{"id":1229,"date":"2005-11-22T00:00:00","date_gmt":"2005-11-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1229"},"modified":"2005-11-22T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-22T00:00:00","slug":"estados-unidos-precisa-se-de-torturadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/estados-unidos-precisa-se-de-torturadores\/","title":{"rendered":"Estados Unidos: Precisa-se de torturadores"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 22\/11\/2005 &ndash; A &quot;guerra contra o terror&quot; cria novas oportunidades de emprego para os norte-americanos. Importantes empresas se dedicam a contratar pessoal para realizar interrogat&oacute;rios nas pris&otilde;es iraquianas. O neg&oacute;cio enche muitos bolsos e preocupa os ativistas pelos direitos humanos. Neste ver&atilde;o (boreal), dezenas de pessoas seguiram para a des&eacute;rtica cidade de El Paso, no Estado norte-americano do Texas, a caminho das pris&otilde;es iraquianas, onde permanecer&atilde;o durante seis meses. Mas eles n&atilde;o v&atilde;o na qualidade de presos, mas de interrogadores, caminhando por uma fina linha legal atrav&eacute;s das Conven&ccedil;&otilde;es de Genebra, que protegem os prisioneiros de guerra.<br \/> <!--more--> <br \/> S&oacute; por assinarem o contrato receberam um cheque de US$ 2 mil de uma empresa que rapidamente est&aacute; se convertendo em uma empregadora-chave no mundo da intelig&ecirc;ncia, a Lockheed Martin. Ap&oacute;s uma semana de orienta&ccedil;&atilde;o e procedimentos m&eacute;dicos, voaram para Tampa, na Fl&oacute;rida, com destino a algumas tristemente c&eacute;lebres pris&otilde;es iraquianas, entre elas as de Abu Ghraib, Camp Cropper, localizada no Aeroporto Internacional de Bagd&aacute;, e Camp Whitehorse, perto da cidade iraquiana de Nas&iacute;ria.<\/p>\n<p> Conhecidos na comunidade de intelig&ecirc;ncia como &quot;os 97 ecos&quot;, (&quot;97E&quot; &eacute; o n&uacute;mero do curso de interrogat&oacute;rio ministrado nas escolas militares), estes mercen&aacute;rios trabalhar&atilde;o lado a lado com os interrogadores militares. Utilizar&atilde;o 17 t&eacute;cnicas para interrogar prisioneiros, que v&atilde;o desde o &quot;amor de camaradas&quot; at&eacute; a &quot;severa atemoriza&ccedil;&atilde;o&quot;, que consiste em jogar o preso violentamente ao ch&atilde;o. Os que estar&atilde;o sujeitos a estas medidas s&atilde;o dezenas de milhares de homens e mulheres detidos em pris&otilde;es militares dirigidas pelos Estados Unidos sob suspeita de liga&ccedil;&atilde;o com o terrorismo.<\/p>\n<p> Um emprego deste novo nicho de trabalho come&ccedil;a com um telefonema ou um e-mail ao tenente-coronel da reserva Marc Michaelis, no pitoresco povoado de moinhos de farinha de Ellicott, no Estado de Maryland, a uma hora de autom&oacute;vel de Washington. Michaelis, o principal ponto de contato dos novos interrogadores, chegou &agrave; Lockheed Martin em fevereiro, depois que a companhia comprou sua ex-empregadora, a Sytex, por US$ 462 milh&otilde;es. A Sytex, e, portanto, a Lockheed, parece ter se transformado em um dos maiores recrutadores de torturadores privados. Somente em junho, a Sytex publicou an&uacute;ncios procurando 11 novos interrogadores para o Iraque, e em julho havia solicitado outros 23 para trabalharem no Afeganist&atilde;o. <\/p>\n<p> An&uacute;ncios publicados em v&aacute;rios sites freq&uuml;entados por militares da ativa e da reserva ofereciam sal&aacute;rios de US$ 70 mil e US$ 90 mil, bonifica&ccedil;&atilde;o de US$ 2 mil na assinatura do contrato, US$ 1 mil para licen&ccedil;a na metade da miss&atilde;o e outros US$ 2 mil ao completar o per&iacute;odo de contrato regular de seis meses. Quem voltar para um segundo per&iacute;odo receber&aacute; o dobro das bonifica&ccedil;&otilde;es no in&iacute;cio e no final do contrato. Em troca, espera-se que os contratados trabalhem at&eacute; 14 horas por dia, sete dias por semana.<\/p>\n<p> A quest&atilde;o dos interrogadores privados veio &agrave; luz em meados de 2004, quando uma investiga&ccedil;&atilde;o militar revelou que v&aacute;rios deles na pris&atilde;o de Abu Ghraib eram empregados civis de uma empresa chamada CACI, com sede no Estado norte-americano de Virg&iacute;nia. O resultado &eacute; que ningu&eacute;m sabia o que diziam as leis sobre contratados comprometidos nas torturas no Iraque, ou se eram, de fato, respons&aacute;veis perante alguma autoridade ou pass&iacute;veis de sofrerem procedimento disciplinar. Organiza&ccedil;&otilde;es defensoras dos direitos humanos s&atilde;o abertamente cr&iacute;ticas desta nova tend&ecirc;ncia. &quot;O uso que o Ex&eacute;rcito faz dos interrogadores por contrato s&atilde;o uma experi&ecirc;ncia fracassada&quot;, disse Deborah Pearlstein, diretora do Programa e Leis e Seguran&ccedil;a da organiza&ccedil;&atilde;o norte-americana Human Rights First. <\/p>\n<p> &quot;Baseando-se nas pr&oacute;prias investiga&ccedil;&otilde;es do Pent&aacute;gono (Departamento de Defesa) e outros relat&oacute;rios que j&aacute; s&atilde;o p&uacute;blicos, parece claro que os contratados j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o bem treinados nem controlados, e s&atilde;o mais dif&iacute;ceis de acusar do que os soldados por coisas que saem erradas&quot;, disse Pearlstein. A ativista alertou que, &quot;a menos que os interrogadores por contrato possam ser elevados, pelo menos, aos padr&otilde;es de treinamento e disciplina esperados para nossos soldados, os Estados Unidos est&atilde;o melhor sem os seus servi&ccedil;os&quot;.<\/p>\n<p> &quot;O problema n&atilde;o &eacute; o uso de contratados civis&quot;, disse em uma mensagem de correio eletr&ocirc;nico um ex-interrogador do Ex&eacute;rcito com mais de 10 anos de experi&ecirc;ncia. &quot;O que se necessita &eacute; um meio ativo de supervis&atilde;o e vigil&acirc;ncia sobre todos nossos recursos no campo, n&atilde;o s&oacute; os civis. Se algu&eacute;m examinar as muitas investiga&ccedil;&otilde;es das atividades de intelig&ecirc;ncia militar encontrar&aacute; tantos indiv&iacute;duos uniformizados infringindo as lei quanto contratados&quot;, afirmou. Entretanto, Susan Burke, advogada de presos iraquianos que disseram ter sido torturados em Abu Ghraib, questionou a legalidade de contratar civis para realizarem os interrogat&oacute;rios.<\/p>\n<p> &quot;Os interrogat&oacute;rios sempre foram considerados uma fun&ccedil;&atilde;o inerente ao governo por raz&otilde;es &oacute;bvias. &Eacute; irrespons&aacute;vel e perigoso utilizar contratados para essa tarefa, j&aacute; que h&aacute; uma longa hist&oacute;ria de repetidos abusos dos direitos humanos cometidos por eles&quot;, disse Burke. A advogada de Filad&eacute;lfia alega que o uso de contratados &eacute; ilegal. &quot;O Congresso dos Estados Unidos aprovou leis (as Regulamenta&ccedil;&otilde;es de Aquisi&ccedil;&otilde;es Federais) que impedem o Poder Executivo de delegar &quot;fun&ccedil;&otilde;es inerentemente governamentais&quot; a privados&quot;, explicou Burke.<\/p>\n<p> Consultada sobre os detalhes dos contratos para os interrogat&oacute;rios, a Lockheed se negou a fazer coment&aacute;rios. Joseph Wagovich, porta-voz da divis&atilde;o de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o da empresa, que inclui a Sytex, disse inicialmente que a companhia tinha apenas um papel menor no neg&oacute;cio dos interrogat&oacute;rios e que havia conclu&iacute;do seu contrato nessa &aacute;rea para a base militar norte-americana de Guant&acirc;namo, em Cuba. Mas confirmou que a Lockheed ainda fornecia outros tipos de &quot;analistas de intelig&ecirc;ncia&quot; ali. A Sytex tamb&eacute;m gosta de manter um perfil baixo. &quot;A maioria das organiza&ccedil;&otilde;es dedicadas a fazer cumprir a lei, bem como as outras que podemos estar apoiando, logo poder&atilde;o n&atilde;o ter seus nomes impressos&quot;, disse Raplh Palmieri Junior, encarregado de opera&ccedil;&otilde;es da empresa, a Congressional Quarterly em 2004.<\/p>\n<p> O alcance e a influ&ecirc;ncia da empresa v&atilde;o muito al&eacute;m do militar. Um perfil da companhia publicado pelo jornal The New York Times no ano passado come&ccedil;ava com a frase: &quot;Lockheed Martin n&atilde;o dirige os Estados Unidos. Mas ajuda a dirigir uma impressionante parte dele&quot;. Na &quot;&uacute;ltima d&eacute;cada, a Lockheed, maior contratante militar da na&ccedil;&atilde;o, construiu um formid&aacute;vel imp&eacute;rio de inform&aacute;tica que agora se estende desde o Pent&aacute;gono at&eacute; o escrit&oacute;rio do Correio&quot;, escreveu Tim Weiner. &quot;Classifica suas correspond&ecirc;ncias e soma seus impostos. Corta os recibos do seguro social e contabiliza (os resultados) do censo dos Estados Unidos. Dirige v&ocirc;os espaciais e monitora o tr&aacute;fego a&eacute;reo. Para fazer com que tudo isso funcione, a Lockheed possui mais c&oacute;digos de inform&aacute;tica do que a Microsoft&quot;.<\/p>\n<p> O jornalista especializado em seguran&ccedil;a nacional do The New York Times explicou com a Lockheed obtinha seus neg&oacute;cios: &quot;Os homens que trabalham, pressionando (a favor de) e defendendo legalmente a Lockheed ocupam os cargos de secret&aacute;rio da Marinha, secret&aacute;rio de Transporte, diretor do complexo nacional de armas nucleares e diretor da ag&ecirc;ncia Nacional de sat&eacute;lites espi&otilde;es&quot;. Bill Hartung, do Instituto de Pol&iacute;tica Mundial de Nova York, acredita que &quot;dar a uma empresa tanto poder em assuntos de guerra e paz &eacute; t&atilde;o perigoso quanto antidemocr&aacute;tico&quot;. Tamb&eacute;m afirmou que a Lockheed Martin estava em posi&ccedil;&atilde;o de se beneficiar economicamente de cada plano da &quot;guerra contra o terror&quot;, desde o objetivo at&eacute; a interven&ccedil;&atilde;o e desde a ocupa&ccedil;&atilde;o at&eacute; os interrogat&oacute;rios.<\/p>\n<p> (*) Pratap Chatterjee &eacute; diretor-geral da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental CorpWatch.<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 22\/11\/2005 &ndash; A &quot;guerra contra o terror&quot; cria novas oportunidades de emprego para os norte-americanos. Importantes empresas se dedicam a contratar pessoal para realizar interrogat&oacute;rios nas pris&otilde;es iraquianas. O neg&oacute;cio enche muitos bolsos e preocupa os ativistas pelos direitos humanos. Neste ver&atilde;o (boreal), dezenas de pessoas seguiram para a des&eacute;rtica cidade de El Paso, no Estado norte-americano do Texas, a caminho das pris&otilde;es iraquianas, onde permanecer&atilde;o durante seis meses. Mas eles n&atilde;o v&atilde;o na qualidade de presos, mas de interrogadores, caminhando por uma fina linha legal atrav&eacute;s das Conven&ccedil;&otilde;es de Genebra, que protegem os prisioneiros de guerra.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/america-latina\/estados-unidos-precisa-se-de-torturadores\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":177,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1229","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/177"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1229"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1229\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}