{"id":12124,"date":"2013-06-24T12:47:51","date_gmt":"2013-06-24T12:47:51","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=90964"},"modified":"2013-06-24T12:47:51","modified_gmt":"2013-06-24T12:47:51","slug":"mudanca-cultural-em-relacao-a-mutilacao-genital-na-somalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/06\/ultimas-noticias\/mudanca-cultural-em-relacao-a-mutilacao-genital-na-somalia\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a cultural em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mutila\u00e7\u00e3o genital na Som\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_90965\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"width: 310px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/n812.jpg\"><img class=\"size-medium wp-image-90965\" title=\"n8\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/n812-300x199.jpg\" alt=\"n812 300x199 Mudan\u00e7a cultural em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mutila\u00e7\u00e3o genital na Som\u00e1lia\" width=\"300\" height=\"199\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Ativistas da Som\u00e1lia querem erradicar a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina, mas reconhecem que a pr\u00e1tica de uma forma menos prejudicial \u00e9 uma mudan\u00e7a cultural positiva na dire\u00e7\u00e3o correta. Foto: Abdurrahman Warsameth\/IPS<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Mogad\u00edscio, Som\u00e1lia, 24\/6\/2013 \u2013 Istar Mumin, de sete anos, jaz im\u00f3vel na cama em um dos quartos de sua casa no distrito de Hamarwyne, em Mogad\u00edscio, capital da Som\u00e1lia. Ela se recupera do \u201ccorte\u201d, pr\u00e1tica tradicional realizada por uma enfermeira. \u201cSinto dor, n\u00e3o posso me mexer. Me cortaram\u201d, disse \u00e0 IPS com l\u00e1grimas nos olhos. A menina estava visivelmente fraca devido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o. Na sala da casa, sua m\u00e3e, Muhibo Daahir, se mostra com \u00e2nimo festivo, pois a fam\u00edlia recebe os convidados que vieram comemorar a circuncis\u00e3o de Mumin.<\/span><\/p>\n<p>A antiga pr\u00e1tica de mutila\u00e7\u00e3o genital feminina (MGF) est\u00e1 proibida pela Constitui\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 amplamente realizada at\u00e9 em meninas de cinco anos, especialmente nas zonas afetadas pelo conflito. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 destinada a mant\u00ea-las puras e prepar\u00e1-las para o casamento. A maioria das fam\u00edlias vive o momento com felicidade, pois \u00e9 motivo de comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o documento <em>Erradica\u00e7\u00e3o da Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina na Som\u00e1lia<\/em>, do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), \u201ca MGF pode deixar graves sequelas no bem-estar f\u00edsico, mental e psicossocial em quem a sofre\u201d. O estudo acrescenta que \u201cas consequ\u00eancias para a sa\u00fade s\u00e3o imediatas e de longo prazo. Apesar das muitas leis reconhecidas em n\u00edvel internacional contra a MGF, a n\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o total do Isl\u00e3 e as iniciativas globais para erradic\u00e1-la, continua arraigada na cultura somaliana\u201d.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m assinala que \u201cas complica\u00e7\u00f5es de longo prazo incluem perda da libido, m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o genital, primeira menstrua\u00e7\u00e3o tardia, complica\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas na p\u00e9lvis e infec\u00e7\u00f5es e reten\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria recorrentes\u201d. Tamb\u00e9m afirma que \u201cas meninas circuncidadas t\u00eam pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o de no futuro sofrer complica\u00e7\u00f5es obst\u00e9tricas, porque o feto fica exposto a v\u00e1rias doen\u00e7as infecciosas e corre o risco de sua cabe\u00e7a ficar presa no canal de parto lesionado\u201d.<\/p>\n<p>A nova lei fundamental da Som\u00e1lia considera essa pr\u00e1tica como \u201ctortura\u201d. O Artigo 15 da Constitui\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria estabelece que \u201ca circuncis\u00e3o das meninas \u00e9 uma pr\u00e1tica tradicional cruel e degradante, e equivale \u00e0 tortura. A circuncis\u00e3o das meninas est\u00e1 proibida\u201d. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma lei espec\u00edfica e a pr\u00e1tica se mant\u00e9m, tanto em \u00e1reas rurais como urbanas, nesta na\u00e7\u00e3o do Chifre da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Daahir se coloca na defensiva ao ser consultada sobre o motivo que a levou a permitir a circuncis\u00e3o de sua filha. \u201cNossa religi\u00e3o nos permite purificar nossas filhas para que possam se casar quando estiverem maduras. O governo n\u00e3o pode nos impedir de praticarmos nossa religi\u00e3o\u201d, afirmou. Daahir disse que sua filha, \u201ccomo outras meninas desta \u00e9poca\u201d, foi circuncidada segundo a forma sunnah, permitida pela religi\u00e3o isl\u00e2mica. Um m\u00e9todo que implica o corte parcial do clit\u00f3ris.<\/p>\n<p>Outra forma de circuncis\u00e3o praticada na Som\u00e1lia \u00e9 a fara\u00f4nica, que implica a remo\u00e7\u00e3o completa do clit\u00f3ris e dos l\u00e1bios maiores e menores. A abertura vaginal externa \u00e9 suturada e se deixa um pequeno orif\u00edcio para sair a urina e o sangue menstrual. Daahir acrescentou que, ao contr\u00e1rio do que se fazia antes, atualmente uma enfermeira diplomada realiza a circuncis\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, nas zonas da Som\u00e1lia, onde nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o houve guerra, a pr\u00e1tica diminui. O Unicef publicou em abril uma pesquisa com entrevistas feitas na regi\u00e3o de Puntland e no Estado separado de Somalil\u00e2ndia, onde a circuncis\u00e3o genital feminina diminuiu. Estudo, realizado junto com as autoridades locais, concluiu que 75% das meninas pesquisadas com idades entre um e 14 anos, n\u00e3o estavam mutiladas, bem abaixo dos 99% das que foram circuncidadas em outras partes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Programa Conjunto do Unicef e do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, conseguiu a participa\u00e7\u00e3o de aproximadamente 300 mil membros e atores da comunidade em um debate sobre o abandono da MGF em Puntland e na Somalil\u00e2ndia. A raz\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o da MGF no norte pode estar relacionada com a relativa estabilidade que manteve a zona nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, enquanto o resto do pa\u00eds sofreu uma guerra civil entre cl\u00e3s desde 1991.<\/p>\n<p>As campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o sobre os perigos da MGF tradicional n\u00e3o puderam ser feitas nas \u00e1reas problem\u00e1ticas, como aconteceu em Somalil\u00e2ndia e Puntland. \u201cOs somalianos n\u00e3o abandonaram a circuncis\u00e3o, mas a realizam de forma menos cruel do que a fara\u00f4nica, usam a sunnah, que comparada com a tradicional n\u00e3o \u00e9 invasiva\u201d, disse \u00e0 IPS a ativista Halimo Ali, radicada em Mogad\u00edscio. \u201cConhe\u00e7o o estudo feito em Puntland e Somalil\u00e2nida, e \u00e9 animador. Mas duvido que os somalianos deixem de circuncidar suas filhas de uma forma ou de outra\u201d, opinou.<\/p>\n<p>Maruan Aalim, com sete filhas, disse \u00e0 IPS: \u201cTodas est\u00e3o circuncidadas com a sunnah, salvo a mais velha, em quem foi praticada a forma ancestral (far\u00f4nica). Escolhi a \u00faltima porque \u00e9 a permitida pelo Isl\u00e3\u201d. O xeque Omar Ali, cl\u00e9rigo de Mogad\u00edscio, \u00e9 um dos sete l\u00edderes religiosos aos quais as pessoas recorrem quando querem justificar a MGF. \u201cS\u00f3 h\u00e1 uma forma de circuncis\u00e3o prescrita pelo Isl\u00e3, e \u00e9 a sunnah. A fara\u00f4nica \u00e9 anterior, n\u00e3o \u00e9 isl\u00e2mica\u201d, explicou \u00e0 IPS. Ativistas locais disseram que querem a erradica\u00e7\u00e3o total da pr\u00e1tica, mas reconhecem a \u201cmudan\u00e7a cultural\u201d que houve na sociedade somaliana, e afirmam que a evolu\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica pode ser considerada um passo positivo para sua completa elimina\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cAgora as pessoas reconhecem as consequencias negativas da forma extrema de MGF sobre as mulheres e meninas, e adotam a sunnah. N\u00e3o \u00e9 o que queremos, mas \u00e9 um passo na dire\u00e7\u00e3o correta\u201d, disse \u00e0 IPS a professora Raho Qalif, de Mogad\u00edscio. A pr\u00e1tica terminar\u00e1 desaparecendo da cultura somaliana, acrescentou, ressaltando que observou uma \u201ctend\u00eancia\u201d: circuncidar as meninas com a sunnah \u201cest\u00e1 na moda\u201d. Para Qalif, \u201ctodo mundo sabe que agora na Som\u00e1lia se desaprova a forma extrema de MGF, e os homens buscam mulheres circuncidadas com a sunnah para se casar\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mogad&iacute;scio, Som&aacute;lia, 24\/6\/2013 &ndash; Istar Mumin, de sete anos, jaz im&oacute;vel na cama em um dos quartos de sua casa no distrito de Hamarwyne, em Mogad&iacute;scio, capital da Som&aacute;lia. Ela se recupera do &ldquo;corte&rdquo;, pr&aacute;tica tradicional realizada por uma enfermeira. &ldquo;Sinto dor, n&atilde;o posso me mexer. Me cortaram&rdquo;, disse &agrave; IPS com l&aacute;grimas nos olhos. 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