{"id":1255,"date":"2005-11-30T00:00:00","date_gmt":"2005-11-30T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1255"},"modified":"2005-11-30T00:00:00","modified_gmt":"2005-11-30T00:00:00","slug":"nepal-refugiados-do-buto-esquecidos-no-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/mundo\/nepal-refugiados-do-buto-esquecidos-no-caos\/","title":{"rendered":"Nepal: Refugiados do But&atilde;o esquecidos no caos"},"content":{"rendered":"<p>Katmandu, 30\/11\/2005 &ndash; O golpe de Estado de 1&ordm; de fevereiro no Nepal significou um duro rev&eacute;s para os lhotsampas, cidad&atilde;os butaneses de origem nepalesa que retornaram &agrave;s suas ra&iacute;zes para viver com refugiados. Ningu&eacute;m parece ter se detido a pensar nos efeitos do golpe e nas restri&ccedil;&otilde;es &agrave;s liberdades civis entre os 105 mil butaneses abrigados em sete acampamentos do Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados (Acnur) no leste do Nepal. A trag&eacute;dia dos lhotsampas simplesmente sumiu do radar da pol&iacute;tica e da diplomacia de Katmandu, ocupadas em adivinhar o pr&oacute;ximo movimento do rei Gyanendra, respons&aacute;vel pelo golpe.<br \/> <!--more--> <br \/> A outrora vibrante imprensa do Nepal, que sempre simpatizou com a causa dos refugiados procedentes do outro reino dos Himalayas, entre &Iacute;ndia e China, hoje luta por sua pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia. A liberdade de imprensa sofre uma implac&aacute;vel investida em m&atilde;os da ditadura do Gyanendra, que se escuda na urg&ecirc;ncia de por um fim &agrave; guerra civil entre as for&ccedil;as de seguran&ccedil;a com a insurg&ecirc;ncia mao&iacute;sta. Diante do risco de que sua luta ficasse eclipsada, um grupo de 27 mulheres dos acampamentos do Acnur chegou a Katmandu no dia 11 de novembro e iniciou uma manifesta&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica de protesto diante da Casa da ONU nessa cidade, onde ficam os escrit&oacute;rios de diferentes agencias da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas.<\/p>\n<p> O objetivo desta mobiliza&ccedil;&atilde;o, que se tentou fazer de modo a coincidir com os 50 anos do rei do But&atilde;o, Jigme Singye Wangchuk, foi chamar a aten&ccedil;&atilde;o do secret&aacute;rio-geral da ONU, Kofi Annan, no sentido de intervir e as ajud&aacute;-los a regressar s&atilde;o e salvos ao But&atilde;o com a maior brevidade. Desde 1969, o But&atilde;o &eacute; uma monarquia heredit&aacute;ria, e Wangchuk exerce a chefia do Estado desde 1972. O protesto se autodissolveu no dia 15 de novembro, uma vez que funcion&aacute;rios da ONU prometeram atender o pedido das mulheres. Em uma segunda tentativa de pressionar Thimphu (capital do But&atilde;o), os refugiados tamb&eacute;m fizeram uma declara&ccedil;&atilde;o por ocasi&atilde;o da c&uacute;pula da Associa&ccedil;&atilde;o para a Coopera&ccedil;&atilde;o Regional no Sul da &Aacute;sia (Saarc) em Dhaka (Bangladesh), nos dias 12 e 13 de novembro.<\/p>\n<p> A Saarc &eacute; um bloco regional formado por sete pa&iacute;ses: Paquist&atilde;o, Ilhas Maldivas, &Iacute;ndia, Sri Lanka, Bangladesh, Nepal e But&atilde;o. &quot;Os refugiados do But&atilde;o desejam chamar a aten&ccedil;&atilde;o das autoridades dos pa&iacute;ses do sul do &Aacute;sia e de outros Estados-membros da ONU para que se conscientizem de nossa desgra&ccedil;a e para solicitar-lhes que tomem medidas imediatas para levar esta quest&atilde;o a f&oacute;runs apropriados&quot;, dizia a declara&ccedil;&atilde;o. A mobiliza&ccedil;&atilde;o das mulheres contou com o apoio do Conselho dos Direitos Humanos do But&atilde;o, presidido pelo l&iacute;der dos refugiados no ex&iacute;lio, Teknath Rizal, e tamb&eacute;m do Comit&ecirc; Representativo para a Repatria&ccedil;&atilde;o dos Refugiados Butaneses, organiza&ccedil;&atilde;o com sede no Nepal oriental.<\/p>\n<p> As organiza&ccedil;&otilde;es de refugiados, bem como os partidos pol&iacute;ticos, foram colocados na ilegalidade no reino budista do But&atilde;o, mas se mant&ecirc;m em funcionamento na &Iacute;ndia e no Nepal. &quot;A convuls&atilde;o pol&iacute;tica no Nepal tem efeito muito negativo sobre nosso projeto de regressarmos ao nosso pa&iacute;s, a salvo e dignamente&quot;, disse Rizal &agrave; IPS. &quot;Estamos cansados de esperar e queremos que a comunidade internacional tome medidas efetivas para que se processe uma repatria&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida e sem problema&quot;, acrescentou. Rizal, que esteve preso no But&atilde;o por mais de 10 anos, disse que, devido &agrave; pouca disposi&ccedil;&atilde;o de Thimphu em receber seus cidad&atilde;os exilados, a comunidade internacional deve aplicar &quot;a necess&aacute;ria press&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p> Em carta dirigida a Annan, os refugiados disseram que: &quot;Nos &uacute;ltimos tempos, houve cortes nos recursos para atender nossas necessidades mais b&aacute;sicas nos acampamentos de refugiados. Sem mencionar a deteriora&ccedil;&atilde;o registrada na educa&ccedil;&atilde;o e na sa&uacute;de. As pessoas est&atilde;o morrendo por falta de tratamento adequado&quot;. O escrit&oacute;rio da ONU no Nepal disse que, efetivamente, enfrenta uma redu&ccedil;&atilde;o nos fundos de financiamento e que n&atilde;o pode continuar mantendo os acampamentos de refugiados. Os envios de frutas e vegetais foram severamente reduzidos, e os de outros alimentos tamb&eacute;m sofreram cortes. As ra&ccedil;&otilde;es de querosene, indispens&aacute;vel para cozinhar e fazer funcionar as l&acirc;mpadas (nos acampamentos n&atilde;o teme eletricidade), tamb&eacute;m sofreram cortes. Rizal teme que se persistir a indiferen&ccedil;a quanto &agrave; situa&ccedil;&atilde;o nos acampamentos isso poder&aacute; ter conseq&uuml;&ecirc;ncias desastrosas para toda a regi&atilde;o.<\/p>\n<p> Os hindus butaneses, em sua maioria de l&iacute;ngua nepalesa, come&ccedil;aram a chegar ao leste do Nepal atrav&eacute;s da &Iacute;ndia no in&iacute;cio de 1990, alegando que eram expulsos pela for&ccedil;a do governo do But&atilde;o como resultado de um plano de &quot;limpeza &eacute;tnica&quot; nesse pa&iacute;s, acusa&ccedil;&atilde;o que o &quot;reino do drag&atilde;o&quot; nega terminantemente. As 15 rodadas de negocia&ccedil;&atilde;o entre os chanceleres do Nepal e do But&atilde;o, pela repatria&ccedil;&atilde;o dos refugiados, a partir de 1993, n&atilde;o chegaram a maiores resultados. Mais de 75% dos mais de oito mil refugiados do acampamento de Khudunabari foram autorizados a retornar ao But&atilde;o, e supunha-se que sua repatria&ccedil;&atilde;o come&ccedil;aria em 15 de fevereiro de 2004. Por&eacute;m, o processo se deteve antes de come&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Os governos do Nepal e do But&atilde;o se distanciaram depois dos incidentes de 22 de dezembro de 2003, quando um funcion&aacute;rio butan&ecirc;s e um policial nepal&ecirc;s foram apedrejados pelos refugiados, que temiam ser perseguidos quando voltassem &agrave; sua terra. Este temor obedecia a advert&ecirc;ncias de autoridades butanesas, que se referiram a um per&iacute;odo de &quot;quarentena&quot; ao qual seriam submetidos os repatriados por at&eacute; dois anos, durante os quais deveriam demonstrar sua lealdade ao monarca e &agrave; hist&oacute;ria e &agrave; cultura desse pa&iacute;s antes de serem aceitos como cidad&atilde;os.<\/p>\n<p> Levados pelo desespero, cerca de 300 refugiados, principalmente velhos, mulheres e crian&ccedil;as, decidiram ir para a &Iacute;ndia, no dia 3 de agosto deste ano, em uma tentativa de chegar ao But&atilde;o, mas a pol&iacute;cia indiana os deteve no posto fronteiri&ccedil;o de Kakarbhitta-Pani Tanki. Os refugiados se instalaram por v&aacute;rias horas nas proximidades da ponte Mechi, que une o Nepal com a &Iacute;ndia, antes que a pol&iacute;cia nepalesa os colocasse &agrave; for&ccedil;a em caminh&otilde;es e &ocirc;nibus e os levasse de volta aos seus acampamentos. Enquanto a monarquia e os partidos pol&iacute;ticos do Nepal lutam pelo poder em um pa&iacute;s sitiado por rebeldes mao&iacute;stas, a trag&eacute;dia dos refugiados corre o risco de cair no esquecimento.<\/p>\n<p> Um dos cartazes que as mulheres refugiadas carregavam perguntava expressamente: &quot;Esqueceram de n&oacute;s?&quot;. Os refugiados est&atilde;o convencidos de que sua trag&eacute;dia acabaria na hora se a &Iacute;ndia, que exerce uma enorme influ&ecirc;ncia sobre os reinos himalayas, interviesse para resolver esse longo conflito. A posi&ccedil;&atilde;o da &Iacute;ndia, entretanto, &eacute; a de que se trata de um assunto bilateral que os dois pa&iacute;ses devem solucionar amigavelmente e sem sua media&ccedil;&atilde;o. Por sua vez, os dois reinos tamb&eacute;m afirmam que &eacute; um tema fundamentalmente bilateral, embora no passado Katmandu tenha advertido que &quot;se o But&atilde;o continuar retardando deliberadamente a solu&ccedil;&atilde;o do problema o obrigar&aacute; a considerar essa quest&atilde;o como interna&quot;.<\/p>\n<p> O que esgotou a paci&ecirc;ncia do Nepal foi a sugest&atilde;o da comunidade internacional para que aceitasse a f&oacute;rmula do Acnur, que apresenta tr&ecirc;s op&ccedil;&otilde;es: repatriar os refugiados para seu pa&iacute;s de origem, localiz&aacute;-los em terceiros pa&iacute;ses, ou integr&aacute;-los ao pa&iacute;s. O Nepal n&atilde;o tem nenhuma obje&ccedil;&atilde;o com as duas primeiras, mas com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; terceira afirma que &eacute; desviar o foco da quest&atilde;o principal, ou, nas palavras de um funcion&aacute;rio, &quot;&eacute; colocar o carro &agrave; frente dos bois&quot;. Enquanto os governos dos dois pa&iacute;ses continuam procurando decidir quando ser&aacute; realizada a pr&oacute;xima rodada de negocia&ccedil;&otilde;es sobre o assunto, a paci&ecirc;ncia dos refugiados se esgota. &quot;Quanto tempo mais vamos esperar para que se fa&ccedil;a justi&ccedil;a?&quot;, perguntou uma mulher lhotsampa. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Katmandu, 30\/11\/2005 &ndash; O golpe de Estado de 1&ordm; de fevereiro no Nepal significou um duro rev&eacute;s para os lhotsampas, cidad&atilde;os butaneses de origem nepalesa que retornaram &agrave;s suas ra&iacute;zes para viver com refugiados. Ningu&eacute;m parece ter se detido a pensar nos efeitos do golpe e nas restri&ccedil;&otilde;es &agrave;s liberdades civis entre os 105 mil butaneses abrigados em sete acampamentos do Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados (Acnur) no leste do Nepal. A trag&eacute;dia dos lhotsampas simplesmente sumiu do radar da pol&iacute;tica e da diplomacia de Katmandu, ocupadas em adivinhar o pr&oacute;ximo movimento do rei Gyanendra, respons&aacute;vel pelo golpe.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/11\/mundo\/nepal-refugiados-do-buto-esquecidos-no-caos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":48,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1255","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/48"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1255"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1255\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}