{"id":12116,"date":"2013-06-10T12:22:44","date_gmt":"2013-06-10T12:22:44","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=89563"},"modified":"2013-06-10T12:22:44","modified_gmt":"2013-06-10T12:22:44","slug":"terramerica-quando-o-trem-passa-mas-nao-chega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/ultimas-noticias\/terramerica-quando-o-trem-passa-mas-nao-chega\/","title":{"rendered":"TERRAM\u00c9RICA \u2013 Quando o trem passa, mas n\u00e3o chega"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_89565\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 350px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/c11.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-89565\" title=\"c1\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/c11.jpg\" alt=\"c11 TERRAM\u00c9RICA   Quando o trem passa, mas n\u00e3o chega\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Ap\u00f3s lavar a roupa no a\u00e7ude ao p\u00e9 da ferrovia, Ana Rosa Figueras cruza a via f\u00e9rrea carregando as pe\u00e7as molhadas. Foto: \u00c1lvaro Pardo \u2013 Col\u00f4mbia Punto Medio\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>O incessante transporte de carv\u00e3o para a exporta\u00e7\u00e3o no norte da Col\u00f4mbia deixa pouco mais que p\u00f3 e ru\u00eddo para os habitantes rurais que veem o trem passar.<\/em><\/p>\n<p>Tucurinca, Col\u00f4mbia, 10 de junho de 2013 (Terram\u00e9rica).- Goyo, como Jos\u00e9 Hern\u00e1ndez \u00e9 chamado, conta que n\u00e3o recebe uma m\u00e1scara para n\u00e3o aspirar p\u00f3 de carv\u00e3o dispersado pelos 13 trens que, durante suas 12 horas de turno de trabalho, atravessam esta aldeia do munic\u00edpio Zona Bananera, no departamento colombiano de Magdalena. Os trens passam a 80 quil\u00f4metros por hora, sem nada cobrindo as 160 mil toneladas di\u00e1rias do mineral negro extra\u00eddo de jazidas a c\u00e9u aberto 226 quil\u00f4metros a sudeste, no vizinho departamento de Cesar.<\/p>\n<p>A extra\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pelas empresas Drummond (norte-americana), Glencore Xstrata (su\u00ed\u00e7a, Prodeco na Col\u00f4mbia) e Colombian Natural Resources, do banco de investimento norte-americano Goldman Sachs. Goyo veste o uniforme de uma empresa de seguran\u00e7a privada a servi\u00e7o da Fenoco S. A. (Ferrovias do Norte da Col\u00f4mbia Sociedade An\u00f4nima), concession\u00e1ria da estrada de ferro Atl\u00e1ntico desde 1999 e que tem entre seus s\u00f3cios as pr\u00f3prias corpora\u00e7\u00f5es. O vigilante cuida da passagem do trem de carv\u00e3o pela principal rua de Tucurinca.<\/p>\n<p>Letreiros em ingl\u00eas nos 120 vag\u00f5es puxados por tr\u00eas locomotivas indicam que cada um pesa 19,1 toneladas e seu limite de carga \u00e9 de 60.750 quilos. Est\u00e3o lotados at\u00e9 o topo de carv\u00e3o t\u00e9rmico de alto grau, submetido, em obedi\u00eancia \u00e0 lei ambiental, a um sistema de umecta\u00e7\u00e3o (ligeiramente \u00famido) da camada superior, para minimizar a dispers\u00e3o de part\u00edculas pelo vento.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio t\u00e9cnico da Controladoria Geral da Rep\u00fablica, de dezembro de 2012, considera que a umecta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficientemente efetiva \u201cpara neutralizar as perdas de part\u00edculas de carv\u00e3o\u201d. Existem estudos apenas sobre \u201cas opera\u00e7\u00f5es e atividades em terra nos portos\u201d, acrescenta o \u00f3rg\u00e3o controlador, o que n\u00e3o permite \u201cconhecer o impacto sin\u00e9rgico e de \u00e1rea de todas as atividades relacionadas com a exporta\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, isto \u00e9, transporte por ferrovia ou caminh\u00f5es, armazenamento e transporte dos navios\u201d.<\/p>\n<p>Quando o trem vem, Goyo coloca ao lado da linha f\u00e9rrea dois cones de pl\u00e1stico alaranjados, unidos por uma corda com uma pequena placa de metal vermelha onde se l\u00ea \u201cPARE\u201d, escrito com letras brancas feitas \u00e0 m\u00e3o. Nada parecido com uma barreira fechando a passagem de n\u00edvel. Apenas um aviso de um metro quadrado, a seis metros da ferrovia, alerta para o perigo. Goyo \u00e9 querido pelas pessoas de Tucurinca. Dizem que ele e seu colega no turno salvaram a vida de tr\u00eas desesperados que tentaram se atirar na frente do trem.<\/p>\n<p>Tucurinca n\u00e3o tem rede de esgoto, mas aqueduto, que funciona apenas seis horas a cada dois dias. Por isso \u00e9 comum as mulheres lavarem roupa \u00e0s 10h20 da manh\u00e3 no canal que corre ao p\u00e9 da ferrovia. A essa hora come\u00e7a o abrasador calor, que ao meio-dia chegar\u00e1 aos 34 ou 36 graus cent\u00edgrados. Elas entram at\u00e9 a cintura na \u00e1gua e ensaboam, esfregam e enxaguam. Tamb\u00e9m lavam os cabelos. Sorriem. De dentro da \u00e1gua, Amparo Padilla diz que o p\u00f3 do carv\u00e3o n\u00e3o produz fuligem, que a roupa colocada para secar n\u00e3o suja.<\/p>\n<p>Ana Rosa Figueras n\u00e3o tem \u00e1gua encanada em sua cho\u00e7a, tamb\u00e9m ao p\u00e9 da ferrovia mas do outro lado do canal. \u201cVivo sozinha, como vou trazer a \u00e1gua\u201d, disse ao Terram\u00e9rica. Em seu jardim h\u00e1 um medidor da qualidade do ar, com um pequeno tacho met\u00e1lico. Alguns homens \u201cv\u00eam a cada dois dias, destapam a casinha, olham um papel e fazem anota\u00e7\u00f5es. V\u00eam olhar o p\u00f3 do carv\u00e3o\u201d, contou. \u201cEstudam para ver se causa doen\u00e7a\u201d, acrescentou, apressada, como se a \u00e1gua do canal tamb\u00e9m fosse acabar. Conforme lava a roupa, esta pequena mulher cruza com dificuldade a via f\u00e9rrea, carregando as pe\u00e7as molhadas para pendurar no andaime onde fica o medidor e que ela aproveita como varal.<\/p>\n<p>Mar\u00eda Josefa Arteaga, uma idosa de camiseta alaranjada, considera que as gigantes do carv\u00e3o n\u00e3o pagam nada por alterarem a vida da aldeia. As pessoas se queixam de problemas que n\u00e3o eram t\u00e3o comuns antes, \u201cquando havia trem\u201d, isto \u00e9, quando este era para passageiros e trazia e levava mercadorias. Agora o trem passa, mas n\u00e3o chega. Passa de longe com carv\u00e3o. Na regi\u00e3o afirmam que o trem est\u00e1 transmitindo \u201cdoen\u00e7a\u201d ao meio ambiente e que tudo est\u00e1 contaminado pelo p\u00f3, que provoca asma e bronquite cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas, ou n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis, como evidencia a Controladoria quanto aos estudos sobre diferentes impactos desta ind\u00fastria. As licen\u00e7as ambientais n\u00e3o imp\u00f5em requisitos para o monitoramento de part\u00edculas em suspens\u00e3o de menos de 2,5 micras, algo \u201cindispens\u00e1vel para a ado\u00e7\u00e3o de medidas para reduzir ou mitigar os poss\u00edveis efeitos sobre a sa\u00fade da presen\u00e7a de material particulado proveniente das atividades de exporta\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o\u201d, afirma a Controladoria.<\/p>\n<p>Outros impactos, mais evidentes, s\u00e3o a vibra\u00e7\u00e3o repetitiva, que causa rachaduras nas casas, e o barulho. Os decib\u00e9is que o trem produz ficam entre dez e 85 vezes acima do ru\u00eddo aceit\u00e1vel. \u201cTremem portas e janelas. H\u00e1 casas que est\u00e3o rachadas. Tapam as rachaduras e v\u00e3o embora\u201d, disse o comerciante de gado Luis Gonz\u00e1lez, encostado no muro de sua casa diante da ferrovia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 noite, passa um trem a cada 15 minutos, 20, no mais tardar. J\u00e1 me acostumei e n\u00e3o acordo. Antes apitava no meio da noite. Se sentia quando vinha\u201d, disse Gonz\u00e1lez. \u201cClaro que o trem me causa problemas\u201d, afirmou sua vizinha Ramona Mar\u00eda Moreno, que nasceu em 1924, acrescentando que, protestando sozinha, n\u00e3o teria chegado a ser velha. \u201cSe o povo n\u00e3o se mexe, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer. O que fa\u00e7o me queixando se os demais n\u00e3o me acompanham?\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia exporta entre 92% e 95% do carv\u00e3o que produz, e \u00e9 o quinto produtor mundial. Do carv\u00e3o consumido na Europa, 35,3% \u00e9 colombiano, segundo a Statiscal Review of World Energy 2012, da British Petroleum. Mas esta ind\u00fastria estabelece m\u00ednima cadeia produtiva e, portanto, n\u00e3o dinamiza de forma direta a economia, \u201cao menos de maneira apreci\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o ao valor explorado\u201d, segundo o estudo da Controladoria intitulado <em>Minera\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia: Fundamentos para Superar o Modelo Extrativista<\/em>, apresentado em maio de 2013.<\/p>\n<p>Por isso, em Tucurinca, como em outros povoados ao longo da viagem do carv\u00e3o at\u00e9 o mercado global, o trem passa, mas n\u00e3o chega. (Envolverde\/Terram\u00e9rica)<\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p><strong>LINKS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2013\/05\/informe-sobre-colombia-un-pais-que-se-volvio-minero\/\" >Informe sobre a Col\u00f4mbia, um pa\u00eds que se tornou minerador, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2013\/02\/huelga-a-cielo-abierto-en-cerrejon\/\" >Greve a c\u00e9u aberto em Cerrej\u00f3n, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2012\/02\/colombia-la-mineria-una-locomotora-sobre-rieles-torcidos\/\" >Minera\u00e7\u00e3o, uma locomotiva sobre trilhos retorcidos, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ips.org\/ipsbrasil.net\/print.php?idnews=4773\" >Depredadora extra\u00e7\u00e3o carbon\u00edfera<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O incessante transporte de carv&atilde;o para a exporta&ccedil;&atilde;o no norte da Col&ocirc;mbia deixa pouco mais que p&oacute; e ru&iacute;do para os habitantes rurais que veem o trem passar. 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