{"id":1296,"date":"2005-12-12T00:00:00","date_gmt":"2005-12-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1296"},"modified":"2005-12-12T00:00:00","modified_gmt":"2005-12-12T00:00:00","slug":"especial-omc-fim-dos-subsidios-nao-significa-o-fim-da-pobreza-rural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/america-latina\/especial-omc-fim-dos-subsidios-nao-significa-o-fim-da-pobreza-rural\/","title":{"rendered":"Especial &#8211; OMC: Fim dos subs\u00eddios n\u00e3o significa o fim da pobreza rural"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 12\/12\/2005 &ndash; Os que se colocam contra os subs\u00eddios agr\u00edcolas das pot\u00eancias afirmam que sua elimina\u00e7\u00e3o vai melhorar a vida dos agricultores dos pa\u00edses em desenvolvimento. <!--more--> Por outro lado, camponeses, ativistas e pequenos produtores da Am\u00e9rica Latina suspeitam que os benef\u00edcios iriam para um punhado de grandes empresas. Os que aproveitariam uma eventual abertura de mercados na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia (UE) &quot;s\u00e3o as grandes empresas multinacionais que manejam o neg\u00f3cio do campo, que s\u00e3o poucas e produzem pouca variedade&quot;, disse \u00e0 IPS Pedro Pereti, um agricultor argentino da localidade de M\u00e1ximo Paz, na prov\u00edncia de Santa F\u00e9.            <\/p>\n<p>Pereti cultiva 230 hectares de milho, soja, trigo e um pouco de gado. \u00c9 secret\u00e1rio-adjunto da Coordenadora de Produtores Familiares do Mercosul (formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Seria &quot;um grave erro&quot; que os pa\u00edses desenvolvidos eliminassem os subs\u00eddios sem que as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento realizassem reforma agr\u00e1ria, afirmou. &quot;Sem uma reforma agr\u00e1ria n\u00e3o haver\u00e1 derrame autom\u00e1tico&quot;, acrescentou. &quot;O interior da Argentina vai se transformar em um deserto verde &#8211; pela extens\u00e3o de cultivos de soja, a planta\u00e7\u00e3o de destaque &#8211; e vai aumentar o \u00eaxodo rural. Da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina muitos ir\u00e3o para a Europa&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de ap\u00f3s mais de 50 anos de exist\u00eancia a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) ter convocado um congresso internacional sobre reforma agr\u00e1ria. &quot;Devemos discutir sobre a terra e a renda, porque n\u00e3o haver\u00e1 lugar para todos&quot;, alertou. A FAO e o governo brasileiro organiza\u00e7\u00e3o entre 7 e 10 de mar\u00e7o pr\u00f3ximo, em Porto Alegre, uma Confer\u00eancia Internacional sobre Reforma Agr\u00e1ria e Desenvolvimento Rural, que debater\u00e1 alternativas para um novo modelo agropecu\u00e1rio que respeite o meio ambiente e contribua para reduzir a pobreza e a fome.<\/p>\n<p>Segundo um documento da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal) divulgado em outubro, nos \u00faltimos anos o setor agr\u00edcola conseguiu crescimento superior a 3% ao ano, maior do que o aumento de toda a atividade econ\u00f4mica latino-americana. Entretanto, a maioria dos que trabalham na agricultura regional \u00e9 pobre. A Cepal atribui esse desequil\u00edbrio a um modelo de desenvolvimento &quot;fortemente concentrado em poucos produtos&quot;, todos eles &quot;vinculados a mercados externos&quot;, como frutas, carnes, caf\u00e9 ou soja. Este esquema poderia sair fortalecido se a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, os Estados Unidos e o Jap\u00e3o (respons\u00e1veis por 80% do protecionismo agr\u00edcola mundial) decidissem eliminar suas subven\u00e7\u00f5es, estimadas em US$ 250 bilh\u00f5es por ano.<\/p>\n<p>Para Alberto Broch, vice-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Trabalhadores da Agricultura (Contag) do Brasil, o fim dos subs\u00eddios seria &quot;positivo&quot; na medida em que permitisse eliminar distor\u00e7\u00f5es comerciais, sobretudo a baixa artificial de pre\u00e7os. Mas essa elimina\u00e7\u00e3o &quot;n\u00e3o \u00e9 suficiente&quot; para promover o desenvolvimento rural, afirmou. A Contag \u00e9 a maior central sindical de trabalhadores rurais sem terra e pequenos produtores do Brasil. &quot;A elimina\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios n\u00e3o substitui as pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais que incluem mais cr\u00e9dito e garantia de pre\u00e7os m\u00ednimos&quot;, explicou o sindicalista \u00e0 IPS. Neste sentido, deveriam ser adotadas medidas destinadas a apoiar os setores que as necessitam. &quot;H\u00e1 agriculturas distintas no Pa\u00eds&quot;, ressaltou.<\/p>\n<p>O diretor regional da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Action Aid Americas, Adriano Campolina, concorda com Broch. A elimina\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios que distorcem o com\u00e9rcio \u00e9 algo bom, mas os pa\u00edses em desenvolvimento &quot;devem ter direito de proteger sua agricultura com subs\u00eddios que permitem combater a fome a pobreza rural&quot;, destacou. Para que o fim do protecionismo rico tenha impacto positivo nas economias rurais menores do mundo deve haver pol\u00edticas que favore\u00e7am o desenvolvimento rural atrav\u00e9s da agricultura familiar e um maior controle sobre as corpora\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio, disse Campolina \u00e0 IPS. Do contr\u00e1rio &#8211; acrescentou &#8211; os benef\u00edcios do melhor acesso aos mercados do mundo rico &quot;ser\u00e3o a favor da Cargill e de outras multinacionais que dominam o neg\u00f3cio agropecu\u00e1rio&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, a ainda distante queda do muro que protege a agricultura das pot\u00eancias tampouco se espera com \u00e2nsia em \u00e1reas rurais. Miguel Pickard, do Centro de Pesquisas Econ\u00f4micas e Pol\u00edticas de A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria, disse \u00e0 IPS que eliminar os subs\u00eddios &quot;n\u00e3o soluciona os grandes problemas de desigualdade no com\u00e9rcio mundial&quot;. Se efetivamente os pa\u00edses industriais removerem as prote\u00e7\u00f5es ao setor, &quot;poder\u00e3o beneficiar alguns produtores de pa\u00edses em desenvolvimento, grandes e pequenos, que t\u00eam possibilidades de competir. Mas ser\u00e3o beneficiadas, sobretudo, as grandes empresas&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Eliminados os subs\u00eddios, os pa\u00edses industriais seguramente empreender\u00e3o uma estrat\u00e9gia de aquisi\u00e7\u00e3o de terras e da produ\u00e7\u00e3o em pa\u00edses em desenvolvimento, previu Pickard. Por isso, os governos da regi\u00e3o devem criar planos de longo prazo para os camponeses pobres. De fato, o fim do protecionismo agr\u00edcola ainda est\u00e1 distante. \u00c9 poss\u00edvel que a sexta confer\u00eancia ministerial da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, que acontecer\u00e1 em Hong Kong entre 13 e 18 deste m\u00eas, adie uma defini\u00e7\u00e3o sobre a quest\u00e3o agr\u00edcola para a \u00faltima etapa das conversa\u00e7\u00f5es, que devem concluir no final de 2006.<\/p>\n<p>O engenheiro agr\u00f4nomo argentino, Walter Pengue, estima que, &quot;se forem eliminados os subs\u00eddios em um contexto global de produ\u00e7\u00e3o como o atual, n\u00e3o se pode garantir uma melhora para os camponeses ou os pequenos produtores&quot;. Pengue, pesquisador do Grupo de Ecologia da Paisagem e Meio Ambiente da Universidade de Buenos Aires, afirma que aos camponeses das etnias quechuas ou aymaras, que est\u00e3o fora das regras do mercado global, &quot;caber\u00e1 muito pouco&quot; dos eventuais benef\u00edcios. Por outro lado, a liberaliza\u00e7\u00e3o pode ter impactos negativos, ressaltou. &quot;Pode gerar maior press\u00e3o sobre o meio ambiente, maior concentra\u00e7\u00e3o da terra e uma enorme migra\u00e7\u00e3o de camponeses para as cidades&quot;, alertou o especialista.<\/p>\n<p>O que seria verdadeiramente \u00fatil para os pequenos produtores seria &quot;fortalecer os mercados locais e regionais&quot;, por exemplo, com feiras pr\u00f3ximas \u00e0s suas propriedades onde os camponeses da Bol\u00edvia e do Paraguai vendem seus excedentes. &quot;Deve-se repensar o modelo de desenvolvimento rural&quot;, ressaltou. O mercado est\u00e1 &quot;t\u00e3o distorcido&quot; que um mel\u00e3o cultivado na Argentina pode ser vendido no Jap\u00e3o a um pre\u00e7o mais rent\u00e1vel do que no mercado local, apesar da dist\u00e2ncia, e h\u00e1 pa\u00edses, como os Estados Unidos, que n\u00e3o precisam ser produtores de um alimento para manejar seu com\u00e9rcio, acrescentou Pengue.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que os pre\u00e7os dos produtos agr\u00edcolas dos pa\u00edses em desenvolvimento sejam decididos nas capitais europ\u00e9ias ou nos Estados Unidos e que a viabilidade econ\u00f4mica de um pa\u00eds latino-americana dependa quase que completamente do valor que ter\u00e1 nesses mercados seu principal produto de exporta\u00e7\u00e3o. &quot;Esta economia n\u00e3o \u00e9 verdadeira, \u00e9 uma economia louca, distorcida, e temos de revis\u00e1-la completamente&quot;, ressaltou o especialista. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Com a colabora\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Osava (Brasil) e Diego Cevallos (M\u00e9xico).<\/p>\n<p> Cr\u00e9dito : &quot;Cena Andina&quot; &#8211; Hugo Esp\u00edritu Escobar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 12\/12\/2005 &ndash; Os que se colocam contra os subs\u00eddios agr\u00edcolas das pot\u00eancias afirmam que sua elimina\u00e7\u00e3o vai melhorar a vida dos agricultores dos pa\u00edses em desenvolvimento. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/america-latina\/especial-omc-fim-dos-subsidios-nao-significa-o-fim-da-pobreza-rural\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5,9],"tags":[21],"class_list":["post-1296","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","category-globalizacao","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1296"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1296\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}