{"id":13324,"date":"2004-07-12T00:00:00","date_gmt":"2004-07-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=13324"},"modified":"2004-07-12T00:00:00","modified_gmt":"2004-07-12T00:00:00","slug":"nota-ruim-em-desenvolvimento-de-tecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2004\/07\/ambiente\/nota-ruim-em-desenvolvimento-de-tecnologia\/","title":{"rendered":"Nota ruim em desenvolvimento de tecnologia"},"content":{"rendered":"<p>O futuro da Am\u00e9rica Latina \u00e9 sombrio se a regi\u00e3o n\u00e3o aumentar seu investimento no desenvolvimento de ci\u00eancia e tecnologia, setores aos quais s\u00e3o destinados apenas 0,5% de seu PIB.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_13324\" style=\"width: 170px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/210_181_ilus4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13324\" class=\"size-medium wp-image-13324\" title=\" - Fabricio Van Den Broeck.\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/210_181_ilus4.jpg\" alt=\" - Fabricio Van Den Broeck.\" width=\"160\" height=\"101\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13324\" class=\"wp-caption-text\"> - Fabricio Van Den Broeck.<\/p><\/div>  O captopril \u00e9 um medicamento contra a hipertens\u00e3o que rende milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais \u00e0 ind\u00fastria farmac\u00eautica. Sua patente pertence ao laborat\u00f3rio multinacional Bristol-Myers Squib, mas foi o m\u00e9dico brasileiro Mauricio Rocha e Silva que, em 1948, identificou sua subst\u00e2ncia b\u00e1sica, a bradicinina, a partir de estudos do veneno da cobra Bothrops jararaca. Pesquisadores da Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico descobriram na saliva do morcego vampiro um princ\u00edpio ativo anticoagulante melhor do que os existentes no mercado. O grupo alem\u00e3o Shering, que apoiou a pesquisa, fez-se dono da descoberta e a vendeu a empresas japonesas, sem pagar nada \u00e0 Universidade.<\/p>\n<p>Entre os pesquisadores \u201cfalta uma cultura de prote\u00e7\u00e3o da propriedade intelectual, de registrar patentes\u201d, disse ao Terram\u00e9rica Carlos Vogt, presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), uma das principais institui\u00e7\u00f5es brasileiras financiadoras de ci\u00eancia e tecnologia. \u00c9 necess\u00e1rio superar esse \u201cbloqueio cultural\u201d, que se manifesta inclusive quando s\u00e3o desenvolvidos produtos para o mercado, afirmou, por sua vez, Eugenius Kaszkurewicz, assessor do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia.<\/p>\n<p>Alberto Santos Dumont, considerado o inventor do avi\u00e3o, n\u00e3o patenteou suas inven\u00e7\u00f5es, ao contr\u00e1rio de seus rivais norte-americanos, os irm\u00e3os Wright. Entretanto, a baixa quantidade de inova\u00e7\u00f5es reconhecidamente latino-americanas se deve principalmente a outras insufici\u00eancias. Os dados s\u00e3o desanimadores e parecem desenhar um futuro sombrio para a regi\u00e3o: baixos investimentos, escassez de cientistas agravada pela \u201cfuga de c\u00e9rebros\u201d, quantidades irris\u00f3rias de patentes nacionais e descuido na prote\u00e7\u00e3o de tecnologia local.<\/p>\n<p>O atraso regional resulta dram\u00e1tico porque o conhecimento \u00e9 o capital decisivo na nova economia, segundo especialistas. A regi\u00e3o dedica apenas 0,5% de seu produto interno bruto (PIB) \u00e0 pesquisa e desenvolvimento, contra 2,5% a 3% na Cor\u00e9ia do Sul, Estados Unidos e Jap\u00e3o, uma brecha que se reflete na produtividade e cuja supera\u00e7\u00e3o exige politicas p\u00fablicas que fomentem capacidades de inova\u00e7\u00e3o, de acordo com a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal).<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o latino-americana nessa \u00e1rea prov\u00e9m principalmente do setor p\u00fablico, enquanto nos pa\u00edses industrializados as empresas privadas s\u00e3o a maior fonte de financiamento. No Chile, a contribui\u00e7\u00e3o estatal \u00e9 de 65% do total, o setor privado fica com 20% e o investimento estrangeiro com 15%, segundo a Comiss\u00e3o Nacional de Pesquisa Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica desse pa\u00eds. As dificuldades financeiras dos Estados agravam a situa\u00e7\u00e3o. O Brasil, que destinava 1% de seu PIB \u00e0 pesquisa e ao desenvolvimento em 2000, quer dobrar essa porcentagem at\u00e9 2006, enquanto o M\u00e9xico deseja chegar a 1%, saindo de seu atual 0,43%. Na Venezuela, o investimento nos \u00faltimos anos foi de 0,14% do PIB.<\/p>\n<p>No Brasil, foram apresentados, no ano passado, 24.753 pedidos de patentes, o dobro do registrado em 1990, e 40% das solicita\u00e7\u00f5es corresponderam a residentes no pa\u00eds. No M\u00e9xico, houve 12.207 pedidos, e apenas 468 foram feitos por mexicanos. O grande obst\u00e1culo a um maior desenvolvimento tecnol\u00f3gico regional \u00e9 \u201co modelo econ\u00f4mico sustentado na venda de mat\u00e9ria-prima e servi\u00e7os de m\u00e3o-de-obra barata, ao contr\u00e1rio do modelo oriental caracterizado pela absor\u00e7\u00e3o ativa de tecnologia\u201d, afirmou ao Terram\u00e9rica Gustavo Biniegra-Gonz\u00e1lez, professor da Universidade Aut\u00f4noma Metropolitana do M\u00e9xico. Por esse caminho, a Am\u00e9rica Latina \u201cn\u00e3o tem futuro\u201d, ressaltou. O governo mexicano \u201cn\u00e3o sabe fazer\u201d, pois \u201ca emerg\u00eancia da China e de outros pa\u00edses asi\u00e1ticos como montadores com m\u00e3o-de-obra barata e capaz de assimilar a tecnologia avan\u00e7ada\u201d superou sua aposta nesse campo.<\/p>\n<p>O especialista prev\u00ea um \u201cdesastre de propor\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel\u201d se o M\u00e9xico n\u00e3o aumentar os investimentos em ci\u00eancia e tecnologia, cuja importa\u00e7\u00e3o atual custa ao pa\u00eds \u201cmais de tr\u00eas, talvez at\u00e9 5%\u201d do PIB. N\u00e3o existe estrat\u00e9gia para substituir o petr\u00f3leo, que pode acabar \u201cem 20 anos\u201d, nem para empregar 20 milh\u00f5es de camponeses \u201cque ficaram obsoletos pela importa\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de milho dos Estados Unidos\u201d, e pagar pens\u00f5es a uma popula\u00e7\u00e3o que envelhece e exige um crescimento econ\u00f4mico de, pelo menos, 7% ao ano, acrescentou.<\/p>\n<p>Cuba, com um n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o similar ao de pa\u00edses industrializados, disp\u00f5e de 559 trabalhadores em pesquisa e desenvolvimento para cada cem mil habitantes, mais que o triplo do Brasil e 2,5 vezes mais do que o \u00edndice mexicano. \u201cA exist\u00eancia do conhecimento por si s\u00f3 n\u00e3o garante, de modo algum, o \u00eaxito nos resultados\u201d, advertiu um economista cubano que pediu para n\u00e3o ser identificado. Muitos inconvenientes impedem \u201cque se converta o conhecimento em riquezas para a sociedade\u201d, tais com como insuficiente articula\u00e7\u00e3o entre este e o aparelho produtivo, escassez de capital para pesquisas, falta de prote\u00e7\u00e3o intelectual e aus\u00eancia de uma estrat\u00e9gia integral, explicou o especialista.<\/p>\n<p>Os recursos humanos escasseiam em outros pa\u00edses. \u201cNa Venezuela, contamos com 5.668 pesquisadores registrados, mas ainda temos um d\u00e9ficit de 12 mil\u201d, admitiu Rub\u00e9n Reinoso, diretor de forma\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia. No M\u00e9xico, s\u00f3 existe um pesquisador em desenvolvimento tecnol\u00f3gico para cada dez mil habitantes, contra 20 na Alemanha e 42 nos Estados Unidos, segundo dados oficiais. Dos cem mil cientistas que receberam bolsas para pesquisa nos \u00faltimos 30 anos, 6% ficaram fora do pa\u00eds. Dos 1.500 cientistas chilenos dedicados \u00e0 pesquisa em 2000, um ter\u00e7o estava no exterior.<\/p>\n<p>Em contrapartida, Vogt e Kaszkurewicz destacam que no Brasil j\u00e1 houve pelo menos \u201ctr\u00eas hist\u00f3rias de sucesso\u201d: o agroneg\u00f3cio impulsionado por conhecimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa), os avi\u00f5es da Empresa Brasileira de Aeron\u00e1utica (Embraer) e a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em \u00e1guas profundas pela Petrobr\u00e1s. Al\u00e9m disso, grandes investimentos no desenvolvimento de software permitiram ao Brasil chegar a um n\u00edvel semelhante ao da \u00cdndia e China nessa \u00e1rea, por\u00e9m, mais voltado ao mercado interno, ao contr\u00e1rio da \u00cdndia, ressaltou Vogt. Os dois especialistas v\u00eaem \u201cboas perspectivas\u201d para o futuro, depois de estabelecidas as bases de uma ampla estrat\u00e9gia governamental, incluindo fundos para desenvolvimento tecnol\u00f3gico em 14 setores, uma nova lei de inova\u00e7\u00f5es e uma pol\u00edtica industrial que estimular\u00e1 investimentos empresariais em tecnologia.<\/p>\n<p>A fuga de c\u00e9rebros do Brasil \u00e9 menor do que a de pa\u00edses em desenvolvimento, mas se acentuar\u00e1 se a crescente forma\u00e7\u00e3o de especialistas n\u00e3o estiver acompanhada de uma amplia\u00e7\u00e3o de seu mercado de trabalho. As universidades estatais, as que mais empregam pesquisadores, ter\u00e3o de ganhar autonomia e se organizarem para produzir inova\u00e7\u00f5es, enquanto as empresas dever\u00e3o \u201cter a ousadia de multiplicar seus investimentos em tecnologia\u201d, sentenciou Vogt. Atualmente, as empresas empregam apenas 11% dos cientistas brasileiros, e o distanciamento entre elas e as universidades limita o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e o n\u00famero de patentes no pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futuro da Am\u00e9rica Latina \u00e9 sombrio se a regi\u00e3o n\u00e3o aumentar seu investimento no desenvolvimento de ci\u00eancia e tecnologia, setores aos quais s\u00e3o destinados apenas 0,5% de seu PIB.<\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,12,978],"tags":[],"class_list":["post-13324","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-desenvolvimento","category-terramerica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13324"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13324\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}