{"id":13177,"date":"2004-11-15T00:00:00","date_gmt":"2004-11-15T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=13177"},"modified":"2004-11-15T00:00:00","modified_gmt":"2004-11-15T00:00:00","slug":"venda-de-genes-indigenas-pela-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2004\/11\/ambiente\/venda-de-genes-indigenas-pela-internet\/","title":{"rendered":"Venda de genes ind\u00edgenas pela Internet"},"content":{"rendered":"<p>C\u00e9lulas vivas de membros das comunidades karitiana e suru\u00ed do Brasil s\u00e3o oferecidas a US$ 85 na Internet. O governo pediu que esse com\u00e9rcio \u201cilegal\u201d seja detido.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_13177\" style=\"width: 103px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/190_nov.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13177\" class=\"size-medium wp-image-13177\" title=\"Indigenous Karitiana women from the Brazilian Amazon state of Rondonia - Wellington Nunes\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/190_nov.jpg\" alt=\"Indigenous Karitiana women from the Brazilian Amazon state of Rondonia - Wellington Nunes\" width=\"93\" height=\"140\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13177\" class=\"wp-caption-text\">Indigenous Karitiana women from the Brazilian Amazon state of Rondonia - Wellington Nunes<\/p><\/div>  O governo brasileiro pediu \u00e0 Interpol que intervenha no que qualifica de venda ilegal de material gen\u00e9tico de seus povos ind\u00edgenas por parte de um centro de pesquisas norte-americano. C\u00e9lulas vivas de indiv\u00edduos das etnias brasileiras karitiana e suru\u00ed, e de outros grupos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Sul e Central, podem ser compradas por US$ 85, atrav\u00e9s do site http:\/\/coriell.umdnj.edu, direto do Dep\u00f3sito de C\u00e9lulas Coriell, uma divis\u00e3o do Instituto Coriell de Pesquisa M\u00e9dica. Esse instituto de estudos biom\u00e9dicos, independente e sem fins lucrativos, tem sede na cidade norte-americana de Camden e oferece o material com a inten\u00e7\u00e3o declarada de que seja usado apenas para pesquisa.<\/p>\n<p>M\u00e9rcio Pereira, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), pediu \u00e0 Pol\u00edcia Federal, no dia 1\u00ba de outubro, que o caso fosse investigado, e a embaixada brasileira nos Estados Unidos trabalha para que a oferta seja retirada do site da Coriell, segundo informou o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. No final dos anos 90, o mesmo tipo de material gen\u00e9tico foi colocado \u00e0 venda pela Coriell. A Funai amea\u00e7ou suspender todas as autoriza\u00e7\u00f5es de pesquisa m\u00e9dica com povos ind\u00edgenas, e representantes de comunidades nativas apresentaram queixa formal.<\/p>\n<p>Pat Mooney, da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Grupo de A\u00e7\u00e3o sobre Eros\u00e3o, Tecnologia e Concentra\u00e7\u00e3o, explicou ao Terram\u00e9rica que esse grupo se op\u00f5e, como outros da sociedade civil, a que as corpora\u00e7\u00f5es patenteiem plantas e animais em atos qualificados de \u201cbiopirataria\u201d. Neste caso, \u201cembora o DNA (\u00e1cido desoxirribonucleico, suporte da informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica) e os genes de povos ind\u00edgenas n\u00e3o sejam patenteados, a informa\u00e7\u00e3o obtida atrav\u00e9s de seu material gen\u00e9tico se transforma em drogas que podem ser patenteadas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O Dep\u00f3sito Coriell possui a maior cole\u00e7\u00e3o mundial de cultivos de c\u00e9lulas humanas, em quase um milh\u00e3o de recipientes. Essas c\u00e9lulas, obtidas de amostras de pele ou sangue, s\u00e3o conservadas vivas por tempo indefinido, em anima\u00e7\u00e3o suspensa a temperaturas extremamente baixas. O DNA obtido desses cultivos \u00e9 usado para pesquisas m\u00e9dicas que buscam novos tratamentos para c\u00e2ncer, Mal de Alzheimer, diabetes, S\u00edndrome de Down e doen\u00e7as card\u00edacas, entre outras, segundo o site da Coriell.<\/p>\n<p>Desde 1964, 120 mil amostras de c\u00e9lulas e cerca de cem mil amostras de DNA foram vendidas a cientistas de 55 pa\u00edses, em transa\u00e7\u00f5es autorizadas pela lei norte-americana. A maior parte do material do Dep\u00f3sito n\u00e3o foi coletada diretamente por pesquisadores da Coriell, mas por outros cientistas e institui\u00e7\u00f5es. O fundamental desta quest\u00e3o \u00e9 se as amostras dos karitiana e suru\u00ed foram obtidas com consentimento pleno dos interessados e do governo brasileiro, e se h\u00e1 garantias de distribui\u00e7\u00e3o eq\u00fcitativa de conhecimentos ou dinheiro gerados a partir delas. A Coriell n\u00e3o respondeu a v\u00e1rios pedidos de entrevista por parte do Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada s\u00e3o divulgadas informa\u00e7\u00f5es sobre coleta de sangue dos karitiana e dos suru\u00ed que terminaram em m\u00e3os de institui\u00e7\u00f5es ou empresas estrangeiras, sem que a Funai tenha autorizado a coleta de amostras, disse ao Terram\u00e9rica Raimundo Jos\u00e9 Lopes, chefe de gabinete da presid\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o, que preparou o pedido de investiga\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Em 2002, o m\u00e9dico brasileiro Hilton Pereira da Silva foi acusado na Justi\u00e7a Federal por ter coletado sem autoriza\u00e7\u00e3o sangue de ind\u00edgenas karitianas em 1996, no contexto de uma filmagem e com a desculpa de que o fazia para diagnosticar doen\u00e7as, disse ao Terram\u00e9rica Maria Cecilia Filipini, advogada em Rond\u00f4nia do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio. O processo contra esse m\u00e9dico, iniciado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, avan\u00e7a lentamente devido a dificuldades para interrogar Pereira da Silva, que atualmente parece residir nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A promotoria descobriu que ele mantinha rela\u00e7\u00f5es com a ind\u00fastria farmac\u00eautica estrangeira e suspeita que vendeu amostras de sangue de forma ilegal. &#8220;\u00c9 estranho\u201d\u201d um m\u00e9dico encabe\u00e7ar uma equipe de cineastas e levar uma equipe para coletar sangue, disse Filipini. N\u00e3o se sabe se esse sangue agora \u00e9 vendido pela Coriell, mas a promotoria s\u00f3 conseguiu recuperar 53 amostras de um total que, acredita-se, chegue a 160.<\/p>\n<p>A Funai procura impedir a coleta indevida de material gen\u00e9tico, atrav\u00e9s de crescentes controles e restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pesquisa em territ\u00f3rios ind\u00edgenas, das quais se queixam cientistas brasileiros. Qualquer pesquisa em reservas ind\u00edgenas requer autoriza\u00e7\u00e3o da Funai, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia) e outras institui\u00e7\u00f5es estatais. A Funai deve consultar o grupo ind\u00edgena para saber se aceita os pesquisadores, cujas atividades supervisiona, informou ao Terram\u00e9rica o coordenador de Estudos e Pesquisas desse organismo, Claudio Romero.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a tecnologia moderna permite que mostras de sangue da etnia yanomami, obtidas h\u00e1 40 anos no Brasil e na Venezuela, ainda sejam comercializadas, bem como as da etnia ticuna, do oeste brasileiro, coletadas em meados dos anos 70, escreveu Bruce Albert, diretor de pesquisas do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento, com sedes em S\u00e3o Paulo e Paris. As c\u00e9lulas dos ticuna foram usadas em uma pesquisa imunol\u00f3gica em grande escala, e uma das maiores multinacionais farmac\u00eauticas as usou para aprofundar seu conhecimento do sistema imunol\u00f3gico humano, disse Albert em um trabalho publicado pelo peri\u00f3dico eletr\u00f4nico Antropologia P\u00fablica: Id\u00e9ias Atraentes 2001.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas n\u00e3o devem ser usados como \u201cminas de genes\u201d, mas \u201ctratados como s\u00f3cios e plenamente respeitados\u201d, alega o especialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9lulas vivas de membros das comunidades karitiana e suru\u00ed do Brasil s\u00e3o oferecidas a US$ 85 na Internet. 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