o monitoramento de part&iacute;culas em suspens&atilde;o de menos de 2,5 micras, algo &quot;indispens&aacute;vel para a ado&ccedil;&atilde;o de medidas para reduzir ou mitigar os poss&iacute;veis efeitos sobre a sa&uacute;de da presen&ccedil;a de material particulado proveniente das atividades de exporta&ccedil;&atilde;o de carv&atilde;o&quot;, afirma a Controladoria.<\/p>\n<p>Outros impactos, mais evidentes, s&atilde;o a vibra&ccedil;&atilde;o repetitiva, que causa rachaduras nas casas, e o barulho. Os decib&eacute;is que o trem produz ficam entre dez e 85 vezes acima do ru&iacute;do aceit&aacute;vel. &quot;Tremem portas e janelas. H&aacute; casas que est&atilde;o rachadas. Tapam as rachaduras e v&atilde;o embora&quot;, disse o comerciante de gado Luis Gonz&aacute;lez, encostado no muro de sua casa diante da ferrovia.<\/p>\n<p>&quot;&Agrave; noite, passa um trem a cada 15 minutos, 20, no mais tardar. J&aacute; me acostumei e n&atilde;o acordo. Antes apitava no meio da noite. Se sentia quando vinha&quot;, disse Gonz&aacute;lez. &quot;Claro que o trem me causa problemas&quot;, afirmou sua vizinha Ramona Mar&iacute;a Moreno, que nasceu em 1924, acrescentando que, protestando sozinha, n&atilde;o teria chegado a ser velha. &quot;Se o povo n&atilde;o se mexe, n&atilde;o h&aacute; nada a fazer. O que fa&ccedil;o me queixando se os demais n&atilde;o me acompanham?&quot;, ressaltou.<\/p>\n<p>A Col&ocirc;mbia exporta entre 92% e 95% do carv&atilde;o que produz, e &eacute; o quinto produtor mundial. Do carv&atilde;o consumido na Europa, 35,3% &eacute; colombiano, segundo a Statiscal Review of World Energy 2012, da British Petroleum. Mas esta ind&uacute;stria estabelece m&iacute;nima cadeia produtiva e, portanto, n&atilde;o dinamiza de forma direta a economia, &quot;ao menos de maneira apreci&aacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o ao valor explorado&quot;, segundo o estudo da Controladoria intitulado Minera&ccedil;&atilde;o na Col&ocirc;mbia: Fundamentos para Superar o Modelo Extrativista, apresentado em maio de 2013.<\/p>\n<p>Por isso, em Tucurinca, como em outros povoados ao longo da viagem do carv&atilde;o at&eacute; o mercado global, o trem passa, mas n&atilde;o chega. (Envolverde\/Terram&eacute;rica)<\/p>\n<p>* A autora &eacute; correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tucurinca, Col&ocirc;mbia, 11\/06\/2013 &ndash; (Terram&eacute;rica).- O incessante transporte de carv&atilde;o para a exporta&ccedil;&atilde;o no norte da Col&ocirc;mbia deixa pouco mais que p&oacute; e ru&iacute;do para os habitantes rurais que veem o trem passar. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/america-latina\/reportagem-quando-o-trem-passa-mas-no-chega\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5],"tags":[21],"class_list":["post-12026","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12026","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12026"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12026\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12026"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12026"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12026"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}