{"id":1481,"date":"2006-02-13T00:00:00","date_gmt":"2006-02-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1481"},"modified":"2006-02-13T00:00:00","modified_gmt":"2006-02-13T00:00:00","slug":"mulheres-afeganistao-imolar-se-para-fugir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/02\/mundo\/mulheres-afeganistao-imolar-se-para-fugir\/","title":{"rendered":"Mulheres-Afeganist\u00e3o: imolar-se para fugir"},"content":{"rendered":"<p>Ghazni,  Afeganist\u00e3o, 13\/02\/2006 &ndash; Gul Zarina, m\u00e3e de tr\u00eas filhos, quer se divorciar. Sentada diante do Departamento de Assuntos da Mulher, na capital da prov\u00edncia afeg\u00e3 de Ghazni, alega maus-tratos e viol\u00eancia dom\u00e9sitca. <!--more--> &quot;Meu sogro me fechou em um quarto escuro, sem comida nem \u00e1gua, por tr\u00eas dias quando decidi me separar do meu marido. N\u00e3o me d\u00e3o o div\u00f3rcio por terem medo de que eu possa reclamar um lote de terra&quot;, disse, desesperada. Nos \u00faltimos quatro anos, seu sogro a obrigou por quatro vezes a se divorciar de algum de seus filhos para casar-se com algum outro. &quot;Me aproximei do Departamento de Assuntos da Mulher em busca de ajuda&quot;, contou.            <\/p>\n<p>Funcion\u00e1rios da prov\u00edncia afirmaram que recebem a m\u00e9dia de tr\u00eas pedidos de ajuda por dia e, segundo Shukria Wali, presidente desse \u00f3rg\u00e3o na cidade de Ghazni, tentam resolver disputas matrimoniais de maneira amig\u00e1vel. A relatora especial da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Viol\u00eancia contra a Mulher, suas Causas e Conseq\u00fc\u00eancias, Yakin Erturk, advertiu, no ano passado, em Cabul, que os funcion\u00e1rios n\u00e3o devem permitir o regresso para suas casas de meninas e mulheres que escapam da viol\u00eancia familiar, a menos que possam garantir sua seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&quot;A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 dram\u00e1tica no Afeganist\u00e3o, em sua intensidade e influ\u00eancia na vida p\u00fablica e privada&quot;, observou, pedindo urg\u00eancia no sentido de vincular o apoio dos doadores internacionais aos direitos humanos e, em particular, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o feminina. &quot;A viol\u00eancia deve acabar&quot;, disse. &quot;Se o governo quer ganhar legitimidade e credibilidade, deve agir agora em defesa das mulheres e salvar suas vidas&quot;. A repress\u00e3o contra as mulheres no Afeganist\u00e3o teve seu ponto culminante depois da imposi\u00e7\u00e3o do regime isl\u00e2mico do Talib\u00e3, em 1996, quando foram proibidos o trabalho feminino e a ida \u00e0 escola de meninas maiores de oito anos.<\/p>\n<p>Depois que os Estados Unidos e seus aliados derrubaram o Talib\u00e3, em 2001, esperava-se que melhorasse a situa\u00e7\u00e3o das mulheres. Por\u00e9m, a viol\u00eancia, o assassinato, os casamentos for\u00e7ados, a viol\u00eancia intrafamiliar e o rapto continuam sendo comuns. Em novembro de 2005, a poeta e estudante da Universidade de Herat, Nadi Anjuman, de 25 anos, conhecida em c\u00edrculos liter\u00e1rios do Afeganist\u00e3o e no vizinho Ir\u00e3, foi assassinada a socos por seu marido. O homem foi preso. A ONU condenou o crime. &quot;A morte de Nadia Anjuman \u00e9 tr\u00e1gica, uma grande perda para o Afeganist\u00e3o&quot;, afirmou o porta-voz das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Adrian Edwards.<\/p>\n<p>A maioria das investiga\u00e7\u00f5es oficiais sobre viol\u00eancia contra as mulheres carece de sistematiza\u00e7\u00e3o e rigor, e poucas acabam em processos, segundo alertou no ano passado a organiza\u00e7\u00e3o Anistia Internacional. Estes atos s\u00e3o amplamente aceitos pela comunidade e inadequadamente abordados pelo governo ou pelos ju\u00edzes, segundo esta organiza\u00e7\u00e3o com sede em Londres. &quot;Os c\u00f3digos sociais, invocados em nome da tradi\u00e7\u00e3o e da religi\u00e3o, s\u00e3o usados como justificativa para negar \u00e0s mulheres o gozo de seus direitos fundamentais&quot;, disse a Anistia.<\/p>\n<p>Os casamentos for\u00e7ados aumentaram e algumas mulheres se suicidam, vendo nesse ato a \u00fanica via de escape. A presidente do Departamento de Assuntos da Mulher de Ghazni admitiu \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias Pajhwok que o fen\u00f4meno da &quot;imola\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o tem precedentes na prov\u00edncia&quot;. Em meados de janeiro, uma jovem de 18 anos colocou fogo ao pr\u00f3prio corpo, no distrito de Omri. O presidente da divis\u00e3o criminal do distrito, Wakil Kamyab, disse suspeitar que por tr\u00e1s desse incidente esteja a viol\u00eancia e as disputas familiares. Abdul Razaq Aziz, encarregado do Departamento de Direitos Humanos do distrito, disse \u00e0 Pajhwok que tenta verificar as raz\u00f5es, mas n\u00e3o foi determinada nenhuma investiga\u00e7\u00e3o oficial sobre o ocorrido.<\/p>\n<p>&quot;As jovens est\u00e3o se queimando vivas porque n\u00e3o t\u00eam outra op\u00e7\u00e3o na vida para fugir da viol\u00eancia&quot;, afirmou o delegado especial da comiss\u00e3o da ONU, comentando os casos de imola\u00e7\u00e3o no povoado de Herat, registrados no ano passado. &quot;Est\u00e3o cometendo suic\u00eddio para escapar de uma vida cheia de viol\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 da parte de seus maridos ou pais, mas, \u00e0s vezes, inclusive de suas sogras. Assim, o fato de ser mulher n\u00e3o nos livra de exercer a viol\u00eancia&quot;, acrescentou. De acordo com as conven\u00e7\u00f5es internacionais de direitos humanos, o governo afeg\u00e3o deve garantir o respeito aos direitos femininos, inclu\u00eddos os direitos \u00e0 igualdade, \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e \u00e0 seguran\u00e7a, bem como impedir a discrimina\u00e7\u00e3o, a tortura e os tratamentos desumanos e degradantes.<\/p>\n<p>&quot;Enfatizamos que as autoridades afeg\u00e3s t\u00eam a responsabilidade de proteger as mulheres da viol\u00eancia. E n\u00e3o apenas os agentes do Estado, como tamb\u00e9m os indiv\u00edduos e as organiza\u00e7\u00f5es. A reforma do sistema de justi\u00e7a penal \u00e9 parte integral da prote\u00e7\u00e3o de todas as mulheres afeg\u00e3s e \u00e9 responsabilidade do Estado dar garantias legais&quot;, afirmou a Anistia Internacional em seu relat\u00f3rio 2005. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Publicado pela IPS em conv\u00eanio com a ag\u00eancia de not\u00edcias afeg\u00e3 Pajhwok Afghan News.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ghazni,  Afeganist\u00e3o, 13\/02\/2006 &ndash; Gul Zarina, m\u00e3e de tr\u00eas filhos, quer se divorciar. 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