{"id":1423,"date":"2006-01-26T00:00:00","date_gmt":"2006-01-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1423"},"modified":"2006-01-26T00:00:00","modified_gmt":"2006-01-26T00:00:00","slug":"aids-um-vento-de-esperanca-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/01\/mundo\/aids-um-vento-de-esperanca-no-deserto\/","title":{"rendered":"Aids: Um vento de esperan\u00e7a no deserto"},"content":{"rendered":"<p>Isiolo,  Qu\u00eania, 26\/01\/2006 &ndash; &quot;Like a virgin&quot;, a can\u00e7\u00e3o interpretada por Madona nos anos 80, soa incongruente desde um enorme alto-falante prateado em um canto de um bar de Isiolo, povoado poeirento cheio de n\u00f4mades e animais esqu\u00e1lidos nos confins do deserto de Kaisut, no norte do Qu\u00eania. <!--more--> Os freq\u00fcentadores s\u00e3o moradores da regi\u00e3o e caminhoneiros em tr\u00e2nsito para Adis Abeba, Mogad\u00edscio e Nair\u00f3bi. O vapor da transpira\u00e7\u00e3o exalada pelos corpos da multid\u00e3o que dan\u00e7a se eleva no fresco ar noturno. O som das garrafas quebrando no ch\u00e3o pedregoso &#8211; e escorregadio pelo \u00e1lcool derramado junto com restos de comida &#8211; se agrega \u00e0 cacofonia.            <\/p>\n<p>Embora em um grande cartaz esteja escrito &quot;Somente adultos&quot; em letras vermelhas e brilhantes, \u00darsula (nome fict\u00edcio), de apenas 12 anos, tamb\u00e9m est\u00e1 aqui. \u00c9 integrante do que em Isiolo se chama de &quot;gera\u00e7\u00e3o Coca-Cola&quot;. Estas &quot;meninas s\u00e3o chamadas assim porque para fazer sexo com elas basta pagar-lhes uma Coca-Cola&quot;, riu Saafo Gedi, um dos freq\u00fcentadores habituais do bar. Mas para Khadija Rama, fundadora do programa Pepo la Tumaini Jangwani (Vento de esperan\u00e7a no deserto, em l\u00edngua swahili), de Isiolo, a exist\u00eancia da gera\u00e7\u00e3o Coca-Cola \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o fonte de divers\u00e3o.<\/p>\n<p>&quot;Aqui, as pessoas chamam as jovens prostitutas com idade entre 9 e 13 anos de &#039;as Coca-Colas?, e \u00e0s que t\u00eam entre 13 e 16 anos de &#039;as Nikes? (a marca de artigos esportivos) porque fazer sexo com elas custa mais caro&quot;, disse \u00e0 IPS Rama, cuja organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida simplesmente como Tumaini. Inevitavelmente, a aids floresceu neste cen\u00e1rio, embora muitos neguem o efeito da pandemia em suas localidades, que abrigam as comunidades \u00e9tnicas borana, meru, turkana e somali, de maioria mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>&quot;Nossos cemit\u00e9rios est\u00e3o cheios de mortos pelo HIV (v\u00edrus causador da aids), todos mu\u00e7ulmanos. E os bares est\u00e3o cheios de jovens prostitutas, todas mu\u00e7ulmanas&quot;, sussurrou Christine Osedo, que trabalha com Rama em Tumaini. Por\u00e9m, &quot;a comunidade diz que os mu\u00e7ulmanos n\u00e3o contraem aids e que as mu\u00e7ulmanas n\u00e3o s\u00e3o trabalhadoras sexuais&quot;, acrescentou. Segundo o Programa conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/aids (Onusida), a preval\u00eancia deste v\u00edrus no Qu\u00eania \u00e9 de 6,7%. Parece que todos t\u00eam um papel a desempenhar para manter as ilus\u00f5es de Isiolo. &quot;Durante o dia vestimos buyi-buyi (togas negras) e v\u00e9us. \u00c0 noite usamos roupas leves. Assim, ningu\u00e9m sabe que somos prostitutas&quot;, contou \u00darsula.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, esta vasta e \u00e1rida fronteira setentrional do Qu\u00eania esteve esquecida pelas autoridades de Nair\u00f3bi. Mas a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental de Rama faz o que pode para distribuir medicamentos anti-retrovirais para pessoas que come\u00e7am a apresentar queda no sistema imunol\u00f3gico. Organiza\u00e7\u00f5es de luta contra a aids calculam que cerca de 200 mil pessoas precisem desses rem\u00e9dios no Qu\u00eania. Tumaini tamb\u00e9m d\u00e1 assessoramento psicol\u00f3gico aos portadores do v\u00edrus, dirige uma escola para \u00f3rf\u00e3os da aids e abriga mulheres expulsas de suas comunidades por terem contra\u00eddo o HIV.<\/p>\n<p>Entre elas est\u00e1 Anna Longori, uma turkana vi\u00fava rejeitada por sua fam\u00edlia. &quot;Me sinto doente. Minha fam\u00edlia me disse que n\u00e3o me queria mais, porque sou uma mulher m\u00e1 que lhes trouxe vergonha. Tumaini \u00e9 agora a minha fam\u00edlia&quot;, disse \u00e1 IPS. Aziz Ngaruthi, de uma aldeia no distrito de Meru, chegou h\u00e1 poucos meses a Tumaini, mas para colaborar, depois que a aids tirou a vida de sua irm\u00e3 mais nova. &quot;As pessoas da minha comunidade odiavam minha irm\u00e3 por ter HIV\/aids. Inclusive, odiavam seus filhos. Ent\u00e3o, decidi vir aqui para treinar, para poder ensinar aos outros a n\u00e3o odiar&quot;, contou.<\/p>\n<p>Entretanto, Tumaini tamb\u00e9m ficou presa em uma luta cada vez mais dura com certos membros da conservadora comunidade de Isiolo. &quot;Os homens daqui consideram que as mulheres s\u00e3o cidad\u00e3s de terceira classe. Assim, principalmente quando abordamos os problemas de sexo e sexualidade, ficam muito descontentes&quot;, disse Rama. &quot;Os homens afirmam que brincamos ou que tentamos competir com eles. Sup\u00f5e-se que as mulheres devem ser submissas, e quando tomamos a iniciativa eles se ofendem&quot;.<\/p>\n<p>Entre as quest\u00f5es mais preocupantes mencionou o &quot;jaal&quot;, pr\u00e1tica comum aos borana e outros grupos: os homens compartilham suas esposas com outros. &quot;\u00c9 apenas uma desculpa para a promiscuidade&quot;, afirmou Rama. E tamb\u00e9m, acrescentou, o caminho ideal para a propaga\u00e7\u00e3o da aids. O borana Ibrahim Abdullahi se queixou da resist\u00eancia de Rama em opor-se a esta tradi\u00e7\u00e3o. &quot;O jaal \u00e9 parte de nossa cultura. Khadija (Rama) \u00e9 uma est\u00fapida, n\u00e3o respeita nossos costumes&quot;, disse descontente. &quot;O jaal promove a unidade entre os homens de nossa tribo, a fortalece. Mas esta mulher pensa que \u00e9 um homem e quer destruir a tribo. A enfrentaremos !&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Entretanto, Rama nunca teve medo de uma luta. As cicatrizes em suas m\u00e3os e bra\u00e7os testemunham isso. &quot;Uma noite, depois que Khadija falou em uma reuni\u00e3o recomendando o uso de preservativo, alguns homens a atacaram em sua casa. Tentaram mat\u00e1-la com uma &quot;panga&quot; (faca usada para cortar vegeta\u00e7\u00e3o), mas Khadija n\u00e3o se deixou derrotar&quot;, contou Stephen Fani, encarregado das quest\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o em Tumaini. O incidente foi &quot;puro roubo&quot;, minimizou Rama. A ativista disse acreditar em &quot;um s\u00f3 refr\u00e3o&quot; em sua luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e contra a aids: &quot;Os homens sempre ter\u00e3o sua vontade, mas as mulheres ter\u00e3o seu caminho&quot;.<\/p>\n<p>Rama n\u00e3o s\u00f3 foi classificada como traidora da cultura, como tamb\u00e9m da religi\u00e3o. &quot;Estes preservativos n\u00e3o s\u00e3o o caminho do Isl\u00e3&quot;, disse Abdiker Mohammed, membro de um cl\u00e3 somaliano. &quot;Khadija n\u00e3o \u00e9 uma boa mulher do Isl\u00e3. Estes preservativos s\u00e3o os culpados por haver tanto sexo&quot;, ressaltou. Apesar desta onde de nega\u00e7\u00e3o furiosa, Rama e seus seguidores ganharam o apoio de uma figura-chave, o im\u00e3 (l\u00edder religioso) local, Rashid Haroun, que come\u00e7ou a pregar sobre os perigos do sexo de risco. Tamb\u00e9m abordou o abuso de mulheres e o estigma dos infectados e afetados pela aids.<\/p>\n<p>&quot;Em Isiolo vejo mais gente que aceita o fato de o HIV\/aids ser uma amea\u00e7a real para os mu\u00e7ulmanos, e n\u00e3o uma doen\u00e7a ocidental e crist\u00e3, mas de toda a humanidade&quot;, disse Haroun. Embora estas palavras sejam animadoras para Rama, a ativista n\u00e3o faz uma pausa para sabore\u00e1-las. &quot;Hoje sairemos e deixaremos preservativos nos bares, novamente. E outra vez muitas pessoas rir\u00e3o de n\u00f3s ou ficar\u00e3o furiosas. Mas pode ser que um \u00fanico homem os use, e ent\u00e3o nossos esfor\u00e7os ter\u00e3o valido a pena&quot;, afirmou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isiolo,  Qu\u00eania, 26\/01\/2006 &ndash; &quot;Like a virgin&quot;, a can\u00e7\u00e3o interpretada por Madona nos anos 80, soa incongruente desde um enorme alto-falante prateado em um canto de um bar de Isiolo, povoado poeirento cheio de n\u00f4mades e animais esqu\u00e1lidos nos confins do deserto de Kaisut, no norte do Qu\u00eania. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/01\/mundo\/aids-um-vento-de-esperanca-no-deserto\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1555,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,7],"tags":[21],"class_list":["post-1423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo","category-saude","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1555"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1423\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}