{"id":1273,"date":"2005-12-05T00:00:00","date_gmt":"2005-12-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1273"},"modified":"2005-12-05T00:00:00","modified_gmt":"2005-12-05T00:00:00","slug":"cpula-do-comrcio-um-jogo-de-trapaceiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/mundo\/cpula-do-comrcio-um-jogo-de-trapaceiros\/","title":{"rendered":"C&uacute;pula do Com&eacute;rcio: Um jogo de trapaceiros"},"content":{"rendered":"<p>Madri, 05\/12\/2005 &ndash; &quot;O livre com&eacute;rcio n&atilde;o &eacute; um princ&iacute;pio, mas um recurso de conveni&ecirc;ncia&quot;, dizia h&aacute; 200 anos o primeiro-ministro brit&acirc;nico Benjamin Disraeli. <!--more--> Vendo o panorama das negocia&ccedil;&otilde;es que se desenvolve nestes dias na Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio, n&atilde;o se pode evitar de pensar at&eacute; que ponto ele estava certo. Em um recente artigo, o comiss&aacute;rio da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, Peter Mandelson, defende um com&eacute;rcio mundial baseado &quot;no justo exerc&iacute;cio das vantagens comparativas&quot;. Na realidade, a principal vantagem comparativa da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia e de outros pa&iacute;ses ricos consiste em sua capacidade para pregar uma coisa e praticar o contr&aacute;rio. O problema &eacute; simples: os pa&iacute;ses ricos oferecem pouco e exigem muito. Suas propostas est&atilde;o abaixo das expectativas criadas nos temas priorit&aacute;rios para os pa&iacute;ses pobres, desde a agricultura at&eacute; o acesso a medicamentos.            Na pr&aacute;tica, Estados Unidos e Uni&atilde;o Europ&eacute;ia reduzem as negocia&ccedil;&otilde;es a um jogo de trapa&ccedil;as, no qual as concess&otilde;es reais ser&atilde;o m&iacute;nimas, o que leva o processo a um beco sem sa&iacute;da. Em nenhum &acirc;mbito a frustra&ccedil;&atilde;o &eacute; maior do que na agricultura: com sua proposta, a Europa n&atilde;o reduzir&aacute; em um &uacute;nico euro o volume total de apoio a esse setor, que nos &uacute;ltimos anos chegou aos 70 bilh&otilde;es de euros ao ano. A explica&ccedil;&atilde;o &eacute; que os compromissos na OMC se fazem sobre o n&iacute;vel permitido de gasto, mas n&atilde;o sobre o que &eacute; realmente aplicado. Assim, a UE poderia gastar no passado at&eacute; 163 bilh&otilde;es de euros a cada ano e agora s&oacute; poder&aacute; gastar um m&aacute;ximo de 80 bilh&otilde;es de euros. Algo parecido se pode dizer dos Estados Unidos, cuja proposta implicaria uma redu&ccedil;&atilde;o de apenas 4% no conjunto de seus subs&iacute;dios agr&iacute;colas.<\/p>\n<p>A conseq&uuml;&ecirc;ncia &eacute; que os dois blocos econ&ocirc;micos mais ricos poder&atilde;o continuar no futuro com suas pol&iacute;ticas de exporta&ccedil;&otilde;es subvencionadas, que afundam os pre&ccedil;os internacionais, roubam mercados e acabam com o meio de vida de milh&otilde;es de pequenos produtores na &Aacute;frica, &Aacute;sia e Am&eacute;rica Latina. Tampouco se conseguir&aacute; concess&otilde;es importantes em mat&eacute;ria de acesso a mercados para os produtos agr&iacute;colas dos pa&iacute;ses pobres. Embora seja certo que a UE ofereceu uma redu&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia de 46% em suas tarifas alfandeg&aacute;rias, a proposta inclui uma categoria de produtos para os quais a liberaliza&ccedil;&atilde;o ser&aacute; marginal. Na pr&aacute;tica, essa via permitir&aacute; manter altos n&iacute;veis de prote&ccedil;&atilde;o em setores como do leite, a&ccedil;&uacute;car, frutas e vegetais, negando a pa&iacute;ses em desenvolvimento mais competitivos a possibilidade de gerar recursos que financiem escolas, hospitais e estradas.<\/p>\n<p>Em troca deste exerc&iacute;cio de contabilidade criativa dos pa&iacute;ses ricos s&atilde;o exigidas contrapartidas inaceit&aacute;veis. As demandas de liberaliza&ccedil;&atilde;o em mat&eacute;ria de produtos industriais e servi&ccedil;os sup&otilde;em uma grave amea&ccedil;a para muitas economias que se t&ecirc;m em jogo nestes setores dezenas de milh&otilde;es de empregos. Com suas propostas, a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia exige dos pa&iacute;ses pobres que fa&ccedil;am nesta rodada uma abertura de mercados que ela demorou 50 anos para realizar, e se coloca em risco a regulamenta&ccedil;&atilde;o do Estado em setores como educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de ou fornecimento de &aacute;gua pot&aacute;vel. Uma verdadeira Rodada de Desenvolvimento deveria abandonar estes objetivos e centrar-se em solucionar problemas como os enfrentados por Bangladesh, cujos produtos sofre uma tarifa alfandeg&aacute;ria 14 vezes maior do que a da Fran&ccedil;a na hora de ter acesso ao mercado norte-americano. <\/p>\n<p>Tampouco est&aacute; resolvido o conflito entre as regras de propriedade intelectual e o acesso a medicamentos essenciais. Embora suponha um passo &aacute; frente, o acordo alcan&ccedil;ado na OMC no final de 2002 deixa a porta aberta &agrave;s press&otilde;es das grandes empresas farmac&ecirc;uticas, cuja influ&ecirc;ncia sobre o governo norte-americano &eacute; um obst&aacute;culo &agrave; comercializa&ccedil;&atilde;o de rem&eacute;dios gen&eacute;ricos para tratar pandemias como a da aids. O verdadeiro problema do meio rural europeu n&atilde;o s&atilde;o as exporta&ccedil;&otilde;es dos pa&iacute;ses pobres, mas os interesses criados de um punhado de donos de terra e grandes companhias que gozam de uma desproporcional influ&ecirc;ncia. S&atilde;o os mesmos que evitam sistematicamente a introdu&ccedil;&atilde;o de medidas para garantir uma ajuda mais justa das ajudas. Somente na Espanha, os sete principais receptores de subs&iacute;dios agr&aacute;rios levam anualmente uma quantia equivalente &agrave; recebida pelos que exploram as 12.500 propriedades menores.<\/p>\n<p>N&atilde;o se trata de acabar com a prote&ccedil;&atilde;o &agrave; agricultura, mas de orient&aacute;-las para quem realmente delas necessita. Manter esta situa&ccedil;&atilde;o supor&aacute; o fracasso da pr&oacute;xima confer&ecirc;ncia da OMC em Hong Kong. Ser&aacute; um novo cravo no caix&atilde;o da Rodada do Desenvolvimento. Depois de quatro anos correndo para lugar nenhum, estas negocia&ccedil;&otilde;es n&atilde;o podem ficar por mais tempo nas m&atilde;os dos ministros de com&eacute;rcio. &Eacute; hora de os l&iacute;deres pol&iacute;ticos mostrarem o quanto antes sua lideran&ccedil;a (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Gonzalo Fanjul, coordenador de pesquisas de Interm&oacute;n Oxfam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, 05\/12\/2005 &ndash; &quot;O livre com&eacute;rcio n&atilde;o &eacute; um princ&iacute;pio, mas um recurso de conveni&ecirc;ncia&quot;, dizia h&aacute; 200 anos o primeiro-ministro brit&acirc;nico Benjamin Disraeli. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/mundo\/cpula-do-comrcio-um-jogo-de-trapaceiros\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,12,5,9,4],"tags":[],"class_list":["post-1273","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-desenvolvimento","category-economia","category-globalizacao","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1273"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}