{"id":1408,"date":"2006-01-23T00:00:00","date_gmt":"2006-01-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1408"},"modified":"2006-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2006-01-23T00:00:00","slug":"artigo-o-negocio-da-coca-legal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/01\/america-latina\/artigo-o-negocio-da-coca-legal\/","title":{"rendered":"Artigo: O neg\u00f3cio da coca legal"},"content":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 23\/01\/2006 &ndash; Microempres\u00e1rios da Bol\u00edvia, Peru e Col\u00f4mbia, que usam a m\u00edtica folha de coca para fabricar rem\u00e9dios, refrigerantes, sab\u00e3o, chicletes e outros produtos, depositam suas esperan\u00e7as de neg\u00f3cio em um homem: Evo Morales. <!--more--> Estes pequenos empreendedores do ainda incipiente e artesanal mercado legal da coca, satanizada por ser mat\u00e9ria-prima da coca\u00edna, por anos se resignaram em vender seus produtos somente no mercado local. Agora, est\u00e3o empenhados em conseguir export\u00e1-los e levantar um pouco a abatida economia camponesa andina, caso prospere o controvertido projeto de despenaliza\u00e7\u00e3o internacional da coca de Evo Morales, ind\u00edgena aymara de 46 anos que assume a presid\u00eancia da Bol\u00edvia no dia 22 de janeiro.<\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o l\u00edcita da coca parece uma aposta arriscada, dadas as tend\u00eancias atuais nos empobrecidos Andes: cai o consumo tradicional da planta nas novas gera\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e aumenta seu cultivo ilegal. Por\u00e9m, entre os pequenos produtores persiste o otimismo. &quot;Devemos convencer o mundo de que a coca n\u00e3o \u00e9 coca\u00edna e com Morales vamos conseguir isso&quot;, disse ao Terram\u00e9rica David Curtidor, membro da reserva ind\u00edgena nasa, do sul da Col\u00f4mbia, que fabrica Coca Sek, um refrigerante amarelo e adocicado cuja f\u00f3rmula inclui os alcal\u00f3ides da folha de coca.<\/p>\n<p>&quot;Nosso refrigerante n\u00e3o \u00e9 uma droga, \u00e9 ligeiramente estimulante como um caf\u00e9, mas \u00e9 muito mais saud\u00e1vel, por causa dos minerais e vitaminas que a coca cont\u00e9m&quot;, explicou Curtidor, por telefone, do remoto povoado de Inz\u00e1, nas montanhas do departamento colombiano do Cauca. Desde seu lan\u00e7amento com grande publicidade, em dezembro, os ind\u00edgenas produzem cerca de 50 mil garrafas do refrigerante, que \u00e9 vendido a US$ 0,70 a unidade, e acreditam que teria um excelente desempenho no mercado internacional. A folha de coca (Erythroxylon coca), que segundo estudos m\u00e9dicos tem propriedades nutritivas compar\u00e1veis \u00e0s do leite e da carne, \u00e9 mastigada com fins terap\u00eauticos e religiosos por ind\u00edgenas andinos h\u00e1 milhares de anos e seu uso tradicional \u00e9 legal na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, desde a d\u00e9cada de 60 figura em uma lista de subst\u00e2ncias proibidas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o que limita severamente seu com\u00e9rcio internacional, enquanto seu cultivo alimenta o multimilion\u00e1rio neg\u00f3cio il\u00edcito do narcotr\u00e1fico. A promessa de tirar a folha de coca dessa lista negra e reverter a pol\u00edtica norte-americana de &quot;coca-zero&quot;, isto \u00e9, erradica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de cultivos, foi central na disputa presidencial, que Morales ganhou com esmagadores 53,7% dos votos.<\/p>\n<p>Morales migrou para a regi\u00e3o tropical de El Chapare nos anos 80, onde liderou os camponeses plantadores de coca at\u00e9 convert\u00ea-los no setor social mais poderoso do pa\u00eds, aglutinado no partido Movimento ao Socialismo (MAS), que posteriormente o levou \u00e0 cadeira presidencial. Agora, busca expandir a \u00e1rea de cultivos legais de coca na Bol\u00edvia, fixada em 12 mil hectares, que s\u00e3o insuficientes para abastecer a demanda local, segundo os produtores. Calcula-se que os outros 14 mil hectares (de um total anual de 26 mil) v\u00e3o parar nas m\u00e3os dos narcotraficantes.<\/p>\n<p>Embora Morales tenha se apressado para esclarecer que sua proposta &quot;n\u00e3o \u00e9 zero-coca, mas sim zero-narcotr\u00e1fico&quot;, inclusive analistas norte-americanos partid\u00e1rios da coca legal qualificam sua iniciativa como uma &quot;bofetada na pol\u00edtica antidrogas&quot; da administra\u00e7\u00e3o de George W. Bush e prev\u00eaem uma rota de colis\u00e3o entre os dois governos. &quot;A hora do mercado legal de coca j\u00e1 chegou, e \u00e9 uma alternativa porque n\u00e3o h\u00e1 outros produtos agr\u00edcolas que tenham sa\u00edda para o exterior&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Bruce Bagley, especialista em narcotr\u00e1fico da Universidade de Miami. &quot;Entretanto, estamos diante de um governo muito conservador nos Estados Unidos, que n\u00e3o pretende inovar sua pol\u00edtica antidrogas, e n\u00e3o creio que vai tolerar o desafio de Morales&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Os pequenos produtores, castigados por anos de falidos programas de desenvolvimento agr\u00edcola alternativo patrocinados pelos Estados Unidos, acreditam que a proposta boliviana poderia ter um efeito domin\u00f3 positivo em Los Andes, que beneficiaria a todos. &quot;Cada quilo de folha de coca que entra no mercado legal \u00e9 um a menos para os narcotraficantes&quot;, disse Curtidor, o fabricante da Coca Sek. Essa \u00e9 a aposta da Empresa Nacional da Coca (Enaco), que monopoliza a comercializa\u00e7\u00e3o da planta no Peru, onde o consumo tradicional absorve somente nove mil das 110 mil toneladas cultivadas anualmente.<\/p>\n<p>Os produtores das conhecidas &quot;cocalletas&quot; ou de outro produto popular, a bebida energ\u00e9tica Vortex, devem comprar a folha de coca na Enaco, que a revende depois de comprar dos cultivadores. Este ano, a empresa, que tamb\u00e9m fabrica e exporta, comprar\u00e1 dos camponeses a quantia recorde de cinco mil toneladas. Segundo a presidente da Enaco, Lida Marin, seus produtos s\u00e3o apreciados no exterior. No final de janeiro, v\u00e3o exportar pela primeira vez para a \u00c1frica do Sul 153 mil sacas de ch\u00e1 de coca, no valor de US$ 85 mil.<\/p>\n<p>Marin informou ao Terram\u00e9rica que a Enaco tamb\u00e9m exporta para o Jap\u00e3o e a B\u00e9lgica cerca de 300 gramas anuais de clorhidrato de coca\u00edna para fins medicinais, e confirmou um segredo: sua empresa vende folha de coca para a poderosa multinacional Coca-Cola, atrav\u00e9s da empresa norte-americana Stepan Company, com sede em Nova Jersey, que compra cerca de 145 toneladas por ano. O dinamismo do neg\u00f3cio depender\u00e1 do mercado, n\u00e3o do Estado, segundo Marin. &quot;Os consumidores \u00e9 que dir\u00e3o se uma pasta dental ou um sab\u00e3o lhe agrada ou n\u00e3o&quot;, disse.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a precariedade da produ\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes experimental e espor\u00e1dica, condena ao fracasso muitos fabricantes artesanais e tamb\u00e9m m\u00e9dias empresas. \u00c9 o caso da Kokka Royal Food, de Lima, produtora com capitais espanh\u00f3is da bebida K-Drink, que teve de fechar as portas em 2005. Muitos duvidam que a coca legal seja uma alternativa ao narcotr\u00e1fico. A Enaco paga US$ 1,4 por quilo da planta, contra os US$ 5 pagos pelos traficantes. &quot;Simplesmente, n\u00e3o podemos competir em pre\u00e7o&quot;, admitiu Nelson Larrea, diretor da Enaco.<\/p>\n<p>Em Los Andes \u00e9 registrado um constante aumento dos cultivos il\u00edcitos, inclusive na Col\u00f4mbia, o maior exportador mundial de coca\u00edna. Segundo o Departamento de Estado norte-americano, os cultivos colombianos n\u00e3o diminu\u00edram em 2004, apesar da agressiva fumiga\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. Na Bol\u00edvia, a produ\u00e7\u00e3o de coca\u00edna aumentou 35% e no Peru 23%, entre 2003 e 2004, segundo a ONU. Alguns analistas advertem que os politizados produtores andinos inflam as cifras de coca destinada ao consumo tradicional. Na Bol\u00edvia, cerca de cinco mil hectares s\u00e3o mais do que suficientes para atender a demanda legal real (a lei permite 12 mil), calcula Franklin Alcaraz, diretor do Centro Latino-Americano de Pesquisa Cient\u00edfica (Celin).<\/p>\n<p>Se o cultivo excedente \u00e9 t\u00e3o alto e ainda assim cresce, como aposta Morales, \u00e9 de se esperar que dispare o contrabando il\u00edcito, muito dif\u00edcil de controlar devido \u00e0 fragilidade institucional em Los Andes. Neste panorama adverso, Morales impulsionar\u00e1 negocia\u00e7\u00f5es para que a quarta reuni\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o de Viena da ONU, em 2008, retire a coca da lista de subst\u00e2ncias il\u00edcitas. Muitos analistas s\u00e3o c\u00e9ticos porque se trata de conseguir um consenso global, nem mais nem menos. &quot;N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel conseguir isso, nem se houver acordo m\u00ednimo sobre os benef\u00edcios da folha de coca para a sa\u00fade&quot;, disse Alcaraz. &quot;As possibilidades s\u00e3o extremamente remotas. Em 2008 o presidente Bush continuar\u00e1 no poder e usar\u00e1 tudo que tiver \u00e0 m\u00e3o para evitar uma despenaliza\u00e7\u00e3o&quot;, disse Bagley.<\/p>\n<p>* A autora \u00e9 diretora editorial do Terram\u00e9rica. Com a colabora\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Luis Alc\u00e1zar (Bol\u00edvia)<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o dos Programas das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 23\/01\/2006 &ndash; Microempres\u00e1rios da Bol\u00edvia, Peru e Col\u00f4mbia, que usam a m\u00edtica folha de coca para fabricar rem\u00e9dios, refrigerantes, sab\u00e3o, chicletes e outros produtos, depositam suas esperan\u00e7as de neg\u00f3cio em um homem: Evo Morales. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/01\/america-latina\/artigo-o-negocio-da-coca-legal\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1601,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[],"class_list":["post-1408","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1601"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1408\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}