{"id":1264,"date":"2005-12-02T00:00:00","date_gmt":"2005-12-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1264"},"modified":"2005-12-02T00:00:00","modified_gmt":"2005-12-02T00:00:00","slug":"energia-com-o-tanque-vazio-no-paraso-do-petrleo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/america-latina\/energia-com-o-tanque-vazio-no-paraso-do-petrleo\/","title":{"rendered":"Energia: Com o tanque vazio no para&iacute;so do petr&oacute;leo"},"content":{"rendered":"<p>Bagd&aacute;, 02\/12\/2005 &ndash; Antes da guerra, o combust&iacute;vel no Iraque era abundante, apesar das san&ccedil;&otilde;es da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas que limitavam o acesso da popula&ccedil;&atilde;o a muitos recursos. Depois da invas&atilde;o liderada pelos Estados Unidos em 2003, a escassez &eacute; evidente. No subsolo do Iraque fica a segunda reserva de petr&oacute;leo do mundo, mas os iraquianos s&atilde;o obrigados a esperar em filas insuportavelmente longas para comprar pequenas quantidades de gasolina ou querosene. Durante o regime de Saddam Hussein (1979-2003), o programa humanit&aacute;rio Petr&oacute;leo por Alimentos da ONU estabeleceu cotas para a produ&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera do pa&iacute;s, as quais costumavam ser ampliadas ilegalmente.<br \/> <!--more--> <br \/> O governo de Saddam manteve um r&iacute;gido controle nos po&ccedil;os e nos oleodutos, assim o fornecimento n&atilde;o sofria interrup&ccedil;&otilde;es. O litro de gasolina custava o equivalente a, aproximadamente, tr&ecirc;s centavos de d&oacute;lar. O querosene tamb&eacute;m era barato, embora uma confi&aacute;vel rede de distribui&ccedil;&atilde;o de eletricidade reduzisse a necessidade de geradores dom&eacute;sticos e, portanto, tamb&eacute;m a demanda desse produto. &quot;Costum&aacute;vamos obter gasolina e querosene muito facilmente no inverno&quot;, disse Hussein Rudha, um taxista de Bagd&aacute;. &quot;Nem mesmo t&iacute;nhamos problemas de racionamento. Os pre&ccedil;os eram muito baixos&quot;. Depois da queda do regime de Saddam Hussein, em abril de 2003, a situa&ccedil;&atilde;o de seguran&ccedil;a no Iraque se deteriorou rapidamente. Os oleodutos foram sabotados mais de 200 vezes, o que reduziu o fornecimento local.<\/p>\n<p> Grande parte do combust&iacute;vel iraquiano &eacute; controlada por empresas estrangeiras, contratadas pelos Estados Unidos no come&ccedil;o da guerra para administr&aacute;-lo. Os iraquianos acreditam que o combust&iacute;vel produzido no Iraque &eacute; exportado e que o dispon&iacute;vel no mercado local &eacute; importado do Kuwati e de outras na&ccedil;&otilde;es petrol&iacute;feras do Golfo. A escassez mudou drasticamente a vida di&aacute;ria no Iraque. Os ve&iacute;culos de Bagd&aacute; s&oacute; podem circular em determinados dias: os de placa par, em dias pares, e os de placa &iacute;mpar, em dias impar. Algumas fam&iacute;lias ricas possuem dois carros, com placas diferentes, para contarem com transporte todos os dias.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, os motoristas s&oacute; podem abastecer nos dias em que seus ve&iacute;culos podem circular, o que soma &agrave;s longas filas diante dos postos. &quot;Estava h&aacute; 13 horas na fila, desde a manh&atilde;, quando uma patrulha norte-americana me avisou que o toque de recolher estava para come&ccedil;ar. Assim, desperdicei todo o dia&quot;, disse o jornalista iraquiano Isham Rashid. A espera n&atilde;o s&oacute; &eacute; inc&ocirc;moda, como tamb&eacute;m perigosa. &quot;Um dia estava gravando em v&iacute;deo uma fila diante de um posto de gasolina. Omar, meu assistente, fazia fotografias. Nosso motorista, Hussein, nos disse, de repente, para escondermos as c&acirc;meras&quot;. <\/p>\n<p> &quot;Terminei de gravar e escondi o aparelho. Nesse momento irrompeu no lugar um tanque norte-americano, que passou t&atilde;o perto que quase pod&iacute;amos toc&aacute;-lo&quot;. As freq&uuml;entes patrulhas do ex&eacute;rcito dos Estados Unidos fora da cidade e nas estradas s&atilde;o para os iraquianos uma fonte de tens&atilde;o e ansiedade. &quot;Nas longas filas para comprar combust&iacute;vel tememos ser feridos por um carro-bomba ou nos vermos em meio a um tiroteio&quot;, disse Khullod, refugiado em Bagd&aacute;. As restri&ccedil;&otilde;es &agrave; circula&ccedil;&atilde;o e as longas filas tiveram um enorme impacto sobre o desemprego, pois os motoristas s&atilde;o alguns dos poucos iraquianos que ainda podem encontrar trabalho na capital.<\/p>\n<p> A classe m&eacute;dia, que perdeu seus anteriores privil&eacute;gios profissionais e as possibilidades de estudar, conseguiu transformar seus carros em uma ferramenta de trabalho. &quot;Sou taxista porque n&atilde;o pude continuar estudando, tudo est&aacute; muito dif&iacute;cil&quot;, disse Hussein, que tem pouco mais de 20 anos. O querosene, antes abundante a barato, agora &eacute; escasso e caro. Como se n&atilde;o bastasse, a infra-estrutura el&eacute;trica entrou em colapso com a invas&atilde;o. A falta de querosene obriga muitas fam&iacute;lias a ficarem sem eletricidade para aquecer suas casas no inverno. &quot;Quando chegamos a Bagd&aacute;, meu filho tinha nove dias de vida, e n&atilde;o t&iacute;nhamos nada para manter o calor. Tivemos de cobri-lo com um monte de mantas&quot;, disse Khulood.<\/p>\n<p> A escassez deu lugar a um grande mercado negro, que cada vez age mais abertamente na capital iraquiana. Em alguns lugares, &agrave; sombra dos edif&iacute;cios, homens com idades entre 20 e 40 anos, sentam-se em cadeiras improvisadas com os p&eacute;s sobre os recipientes com gasolina. Esse &eacute; o sinal para quem quer evitar as filas. Nas estradas e nos sub&uacute;rbios de Bagd&aacute;, &eacute; comum encontrar crian&ccedil;as com tanques, ao sol ou &agrave; sombra de um p&eacute; de t&acirc;maras. Os mais ambiciosos se arriscam a acenar para os ve&iacute;culos que passam mostrando garrafas de pl&aacute;stico cortadas que usam com funil.<\/p>\n<p> Uma vez, nosso autom&oacute;vel ficou sem combust&iacute;vel na estrada. Pedimos a um menino que enchesse o tanque do carro e pagamos uma nota de valor alto. A crian&ccedil;a teve de correr at&eacute; um posto nas proximidades para conseguir troco. Quando nos afast&aacute;vamos, vimos ele dirigir-se ao mesmo posto com o recipiente vazio, seguramente para ench&ecirc;-lo novamente. A escassez &eacute; apenas um de muitos problemas, mas se converteu em um s&iacute;mbolo do fracasso da ocupa&ccedil;&atilde;o. A economia n&atilde;o poder&aacute; se estabilizar at&eacute; que esteja solucionada a quest&atilde;o do petr&oacute;leo, e n&atilde;o haver&aacute; prosperidade se o lucro do setor continuar deixando o pa&iacute;s. <\/p>\n<p> A Constitui&ccedil;&atilde;o iraquiana n&atilde;o faz mais do que exacerbar os problemas, pois deu lugar &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o dos campos de petr&oacute;leo e &agrave; concess&atilde;o da enorme riqueza que existe no subsolo do pa&iacute;s a companhias multinacionais. Como conseq&uuml;&ecirc;ncia, os iraquianos continuam fazendo prolongadas filas para comprar uma gasolina escassa e cara. Enquanto esperamos enfileirados diante do posto, passa outro tanque norte-americano. Hussein diz, e n&atilde;o parece estar errado: &quot;Esta &eacute; a nova Constitui&ccedil;&atilde;o&quot;. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bagd&aacute;, 02\/12\/2005 &ndash; Antes da guerra, o combust&iacute;vel no Iraque era abundante, apesar das san&ccedil;&otilde;es da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas que limitavam o acesso da popula&ccedil;&atilde;o a muitos recursos. Depois da invas&atilde;o liderada pelos Estados Unidos em 2003, a escassez &eacute; evidente. No subsolo do Iraque fica a segunda reserva de petr&oacute;leo do mundo, mas os iraquianos s&atilde;o obrigados a esperar em filas insuportavelmente longas para comprar pequenas quantidades de gasolina ou querosene. Durante o regime de Saddam Hussein (1979-2003), o programa humanit&aacute;rio Petr&oacute;leo por Alimentos da ONU estabeleceu cotas para a produ&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera do pa&iacute;s, as quais costumavam ser ampliadas ilegalmente.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/america-latina\/energia-com-o-tanque-vazio-no-paraso-do-petrleo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1484,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1264","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1484"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1264\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}