{"id":1329,"date":"2005-12-22T00:00:00","date_gmt":"2005-12-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1329"},"modified":"2005-12-22T00:00:00","modified_gmt":"2005-12-22T00:00:00","slug":"eua-bolivia-dialogo-com-o-demonio-plantador-de-coca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/america-latina\/eua-bolivia-dialogo-com-o-demonio-plantador-de-coca\/","title":{"rendered":"EUA-Bol\u00edvia: Di\u00e1logo com o dem\u00f4nio plantador de coca"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 22\/12\/2005 &ndash; Depois de anos demonizando Evo Morales, o governo dos Estados Unidos deve decidir se mant\u00e9m um di\u00e1logo construtivo com o presidente eleito da Bol\u00edvia e l\u00edder dos plantadores de coca, os cocaleros. <!--more--> Especialistas em pol\u00edtica internacional e latino-americana consideram que Washington deve procurar forjar um bom v\u00ednculo com Morales, que demonstrou grande pragmatismo, inclusive em mat\u00e9ria de produ\u00e7\u00e3o de coca, principal insumo da coca\u00edna. Mas devido aos antecedentes do presidente George W. Bush, os observadores n\u00e3o acreditam que um di\u00e1logo desse tipo seja formalizado.            <\/p>\n<p>Um dos obst\u00e1culos \u00e9 a amizade de Morales com os que integram &#8211; segundo a ala direitista do governo norte-americano &#8211; &quot;a vers\u00e3o americana do eixo do mal&quot;: os presidentes Hugo Chaves, da Venezuela, e Fidel Castro, de Cuba. Esse temor \u00e9 especialmente agudo entre os falc\u00f5es do escrit\u00f3rio do vice-presidente, Dick Cheney, e da c\u00fapula civil do Departamento de Defesa. Neste ano o subsecret\u00e1rio-adjunto de Defesa para o Hemisf\u00e9rio Ocidental (Am\u00e9rica), Roger Pardo Maurer, advertiu que Fidel havia colocado a Bol\u00edvia como sua m\u00e1xima prioridade, depois da Venezuela.<\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o \u00e9, sob nenhum contexto, inevit\u00e1vel que a Bol\u00edvia se converta em um Estado marxista, radical, antinorte-americano, pr\u00f3-cubano e produtor de drogas&#8230; Mas os outros est\u00e3o trabalhando muito para que siga nessa dire\u00e7\u00e3o&quot;, afirmou Maurer. Pouco depois, o pr\u00f3prio secret\u00e1rio de Defesa, Donald Rumsfeld, afirmou, sem dar maiores detalhes, que Cuba e Venezuela &quot;est\u00e3o envolvidos improdutivamente na situa\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia&quot;. A percep\u00e7\u00e3o de Morales como pe\u00e3o de Castro e Ch\u00e1vez \u00e9 perigosa e coloca Estados Unidos e Bol\u00edvia em rota de colis\u00e3o, de acordo com analistas independentes.<\/p>\n<p>&quot;Temo que muita gente em Washington veja Morales muito mais alinhado com Castro e Ch\u00e1vez, como se fosse converter-se em um advers\u00e1rio e uma amea\u00e7a aos nossos interesses&quot;, afirmou Michael Shifter, especialista em assuntos andinos do centro de estudos Di\u00e1logo Interamericano. &quot;Isso provocar\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o de enfrentamento. E se os Estados Unidos cortarem toda a assist\u00eancia, ser\u00e1 uma profecia auto-cumprida&quot;, acrescentou. De fato, o embaixador norte-americano na Bol\u00edvia advertia em 2002 que Washington retiraria sua ajuda e seus investimentos se Morales fosse eleito presidente naquela oportunidade.<\/p>\n<p>Morales surgiu como l\u00edder dos cocaleros e perdeu as elei\u00e7\u00f5es de 2002 para o preferido do governo Bush, Gonzalo S\u00e1nchez de Lozada. Mas a amea\u00e7a de Washington elevou a figura de Morales, nessa \u00e9poca pouco conhecido. O dirigente cocalero ficou em segundo lugar e obrigou o Congresso boliviano a dar abertura para as elei\u00e7\u00f5es, pois Lozada n\u00e3o obteve maioria absoluta. O governo Bush foi mais discreto nessa ocasi\u00e3o. Na \u00faltima segunda-feira, o Departamento de Estado insistiu que &quot;respeitar\u00e1 a decis\u00e3o&quot; da popula\u00e7\u00e3o boliviana.<\/p>\n<p>Morales baseou sua campanha no fim do programa de erradica\u00e7\u00e3o de cultivos de coca financiado pelos Estados Unidos e do Consenso de Washington, esquema de ajuste econ\u00f4mico e de privatiza\u00e7\u00f5es proposto por t\u00e9cnicos e institui\u00e7\u00f5es multilaterais de cr\u00e9dito e adotado pela maioria dos governos latino-americanos na d\u00e9cada de 90. Estimativas extra-oficiais indicam que Morales obteve 51% dos votos, o ap\u00f3io mais s\u00f3lido obtido pelos presidentes bolivianos eleitos desde o fim da ditadura, h\u00e1 mais de 20 anos. A vota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima conseguida at\u00e9 ent\u00e3o por um candidato foi de 36%, em 1993, lembrou John Walsh, analista do Escrit\u00f3rio em Washington para a Am\u00e9rica Latina (WOLA).<\/p>\n<p>&quot;Evo Morales tem mais legitimidade democr\u00e1tica do que qualquer outro pol\u00edtico boliviano desde 1982, e o governo Bush e o Congresso norte-americano deveriam reconhec\u00ea-lo&quot;, afirmou Walsh. A &quot;guerra contra as drogas&quot; \u00e9 a prioridade dos Estados Unidos na Bol\u00edvia. E Morales se converteu em uma figura nacional, precisamente, por sua participa\u00e7\u00e3o no movimento dos plantadores de coca, e por isso foi considerado um inimigo de Washington por muito tempo. De fato, alguns funcion\u00e1rios norte-americanos chegaram a qualific\u00e1-lo de narcotraficante e afirmaram que os cart\u00e9is da droga haviam financiado suas campanhas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Mas como em outras \u00e1reas-chave, Morales demonstrou seu pragmatismo, em particular ao distinguir entre a coca cultivada com prop\u00f3sitos tradicionais e a que \u00e9 processada para a produ\u00e7\u00e3o de coca\u00edna, afirmou Walsh. &quot;Se disse sim \u00e0 coca tradicional e n\u00e3o ao tr\u00e1fico de coca\u00edna, devemos lev\u00e1-lo a s\u00e9rio e nos comprometermos com ele&quot;, acrescentou. &quot;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que tem o mandato &#8211; e um mandato forte &#8211; para dar \u00e0 pol\u00edtica sobre drogas um rumo diferente daquele que os Estados Unidos sempre impuseram \u00e0 Bol\u00edvia&quot;, ressaltou. Entretanto, Washington deve &quot;reexaminar essa pol\u00edtica&quot; e perceber o &quot;ressentimento&quot; que sua gest\u00e3o na mat\u00e9ria despertou nesse pa\u00eds latino-americano&quot;, prosseguiu Walsh.<\/p>\n<p>Em alguns setores do governo de Washington hoje se aceita que os pequenos agricultores do Chapare, a regi\u00e3o do centro da Bol\u00edvia onde se cultiva mais coca, devem ficar fora do programa de erradica\u00e7\u00e3o, disse o especialista. &quot;Isto sugere uma posi\u00e7\u00e3o mais pragm\u00e1tica&quot; inclusive dentro dos Estados Unidos, segundo Walsh. A recente substitui\u00e7\u00e3o de Roger Noriega como principal funcion\u00e1rio do Departamento de Estado para a Am\u00e9rica Latina pelo diplomata de carreira Thomas Shannon \u00e9 um sinal desse pragmatismo, afirmou. &quot;N\u00e3o me surpreenderia ver que tentaram um enfoque mais criativo no v\u00ednculo com Morales&quot;, acrescentou. Por\u00e9m, tal flexibilidade poderia chocar-se com funcion\u00e1rios do Pent\u00e1gono, como Pardo Maurer, e os &quot;falc\u00f5es antidroga&quot; do Congresso, cujo enfoque, ao que parece, \u00e9 muito mais r\u00edgido.<\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o percebi nenhum sinal de vontade de tolerar as posi\u00e7\u00f5es de Morales. A erradica\u00e7\u00e3o dos cultivos de coca \u00e9 um elemento central da pol\u00edtica norte-americana em mat\u00e9ria de drogas&quot;, disse Shifter. &quot;As paix\u00f5es a respeito s\u00e3o vivas, especialmente no Congresso&quot;. Se Washington mostrar flexibilidade, pode desatar um efeito domin\u00f3 no resto da regi\u00e3o andina, segundo Vinay Jawahar, tamb\u00e9m especialista do Di\u00e1logo Interamericano. &quot;Na medida em que come\u00e7arem a se negociar as alternativas para a erradica\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia, o resto da agenda sobre drogas come\u00e7ar\u00e1 a precipitar-se, porque Col\u00f4mbia e Peru ir\u00e3o querer o mesmo tratamento&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Com parte de seu programa antidrogas, os Estados Unidos fornecem \u00e0 Bol\u00edvia quase US$ 100 milh\u00f5es por ano em ajuda militar e US$ 50 milh\u00f5es em assist\u00eancia econ\u00f4mica, disse Adam Isacson, do Centro para a Pol\u00edtica Internacional. Gra\u00e7as a essa contribui\u00e7\u00e3o, os cultivos de coca ca\u00edram de 70 mil hectares, no final dos anos 80, para 30 mil, no final da d\u00e9cada de 90. Se a plataforma de Morales se traduzir em medidas governamentais, os cultivos poder\u00e3o duplicar, segundo Isacson. Morales tamb\u00e9m poderia aspirar a redu\u00e7\u00e3o do componente militar da ajuda, o que despertaria resist\u00eancias nas for\u00e7as armadas bolivianas, um basti\u00e3o da elite de origem europ\u00e9ia cujo dom\u00ednio de dois s\u00e9culos fica questionado com a vit\u00f3ria de um presidente ind\u00edgena, afirmou o especialista.<\/p>\n<p>Essa mesma resist\u00eancia e a longa hist\u00f3ria de golpes de Estado na Bol\u00edvia, alguns com apoio norte-americano, poderiam persuadir Morales a atuar com cautela, segundo Isacson. O presidente eleito da Bol\u00edvia suavizou sua ret\u00f3rica em mat\u00e9ria de investimento estrangeiro e com\u00e9rcio ao longo de sua campanha, e tamb\u00e9m manter\u00e1 a cautela, segundo Shifter. Nisso influi a elevada pobreza e os crescentes v\u00ednculos econ\u00f4micos com Brasil e Argentina. &quot;Isto abre a possibilidade de algum acordo com os Estados Unidos. Morales seguir\u00e1 seu curso, e dizer que ideologicamente est\u00e1 no mesmo campo de Castro e Ch\u00e1vez nos d\u00e1 poucas pistas sobre o modo como governar\u00e1&quot;, acrescentou. &quot;Isto n\u00e3o \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana nem o lucro inesperado com petr\u00f3leo de Ch\u00e1vez. Morales necessita de recursos para atender as expectativas de uma popula\u00e7\u00e3o muito pobre e inquieta. A sensibilidade do governo e do Congresso dos Estados Unidos \u00e9 outra quest\u00e3o&quot;, concluiu Shifter. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 22\/12\/2005 &ndash; Depois de anos demonizando Evo Morales, o governo dos Estados Unidos deve decidir se mant\u00e9m um di\u00e1logo construtivo com o presidente eleito da Bol\u00edvia e l\u00edder dos plantadores de coca, os cocaleros. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/12\/america-latina\/eua-bolivia-dialogo-com-o-demonio-plantador-de-coca\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":104,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12],"tags":[],"class_list":["post-1329","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1329"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1329\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}