{"id":1298,"date":"2005-12-13T00:00:00","date_gmt":"2005-12-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1298"},"modified":"2005-12-13T00:00:00","modified_gmt":"2005-12-13T00:00:00","slug":"bosnia-herzegovina-a-guerra-nao-fez-tantos-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/mundo\/bosnia-herzegovina-a-guerra-nao-fez-tantos-mortos\/","title":{"rendered":"B\u00f3snia-Herzegovina: A guerra n\u00e3o fez tantos mortos"},"content":{"rendered":"<p>Sarajevo, 13\/12\/2005 &ndash; O n\u00famero de mortos na guerra da B\u00f3snia-Herzegovina (1992-1995) foi muito menor do que se pensava, apesar de ter sido um custo humano atroz, afirma uma investiga\u00e7\u00e3o independente. <!--more--> O diretor do n\u00e3o-governamental Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o (CID), Mirsad Tokaca, disse \u00e0 imprensa b\u00f3snia que, segundo suas pesquisas, &quot;a quantidade de mortes est\u00e1 em torno de 93 mil e possivelmente chegue a 100 mil. De todo modo, continua sendo um n\u00famero extremamente alto, mas existe uma grande diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos 200 mil que s\u00e3o mencionados&quot;, acrescentou Tokaca. Antes de come\u00e7ar a guerra, a B\u00f3snia tinha 4,2 milh\u00f5es de habitantes. &quot;N\u00e3o se pode inflar de maneira irrespons\u00e1vel os n\u00fameros com finalidade pol\u00edtica&quot;, disse.            <\/p>\n<p>Tokaca espera concluir a pesquisa em mar\u00e7o pr\u00f3ximo, quando o CID publicar\u00e1 a quantidade exata de mu\u00e7ulmanos, s\u00e9rvios e croatas mortos no conflito. O informe, que conter\u00e1 dados sobre etnia, idade, g\u00eanero, proced\u00eancia regional e datas das mortes, estar\u00e1 dispon\u00edvel na Internet. &quot;At\u00e9 o momento, nossas pesquisas indicam que 70% das v\u00edtimas foram b\u00f3snios mu\u00e7ulmanos, 25% s\u00e9rvios e 55 croatas&quot;, disse Tokaca. O CID \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental com sede em Sarajevo financiada pelo governo da Noruega e criado em 2004 para determinar o n\u00famero exato de v\u00edtimas da guerra de independ\u00eancia da B\u00f3snia-Herzegovina, que fazia parte da extinta federa\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via.<\/p>\n<p>A equipe de pesquisadores \u00e9 formada por 12 especialistas de diferentes nacionalidades e etnias, e sua fun\u00e7\u00e3o e encontrar e examinar os arquivos militares e civis, bem como outros registros e fontes que encontrarem em territ\u00f3rio b\u00f3snio. A B\u00f3snia-Herzegovina costumava se descrever como &quot;um modelo de mistura multi\u00e9tnica &quot; na qual conviviam e casavam entre si mu\u00e7ulmanos, s\u00e9rvios e croatas. Depois de um pronunciamento popular a favor da independ\u00eancia em mar\u00e7o de 1992, estourou a guerra civil que fez, segundo se acreditava, mais de 200 mil v\u00edtimas, a maioria b\u00f3snia-mu\u00e7ulmanas. Esse conflito fez parte das guerras de secess\u00e3o dos anos 90 nos Balc\u00e3s, que acabaram com o que havia sido a Iugosl\u00e1via, formada at\u00e9 ent\u00e3o por Cro\u00e1cia, B\u00f3snia-Herzegovina e S\u00e9rvia e Montenegro.<\/p>\n<p>&quot;Na sociedade onde predominam divis\u00f5es ideol\u00f3gicas muito fortes, \u00e9 comum negar-se terminantemente os fatos ocorridos, ou, pelo contr\u00e1rio, inflar os n\u00fameros para mostrar qual parte sofreu mais&quot;, disse Tokaca. &quot;O car\u00e1ter terr\u00edvel e tr\u00e1gico da guerra na B\u00f3snia-Herzegovina n\u00e3o vai mudar absolutamente quando se conhecer os n\u00fameros reais&quot;, ressaltou, &quot;por isso n\u00e3o h\u00e1 nenhuma necessidade de fabricar mentiras e mitos sobre as v\u00edtimas&quot;, acrescentou. Uma das atrocidades pior documentadas \u00e9 a execu\u00e7\u00e3o de aproximadamente oito mil jovens e adultos mu\u00e7ulmanos em julho de 1995, quando uma mil\u00edcia s\u00e9rvio-b\u00f3snia irregular, apoiada por Belgrado, atacou a cidade de Srebrenica, sob prote\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Os b\u00f3snio-mu\u00e7ulmanos afirmam que foi o pior massacre na hist\u00f3ria da Europa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os s\u00e9rvios negam que esse massacre tenha ocorrido e dizem que se trata de uma hist\u00f3ria inventada pelos mu\u00e7ulmanos para prejudicar sua imagem. O Memorial de Potocari, nos arredores de Srebrenica, cont\u00e9m milhares de sepulturas que &#8211; afirma-se &#8211; s\u00e3o das v\u00edtimas desse massacre. Mas nenhum funcion\u00e1rio do governo b\u00f3snio est\u00e1 disposto a admitir publicamente que muitas das pessoas ali enterradas foram simplesmente v\u00edtimas da guerra. Alguns dos corpos pertencem, por exemplo, a b\u00f3snio-mu\u00e7ulmanos que morreram nos confrontos registrados nos arredores de Srebrenica no come\u00e7o de 1992. Seus restos foram encontrados depois da guerra e, uma vez identificados, foram enterrados junto \u00e0s v\u00edtimas do massacre de 1995.<\/p>\n<p>Durante o conflito, a comunidade internacional tendeu a tomar partido pelos b\u00f3snio- mu\u00e7ulmanos, especialmente quando os s\u00e9rvio-b\u00f3snios, apoiados desde Belgrado pelo regime s\u00e9rvio de Slobodan Milosevic, se lan\u00e7aram em uma campanha de exterm\u00ednio, ou limpeza \u00e9tnica. Em meados de 1995, os s\u00e9rvios haviam chegado a controlar 70% do territ\u00f3rio da atual B\u00f3snia-Herzegovina. As atrocidades contra os b\u00f3snio-mu\u00e7ulmanos tiveram uma ampla cobertura da imprensa internacional, mas tamb\u00e9m se utilizaram localmente com fins de propaganda. Nenhuma autoridade da B\u00f3snia-Herzegovina fez coment\u00e1rios sobre os novos n\u00fameros do CID.<\/p>\n<p>Vojin Dimitrijevic, professor de direito internacional de Belgrado, afirmou que &quot;era comum as diferentes partes em conflito da ex-Iugosl\u00e1via exagerarem nos n\u00fameros das v\u00edtimas&quot;. Dimitrijevic disse \u00e0 IPS que &quot;isto tinha por objetivo provar quem estava sofrendo mais e quem devia ser castigado como culpado por crimes extremos&quot;. A manipula\u00e7\u00e3o de n\u00fameros &quot;tamb\u00e9m visava a justificativa do direito de revanche pela parte mais sofrida. O que a hist\u00f3ria necessita \u00e9 de fatos. Os n\u00fameros n\u00e3o devem ser usados como pretexto para vingan\u00e7a, nem para demandas judiciais pelos danos sofridos, nem com fins de propaganda&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>A quantidade de 200 mil v\u00edtimas \u00e9 a base para a demanda do governo da B\u00f3snia-Herzegovina contra a atual S\u00e9rvia e Montenegro no Tribunal Internacional de Justi\u00e7a na cidade holandesa de Haia, cujas audi\u00eancias come\u00e7ar\u00e3o em fevereiro pr\u00f3ximo. &quot;O problema principal do abuso no manejo dos n\u00fameros \u00e9 porque desde o final da guerra n\u00e3o foi feito nenhum censo simult\u00e2neo coordenado por todas as na\u00e7\u00f5es envolvidas&quot;, disse \u00e0 IPS o diretor de Mercado Estrat\u00e9gico, Srdjan Bogosavljevic. &quot;Isto cria um terreno favor\u00e1vel \u00e0 especula\u00e7\u00e3o&quot;, ressaltou. O \u00faltimo censo na ex-Iugosl\u00e1via aconteceu em 1991, um ano antes do in\u00edcio do conflito, disse Bogosavljevic, que na \u00e9poca dirigia o Escrit\u00f3rio Federal de Estat\u00edsticas. Na S\u00e9rvia e na Cro\u00e1cia, os primeiros censos do p\u00f3s-guerra foram feitos em 2002, embora tivessem de acontecer em 2001. Nem B\u00f3snia-Herzegovina nem Kosovo (prov\u00edncia aut\u00f4noma onde mora a maioria dos albaneses mu\u00e7ulmanos) fizeram censos depois do fim das guerras dos Balc\u00e3s, em 1999. Natasa Kandic, diretora do Centro de Direito Humanit\u00e1rio de Belgrado, destacada institui\u00e7\u00e3o independente, acredita que as pesquisas em curso s\u00e3o de inestim\u00e1vel import\u00e2ncia. &quot;Enquanto n\u00e3o for estabelecido um n\u00famero fidedigno de v\u00edtimas, n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma possibilidade de os habitantes dessa regi\u00e3o poderem voltar a viver como bons vizinhos&quot;, disse \u00e0 IPS. &quot;Somente ent\u00e3o teremos tocado fundo e poderemos nos dispor a sair do po\u00e7o, porque, no final, compartilhamos a regi\u00e3o, bem como uma heran\u00e7a e um futuro comuns&quot;, concluiu. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sarajevo, 13\/12\/2005 &ndash; O n\u00famero de mortos na guerra da B\u00f3snia-Herzegovina (1992-1995) foi muito menor do que se pensava, apesar de ter sido um custo humano atroz, afirma uma investiga\u00e7\u00e3o independente. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/mundo\/bosnia-herzegovina-a-guerra-nao-fez-tantos-mortos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":208,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4,11],"tags":[],"class_list":["post-1298","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/208"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1298"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1298\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}