{"id":12094,"date":"2013-06-20T10:22:30","date_gmt":"2013-06-20T10:22:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=12094"},"modified":"2013-06-20T10:22:30","modified_gmt":"2013-06-20T10:22:30","slug":"como-a-segurana-dos-estados-unidos-ficou-a-cargo-de-uma-empresa-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/direitos-humanos\/como-a-segurana-dos-estados-unidos-ficou-a-cargo-de-uma-empresa-privada\/","title":{"rendered":"Como a seguran&ccedil;a dos Estados Unidos ficou a cargo de uma empresa privada"},"content":{"rendered":"<p>Washington, Estados Unidos, 20\/06\/2013 &ndash; Edward Snowden, funcion&aacute;rio da empresa privada de intelig&ecirc;ncia Booz Allen Hamilton, vazou informa&ccedil;&atilde;o sobre a Ag&ecirc;ncia Nacional de Seguran&ccedil;a dos Estados Unidos, em especial sobre a &aacute;rea dos terceirizados, que consome cerca de 70% dos US$ 52 bilh&otilde;es do or&ccedil;amento nacional destinado aos servi&ccedil;os secretos. <!--more--> Alguns analistas aproveitaram as revela&ccedil;&otilde;es de Snowden para denunciar o papel dos contratados privados no governo e na seguran&ccedil;a nacional, e argumentaram que deve ficar na &oacute;rbita de &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, suas cr&iacute;ticas n&atilde;o atingem o alvo, pois ficou muito dif&iacute;cil separar as duas esferas. &Eacute; que est&atilde;o totalmente entrela&ccedil;ados os funcion&aacute;rios da Ag&ecirc;ncia Nacional de Seguran&ccedil;a (NSA), que inclui os empregados de entidades como a Ag&ecirc;ncia Central de Intelig&ecirc;ncia (CIA) e os que trabalham em companhias como a Booz Allen Hamilton. O papel que desempenham no setor privado se entrela&ccedil;a com o que realizam para o governo, promovendo-se entre si e atuando em seu pr&oacute;prio proveito, o que torna redundante a cl&aacute;ssica rota&ccedil;&atilde;o de pessoal entre essas duas esferas.<\/p>\n<p>Snowden, um administrador de sistemas do Centro de Opera&ccedil;&otilde;es de Amea&ccedil;as da NSA no Hava&iacute;, trabalhou para a CIA e para a companhia de servi&ccedil;os de inform&aacute;tica Dell antes de se unir &agrave; Booz Allen. Mas o papel obscuro que pode ter desempenhado fica branco ao lado do que outros tiveram. Para compreender esta trama complexa &eacute; preciso remontar a R. James Woolsey, um ex-diretor da CIA que compareceu &agrave; C&acirc;mara de Representantes no ver&atilde;o de 2004 para defender a ideia de integrar os programas de espionagem estrangeiro e interno para perseguir &quot;terroristas&quot;.<\/p>\n<p>Um m&ecirc;s depois apareceu no canal de televis&atilde;o MSNBC falando sobre a urgente necessidade de que fosse criada uma nova ag&ecirc;ncia de intelig&ecirc;ncia que ajudasse a ampliar o aparato de vigil&acirc;ncia nacional ap&oacute;s os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Em nenhuma dessas apari&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas Woolsey mencionou que era vice-presidente de seguran&ccedil;a estrat&eacute;gica global da Booz Allen, cargo que ocupou entre 2002 e 2008. &quot;A fonte de informa&ccedil;&atilde;o sobre as vulnerabilidades de um poss&iacute;vel ataque contra nosso territ&oacute;rio n&atilde;o depender&aacute; da intelig&ecirc;ncia estrangeira, como durante a Guerra Fria&quot;, afirmou Woolsey.<\/p>\n<p>&quot;Os terroristas nos compreendem bem e vivem e se organizam onde n&atilde;o vamos espion&aacute;-los, nos Estados Unidos&quot;, afirmou Woolsey ao comit&ecirc; seleto de seguran&ccedil;a interna da C&acirc;mara de Representantes, no dia 24 de junho de 2004. &quot;O problema &eacute; que o setor da intelig&ecirc;ncia cresceu tanto desde 1947, quando foi criado o cargo de diretor da intelig&ecirc;ncia central, que se tornou imposs&iacute;vel desempenhar os dois cargos, dirigir a CIA e gerenciar todo o setor&quot;, explicou Woolsey tempos depois em outro programa de televis&atilde;o.<\/p>\n<p>Voltando a 2007, o vice-almirante da reserva Michael McConnell, ent&atilde;o vice-presidente da Booz Allen para pol&iacute;tica, transforma&ccedil;&atilde;o, seguran&ccedil;a interna e an&aacute;lise de intelig&ecirc;ncia, passou a ser o segundo em comando do Escrit&oacute;rio do Diretor de Intelig&ecirc;ncia Nacional (DNI), respons&aacute;vel pelas 17 ag&ecirc;ncias de seguran&ccedil;a vinculadas a Washington. E, como por coincid&ecirc;ncia, seu novo local de trabalho estava a apenas tr&ecirc;s quil&ocirc;metros do anterior. Ap&oacute;s se retirar do DNI em 2009, McConnell regressou &agrave; Booz Allen, onde ainda &eacute; vice-presidente.<\/p>\n<p>Em agosto de 2010, o tenente-general da reserva James Clapper, ex-vice-presidente de intelig&ecirc;ncia militar da Booz Allen (1997-1998), se converteu no quarto DNI, cargo que ocupa at&eacute; hoje. Na verdade, os executivos da Booz Allen ocuparam esse cargo durante os cinco de seus oito anos de exist&ecirc;ncia. Quando esses dois homens estiveram &agrave; frente da seguran&ccedil;a nacional, contribu&iacute;ram para sua amplia&ccedil;&atilde;o e privatiza&ccedil;&atilde;o como nunca antes.<\/p>\n<p>McConnell, por exemplo, pediu ao Congresso que modificasse a lei de Vigil&acirc;ncia de Intelig&ecirc;ncia Exterior para que a NSA pudesse espionar pa&iacute;ses estrangeiros sem necessidade de uma ordem, se estes utilizassem tecnologia de internet encaminhada pelos Estados Unidos. Na semana passada, Snowden revelou a Glenn Greenwald, colaborador do jornal brit&acirc;nico The Guardian, que a NSA havia criado um programa de vigil&acirc;ncia eletr&ocirc;nica chamado Prism, que permitia &agrave; ag&ecirc;ncia espionar dados eletr&ocirc;nicos de cidad&atilde;os do mundo inteiro, dentro e fora do territ&oacute;rio norte-americano.<\/p>\n<p>O trabalho de Snowden nos escrit&oacute;rios da Booz Allen no Hava&iacute; era manter os sistemas de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o da NSA. Ele n&atilde;o explicitou qual era sua rela&ccedil;&atilde;o com o Prism, mas declarou ao jornal South China Morning Post que a NSA pirateara redes-tronco, basicamente grandes roteadores de internet, que lhe davam acesso &agrave;s comunica&ccedil;&otilde;es de centenas de milhares de computadores sem ter que piratear um a um&quot;.<\/p>\n<p>Woolsey defendeu esse tipo de vigil&acirc;ncia quando o jornal The New York Times revelou as escutas telef&ocirc;nicas sem ordem judicial realizadas pela NSA em dezembro de 2005. &quot;Ao contr&aacute;rio da Guerra Fria, nossas necessidades em mat&eacute;ria de intelig&ecirc;ncia n&atilde;o est&atilde;o apenas no estrangeiro&quot;, afirmou perante um comit&ecirc; jur&iacute;dico do Senado, se referindo &agrave; NSA, em fevereiro de 2006. &quot;Os tribunais n&atilde;o est&atilde;o preparados para os campos de batalha eletr&ocirc;nicos que se movem rapidamente e nos quais se pode confiscar computadores da rede extremista Al Qaeda ou do liban&ecirc;s Hezbol&aacute;, que t&ecirc;m uma grande quantidade de endere&ccedil;os de e-mail e telefones que se deve revisar imediatamente&quot;, explicou Woolsey.<\/p>\n<p>As tarefas concretas que a Booz Allen faz para o sistema de vigil&acirc;ncia eletr&ocirc;nica da NSA vazadas por Snowden s&atilde;o classificadas, mas pode-se deduzir de forma bastante acertada a partir de contratos semelhantes; um quarto da renda trimestral da companhia, cerca de US$ 5,86 bilh&otilde;es, procedem de ag&ecirc;ncias de intelig&ecirc;ncia. A NSA, por exemplo, contratou essa empresa em 2001 para que assessorasse a iniciativa Project Groundbreaker, de US$ 5 bilh&otilde;es, para reconstruir e operar os sistemas de redes de computadores e de telefones internos n&atilde;o essenciais.<\/p>\n<p>A Booz Allen tamb&eacute;m obteve nesse ano uma grande parte do contrato da Total Information Awareness para armazenar informa&ccedil;&atilde;o sobre poss&iacute;veis terroristas nos Estados Unidos a partir de liga&ccedil;&otilde;es telef&ocirc;nicas, recibos de cart&atilde;o de cr&eacute;dito e outras bases de dados. Foi um controvertido programa do qual o Congresso retirou os fundos em 2003, mas cujo esp&iacute;rito sobreviveu no Prism e em outras iniciativas divulgadas por Snowden.<\/p>\n<p>A CIA pagou a uma equipe da Booz Allen, encabe&ccedil;ada por William Wansley, ex-funcion&aacute;rio de intelig&ecirc;ncia do ex&eacute;rcito, para realizar &quot;planejamento estrat&eacute;gico e empresarial&quot; para seu Servi&ccedil;o Nacional Clandestino, que realiza opera&ccedil;&otilde;es encobertas e recruta espi&otilde;es estrangeiros. Em janeiro, a Booz Allen foi uma das 12 empresas que conseguiram um contrato de cinco anos com a Ag&ecirc;ncia de Intelig&ecirc;ncia da Defesa, que pode chegar a US$ 5,6 bilh&otilde;es, para se concentrar em &quot;opera&ccedil;&otilde;es de redes de computadores, tecnologias emergentes e prejudiciais, e atividades de treinamento e capacita&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>A marinha dos Estados Unidos escolheu, no m&ecirc;s passado, a mesma companhia como parte de um cons&oacute;rcio para trabalhar em outro projeto multimilion&aacute;rio para uma &quot;nova gera&ccedil;&atilde;o de opera&ccedil;&otilde;es de intelig&ecirc;ncia, vigil&acirc;ncia e combate&quot;. A Booz Allen obteve esses contratos de v&aacute;rias formas. Al&eacute;m de seus v&iacute;nculos com o DNI, se orgulha do fato de metade de seus 25 mil empregados estarem autorizados a acessar informa&ccedil;&atilde;o de intelig&ecirc;ncia ultrassecreta. Um ter&ccedil;o dos 1,4 milh&atilde;o de pessoas com essa autoriza&ccedil;&atilde;o trabalha no setor privado. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Com a colabora&ccedil;&atilde;o de Jim Lobe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, Estados Unidos, 20\/06\/2013 &ndash; Edward Snowden, funcion&aacute;rio da empresa privada de intelig&ecirc;ncia Booz Allen Hamilton, vazou informa&ccedil;&atilde;o sobre a Ag&ecirc;ncia Nacional de Seguran&ccedil;a dos Estados Unidos, em especial sobre a &aacute;rea dos terceirizados, que consome cerca de 70% dos US$ 52 bilh&otilde;es do or&ccedil;amento nacional destinado aos servi&ccedil;os secretos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/direitos-humanos\/como-a-segurana-dos-estados-unidos-ficou-a-cargo-de-uma-empresa-privada\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":177,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,6,11],"tags":[14],"class_list":["post-12094","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-direitos-humanos","category-politica","tag-america-do-norte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12094","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/177"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12094"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12094\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12094"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12094"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12094"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}