{"id":13332,"date":"2004-08-09T00:00:00","date_gmt":"2004-08-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=13332"},"modified":"2004-08-09T00:00:00","modified_gmt":"2004-08-09T00:00:00","slug":"deserto-ronda-ex-reserva-em-salta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2004\/08\/ambiente\/deserto-ronda-ex-reserva-em-salta\/","title":{"rendered":"Deserto ronda ex-reserva em Salta"},"content":{"rendered":"<p>P\u00e1s mec\u00e2nicas amea\u00e7am General Pizarro, uma \u00e1rea protegida vendida a particulares no norte da Argentina. O h\u00e1bitat de valiosas esp\u00e9cies est\u00e1 em risco.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_13332\" style=\"width: 117px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/211_185_coati.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13332\" class=\"size-medium wp-image-13332\" title=\"El coat\u00ed (Nasua narica), uno de los habitantes del bosque nativo de Salta. - Claudio Contreras\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/211_185_coati.jpg\" alt=\"El coat\u00ed (Nasua narica), uno de los habitantes del bosque nativo de Salta. - Claudio Contreras\" width=\"107\" height=\"160\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13332\" class=\"wp-caption-text\">El coat\u00ed (Nasua narica), uno de los habitantes del bosque nativo de Salta. - Claudio Contreras<\/p><\/div>  Tensionadas, as p\u00e1s mec\u00e2nicas amea\u00e7am a floresta nativa na prov\u00edncia de Salta, norte da Argentina, h\u00e1bitat de muitas esp\u00e9cies e lar de camponeses e ind\u00edgenas. As m\u00e1quinas levantam o solo como um tapete, e tudo \u00e9 queimado para converter a selva em terra de cultivo. \u201cN\u00e3o temos mais animais\u201d, disse ao Terram\u00e9rica Donato, da etnia ind\u00edgena wichi eben ezer, membro de uma das 25 fam\u00edlias que habitam a ex-reserva natural de General Pizarro. A \u00e1rea de 25 mil hectares, no departamento de Anta, perdeu o car\u00e1ter de reserva este ano, quando o governo decidiu incorpor\u00e1-la a atividades agr\u00edcolas e a colocou em leil\u00e3o pela melhor oferta p\u00fablica.<\/p>\n<p>A reserva foi criada em 1995 para proteger esp\u00e9cies de \u00e1rvores como o quebracho branco (Aspidosperma quebracho-blanco), o quebracho colorido (Schinopsis quebracho-colorado), a erva-santa (Aloysia gratissima) e a aroeira (Astronium urundeuva). Entre as esp\u00e9cies animais vulner\u00e1veis da regi\u00e3o est\u00e3o o papagaio verdadeiro (Amazona aestiva), duas variedades de tatus, o tatu canastra (Priodontes maximus) e o tatu bola (Tolypeutes mataco), o jaguar ou on\u00e7a-pintada (Panthera onca), o macaco prego (Cebus apella), o tamandu\u00e1-mirim (Tamandu\u00e1 tetradactyla) e a capivara (Hydrochaeris hydrochaeris), o maior roedor da Am\u00e9rica do Sul. Agora, essas esp\u00e9cies voltam a estar em perigo por causa dos tratores e das p\u00e1s mec\u00e2nicas, que arrasam o monte vizinho \u00e0 reserva e se aproximam de seu n\u00facleo.<\/p>\n<p>Noemi Cruz, da Administra\u00e7\u00e3o de Parques Nacionais de Salta, disse ao Terram\u00e9rica que as m\u00e1quinas j\u00e1 entraram na reserva. O desmatamento no que j\u00e1 foi \u00e1rea protegida est\u00e1 momentaneamente suspenso gra\u00e7as a recursos de amparo interpostos contra a venda das terras. As opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem come\u00e7ar enquanto os tribunais n\u00e3o derem uma senten\u00e7a. \u201cAs empresas (que compraram as terras) se eximem alegando que foi um erro dos trabalhadores\u201d, disse Cruz, preocupada porque a Administra\u00e7\u00e3o de Parques n\u00e3o d\u00e1 apoio \u00e0s a\u00e7\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o ecologista Greenpeace Argentina. Nas \u00faltimas semanas, ativistas dessa ong, em motocicletas e usando fantasias de jaguar, impediram o trabalho das m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>\u201cQuando nos viam, os que dirigiam as m\u00e1quinas baixavam as p\u00e1s e nos pediam informa\u00e7\u00e3o\u201d, disse ao Terram\u00e9rica Emiliano Ezcurra, da campanha da biodiversidade da organiza\u00e7\u00e3o. Esses condutores sabem melhor do que ningu\u00e9m o preju\u00edzo que causam. A p\u00e1 levanta o solo e amontoa tudo o que arranca em um canto. Ent\u00e3o, o trabalhador coloca fogo no mato e peda\u00e7os de \u00e1rvores e observa como os animais fogem, \u00e0s vezes em chamas. Alguns, desorientados durante a fuga, chocam-se contra os tratores.<\/p>\n<p>Dentro da reserva fica a aldeia de Pizarro, de tr\u00eas mil habitantes. Al\u00e9m da minoria wichi, ca\u00e7adora e coletora, o restante da comunidade est\u00e1 formada por camponeses que vivem em harmonia com a floresta. Para subsistirem criam gado, recolhem mel e cultivam a terra. Os habitantes dos terrenos os ocuparam por tanto tempo que j\u00e1 n\u00e3o lembram desde quando. Casimira G\u00f3mez tem 76 anos. Usa um galho como se fosse muleta para se defender das iguanas e compensar a for\u00e7a que perdeu em uma fratura de bacia nunca operada. Seus pais viveram ali, no mesmo campo onde ela subsiste com uma casinha e seu gado. \u201cN\u00e3o quero partir. Se me levarem para um povoado, o que vou criar l\u00e1?\u201d, pergunta. \u201cA gente n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa nos povoados\u201d, disse. Moradores como Casimira s\u00e3o \u201cintrusos\u201d, segundo a Justi\u00e7a Federal, que dever\u00e1 examinar os recursos de amparo apresentados por organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas, advogados das comunidades e acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>O governo de Salta argumenta que a reserva \u201cest\u00e1 degradada\u201d e que utilizar\u00e1 os recursos da venda para melhorar estradas. Os legisladores provinciais aprovaram a medida e em junho come\u00e7ou o leil\u00e3o. As terras foram divididas em lotes de dois mil hectares, e foram reservados outros dois mil para os \u201cintrusos\u201d. As autoridades \u201cjamais puseram um guarda florestal, que v\u00eam apenas uma vez por ano e andam pelos caminhos sem entrar no monte. Se tentasse fazer isso, veriam que n\u00e3o pode haver degrada\u00e7\u00e3o em zonas onde o acesso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, disse ao Terram\u00e9rica Carlos Ord\u00f3\u00f1ez, morador de Pizarro.<\/p>\n<p>Sandra Caziani, bi\u00f3loga e professora de Agroecologia da Universidade Nacional de Salta, considera \u201cinadmiss\u00edvel\u201d a op\u00e7\u00e3o do governo. \u201cEm toda \u00e1rea protegida h\u00e1 um n\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o\u201d, e a responsabilidade por essa neglig\u00eancia \u00e9 das pr\u00f3prias autoridades, disse ao Terram\u00e9rica. O maior custo da venda de terras se ver\u00e1 quando passar o auge da soja, o cultivo mais lucrativo na Argentina, que impulsiona o avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola, afirmou a especialista. Nos meses secos, a temperatura passa dos 50 graus em Salta. \u201cImagine o que acontecer\u00e1 sem o monte. Isso vai ser um deserto\u201d, afirmou a bi\u00f3loga, integrante do Conselho Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 r\u00e9plicas\u201d desse h\u00e1bitat, conhecido como Chaco serrano, com suave declive que permite o cultivo. \u201c\u00c9 uma \u00e1rea de refer\u00eancia para zonas de monte dedicadas \u00e0 agricultura.\u201d, ressaltou Caziani. A bi\u00f3loga e uma d\u00fazia de acad\u00eamicos enviaram, sem \u00eaxito, \u00e0s autoridades uma carta explicando porque a reserva n\u00e3o deveria ser vendida. \u201cO maior valor da \u00e1rea \u00e9 que representa um ecossistema que desaparecer\u00e1 completamente, substitu\u00eddo por planta\u00e7\u00f5es\u201d, argumentam. Nessas circunst\u00e2ncias, Caziani desejaria que fosse real uma divindade local, a \u201cm\u00e3e do monte\u201d, que segundo a tradi\u00e7\u00e3o atrai os que o amea\u00e7am e os \u201cperde\u201d no cora\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00e1s mec\u00e2nicas amea\u00e7am General Pizarro, uma \u00e1rea protegida vendida a particulares no norte da Argentina. 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